CelleXty Saga - Temporada I
4 Sangue e Prazer

ARQUIVO CONFIDENCIAL — OBSERVADOR EXTERNO
Localização: São Paulo, Brasil
Sujeito: Basco Khassan Markel (Neblina)
Status: Instável emocionalmente. Elevado risco de radicalização após perdas sucessivas. Recomenda-se monitoramento contínuo.
O calor de São Paulo o recebeu como um golpe inesperado. Depois de quase quatro anos vivendo entre os invernos rigorosos de Westchester, o ar pesado misturado ao cheiro de gasolina, concreto aquecido e fumaça parecia pertencer a outro mundo. Enquanto o táxi avançava pelas avenidas congestionadas, Basco observava a cidade através da janela sem conseguir reconhecer nela o lugar onde crescera. Os prédios continuavam ali. As ruas permaneciam movimentadas. As pessoas seguiam suas rotinas como se nada tivesse mudado. Apenas ele já não era o mesmo.
Anos haviam se passado desde seus dias em Westchester. O adolescente inseguro que atravessara os portões do Instituto Xavier carregando mais perguntas do que respostas já não existia. Entre treinamentos, missões de resgate, perdas dolorosas e lições aprendidas ao lado de Magneto, Basco descobrira que o mundo era muito maior — e muito mais cruel — do que imaginara. Agora retornava para São Paulo não como um estudante mutante, mas como alguém que já conhecera a responsabilidade de proteger vidas e o peso de fracassar quando não conseguia fazê-lo.
A viagem de volta ao Brasil não representava um reencontro com o passado, mas um adeus definitivo à pessoa que havia embarcado anos antes rumo ao Instituto Xavier. A convivência com Magneto, os treinamentos, as amizades construídas e, principalmente, as perdas sofridas haviam transformado profundamente sua maneira de enxergar o mundo. Illyana continuava presente em sua memória todos os dias. Ainda conseguia recordar o som de sua voz às margens do lago da escola e a tranquilidade com que sempre parecia compreender sentimentos que ele próprio não sabia explicar. A morte dela deixara um vazio impossível de preencher. Agora, ao retornar para casa, Basco alimentava apenas um desejo silencioso: reencontrar Thamine e, por algum tempo, esquecer que o restante do mundo existia.
O apartamento de Itaquera permaneceu imóvel diante dele, exatamente como o guardava na lembrança. A fachada envelhecida, o pequeno jardim abandonado e as janelas fechadas transmitiam a sensação de que o tempo simplesmente parara desde sua partida. Ao abrir a porta, um forte cheiro de ambiente fechado tomou conta do corredor. Poeira cobria os móveis protegidos por lençóis claros, enquanto pequenos feixes de luz atravessavam as frestas das persianas, revelando partículas suspensas no ar. Basco caminhou lentamente pelos cômodos, passando os dedos sobre fotografias, livros e objetos que pertenciam à mãe. Tudo permanecia exatamente onde ela costumava deixar. Era como se tivesse saído para trabalhar naquela manhã e ainda fosse voltar para preparar o jantar.
Foi então que percebeu um homem parado do outro lado da rua.
Baixo, corpulento e vestindo roupas simples, o desconhecido observava silenciosamente a janela do apartamento. Quando notou que Basco o encarava, ergueu discretamente a mão em cumprimento antes de atravessar a avenida. Seus passos eram tranquilos, mas havia um peso evidente em sua expressão. Não parecia um estranho prestes a apresentar-se. Parecia alguém carregando uma notícia que preferia jamais precisar entregar.
Poucos segundos depois, bateram à porta.
Basco abriu sem dizer uma palavra.
O homem inclinou levemente a cabeça.
— As-Salamu Alaikum.
A saudação soou familiar.
— Meu nome é Saalim.
Fez uma breve pausa antes de continuar.
— Sou irmão de Thamine.
Basco permaneceu completamente imóvel.
Durante toda a vida, jamais ouvira a mãe mencionar qualquer irmão.
— Ela nunca falou sobre você.
Saalim sorriu com tristeza.
— Havia muitas coisas sobre nossa família que sua mãe preferia deixar no passado.
O silêncio instalou-se entre os dois.
Basco fez apenas uma pergunta.
— Onde ela está?
Saalim não respondeu imediatamente.
Abaixou lentamente os olhos.
Depois ergueu novamente o rosto.
— Venha comigo.
A velha Brasília azul cruzou a cidade quase sem que trocassem palavras. O rádio permanecia desligado, e o único som dentro do veículo era o motor trabalhando sob o trânsito lento da capital. Basco observava a paisagem pela janela tentando descobrir para onde estavam indo. À medida que reconhecia algumas ruas do centro, um desconforto crescente começava a instalar-se dentro dele. Então avistou os altos muros do Cemitério da Consolação.
Seu coração pareceu parar por um instante.
Não perguntou mais nada.
Já conhecia a resposta.
Caminhou ao lado de Saalim entre antigos mausoléus e grandes árvores até chegar a uma lápide simples, cuidadosamente limpa e ornamentada por flores ainda frescas. A fotografia presa ao mármore mostrava Thamine sorrindo da mesma forma que ele recordava. Serenidade. Doçura. Vida.
Basco permaneceu parado.
Não conseguia aproximar-se.
O mundo parecia distante, como se todos os sons tivessem desaparecido ao mesmo tempo.
Sentiu apenas uma brusca queda de temperatura ao seu redor.
Sem perceber, uma fina névoa começou a espalhar-se entre as sepulturas.
Saalim manteve a voz baixa.
Explicou que, alguns meses antes, Thamine fora atingida por um automóvel conduzido por um empresário embriagado. O motorista sobrevivera praticamente sem ferimentos. A investigação caminhara rapidamente para o arquivamento graças à influência política da família e ao trabalho de advogados renomados. O processo transformara-se em mais um acidente estatístico. Nenhuma prisão. Nenhuma condenação.
Cada palavra parecia retirar um pouco mais de ar dos pulmões de Basco.
Ele não chorou.
As lágrimas pareciam pequenas demais para alcançar aquela dor.
Permaneceu apenas observando a fotografia da mãe enquanto seus punhos se fechavam lentamente.
— Ele continua vivendo normalmente. — disse Saalim com amargura.
Basco permaneceu em silêncio.
Mas, naquele instante, alguma coisa mudou dentro dele.
A tristeza começou lentamente a dividir espaço com outra emoção.
Muito mais fria.
Muito mais perigosa.
A Rua Augusta parecia existir em uma dimensão separada do restante da cidade. Os letreiros de neon transformavam a noite em um mosaico de cores vibrantes, enquanto bares, casas noturnas e restaurantes despejavam música sobre as calçadas lotadas. Centenas de pessoas caminhavam sem destino definido, buscando diversão, companhia ou simplesmente algumas horas de esquecimento. No meio daquela multidão encontrava-se o homem responsável pela morte de Thamine. Bem vestido, cercado por amigos e protegido pela confiança de quem jamais enfrentara as consequências dos próprios atos, ele ria alto enquanto atravessava a calçada como se o mundo inteiro existisse para servi-lo.
Basco observou tudo à distância.
Durante horas.
Sem demonstrar emoção.
A raiva existia, mas não da forma explosiva que imaginara quando deixou o cemitério. Era algo mais silencioso. Mais profundo. Parecia uma corrente fria percorrendo lentamente cada pensamento. Nos dias anteriores, investigara cada detalhe relacionado ao acidente. Utilizando suas habilidades, infiltrara-se em repartições públicas, acessara documentos e acompanhara discretamente pessoas ligadas ao caso. Descobrira rapidamente aquilo que Saalim já suspeitava: ninguém seria responsabilizado. O dinheiro havia comprado testemunhos, atrasado processos e transformado uma morte em mera formalidade jurídica.
Ao perceber isso, algo dentro dele começou a ruir.
Durante anos ouvira Xavier falar sobre justiça.
Durante anos escutara Magneto defender que o poder deveria servir a um propósito maior.
Naquele momento, porém, nenhuma dessas ideias parecia oferecer respostas.
A única coisa real era a lápide de Thamine.
E o homem que continuava vivendo como se nada tivesse acontecido.
Pouco depois da meia-noite, o empresário deixou a Rua Augusta acompanhado por uma jovem e seguiu para um elegante flat localizado a poucas quadras dali. Basco aguardou até que ambos desaparecessem no interior do edifício. A madrugada avançava silenciosamente quando atravessou a rua e observou a fachada iluminada.
Não havia mais dúvidas.
Não havia mais planos alternativos.
Apenas uma decisão.
Transformou-se lentamente em névoa.
Seu corpo dissolveu-se em vapor e atravessou a pequena abertura sob a porta de serviço do edifício. Subiu pelos corredores sem ser visto, atravessou fechaduras, paredes e sistemas de segurança como se fossem feitos de fumaça. Nenhum obstáculo físico possuía significado para alguém que podia tornar-se parte do próprio ar.
Quando alcançou o apartamento, encontrou o homem sozinho.
A jovem já dormia em outro cômodo.
Por alguns segundos, Basco permaneceu observando aquele rosto. Procurou arrependimento. Procurou culpa. Procurou qualquer sinal de que a morte de Thamine ainda existisse na consciência daquele indivíduo.
Não encontrou nada.
Apenas indiferença.
O que aconteceu depois permaneceu gravado em sua memória para sempre.
Não porque sentisse orgulho.
Nem porque sentisse prazer.
Mas porque, naquele instante, cruzou uma fronteira da qual jamais conseguiria retornar.
Quando reapareceu em um beco atrás do edifício, respirava com dificuldade. O sangue ainda pulsava violentamente em suas têmporas enquanto observava as próprias mãos. Esperava sentir satisfação. Esperava sentir alívio.
Não sentiu nenhum dos dois.
Apenas vazio.
Um vazio ainda maior do que aquele que carregava antes.
Naquela madrugada, compreendeu uma verdade que ninguém lhe ensinara.
A vingança não devolvia os mortos.
Apenas acrescentava novos fantasmas à coleção.
As semanas seguintes foram consumidas por um silêncio quase absoluto.
A imprensa transformou o assassinato em espetáculo. Programas policiais criavam teorias cada vez mais absurdas, jornais publicavam especulações contraditórias e comentaristas buscavam explicações para um crime que parecia impossível. Alguns culpavam a acompanhante. Outros falavam em acerto de contas empresarial. Havia ainda quem sugerisse a participação de mutantes.
Basco acompanhava tudo sem qualquer reação.
Não sentia orgulho quando as investigações seguiam caminhos errados.
Também não sentia culpa.
A morte de Illyana deixara um vazio.
A morte de Thamine ampliara esse vazio.
E a vingança apenas o tornara permanente.
Pouco tempo depois, decidiu abandonar definitivamente o apartamento de Itaquera. Permanecer naquele lugar significava conviver diariamente com lembranças que nunca deixavam de sangrar. Saalim insistiu para que fosse morar com ele. Argumentou que a casa era grande demais para um homem sozinho e que Thamine jamais gostaria de vê-lo isolado naquele estado.
Basco aceitou.
Não por vontade.
Mas porque já não possuía energia para recusar.
A rotina ao lado do tio era simples. Saalim administrava uma pequena loja de tecidos na zona leste e mantinha hábitos quase imutáveis. Acordava antes do nascer do sol, preparava café, abria o estabelecimento no mesmo horário todos os dias e retornava para casa sempre ao entardecer. Aquela previsibilidade contrastava profundamente com os últimos anos vividos por Basco entre treinamentos, batalhas e tragédias.
Curiosamente, foi essa simplicidade que o manteve de pé.
Saalim nunca perguntava sobre os Estados Unidos.
Nunca insistia para que falasse sobre a mãe.
Limitava-se a compartilhar pequenas histórias da infância de Thamine, recordações familiares e memórias de uma época em que a vida parecia menos complicada. Aos poucos, Basco começou a conhecer uma versão da mãe que jamais imaginara existir. Descobriu a adolescente apaixonada por literatura, a jovem que sonhava viajar pelo mundo e a mulher que passava horas ajudando o pai na antiga alfaiataria da família.
Essas histórias não diminuíam a dor.
Mas devolviam humanidade às lembranças.
Pela primeira vez desde o funeral, conseguiu recordar Thamine sem enxergar imediatamente uma lápide.
Ainda assim, a escuridão permanecia.
Dormia pouco.
Falava menos ainda.
Em algumas noites, surpreendia-se observando a névoa formar-se involuntariamente entre os dedos, reagindo ao estado constante de tensão que carregava dentro de si. Não existia mais o entusiasmo do jovem que chegara ao Instituto Xavier em busca de respostas.
Restava apenas um homem tentando descobrir se ainda existia algum motivo para continuar seguindo em frente.
Foi então que uma carta chegou dos Estados Unidos.
E tudo mudou novamente.
A carta chegou em uma manhã comum.
Saalim abriu a loja como fazia todos os dias, organizou os tecidos expostos na vitrine e deixou a correspondência sobre o balcão antes de subir para o almoço. Entre contas, propagandas e documentos comerciais havia um envelope internacional com o selo da Escola Xavier. Bastou vê-lo para que Basco sentisse algo que não experimentava havia muito tempo.
Saudade.
Permaneceu alguns minutos observando o envelope fechado. O simples fato de reconhecer a caligrafia de Roberto da Costa foi suficiente para trazer de volta lembranças que tentava manter enterradas. O lago da mansão. As brincadeiras nos corredores. As aulas de Hank. As discussões com Sam. As conversas silenciosas com Illyana.
Por fim, rompeu o lacre.
A cada linha, o peso das palavras aumentava.
Genosha havia caído.
O país construído por Magneto como símbolo de esperança para os mutantes transformara-se em um imenso cemitério. Sentinelas surgidas de uma realidade alternativa haviam devastado cidades inteiras em questão de horas. Milhares de mortos. Desaparecidos. Sobreviventes espalhados pelo mundo tentando compreender como um sonho tão grandioso podia terminar tão rapidamente.
Roberto descrevia a tragédia com frases curtas.
Talvez porque nenhuma linguagem fosse capaz de traduzir o tamanho da destruição.
Basco releu a carta diversas vezes naquela noite.
Sentiu um alívio involuntário por não ter seguido para Genosha depois de deixar os Novos Mutantes.
Logo em seguida, sentiu vergonha desse alívio.
Enquanto ele caminhava pelas ruas de São Paulo consumido pelo próprio luto, milhares de pessoas haviam morrido acreditando em um futuro melhor.
Charles Xavier sonhava com coexistência.
Magneto sonhava com liberdade.
Ambos haviam fracassado.
A conclusão parecia cruel.
Mas, naquele momento, também parecia inevitável.
Pela primeira vez, Basco deixou de acreditar que existia um único caminho para o futuro da mutandade. Talvez nenhum dos dois líderes estivesse completamente certo. Talvez estivessem apenas tentando sobreviver em um mundo que jamais aprenderia a aceitar aquilo que não compreendia.
Os meses passaram lentamente.
Quando o verão começou a aproximar-se, Basco percebeu que permanecer em São Paulo apenas alimentava feridas que jamais cicatrizariam naquele ambiente. Cada rua trazia lembranças da mãe. Cada esquina recordava a vingança que carregaria pelo resto da vida.
Precisava partir.
Não porque tivesse encontrado paz.
Mas porque compreendia que jamais a encontraria ali.
Foi Saalim quem sugeriu Fortaleza.
Um velho amigo administrava uma importadora próxima ao porto e precisava de ajuda temporária. Haveria trabalho, hospedagem e, principalmente, distância suficiente para que pudesse recomeçar.
Basco aceitou.
Poucas semanas depois, deixava São Paulo pela segunda vez.
Desta vez, porém, não carregava esperança.
Apenas cansaço.
Fortaleza o recebeu de forma completamente diferente.
O mar dominava a paisagem. O vento constante amenizava o calor e transformava as noites em algo mais agradável do que imaginava. Aos poucos, a rotina começou a adquirir alguma estabilidade. Trabalhou durante o dia, alugou um pequeno apartamento próximo à orla e passou a ocupar as noites com caminhadas sem destino definido pela Beira-Mar.
Foi também nesse período que o Heavy Metal voltou a ocupar espaço em sua vida.
As guitarras pesadas, as letras melancólicas e a intensidade emocional daquele universo pareciam traduzir sentimentos que ele próprio já não conseguia expressar. Frequentemente encontrava-se em pequenos shows espalhados pela cidade, observando bandas locais ou grupos internacionais que eventualmente passavam pelo Nordeste.
Com o tempo, sua aparência começou a mudar.
As roupas claras deram lugar ao preto predominante.
Anéis de prata passaram a ocupar seus dedos.
Correntes de aço substituíram antigos acessórios discretos.
Não era uma tentativa de parecer mais sombrio.
Era apenas um reflexo externo daquilo que carregava por dentro.
O inverno emocional jamais o abandonara.
Apenas aprendera a conviver com ele.
Foi durante uma apresentação da banda israelense Orphaned Land que tudo começou.
O pequeno galpão próximo à Praia de Iracema estava lotado. O cheiro de cerveja misturava-se à maresia trazida pelo vento, enquanto guitarras ecoavam por todo o ambiente. Basco permanecia próximo ao fundo do salão, observando o público com a mesma atenção dedicada à música.
Foi então que a viu.
Ela permanecia alguns metros adiante, completamente concentrada na apresentação. Os cabelos negros contrastavam com a pele extremamente clara. O longo casaco escuro parecia inadequado para o calor cearense, mas, de alguma forma, combinava perfeitamente com ela. Enquanto o restante do público cantava, gritava e celebrava cada música, aquela mulher limitava-se a fechar os olhos em determinados momentos, como se escutasse algo além da própria melodia.
Basco não soube explicar por que continuou observando-a.
Talvez fosse a serenidade.
Talvez fosse a solidão.
Talvez porque reconhecesse nela algo que também existia dentro dele.
O encontro aconteceu por acaso.
Alguém esbarrou em seu braço, derramando parte da bebida sobre sua camiseta.
Antes que pudesse reagir, ouviu uma voz ao lado.
— Pelo menos não caiu na guitarra.
Ele voltou o rosto.
Era ela.
— Seria uma tragédia muito maior.
Basco sorriu.
— Concordo. Camisas podem ser substituídas.
Ela soltou uma pequena risada.
— Finalmente alguém com prioridades corretas.
A conversa continuou naturalmente.
Descobriram que ambos eram paulistas vivendo longe de casa. Conversaram sobre música, literatura, arquitetura e viagens. Ela chamava-se Verônica e dizia trabalhar com restauração de obras de arte. Falava com calma, escolhia cuidadosamente as palavras e demonstrava um conhecimento impressionante sobre assuntos completamente diferentes.
O mais curioso era que não fazia perguntas invasivas.
Não parecia interessada em impressioná-lo.
Apenas conversava.
Como se o tempo deixasse de existir.
Quando o show terminou, caminharam juntos pela Praia de Iracema.
E, pela primeira vez desde a morte de Illyana, Basco percebeu que realmente desejava continuar ouvindo alguém.
Os encontros tornaram-se frequentes.
Às vezes assistiam a apresentações musicais.
Outras vezes apenas caminhavam pela orla conversando durante horas.
Verônica parecia carregar uma elegância quase atemporal. Conhecia história, filosofia, arte e literatura com uma profundidade incomum para alguém tão jovem. Ao mesmo tempo, evitava cuidadosamente qualquer conversa relacionada ao próprio passado.
Basco percebeu isso.
Mas não insistiu.
Também possuía segredos demais para exigir explicações de outra pessoa.
Pouco a pouco, a presença dela começou a ocupar espaços que ele acreditava permanentemente vazios.
Pela primeira vez em muitos anos, voltou a imaginar um futuro.
E justamente por isso o destino decidiu intervir.
Na última noite de novembro, Verônica o convidou para conhecer seu apartamento.
Uma cobertura elegante voltada para o mar.
Taças de vinho.
Música baixa.
A cidade iluminada refletida nas enormes janelas de vidro.
Por alguns instantes, Basco acreditou que talvez finalmente estivesse deixando o passado para trás.
Então olhou para o reflexo da janela.
E percebeu que estava sozinho.
Verônica não aparecia no vidro.
O arrepio que percorreu sua espinha foi imediato.
Uma sensação antiga.
Instintiva.
A mesma que aprendera a respeitar durante os anos passados ao lado dos X-Men.
Algo estava errado.
Muito errado.
Poucos minutos depois, o som de vidro explodindo atravessou a cobertura.
E três sombras surgiram da madrugada.
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