CelleXty Saga - Temporada I

19 São Paulo dos Pecadores - PARTE 1


Arquivo Confidencial — Instituto Xavier

Sujeitos: Althy; Caio (Brujah); Lira (Giovanni); Pappylon; Sphinx; Basco Khassan Markel (Nevoeiro); Gregory D’Luca (Sangue de Prata); Madalenna (Mandala); Carcará; Isabelle Hoffmann (Rosa Vermelha); Folkhen; Ivan Castro de Medeiros (Tornado); Lucius Viriato (Inquisidor)

Status: Evento Paranormal Classe Ômega — Escalada Urbana Confirmada

Localização: Praça da Sé e Shopping Eldorado

Data: Outono de 1999


"Quatro meses após o incidente do Anhembi..."


Parte 1 — A Catedral e o Papiro

O outono de 1999 transformara São Paulo em uma cidade nervosa. Desde a implementação dos Protocolos de Contenção, a população aprendera a conviver com revistas inesperadas, bloqueios policiais e notícias diárias envolvendo mutantes desaparecidos ou operações militares classificadas como preventivas. Mesmo assim, naquela noite havia algo diferente no ar. Não era apenas tensão política. Não era apenas medo. Era uma sensação mais antiga, mais profunda, como se a própria cidade estivesse prendendo a respiração diante de algo prestes a acontecer. Os transeuntes que cruzavam a Praça da Sé após o horário comercial não sabiam explicar o motivo, mas muitos aceleravam o passo sem perceber. Outros desviavam o olhar da Catedral. Alguns simplesmente sentiam a necessidade irracional de ir embora.

Quando os sinos da Catedral da Sé anunciaram dezenove horas, o primeiro símbolo apareceu.

A pedra centenária da praça começou a se iluminar sob os pés de Althy. Linhas finas surgiram entre as rachaduras do piso, espalhando-se em padrões geométricos complexos que lembravam inscrições impossíveis de serem reproduzidas por mãos humanas. Não se tratava de um círculo mágico improvisado nem de uma manifestação impulsiva de poder. Cada traço havia sido planejado durante anos. Cada símbolo possuía uma função específica dentro de um mecanismo arcano gigantesco. Althy permanecia imóvel diante da escadaria principal da Catedral, vestida inteiramente de negro, os braços erguidos enquanto observava o céu acima do centro histórico. Sua expressão transmitia a serenidade de alguém que finalmente alcançara um objetivo perseguido durante décadas.

Ao redor dela, a Gangue Fantasma ocupava posições cuidadosamente calculadas. Caio distribuía grupos de vampiros recém-recrutados pelas ruas adjacentes, transformando acessos estratégicos em pontos de contenção. Lira posicionava-se próxima às entradas do metrô, observando silenciosamente o fluxo de pessoas que ainda deixava a estação. Havia algo perturbador em sua tranquilidade. A vampira movia-se entre sombras com a naturalidade de quem atravessa os próprios pensamentos, enquanto seus olhos acompanhavam cada movimento ao redor da praça. Acima deles, sobre a cobertura de um edifício antigo, Pappylon observava tudo em silêncio absoluto, atento ao momento exato em que precisaria agir.

A evacuação começou antes mesmo da chegada dos CelleXtys. Algumas pessoas perceberam os símbolos surgindo no chão. Outras sentiram o desconforto crescente que parecia espalhar-se pela região. O resultado foi uma retirada desorganizada e confusa que apenas aumentou a sensação de perigo. Sirenes começaram a surgir ao longe. Viaturas aproximavam-se. Helicópteros ganhavam altitude. Entretanto, nenhum daqueles recursos seria suficiente para interromper o que estava sendo preparado.

Carcará foi o primeiro a chegar.

A figura alada surgiu acima dos prédios históricos do centro como uma sombra atravessando o céu noturno. O mergulho foi rápido, preciso e brutal. Antes que dois vampiros posicionados próximos à escadaria compreendessem o que acontecia, a lâmina do veterano já havia atravessado ambos. Os corpos tombaram sobre as pedras da praça enquanto suas asas se abriam completamente, projetando uma silhueta ameaçadora contra as luzes da Catedral. O impacto da aterrissagem ecoou pelo local como o anúncio oficial de que a batalha havia começado.

Folkhen surgiu poucos segundos depois. Diferentemente de Carcará, seu estilo era silencioso e metódico. Os disparos partiram antes mesmo que sua posição pudesse ser identificada. Três vampiros caíram quase simultaneamente. Um quarto perdeu a arma que carregava. Um quinto foi obrigado a abandonar cobertura. Cada tiro parecia calculado para criar corredores seguros entre os civis que ainda tentavam escapar da área. Era uma abordagem menos espetacular, mas igualmente eficiente.

Ivan chegou logo em seguida.

As correntes psiônicas surgiram envoltas por energia azulada e serpenteavam pelo chão da praça como organismos vivos. O mutante avançou sem hesitar, abrindo caminho através das fileiras inimigas enquanto descargas elétricas explodiam ao redor de seus passos. A iluminação refletia nas correntes incandescentes, criando a impressão de que pequenas tempestades acompanhavam seus movimentos. Por alguns instantes, parecia que o avanço dos vampiros seria interrompido.

Então Althy moveu as mãos.

E toda a praça respondeu.

...

Parte 1 — A Catedral e o Papiro (Continuação)

Althy moveu as mãos lentamente, como uma maestrina conduzindo uma orquestra invisível, e toda a Praça da Sé pareceu reagir ao seu comando. As linhas arcanas espalhadas pelo chão pulsaram simultaneamente, irradiando uma luz escura que não iluminava, mas consumia a claridade ao redor. Os reflexos dos postes diminuíram. As vitrines próximas perderam o brilho. Até mesmo as luzes da Catedral pareceram enfraquecer por um instante. Não era apenas magia. Era como se a própria realidade estivesse sendo pressionada para abrir espaço a algo que não pertencia àquele mundo.

Lucius percebeu o perigo antes dos demais.

Seu olho esquerdo começou a emitir o brilho azulado característico das manifestações mais intensas de seus poderes enquanto o braço direito era envolvido por descargas psicocinéticas. O jovem avançou alguns passos e ergueu uma barreira energética entre a Catedral e o restante da praça. O impacto ocorreu quase imediatamente. Uma onda invisível partiu do círculo mágico e colidiu contra sua defesa com violência suficiente para fazer o concreto sob seus pés rachar. Lucius sentiu os músculos do corpo inteiro tensionarem ao mesmo tempo. Era como tentar impedir o avanço de uma locomotiva utilizando apenas as próprias mãos.

Mesmo assim, resistiu.

Por alguns segundos.

Apenas alguns segundos.

O suficiente para que Isabelle compreendesse a verdadeira dimensão do problema.

A telepata fechou os olhos.

O mundo desapareceu.

Subitamente não havia mais praça, catedral ou céu noturno.

Apenas mentes.

Milhares delas.

Centenas de pessoas ainda circulavam pelas ruas próximas. Policiais aproximavam-se. Motoristas presos no trânsito observavam a movimentação sem entender o que acontecia. Moradores acompanhavam tudo pelas janelas dos edifícios históricos. Normalmente, a mente coletiva de uma cidade era caótica, mas compreensível. Medos, desejos, preocupações e memórias misturavam-se em um fluxo constante de emoções humanas.

Naquela noite, porém, havia algo diferente.

Algo profundamente errado.

O medo estava crescendo.

O pânico estava crescendo.

Mas, no centro daquele oceano psíquico, existia uma presença que não se misturava às demais.

Althy.

A mente da vidente brilhava como um buraco negro.

Não emitia pensamentos.

Não emitia emoções.

Parecia absorver tudo ao redor.

Era uma estrela escura posicionada no coração da cidade.

Isabelle sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

Não porque tivesse encontrado a consciência da inimiga.

Mas porque percebeu que ela não estava sozinha.

Algo enorme existia do outro lado.

Algo observava.

Esperava.

E respondia ao ritual.

A telepata abriu os olhos abruptamente.

Seu rosto havia perdido parte da cor.

— Ela não está criando um portal... — murmurou.

Ivan virou-se imediatamente para ela.

— O que disse?

— Ela não está criando um portal.

A voz saiu mais firme desta vez.

— Está criando uma passagem.

O silêncio que se seguiu durou apenas alguns segundos.

Mas foi suficiente.

Porque todos compreenderam a diferença.

Portais eram abertos.

Passagens eram construídas.

E passagens existiam para permanecer.

— Então vamos destruir isso antes que termine — respondeu Ivan.

O mutante girou as correntes ao redor do próprio corpo e avançou diretamente contra Caio.

O Brujah abriu um sorriso.

Finalmente.

O duelo que ambos vinham adiando desde o Anhembi estava prestes a acontecer.

O impacto da primeira colisão ecoou pela praça como uma explosão.

Uma das correntes atingiu o vampiro no ombro e o lançou contra uma cabine telefônica antiga, destruindo metal e vidro em uma única pancada. Caio levantou-se imediatamente. Não demonstrava qualquer sinal de dor. Pelo contrário. Seus olhos brilhavam com entusiasmo selvagem enquanto avançava novamente.

Diferente da maioria dos vampiros, Caio não gostava de emboscadas.

Gostava de combate.

Gostava de impacto.

Gostava de testar limites.

Seu punho encontrou o tórax de Ivan com força suficiente para deslocar o mutante vários metros para trás. Tornado conseguiu manter-se de pé, mas sentiu o ar abandonar seus pulmões por um instante. Ainda assim, respondeu imediatamente. As correntes psiônicas envolveram o braço do vampiro e o puxaram para frente. Quando Caio foi lançado em sua direção, Ivan atingiu-o com uma descarga energética à queima-roupa.

O clarão azul iluminou toda a praça.

Pedaços de pedra voaram.

Vidraças estilhaçaram.

Mas nenhum dos dois recuou.

Enquanto isso, Folkhen enfrentava uma batalha diferente.

Lira movia-se entre sombras com elegância quase sobrenatural. Ela não atacava de forma direta. Não precisava. Bastava aproximar-se. Bastava tocar. Bastava permanecer próxima o suficiente para que sua habilidade começasse a agir. Folkhen percebeu isso quando sentiu um cansaço repentino espalhar-se pelo corpo. Os reflexos tornaram-se mais lentos. Os músculos pareceram mais pesados. Até mesmo sua visão começou a perder nitidez.

A vampira observava tudo com expressão serena.

Como uma professora acompanhando um aluno cometer erros previsíveis.

— Você está lutando contra o tempo — disse ela.

Folkhen disparou.

Ela desapareceu antes que a bala alcançasse o alvo.

— E o tempo sempre vence.

A voz surgiu atrás dele.

O veterano girou imediatamente, mas já era tarde. Os dedos de Lira tocaram seu braço por menos de um segundo. Ainda assim, a drenagem intensificou-se. Folkhen sentiu uma fraqueza profunda percorrer o organismo. Não era apenas energia física sendo retirada. Era vitalidade. Era algo mais fundamental.

Mais perigoso.

Mais antigo.

Acima deles, Carcará finalmente encontrou uma abertura.

O veterano alado disparou em direção a Althy numa velocidade impressionante. As asas cortaram o vento enquanto sua lâmina refletia a iluminação da praça. Durante um breve instante, pareceu que conseguiria alcançar a vidente antes da conclusão do ritual.

Então a mulher abriu os olhos.

Apenas isso.

Nenhum gesto.

Nenhuma palavra.

Nenhum movimento dramático.

Uma onda invisível explodiu ao redor dela.

Carcará foi atingido em pleno voo.

Seu corpo atravessou dezenas de metros antes de colidir contra a fachada de um edifício histórico. Tijolos se desprenderam. Janelas explodiram. Parte da estrutura desabou sobre a calçada.

Mesmo assim, ele sobreviveu.

E levantou-se.

Porque veteranos não chegavam àquela idade desistindo após o primeiro golpe.

Mas o recado havia sido entregue.

Althy sequer precisava defender-se.

O ritual estava alimentando-a.

E a cada segundo que passava, a situação tornava-se pior.

Acima da Catedral da Sé, o céu começou a mudar.

Nuvens escuras surgiram onde antes existiam apenas estrelas. Não eram nuvens comuns. Moviam-se em círculos lentos ao redor de um ponto invisível localizado exatamente sobre a torre principal da igreja. Relâmpagos silenciosos percorriam aquelas formações como veias luminosas. O vento aumentou de intensidade. Pombos abandonaram a praça. Animais fugiam sem compreender o motivo.

Até mesmo os civis que observavam tudo à distância começaram a recuar.

Porque algo instintivo dizia que permanecer ali era perigoso.

Muito perigoso.

E, em algum lugar da cidade, dentro do Shopping Eldorado, Basco sentiu a mesma alteração atravessar a realidade como uma onda.

O ritual estava avançando.

E eles estavam ficando sem tempo.

...

Parte 2 — O Shopping Eldorado

O Shopping Eldorado ainda funcionava normalmente quando a primeira fissura surgiu. Famílias caminhavam pelos corredores carregando sacolas. Casais ocupavam mesas na praça de alimentação. Crianças disputavam espaço nos fliperamas enquanto vendedores encerravam lentamente mais um dia de trabalho. Era uma noite comum de outono. Uma das últimas noites comuns que muitos daqueles frequentadores conheceriam. Porque, no exato momento em que o ritual de Althy avançava na Praça da Sé, uma segunda frente da operação começava a se manifestar a quilômetros dali.

Basco sentiu a ruptura antes mesmo de vê-la.

A sensação atravessou seu corpo como uma descarga gelada, semelhante àquilo que experimentava ao abrir portais para o Limbo, mas infinitamente mais desagradável. Não havia familiaridade naquela energia. Não havia lógica dimensional reconhecível. Era algo estranho, bruto e instável, como se duas realidades incompatíveis estivessem sendo forçadas a ocupar o mesmo espaço. Quando ergueu os olhos para o átrio principal do shopping, viu o ar ondular diante de si como uma superfície líquida submetida a vibrações violentas.

As primeiras pessoas perceberam apenas uma distorção.

Depois vieram os estalos.

Em seguida, as rachaduras.

Linhas escuras começaram a surgir no espaço vazio, espalhando-se lentamente acima do piso de mármore. Pareciam fissuras abertas em um espelho invisível. Algumas atravessavam dezenas de metros antes de desaparecer. Outras permaneciam pulsando como feridas abertas na realidade. O pânico começou a surgir quando pedaços dessas rachaduras passaram a expelir uma névoa escura que não se comportava como fumaça comum. Ela se movia contra o vento, contornava obstáculos e parecia procurar algo.

Então Sphinx apareceu.

Após meses de confinamento em uma instalação militar clandestina, Sphinx aprendera a transformar o próprio ódio em combustível. Os interrogatórios não haviam produzido respostas úteis. Os sedativos não haviam quebrado sua resistência. E o isolamento apenas reforçara a convicção de que a guerra contra os CelleXtys ainda estava longe de terminar.

O mutante egípcio surgiu no centro da estrutura como um sacerdote antigo caminhando para dentro de um templo profanado. Vestia mantos negros ornamentados por símbolos dourados que refletiam a iluminação artificial do shopping. Em suas mãos repousava um pergaminho extremamente antigo, protegido por cilindros metálicos cobertos por inscrições hieroglíficas. O objeto parecia irradiar poder próprio. Não era apenas um artefato. Era uma chave.

Uma chave destinada a abrir algo que deveria permanecer fechado.

— Evacuação! — gritou Basco.

Sua voz ecoou pelos corredores.

A multidão demorou apenas alguns segundos para reagir.

O suficiente.

Porque foi exatamente nesse momento que as fissuras se romperam completamente.

O som produzido pela ruptura parecia uma mistura de vidro estilhaçando e trovão distante. As rachaduras expandiram-se de forma explosiva. Fragmentos de energia negra espalharam-se pelo ambiente enquanto enormes silhuetas começavam a emergir do outro lado. Mãos primeiro. Depois braços. Depois cabeças cobertas por pelos escuros. Em seguida, corpos inteiros.

Os Lycans chegaram.

A criatura mais próxima ultrapassava dois metros e meio de altura. Possuía músculos desproporcionais, pele acinzentada e olhos completamente vazios, como se não houvesse inteligência alguma por trás deles. Suas garras eram longas o suficiente para rasgar chapas metálicas. A mandíbula lembrava a de um lobo deformado, equipada com fileiras irregulares de dentes que pareciam ter sido construídos para triturar ossos.

E aquela era apenas a primeira.

Mais criaturas continuavam surgindo.

Uma.

Duas.

Cinco.

Dez.

O número aumentava rapidamente.

Gregory moveu-se antes que qualquer outro.

A prata viva espalhou-se por seus braços, ombros e tórax numa velocidade impressionante. O metal líquido percorreu sua pele como um organismo consciente até formar uma armadura parcial brilhante. Quando o primeiro Lycan avançou, o rapaz não recuou. Pelo contrário. Correu em direção à criatura.

O choque foi brutal.

A garra do monstro desceu com força suficiente para esmagar concreto, mas Gregory desviou-se no último instante. Sua mão recoberta por prata atravessou o antebraço da criatura como uma lâmina incandescente atravessando papel molhado. O membro monstruoso separou-se do corpo num clarão fumegante.

O Lycan urrou.

Não de dor.

De fúria.

E continuou atacando.

Gregory percebeu imediatamente o problema.

Aquelas criaturas não sentiam medo.

Não sentiam dor.

Talvez nem sequer possuíssem consciência.

Eram armas.

Nada mais.

Enquanto isso, Madalenna posicionava-se alguns metros atrás. A energia lunar acumulava-se ao redor de seu corpo em ondas suaves e prateadas. Desde os eventos do Anhembi, seu domínio sobre aquela força crescera de maneira impressionante. Ela já não precisava concentrar-se para acessar o poder. Bastava permitir que ele fluísse.

A primeira rajada partiu de suas mãos como um feixe de luar condensado.

O impacto atingiu um Lycan no peito.

A criatura foi lançada contra uma loja de eletrônicos, atravessando vitrines e estruturas metálicas antes de desaparecer sob uma montanha de destroços.

Outras duas avançaram.

Madalenna respondeu imediatamente.

A luz espalhou-se pelo corredor como uma onda crescente.

Os monstros foram engolidos pela explosão luminosa.

Quando a claridade desapareceu, apenas marcas queimadas permaneciam no piso.

Mas não era suficiente.

Porque novas criaturas continuavam surgindo das fissuras.

Cada vez mais.

Cada vez maiores.

Cada vez mais agressivas.

Basco observava tudo enquanto tentava compreender o padrão por trás do ataque.

Algo estava errado.

Muito errado.

Sphinx não parecia preocupado.

Na verdade, parecia satisfeito.

Calmo.

Confiante.

Como alguém que sabia exatamente como a batalha terminaria.

E aquilo incomodava profundamente o mutante.

Ao longo dos últimos meses, aprendera que integrantes da Gangue Fantasma raramente desperdiçavam recursos. Cada operação possuía um objetivo específico. Cada confronto servia a um propósito maior. Se Sphinx estava ali apenas para causar destruição, teria escolhido alvos muito mais vulneráveis.

Mas não.

Ele havia surgido justamente onde Basco, Gregory e Madalenna estavam.

E isso não podia ser coincidência.

Foi então que o olhar de Nevoeiro encontrou o pergaminho.

O artefato pulsava.

Cada vez que uma nova criatura atravessava a fissura, os símbolos dourados gravados em sua superfície brilhavam brevemente.

Uma conexão.

Um vínculo.

Uma âncora.

A compreensão surgiu quase instantaneamente.

— O papiro! — gritou.

Gregory ouviu imediatamente.

— O quê?

— Ele está usando o papiro como foco!

Madalenna voltou-se para Sphinx.

— Então destruímos o foco!

O egípcio sorriu.

Como se estivesse esperando exatamente aquela conclusão.

Basco não gostou daquilo.

Nem um pouco.

Mas não havia tempo para analisar.

Transformou-se em névoa.

Seu corpo dissolveu-se em partículas cinzentas que atravessaram o campo de batalha em velocidade impressionante. A forma gasosa serpenteou entre criaturas, colunas e escadas rolantes até reaparecer atrás de Sphinx.

O ataque deveria ter funcionado.

Deveria.

Mas, no instante em que tentou tocar o pergaminho, sentiu uma força invisível explodir ao seu redor.

O impacto lançou seu corpo vários metros para trás.

Basco atravessou o corrimão de uma escada rolante e colidiu violentamente contra uma estrutura metálica de sustentação. O aço deformou-se sob o choque.

A dor espalhou-se imediatamente.

Sphinx não se moveu.

Não parecia sequer surpreso.

— Você continua previsível, Nevoeiro.

A voz carregava arrogância.

Mas havia algo mais.

Expectativa.

Como se desejasse prolongar aquele confronto.

Como se precisasse ganhar tempo.

Basco levantou-se lentamente.

E naquele instante compreendeu algo que fez seu estômago revirar.

O objetivo nunca fora o shopping.

Nem os Lycans.

Nem mesmo eles.

Aquilo era apenas uma distração.

Uma distração gigantesca.

Uma distração construída para manter longe da Praça da Sé justamente os três indivíduos que poderiam causar mais problemas ao ritual de Althy.

Gregory.

Madalenna.

E ele.

Ao mesmo tempo, centenas de metros acima do centro histórico, a redoma negra continuava crescendo.

E algo começava a se mover do outro lado.

...

Parte 3 — A Redoma dos Pecadores

Na Praça da Sé, o tempo parecia comportar-se de maneira diferente. Enquanto o confronto no Shopping Eldorado consumia minutos preciosos, ali cada segundo adquiria peso próprio. A redoma criada por Althy continuava crescendo sobre o centro histórico de São Paulo como uma segunda atmosfera, uma membrana escura que se expandia silenciosamente entre os edifícios antigos. De fora, quem observava a região enxergava apenas uma distorção no céu, semelhante ao calor tremulando sobre o asfalto em dias muito quentes. Mas, dentro dela, a realidade já começava a se deformar.

As luzes dos postes piscavam sem ritmo. Relógios digitais exibiam horários diferentes a cada poucos segundos. Telefones celulares perdiam sinal. As transmissões de rádio transformavam-se em ruídos incompreensíveis. Até mesmo os sinos da Catedral da Sé pareciam emitir sons atrasados, como se o próprio espaço estivesse sofrendo interferência.

Isabelle sentia aquilo de forma mais intensa do que qualquer outra pessoa.

A cada tentativa de sondar o ritual, sua mente era lançada contra algo vasto demais para ser compreendido completamente. Não era apenas uma presença. Não era apenas uma consciência. Parecia uma estrutura inteira tentando atravessar a barreira entre dimensões. A telepata já havia tocado entidades cósmicas em treinamentos conduzidos por Charles Xavier. Já enfrentara mentes alienígenas. Já sentira ecos de criaturas ancestrais escondidas nos cantos mais obscuros do Limbo. Ainda assim, aquilo era diferente.

Porque não parecia vivo.

Parecia inevitável.

A sensação era semelhante à de observar uma avalanche descendo uma montanha.

Ou uma estrela colapsando.

Ou um oceano avançando sobre uma cidade.

Não havia maldade.

Não havia bondade.

Apenas movimento.

E aproximação.

Quando abriu os olhos novamente, sangue escorria discretamente por uma das narinas.

Lucius percebeu imediatamente.

— Isabelle.

Ela não respondeu.

Continuava encarando Althy.

— Isabelle!

A segunda chamada finalmente rompeu o transe.

A telepata piscou algumas vezes antes de voltar completamente à realidade.

— Ela está quase terminando.

A frase saiu em tom baixo.

Mas todos ouviram.

Todos compreenderam.

Porque o próprio ambiente confirmava aquilo.

Os símbolos gravados no chão da praça brilhavam cada vez mais intensamente. Linhas negras serpenteavam entre as pedras históricas como raízes subterrâneas emergindo para a superfície. Algumas alcançavam fachadas centenárias. Outras desapareciam sob a Catedral. Parecia que toda a região central de São Paulo havia sido transformada em parte do ritual.

E, no centro de tudo, Althy permanecia imóvel.

Serena.

Quase tranquila.

Como uma sacerdotisa observando a chegada de uma profecia.

Ivan voltou a colidir contra Caio.

O impacto foi tão violento que ambos atravessaram um quiosque abandonado próximo às escadarias. Madeira e metal explodiram ao redor dos combatentes. Tornado rolou pelo chão e levantou-se imediatamente, girando as correntes ao redor do próprio corpo. O vampiro fez o mesmo. Sangue escorria de um corte profundo acima da sobrancelha esquerda, mas o sorriso permanecia.

— Está ficando lento.

Ivan cuspiu sangue sobre as pedras da praça.

— Você já falou isso antes.

— Porque continua sendo verdade.

Caio avançou novamente.

O Brujah era uma força da natureza em combate corpo a corpo. Seus movimentos possuíam brutalidade suficiente para destruir paredes, mas eram executados com precisão quase artística. Não havia desperdício de energia. Não havia movimentos supérfluos. Cada golpe era construído para quebrar algo.

O joelho encontrou o abdômen de Ivan.

O mutante respondeu com uma descarga elétrica.

Caio absorveu parte do impacto e revidou com um soco que fez o chão estremecer.

Nenhum dos dois demonstrava intenção de recuar.

Porque, em muitos aspectos, aquela luta já não era apenas estratégica.

Tornara-se pessoal.

Enquanto isso, Folkhen enfrentava dificuldades crescentes contra Lira.

A Giovanni movia-se pelo campo de batalha como um fantasma elegante. Seus ataques raramente eram diretos. Não precisava ser. Bastava permanecer próxima. Bastava tocar. Bastava existir ao redor do alvo. A cada minuto de combate, Folkhen sentia suas forças diminuírem. Os músculos queimavam. A visão tornava-se mais pesada. Os reflexos começavam a falhar.

Ele já enfrentara assassinos.

Mercenários.

Mutantes.

Vampiros.

Mas nunca alguém capaz de transformar exaustão em arma.

— Você está cansado.

A voz dela surgiu atrás dele novamente.

— Todos ficam.

Folkhen girou e disparou.

A vampira desapareceu.

Mais uma vez.

— O problema não é admitir isso.

A voz reapareceu à esquerda.

— O problema é descobrir quando já é tarde demais.

O veterano respirou fundo.

Controlou o ritmo cardíaco.

Ignorou o cansaço.

E continuou lutando.

Porque era isso que fazia.

Porque sobrevivera décadas exatamente por nunca aceitar derrotas antes da hora.

Próximo à Catedral, Carcará finalmente voltou ao combate.

A colisão contra o prédio histórico havia deixado hematomas profundos e uma costela comprometida, mas nada capaz de mantê-lo afastado da batalha. O veterano observou rapidamente o cenário antes de tomar sua decisão.

Não avançou contra Althy.

Não tentou destruir a redoma.

Não atacou Caio.

Atacou os símbolos.

A lâmina encontrou o primeiro deles próximo à base de uma estátua.

A reação foi imediata.

Uma explosão de energia negra projetou o mutante para trás.

Mas algo aconteceu.

O brilho daquela seção do círculo diminuiu.

Apenas por um instante.

Mas diminuiu.

Carcará sorriu.

Havia encontrado uma fraqueza.

— LUCIUS!

O grito ecoou pela praça.

O Inquisidor compreendeu imediatamente.

Se não podiam atingir Althy diretamente, atingiriam a estrutura que sustentava o ritual.

Os feixes psicocinéticos partiram quase instantaneamente.

Um.

Dois.

Três.

Cada impacto destruía fragmentos do círculo mágico espalhado pela praça.

A reação foi visível.

A redoma oscilou.

Pequenas rachaduras começaram a surgir em sua superfície.

Pela primeira vez desde o início da batalha, Althy abriu os olhos completamente.

E não parecia satisfeita.

Pelo contrário.

Parecia irritada.

Uma emoção rara.

Perigosa.

A temperatura ao redor da Catedral caiu abruptamente.

O vento cessou.

Os ruídos desapareceram.

Até mesmo os combates pareceram desacelerar por um instante.

Então ela falou.

Não alto.

Não em tom agressivo.

Mas cada palavra ecoou simultaneamente em toda a praça.

Dentro das mentes.

Dentro dos ossos.

Dentro do próprio ar.

— Vocês ainda não compreenderam.

O céu acima da Catedral começou a se abrir.

Não como um portal.

Nem como uma fissura.

Mas como uma ferida.

Nuvens negras giraram em espiral.

Relâmpagos silenciosos cortaram a escuridão.

E algo gigantesco moveu-se além daquela abertura.

Uma silhueta.

Apenas uma sombra.

Mas grande o suficiente para cobrir quarteirões inteiros.

Isabelle sentiu o impacto psíquico antes mesmo de vê-la completamente.

Caiu de joelhos.

As mãos pressionadas contra a cabeça.

A respiração descontrolada.

— Não...

Lucius aproximou-se imediatamente.

— O que foi?

A voz dela saiu quebrada.

Assustada.

Como raramente acontecia.

— Ela não está trazendo uma criatura.

O silêncio tomou conta dos CelleXtys.

Mesmo durante a batalha.

Mesmo sob o caos.

Porque havia algo na forma como ela disse aquilo.

Algo errado.

Muito errado.

Isabelle ergueu os olhos para a abertura no céu.

E sentiu o terror percorrer cada fibra do próprio corpo.

— Ela está trazendo uma cidade.

O mundo pareceu parar.

E, naquele instante, todos compreenderam que os Lycans, os vampiros, a Gangue Fantasma e até mesmo os Protocolos de Contenção talvez fossem apenas consequências de algo muito maior.

Porque o verdadeiro objetivo de Althy finalmente começava a se revelar.