CelleXty Saga - Temporada I
5 Bem-vindos...ao MASCARADE!

O verão de 1996 avançava impiedoso sobre o Nordeste, mas nenhum calor era capaz de alcançar o inverno que continuava instalado dentro de Basco Khassan. Desde os acontecimentos em Fortaleza, seus dias pareciam fundir-se uns aos outros numa sequência monótona de deslocamentos, trabalhos temporários e noites mal dormidas. A descoberta da existência dos vampiros não havia trazido respostas. Pelo contrário. Apenas ampliara a lista de perguntas que já carregava desde a adolescência. Durante anos acreditara que o universo dos mutantes fosse complexo o suficiente para ocupar uma vida inteira de estudos e batalhas. Agora começava a perceber que existiam camadas ocultas da realidade que nem mesmo Charles Xavier ou Magneto haviam mencionado durante sua formação.
Saalim continuava sendo uma das poucas âncoras que ainda o ligavam ao mundo. O velho comerciante jamais exigiu explicações, nunca pressionou o sobrinho a falar sobre o passado e tampouco demonstrou medo diante dos comportamentos estranhos que ocasionalmente testemunhava. Talvez justamente por isso a culpa tenha começado a crescer dentro de Basco. Os comentários dos vizinhos tornaram-se inevitáveis. Pessoas observavam sua rotina silenciosa, sua tendência a desaparecer por dias inteiros e a expressão permanentemente distante que carregava no rosto. Os boatos chegaram à loja de tecidos. Alguns clientes antigos deixaram de aparecer. Outros passaram a atravessar a rua para evitar qualquer contato. Saalim fingia não perceber, mas Basco conhecia bem aquele tipo de situação. Já havia visto preconceitos semelhantes dirigidos a mutantes, estrangeiros e qualquer pessoa considerada diferente.
Numa manhã particularmente silenciosa, antes mesmo do amanhecer, decidiu partir. Não houve despedida. Apenas um breve bilhete deixado sobre a mesa da cozinha, algumas roupas dentro da mochila e a promessa silenciosa de que um dia voltaria para agradecer adequadamente tudo o que o tio fizera por ele. Quando fechou a porta da casa pela última vez, sentiu uma pontada familiar no peito. Ao longo da vida, tornara-se especialista em abandonar lugares antes que eles fossem destruídos por sua presença. Não sabia se aquilo era prudência ou covardia. Apenas sabia que continuava repetindo o mesmo padrão.
Os meses seguintes transformaram-se numa longa estrada sem destino definido. Basco cruzou cidades do Norte e do Nordeste aceitando qualquer trabalho que garantisse alimentação e algum lugar para dormir. Carregou sacos de cimento em canteiros de obras, ajudou pescadores durante madrugadas inteiras e descarregou caminhões em centros de distribuição onde ninguém fazia perguntas sobre sua vida. Em cada cidade permanecia apenas o suficiente para juntar algum dinheiro antes de seguir viagem novamente. Aprendera a desaparecer entre multidões. Era um talento triste, mas extremamente útil para alguém que desejava ser esquecido.
As noites, entretanto, recusavam-se a oferecer o mesmo anonimato. Quase sempre os sonhos retornavam com uma insistência perturbadora. Não eram lembranças completas. Eram fragmentos. Imagens desconexas que surgiam e desapareciam antes que pudesse compreendê-las. Via uma floresta coberta por neblina, escutava galhos quebrando sob passos apressados e ouvia uma voz masculina chamando alguém cujo nome nunca conseguia distinguir. Em alguns momentos tinha certeza de que aquela voz pertencia a Edher. Em outros, acreditava tratar-se de uma construção criada pela própria mente. Igon também aparecia frequentemente. Sempre distante. Sempre escondido atrás da névoa, tentando alcançá-lo sem jamais conseguir atravessar a barreira invisível que os separava.
Acordava quase todas as vezes antes do desfecho. Coberto de suor. O coração acelerado. A sensação angustiante de que alguma verdade importante permanecia presa atrás de portas que sua mente se recusava a abrir. Nem Magneto, nem Karma, nem qualquer telepata da Escola Xavier haviam conseguido atravessar completamente os bloqueios instalados durante sua infância. Existiam memórias enterradas ali. Basco tinha certeza disso. O problema era que elas pareciam protegidas por algo muito mais poderoso do que simples esquecimento.
Com o passar dos meses, seus passos começaram a apontar novamente para o Sul. Não havia um motivo lógico para retornar a São Paulo. A cidade guardava lembranças demais e respostas de menos. Ainda assim, uma sensação persistente crescia dentro dele a cada quilômetro percorrido. Era como se algo tivesse permanecido inacabado. Como se determinadas perguntas só pudessem ser respondidas entre aquelas ruas de concreto e avenidas intermináveis que aprendera a chamar de lar.
Quando finalmente desembarcou na capital paulista, trazia consigo apenas a mochila, algumas economias e uma exaustão que parecia ter se tornado permanente. Conseguiu emprego em uma grande loja de departamentos de Osasco e mergulhou rapidamente numa rotina simples. Durante o dia organizava estoques, descarregava mercadorias e atendia clientes. À noite voltava para o pequeno apartamento alugado, preparava algo para comer e observava a cidade pela janela enquanto o Heavy Metal preenchia o silêncio dos cômodos.
Aquela existência modesta possuía algo reconfortante. Ninguém fazia perguntas sobre seu passado. Ninguém conhecia os X-Men, Illyana Rasputina, Verônica ou os fantasmas que o acompanhavam havia anos. Para os colegas de trabalho, Basco era apenas um homem reservado que preferia ouvir mais do que falar. E, pela primeira vez em muito tempo, isso lhe bastava.
Até que a Rua Augusta voltou a encontrá-lo.
Aconteceu numa tarde de sábado. Sem perceber, seus passos conduziram-no até a região central da cidade. Caminhou sem destino por algumas horas, observando lojas, cafés e pequenos grupos de jovens ocupando as calçadas. Quando se deu conta, estava parado diante da esquina que levava ao antigo refúgio de sua juventude. O movimento permanecia intenso. Motociclistas dividiam espaço com estudantes, músicos e frequentadores da cena alternativa paulistana. Tudo parecia diferente e familiar ao mesmo tempo.
Foi então que avistou o letreiro.
Discreto.
Quase escondido entre outros estabelecimentos.
Mascarade.
Basco permaneceu alguns segundos observando a fachada. Anos antes, aquele lugar representava apenas uma casa noturna peculiar frequentada por pessoas que se recusavam a seguir padrões convencionais. Agora, depois de tudo que vivera, a simples visão do prédio despertava uma sensação diferente. Como se as portas daquele edifício escondessem muito mais do que música e diversão.
Respirou fundo.
E atravessou a entrada.
O interior do Mascarade continuava tão estranho quanto Basco recordava, mas agora a estranheza parecia carregar significados ocultos. A iluminação permanecia baixa, composta por tons avermelhados e violetas que transformavam corredores comuns em passagens quase teatrais. O som grave da música eletrônica misturava-se ao rock gótico que escapava de alguns ambientes mais reservados, enquanto dezenas de frequentadores circulavam livremente entre os diferentes espaços da casa. Havia estudantes, empresários, artistas, músicos e pessoas que simplesmente pareciam não pertencer a lugar algum. O mais curioso era que ninguém parecia julgar ninguém. Dentro do Mascarade, as máscaras sociais utilizadas no restante da cidade pareciam perder importância.
Basco caminhou devagar, observando os detalhes. O primeiro andar mantinha a atmosfera festiva que sempre caracterizara o estabelecimento. O segundo possuía um ambiente mais reservado, frequentado por pessoas interessadas em conversas longas, literatura, música e arte. Porém, algo havia mudado desde sua última visita anos atrás. Em diferentes pontos do prédio, notou a presença de seguranças excessivamente atentos. Não eram os típicos funcionários contratados para controlar tumultos. Moviam-se como soldados treinados, observando cada rosto, cada movimento e cada interação. Talvez um cliente comum jamais percebesse a diferença. Basco percebeu imediatamente.
Instalou-se próximo ao balcão principal e pediu uma bebida apenas para justificar sua permanência. Enquanto observava o movimento, permitiu que seus sentidos se expandissem discretamente. Não utilizava a névoa. Não precisava. Anos de treinamento no Instituto Xavier haviam lhe ensinado a interpretar ambientes muito antes que qualquer conflito surgisse. Foi então que notou algo incomum. Diversas pessoas olhavam frequentemente para a escadaria localizada ao fundo do prédio. Faziam isso de maneira quase involuntária, como se fossem atraídas por algo invisível. Curiosamente, ninguém subia.
A escadaria levava ao terceiro andar.
E aquele detalhe imediatamente chamou sua atenção.
Durante quase uma hora observou o fluxo de frequentadores. Alguns aproximavam-se dos degraus, hesitavam por um instante e voltavam para suas atividades. Outros sequer pareciam perceber a existência da passagem. Era como se uma barreira psicológica impedisse o acesso. Uma barreira cuidadosamente construída para não ser percebida.
— Primeira vez aqui?
A voz surgiu ao seu lado.
Basco voltou-se e encontrou um homem negro de aproximadamente quarenta anos, vestindo roupas elegantes e segurando uma taça de vinho tinto. Seus olhos demonstravam inteligência incomum e um senso de humor permanentemente presente.
— Na verdade, não.
O desconhecido sorriu.
— Então sabe que as coisas costumam parecer mais simples do que realmente são.
Sem esperar convite, acomodou-se na cadeira ao lado.
— Meu nome é Brahma.
Basco ergueu uma sobrancelha.
— Nome incomum.
— Meus pais tinham imaginação demais.
A resposta arrancou um leve sorriso.
Durante os minutos seguintes, a conversa fluiu naturalmente. Brahma parecia conhecer praticamente todo mundo dentro do Mascarade. Cumprimentava músicos, artistas e empresários pelo nome enquanto comentava histórias sobre a cena cultural paulistana. Ainda assim, havia algo peculiar em sua maneira de observar as pessoas. Como se estivesse constantemente avaliando mais do que demonstrava.
— Você não veio pela música.
A observação surgiu de repente.
Basco manteve a expressão neutra.
— E você chegou a essa conclusão como?
— Porque passou os últimos vinte minutos observando a escada.
O silêncio durou alguns segundos.
Brahma levou a taça aos lábios.
— Todo mundo observa aquela escada mais cedo ou mais tarde.
— E o que existe lá em cima?
O homem sorriu.
— A pergunta correta não é o que existe.
Fez uma pausa.
— Mas quem existe.
Antes que pudesse explicar melhor, uma mudança sutil ocorreu no ambiente.
Basco sentiu primeiro.
Depois ouviu.
O volume da música parecia exatamente o mesmo, mas as conversas ao redor diminuíram gradualmente. Pessoas voltaram os olhos para a entrada principal. Algumas sorriram. Outras demonstraram uma espécie de fascínio difícil de explicar.
Então ela apareceu.
Testament.
A mulher caminhava lentamente pelo salão vestindo um longo traje negro que contrastava com a pele extremamente pálida. Seus cabelos escuros desciam pelos ombros como uma cascata de sombras, enquanto seus olhos pareciam absorver toda a luz ao redor. Não era apenas beleza. Basco conhecera pessoas bonitas durante toda a vida. Aquilo era diferente. Havia uma presença quase magnética envolvendo cada movimento dela. Algo capaz de capturar a atenção de qualquer pessoa sem esforço.
Pela primeira vez desde que entrara no Mascarade, sentiu um leve desconforto.
A mulher atravessou o salão cumprimentando algumas pessoas e trocando poucas palavras com outras. Em determinado momento seus olhos encontraram os de Basco.
Foi apenas um segundo.
Mas bastou.
Uma sensação estranha percorreu sua mente, semelhante ao toque de um telepata tentando testar uma porta antes de atravessá-la.
Imediatamente ergueu suas defesas mentais.
O treinamento recebido por Karma e pelos demais telepatas da Escola Xavier continuava presente.
Testament percebeu.
E sorriu.
Um sorriso pequeno.
Discreto.
Mas carregado de significado.
Ela sabia.
Não sabia exatamente quem ele era.
Mas sabia que não era um ser humano comum.
Brahma observava a cena em silêncio.
— Interessante.
Basco voltou-se.
— O quê?
— Ela raramente demonstra curiosidade por alguém.
— E quem é ela?
O homem apoiou a taça sobre o balcão.
— Essa pergunta costuma gerar respostas diferentes dependendo de quem responde.
— E a sua resposta?
Brahma sorriu novamente.
— A minha é que você provavelmente deveria tomar cuidado.
Antes que pudesse aprofundar a conversa, outra figura aproximou-se do grupo.
Alto, magro e vestindo um elegante sobretudo escuro, o recém-chegado parecia deslocar-se pelo ambiente sem produzir qualquer ruído. Seu rosto carregava traços orientais marcantes e uma serenidade quase artificial.
— Brahma.
O homem inclinou levemente a cabeça.
— Jihad.
Os dois trocaram um cumprimento discreto.
Basco percebeu imediatamente que existia história entre eles.
Muita história.
Jihad voltou seus olhos para o recém-chegado.
— Você é o paulista que voltou.
Não era uma pergunta.
Era uma afirmação.
Basco sentiu o desconforto aumentar.
Porque aquela frase significava apenas uma coisa.
Alguém já o observava antes mesmo de entrar no Mascarade.
E, pela primeira vez naquela noite, teve certeza absoluta de que o terceiro andar escondia algo muito mais perigoso do que imaginara.
A conversa com Brahma e Jihad permaneceu ecoando na mente de Basco durante todo o restante da noite. Mesmo depois de deixar o Mascarade e caminhar pelas ruas movimentadas da Augusta, a sensação de estar diante de algo muito maior do que imaginara recusava-se a desaparecer. Havia enfrentado mutantes capazes de alterar a realidade, testemunhado o surgimento de criaturas vindas de outras dimensões e conhecido vampiros que atravessavam séculos escondidos entre os mortais. Ainda assim, algo naquele lugar despertava um desconforto diferente. Não era medo. Era a percepção de que inúmeras pessoas pareciam compartilhar um segredo cuidadosamente protegido. O terceiro andar existia. Todos sabiam disso. Mas ninguém falava sobre ele.
Quando chegou ao apartamento em Osasco, encontrou um pequeno envelope preso sob a porta. O papel não possuía remetente, selo ou qualquer indicação de origem. Durante alguns segundos permaneceu imóvel observando o objeto no chão, enquanto os antigos instintos desenvolvidos nos tempos do Instituto Xavier o alertavam para a possibilidade de uma armadilha. Ainda assim, recolheu o envelope e entrou. Somente depois de verificar cuidadosamente o apartamento abriu a correspondência. Dentro havia um único bilhete dobrado ao meio. A mensagem era curta, escrita à mão com uma caligrafia firme e elegante.
"Se deseja respostas, volte amanhã. Venha sozinho."
Basco releu aquelas palavras diversas vezes. Quanto mais observava o bilhete, mais perguntas surgiam. Quem o enviara? Como alguém descobrira seu endereço? E, principalmente, por que demonstrava conhecer seu interesse pelo terceiro andar? A prudência recomendava ignorar completamente o convite. No entanto, a curiosidade que o acompanhava desde a infância costumava ser mais forte do que o bom senso. Ao deitar-se naquela madrugada, percebeu que já havia tomado sua decisão. Voltaria.
O dia seguinte arrastou-se lentamente. O trabalho na loja de departamentos exigia atenção constante, mas sua mente permanecia distante. Durante o intervalo do almoço, tentou racionalizar a situação como faria qualquer aluno treinado por Magneto ou Charles Xavier. Não possuía informações suficientes. Não conhecia seus interlocutores. Não compreendia seus objetivos. Ainda assim, toda análise terminava na mesma conclusão. Se existiam respostas relacionadas ao Mascarade, ao terceiro andar e às pessoas que pareciam observá-lo desde sua chegada, elas não apareceriam sozinhas. Seria necessário correr algum risco.
Ao anoitecer, retornou à Rua Augusta. O movimento intenso parecia ainda maior do que na noite anterior. Músicas diferentes escapavam de bares e casas noturnas, misturando-se ao som dos automóveis e às conversas de centenas de pessoas espalhadas pelas calçadas. O Mascarade continuava discreto entre os demais estabelecimentos, como se fizesse questão de não chamar atenção. Basco atravessou a entrada sem pressa e passou quase duas horas observando o ambiente. Nenhum sinal de Brahma. Nenhum sinal de Jihad. Testament também não apareceu. A aparente normalidade começou a despertar irritação. Pela primeira vez cogitou abandonar aquela busca e aceitar que talvez tudo não passasse de uma brincadeira elaborada.
Foi nesse momento que uma garçonete aproximou-se silenciosamente. A mulher não disse uma única palavra. Limitou-se a depositar um pequeno cartão preto sobre o balcão e afastar-se imediatamente. O gesto foi tão natural que ninguém ao redor pareceu notar. Basco aguardou alguns segundos antes de pegar o cartão. No verso havia apenas um número escrito em tinta prateada.
303.
A confirmação de que o bilhete era autêntico provocou uma súbita aceleração em seus pensamentos. Durante alguns instantes permaneceu observando a escadaria localizada ao fundo do salão. Curiosamente, naquela noite ela parecia quase invisível. As pessoas passavam diante dela sem demonstrar qualquer interesse. Era como se alguma influência sutil alterasse a percepção dos frequentadores, desviando sua atenção sempre que se aproximavam dos degraus. Basco conhecia técnicas telepáticas capazes de produzir efeitos semelhantes. Aquela constatação apenas aumentou sua curiosidade.
Subiu lentamente até o terceiro andar. Diferentemente dos demais níveis da casa, aquele espaço permanecia mergulhado em absoluto silêncio. O som da música desaparecia gradualmente à medida que avançava pelo corredor, substituído apenas pelo ruído distante do sistema de ventilação. As paredes eram revestidas por madeira escura, e pequenas luminárias antigas lançavam uma iluminação suave sobre o carpete vermelho. Havia diversas portas distribuídas ao longo do corredor, cada uma identificada por números metálicos discretos. Basco caminhou observando o ambiente com atenção até localizar a porta marcada com o número 303.
Permaneceu alguns segundos diante dela. Sua experiência dizia que o momento anterior à descoberta costumava ser mais importante do que a descoberta em si. Era naquele instante que uma pessoa ainda possuía a opção de recuar. Depois de respirar profundamente, bateu três vezes. O som ecoou pelo corredor vazio e foi seguido por um clique suave vindo da fechadura. A porta destravou-se sozinha.
O cômodo revelado além da entrada lembrava uma biblioteca particular pertencente a algum professor universitário ou colecionador de antiguidades. Estantes ocupavam praticamente todas as paredes, abarrotadas de livros raros, mapas antigos, documentos encadernados e objetos cuja procedência Basco não conseguia identificar imediatamente. O cheiro de papel envelhecido misturava-se ao aroma de madeira polida, criando uma atmosfera estranhamente acolhedora. Próximo à janela encontrava-se um homem idoso de cabelos completamente brancos. Apesar da idade avançada, mantinha uma postura firme e um olhar extremamente atento. Não transmitia a fragilidade comum aos velhos. Pelo contrário. Parecia alguém acostumado a exercer autoridade.
— Entre, Basco Khassan Markel.
O uso de seu nome completo fez todos os seus sentidos entrarem em alerta. Ainda assim, decidiu permanecer calmo. O homem indicou uma cadeira diante da mesa, mas Basco preferiu permanecer de pé por alguns instantes, observando cuidadosamente cada detalhe do ambiente.
— Quem é você? — perguntou.
O idoso sorriu discretamente antes de responder.
— Meu nome é Augusto. E acredito que já esteja cansado de respostas incompletas.
A frase produziu um efeito imediato. Desde a adolescência, sua vida parecia construída sobre respostas incompletas. O desaparecimento de Edher, os segredos de Thamine, a Escola Xavier, os vampiros, Verônica e até mesmo seus sonhos recorrentes formavam um mosaico de mistérios que jamais se encaixavam completamente. Augusto parecia compreender isso.
A conversa prosseguiu durante vários minutos. O velho não respondia diretamente às perguntas mais importantes, mas também não tentava evitá-las. Havia algo calculado em sua forma de conduzir o diálogo. Aos poucos, conduzia Basco para uma conclusão específica. Quando finalmente percebeu isso, compreendeu que aquele encontro não fora organizado para fornecer respostas. Fora organizado para prepará-lo para algo maior.
Augusto levantou-se lentamente e caminhou até uma das estantes localizadas ao fundo da sala. Passou os dedos sobre alguns volumes antigos até encontrar um livro de capa escura. Em seguida puxou-o cuidadosamente. Um mecanismo oculto respondeu com um estalo metálico, e parte da estante começou a mover-se para o lado. Atrás dela surgiu uma passagem estreita mergulhada na escuridão.
O ar que escapou daquela abertura era frio e carregava um odor antigo, como se o espaço além dela permanecesse fechado havia décadas. Basco sentiu imediatamente que aquele corredor não fazia parte da estrutura original do Mascarade. Existia algo profundamente estranho naquela construção. Algo que ultrapassava a simples arquitetura de uma casa noturna.
Augusto voltou-se para ele com uma expressão séria.
— O que existe além desta passagem mudará tudo o que você acredita saber sobre o mundo.
A declaração poderia parecer exagerada em qualquer outro contexto. Porém, naquele instante, Basco percebeu que o velho acreditava sinceramente em cada palavra que pronunciava. Aproximou-se da abertura e observou a escuridão além dela. Foi então que notou um detalhe que fez um arrepio percorrer sua espinha.
Alguém estava lá.
Não conseguia distinguir um rosto. Não conseguia identificar características físicas. Via apenas uma silhueta imóvel parada muitos metros adiante, observando silenciosamente através das sombras. A presença transmitia uma sensação inquietante de familiaridade, como se aquela figura o conhecesse havia muito tempo.
Basco manteve os olhos fixos na escuridão. Pela primeira vez em anos, sentiu que estava prestes a alcançar uma verdade importante. E, como quase todas as verdades realmente importantes, ela parecia escondida atrás de uma porta que talvez jamais devesse ser aberta.
Fale com o autor