CelleXty Saga - Temporada I
20 São Paulo dos Pecadores - PARTE 2
Arquivo Confidencial — Instituto Xavier
Sujeitos: Althy; Caio (Brujah); Lira (Giovanni); Pappylon; Igon (Scariotis); Verônica (Toreador); Basco Khassan (Nevoeiro); Gregory (Sangue de Prata); Madalenna; Carcará; Isabelle (Rosa Vermelha); Folkhen; Ivan (Tornado); Lucius (Inquisidor)
Status: Evento Classe Ômega Encerrado — Em andamento
Data: Outono de 1999
Locais: Praça da Sé e Shopping Eldorado
Os registros mais antigos preservados pelos clãs vampíricos brasileiros contavam histórias que raramente chegavam aos ouvidos dos mortais. Quando as primeiras famílias da Camarilla desembarcaram na colônia portuguesa durante o século XVI, trazendo consigo guerras, rivalidades e segredos acumulados ao longo de gerações, descobriram que as florestas do Novo Mundo já possuíam seus próprios guardiões. Não eram lobisomens como aqueles descritos nos manuscritos germânicos ou nas lendas das aldeias francesas. Eram os Guarás, metamorfos ancestrais ligados à própria essência da terra brasileira. Assumiam formas humanas ou lupinas conforme a necessidade e protegiam territórios sagrados muito antes de qualquer bandeira europeia ser fincada naquele continente. Sob a liderança do lendário Kne-Tayan, os Guarás firmaram um acordo silencioso com os recém-chegados vampiros: nenhum atravessaria os domínios do outro. Os filhos da noite manteriam suas disputas nas cidades em crescimento; os protetores das matas preservariam as rotas indígenas, as serras e as regiões ainda intocadas. A trégua sobrevivera por séculos porque ambos compreendiam uma verdade simples: uma guerra aberta destruiria tudo o que pretendiam proteger.
Os Lycans que agora assolavam São Paulo, entretanto, não possuíam qualquer ligação com aqueles antigos guardiões. Não eram seres vivos, tampouco criaturas nascidas de maldições lunares. Eram armas. Constructos arcanos moldados através de rituais esquecidos do antigo Egito, entidades formadas pela união entre magia necrológica e instinto predatório. Sphinx não invocara guerreiros. Invocara instrumentos de destruição. Cada Lycan que atravessava as fissuras abertas no Shopping Eldorado carregava nos olhos vazios a ausência completa de identidade. Não havia honra. Não havia consciência. Não havia qualquer propósito além da violência. E aquilo tornava a situação ainda mais perigosa. Criaturas capazes de pensar podem ser convencidas, enganadas ou derrotadas. Armas apenas cumprem sua função.
O átrio central do Shopping Eldorado havia se transformado em um campo de batalha irreconhecível. As vitrines luxuosas estavam reduzidas a montanhas de vidro e aço retorcido. As escadas rolantes haviam parado há muito tempo, algumas delas arrancadas de suas bases pela violência dos confrontos. O cheiro de fumaça misturava-se ao odor metálico de sangue e eletricidade que pairava no ambiente. Gregory avançava entre os monstros como uma lâmina viva. A prata que percorria seu corpo respondia aos seus pensamentos com velocidade impressionante, recobrindo braços, pernas e parte do tronco conforme a necessidade. Cada golpe deixava marcas incandescentes nas criaturas, obrigando-as a recuar ou simplesmente desfazendo seus corpos em fragmentos de energia instável. Próxima dali, Madalenna sustentava uma barreira luminosa improvisada para impedir que os Lycans alcançassem as saídas do shopping e escapassem para as ruas da cidade. O esforço era enorme, mas a jovem recusava-se a ceder terreno. Eles já haviam perdido demais para permitir que aquela invasão alcançasse civis inocentes.
Foi então que o espaço voltou a se rasgar.
A fissura surgiu no centro do átrio como uma cicatriz luminosa aberta na própria realidade. Primeiro veio a distorção. Depois, a luz. Por fim, a figura que emergiu lentamente da abertura. Basco sentiu o impacto emocional antes mesmo de reconhecer o rosto. Seu coração acelerou. Sua respiração falhou por um instante. Porque aquela presença carregava um peso impossível de ignorar. Não era apenas um adversário surgindo no campo de batalha. Era um fantasma retornando do passado.
Igon.
O irmão desaparecido.
O irmão que deveria estar morto.
O irmão que agora caminhava ao lado das forças que ameaçavam destruir tudo aquilo que Basco havia passado anos tentando proteger.
Os olhos de Scariotis percorreram o cenário devastado sem demonstrar surpresa. Quando finalmente encontraram os de Basco, não houve hesitação. Não houve dúvida. Apenas uma hostilidade antiga, amadurecida durante anos de manipulação e sofrimento.
— Você sempre foi o substituto conveniente — declarou ele, enquanto correntes de ar começavam a girar ao redor de seu corpo. — O filho que ficou. O filho que recebeu uma família. O plano B quando eu desapareci.
As palavras atingiram Basco como golpes físicos.
Durante meses ele tentara encontrar uma forma de salvar o irmão. Durante meses buscara justificativas, respostas e fragmentos da pessoa que um dia conhecera. Agora, diante dele, encontrava alguém que enxergava toda a própria vida através do prisma do abandono.
— Você não sabe o que aconteceu depois que desapareceu — respondeu Basco.
— E você não sabe o que aconteceu comigo.
O primeiro ataque veio antes que qualquer outro argumento pudesse surgir.
A massa de ar comprimido lançada por Igon atravessou o shopping como um projétil invisível, destruindo vitrines, colunas e estruturas metálicas em seu caminho. Basco reagiu por instinto, abrindo microfendas dimensionais para desviar parte da energia. Mesmo assim, o impacto o obrigou a recuar vários metros. O chão rachou sob seus pés. Fragmentos de concreto foram lançados em todas as direções. Gregory tentou aproximar-se para ajudar, mas um turbilhão criado por Scariotis o interceptou e o arremessou contra uma loja destruída.
O combate entre os irmãos escalou rapidamente.
Basco utilizava suas habilidades dimensionais para criar rotas imprevisíveis de ataque e defesa, desaparecendo em nuvens de névoa para reaparecer em pontos inesperados do campo de batalha. Igon respondia manipulando correntes atmosféricas com precisão devastadora. O ar ao redor dele parecia obedecer a cada pensamento, transformando-se em lâminas invisíveis capazes de cortar aço e concreto. O choque entre seus poderes produzia explosões de pressão que faziam o shopping inteiro estremecer. Cada golpe carregava mais do que força física. Carregava anos de perguntas sem resposta, memórias interrompidas e ressentimentos que jamais tiveram oportunidade de cicatrizar.
Enquanto isso, a quilômetros dali, a situação na Praça da Sé aproximava-se de um ponto igualmente crítico.
A gigantesca redoma criada por Althy continuava cobrindo o centro histórico de São Paulo, isolando a região do restante da cidade. Sob sua superfície translúcida, símbolos arcanos percorriam o céu como veias luminosas alimentando algo muito maior. Isabelle permanecia conectada à mente da vidente, aprofundando-se cada vez mais nas camadas de memórias e pensamentos que protegiam seu verdadeiro objetivo. O que encontrou não foi apenas ambição. Não encontrou simplesmente desejo de poder. Encontrou uma obsessão.
Transcendência.
Althy acreditava que humanos, vampiros e mutantes estavam presos às limitações de suas próprias naturezas. Para ela, evolução não significava adaptação. Significava superação absoluta. Romper fronteiras biológicas. Romper fronteiras espirituais. Romper fronteiras dimensionais. Criar algo novo.
E, no centro dessa obsessão, existia uma figura que surgia repetidamente entre lembranças fragmentadas.
Arcana.
A mulher cuja morte transformara uma mutante poderosa numa arquiteta de futuros impossíveis.
Isabelle percebeu então que toda aquela guerra possuía raízes muito mais profundas do que imaginavam.
Althy não estava apenas tentando vencer.
Estava tentando corrigir uma perda.
E era justamente isso que a tornava tão perigosa.
Lucius também percebia que algo estava mudando. Posicionado próximo às escadarias da Catedral, o Inquisidor concentrava sucessivas rajadas de energia psicocinética contra os pontos de instabilidade da redoma. Cada ataque produzia pequenas fissuras luminosas que se espalhavam pela superfície da barreira como rachaduras em vidro. O esforço era exaustivo. O braço direito pulsava em dor constante. O olho esquerdo brilhava com intensidade crescente, sinal inequívoco de que estava ultrapassando os próprios limites. Ainda assim, ele continuava. Porque, diferente dos demais, Lucius compreendia exatamente o que aconteceria caso Althy concluísse o ritual. Não seria apenas uma invasão. Não seria apenas mais uma batalha entre facções. Seria o colapso definitivo da fronteira que separava o mundo conhecido de algo infinitamente mais antigo.
A poucos metros dali, Ivan enfrentava Caio numa sequência brutal de ataques que parecia incapaz de chegar ao fim. O Brujah movia-se com agressividade quase animalesca, utilizando sua força sobrenatural para atravessar carros abandonados, postes arrancados e fragmentos de concreto como se fossem obstáculos insignificantes. Tornado respondia com correntes de energia psiônica que serpenteavam pelo campo de batalha como chicotes vivos, explodindo o chão sob seus pés e obrigando o vampiro a recuar repetidas vezes. Nenhum dos dois parecia disposto a ceder. O confronto havia ultrapassado qualquer objetivo estratégico. Transformara-se numa disputa de resistência, orgulho e sobrevivência.
Mais afastado, Folkhen lutava contra o próprio esgotamento. As feridas acumuladas durante os últimos confrontos cobravam um preço cada vez mais alto. Mesmo assim, continuava sustentando ondas gravitacionais que impediam os aliados de Althy de reorganizar suas posições. A cada utilização dos poderes, entretanto, sua visão tornava-se mais turva. O agente sabia que estava perto do limite. Sabia que seu corpo não suportaria muito mais tempo. Ainda assim, recusava-se a recuar. Havia sobrevivido a guerras demais para abandonar o campo naquele momento.
Foi então que novas presenças surgiram entre as sombras das ruas laterais.
Verônica avançou pela praça acompanhada por membros selecionados do clã Toreador. Diferentemente dos vampiros mais jovens que serviam Caio, aqueles indivíduos moviam-se com disciplina absoluta. Não gritavam. Não corriam. Não demonstravam qualquer sinal de descontrole. Eram predadores experientes entrando numa guerra que já deveria ter terminado. Seus olhos percorriam o cenário destruído com evidente desaprovação. Althy ultrapassara limites que nem mesmo os clãs mais antigos estavam dispostos a aceitar.
Lira foi a primeira a interceptá-los.
A vampira Giovanni abandonou sua posição próxima ao núcleo do ritual e avançou em direção à recém-chegada com velocidade impressionante. O sorriso elegante que normalmente carregava desapareceu. Em seu lugar surgiu uma expressão carregada de hostilidade.
— Então a Camarilla finalmente decidiu aparecer — provocou.
Verônica sequer diminuiu o ritmo da caminhada.
— A cidade não é palco para sua histeria.
A resposta cortou o ar com precisão quase cirúrgica.
O combate começou imediatamente.
As duas vampiras cruzaram a praça em movimentos tão rápidos que muitos dos presentes tiveram dificuldade para acompanhá-las. Lâminas ocultas surgiram. Garras atravessaram tecido e carne. Corpos desapareceram e reapareceram em diferentes pontos do campo de batalha. Durante alguns segundos, o confronto transformou-se numa dança letal executada entre ruínas, sombras e clarões de energia. Lira tentou utilizar sua capacidade de drenagem vital à distância, buscando atingir Isabelle enquanto a telepata permanecia vulnerável durante a conexão mental com Althy. Verônica percebeu a intenção antes que o ataque fosse concluído.
O contra-ataque veio como um raio.
Um único movimento.
Preciso.
Definitivo.
Quando a Giovanni percebeu o erro, já era tarde demais.
A lâmina atravessou seu peito.
O choque estampado em seus olhos durou apenas alguns instantes antes que o corpo começasse a se desfazer. Pequenas rachaduras surgiram sobre a pele. Depois vieram as cinzas. Por fim, restou apenas o vento carregando os últimos vestígios de alguém que acreditava ser imortal.
O rugido de Caio ecoou por toda a praça.
A morte de Lira não representava apenas uma perda estratégica. Era um golpe pessoal.
E o Brujah reagiu exatamente como todos esperavam.
Com fúria.
A explosão de força que se seguiu obrigou Ivan a recuar pela primeira vez desde o início do combate. O vampiro atravessou a praça como uma locomotiva desgovernada, destruindo tudo que encontrava pela frente. Carcará mergulhou do alto para interceptá-lo, obrigando-o a mudar de direção. Folkhen utilizou o restante de suas forças para gerar uma onda gravitacional que abriu uma enorme cratera entre os dois lados do conflito. Durante alguns segundos, o campo de batalha inteiro mergulhou num caos absoluto.
Mas nada daquilo alterava o verdadeiro problema.
Porque, acima da Catedral, a abertura dimensional continuava crescendo.
E do outro lado algo observava.
Isabelle percebeu primeiro.
Conectada à mente de Althy, ela conseguia sentir a presença que existia além da ruptura. Não era uma pessoa. Não era uma criatura. Era uma consciência coletiva gigantesca, espalhada por uma cidade inteira que parecia existir fora das leis normais da realidade. Torres impossíveis erguiam-se no horizonte daquela dimensão desconhecida. Muralhas monumentais estendiam-se até desaparecerem na névoa. Estruturas que desafiavam qualquer lógica arquitetônica surgiam e desapareciam entre relâmpagos azulados.
E havia vida.
Muita vida.
Algo naquele lugar sabia que a Terra existia.
Algo naquele lugar estava tentando atravessar.
A descoberta quase rompeu a concentração de Isabelle.
Quase.
Porque, naquele instante, ela finalmente encontrou aquilo que procurava desde o início.
O núcleo emocional de Althy.
Não era um segredo.
Não era uma memória.
Era uma ferida.
Arcana.
A mulher surgia repetidamente em lembranças espalhadas por séculos de existência. Isabelle viu momentos felizes. Viu promessas. Viu sonhos compartilhados. E viu a morte que destruíra tudo aquilo. Compreendeu, então, que a obsessão por transcendência jamais fora apenas um projeto filosófico ou científico. Era uma tentativa desesperada de negar a perda. De encontrar uma realidade onde a tragédia jamais tivesse acontecido.
E foi justamente ali que Rosa Vermelha atacou.
Não com violência.
Mas com verdade.
Obrigando Althy a encarar aquilo que passara séculos evitando.
A vidente vacilou.
Pela primeira vez.
E, naquele exato momento, a redoma começou a rachar. Continuação: o colapso da Sé, Gregory destruindo o papiro, morte de Sphinx e o desfecho de Basco e Igon.
A reação em cadeia espalhou-se pela Praça da Sé quase instantaneamente. As primeiras rachaduras que surgiram na superfície da redoma multiplicaram-se numa velocidade assustadora, serpenteando pelo céu como relâmpagos cristalizados. Fragmentos de energia desprendiam-se da barreira e evaporavam antes de tocar o solo, produzindo clarões que iluminavam as fachadas históricas da Catedral, dos prédios vizinhos e das ruas abandonadas ao redor. O ritual construído por Althy durante anos começava a ruir. Lucius percebeu a mudança imediatamente e concentrou toda a energia restante em um único ataque. O brilho que emanava de seu olho esquerdo tornou-se tão intenso que alguns presentes precisaram desviar o rosto. A rajada psicocinética atingiu uma das maiores fissuras da redoma e produziu um som semelhante ao de uma montanha se partindo. Durante alguns segundos, toda a estrutura oscilou. Então novas rachaduras surgiram. Centenas delas.
Althy caiu de joelhos.
A vidente tentou sustentar o ritual. Tentou reconstruir as conexões. Tentou reorganizar o fluxo de energia que escapava por todos os lados. Mas era tarde demais. A investida de Isabelle atingira exatamente o ponto que ela passara séculos escondendo. Arcana não era apenas uma lembrança. Era a fundação sobre a qual construíra toda a própria existência. E aquela fundação acabava de desmoronar. As imagens da mulher perdida atravessavam sua mente sem controle. Risos. Promessas. Sonhos interrompidos. Tudo retornava ao mesmo tempo, esmagando as muralhas emocionais erguidas ao longo dos séculos.
Enquanto isso, no Shopping Eldorado, Gregory compreendia que a situação se aproximava do limite. O papiro ainda permanecia nas mãos de Sphinx, irradiando símbolos dourados que alimentavam as fissuras espalhadas por todo o edifício. A cada segundo novas distorções surgiam no espaço. Algumas revelavam paisagens impossíveis. Outras mostravam apenas escuridão. Mas todas contribuíam para enfraquecer a realidade ao redor. O jovem mutante avançou mais uma vez, ignorando o cansaço e os ferimentos acumulados. A prata viva percorreu seu corpo em ondas brilhantes, recobrindo braços e pernas como uma armadura orgânica. Os anos passados no Limbo haviam transformado aquele garoto num guerreiro.
O que mais chamou a atenção dos presentes, porém, não foi a explicação sobre o Limbo. Foi Gregory. O garoto que desaparecera meses antes retornara com a aparência de alguém vários anos mais velho. Seus traços haviam endurecido, a postura transmitia segurança e até sua voz possuía uma firmeza inexistente anteriormente. Para Raial, Tornado e os demais integrantes da Escola Brasil X, era impossível ignorar a sensação de que aquele não era exatamente o mesmo adolescente que haviam visto desaparecer ao lado de Basco. Três anos de batalhas, treinamento e sobrevivência haviam deixado marcas visíveis demais para serem escondidas.E, naquele momento, cada ensinamento de Basco fazia diferença.
Sphinx percebeu sua aproximação e reagiu imediatamente. Símbolos ancestrais explodiram ao redor do papiro como um enxame de estrelas douradas. Correntes energéticas atravessaram o átrio principal tentando bloquear o avanço do adversário. O egípcio movia-se com habilidade impressionante, combinando magia, velocidade e conhecimento arcano acumulado ao longo de anos. Contudo, pela primeira vez desde o início do confronto, existia algo diferente em seus olhos.
Medo.
Não medo da morte.
Medo do fracasso.
Porque ele compreendia melhor do que qualquer outra pessoa o que aconteceria se aquele pergaminho fosse destruído.
Gregory não lhe deu escolha.
Saltando sobre os destroços de uma escada rolante destruída, lançou-se diretamente contra o mutante. Os dois colidiram no centro do átrio. O impacto fez o chão tremer. Sphinx conseguiu bloquear parte do ataque utilizando uma barreira improvisada, mas a força da investida arrancou o papiro de suas mãos. O artefato girou pelo ar entre fragmentos de vidro e poeira suspensa. Durante uma fração de segundo, todos os presentes compreenderam que aquele era o momento decisivo.
Gregory chegou primeiro.
A prata viva concentrou-se em seu braço direito numa velocidade absurda. O golpe atravessou o papiro de lado a lado.
O efeito foi imediato.
As inscrições começaram a brilhar com intensidade crescente. Linhas luminosas escaparam das páginas como serpentes feitas de energia. Os símbolos espalhados pelo shopping oscilaram violentamente. As fissuras dimensionais perderam estabilidade. Algumas implodiram. Outras simplesmente desapareceram. Os Lycans remanescentes interromperam seus ataques e começaram a se desfazer diante dos olhos dos combatentes. Seus corpos transformaram-se em fumaça escura, sugada de volta para os lugares de onde haviam vindo.
O ritual estava morrendo.
Sphinx compreendeu isso antes de qualquer um.
E decidiu fugir.
Mas a verdadeira intenção do egípcio não era atingi-los. Era alcançar uma das fissuras remanescentes. Era escapar. Sphinx lançou-se em direção à abertura mais próxima. Por alguns segundos, pareceu que conseguiria. Então Gregory moveu-se. A velocidade adquirida após anos de treinamento no Limbo permitiu que reduzisse a distância rapidamente. O jovem avançou através dos destroços, ignorando a dor, ignorando o sangue que escorria pelo rosto, ignorando absolutamente tudo que não fosse impedir aquela fuga. Quando finalmente alcançou o adversário, a prata viva transformou-se numa lança reluzente que atravessou o peito do mutante egípcio.
Sphinx parou.
O mundo pareceu parar com ele.
Seus olhos desceram lentamente até a ferida.
Depois voltaram-se para Gregory.
Havia surpresa ali.
Talvez arrependimento.
Talvez apenas incredulidade.
Ninguém saberia ao certo.
O corpo começou a perder consistência. Primeiro as mãos. Depois os braços. Em seguida o restante da matéria física converteu-se em partículas douradas que foram absorvidas pelas últimas fissuras em colapso. Quando tudo terminou, não restava nada.
Sphinx estava morto.
A queda do mutante egípcio repercutiu imediatamente na Praça da Sé. A abertura dimensional acima da Catedral tornou-se instável. As torres impossíveis da cidade além do véu começaram a desaparecer e reaparecer em sucessão caótica. Muralhas colossais surgiam entre relâmpagos azulados apenas para desaparecer segundos depois. O próprio céu parecia fragmentar-se. A consciência coletiva que Isabelle havia sentido do outro lado recuava lentamente, mas não sem deixar uma impressão perturbadora. Aquilo não era um exército. Não era uma criatura. Era uma civilização inteira.
E agora ela sabia que a Terra existia.
Foi Madalenna quem compreendeu o que precisava ser feito.
A luz da lua atravessou as nuvens acima da cidade e encontrou a jovem mutante como se obedecesse a um chamado ancestral. Primeiro veio o brilho suave ao redor de seus cabelos. Depois a luminosidade espalhou-se pelos braços, pelo rosto e pelo restante do corpo. Em poucos segundos, Madalenna transformou-se num verdadeiro farol em meio às ruínas da praça. O vento cessou. O ruído da batalha desapareceu. Até mesmo os sobreviventes interromperam seus movimentos para observá-la.
A energia lunar acumulou-se acima de sua mão direita.
Pequena no início.
Depois maior.
E maior.
Até tornar-se uma esfera de luz impossível de encarar diretamente.
Quando Madalenna disparou o ataque, o feixe atravessou o céu como uma lança celestial. O impacto contra o núcleo dimensional produziu uma explosão luminosa visível em grande parte da cidade. Por alguns segundos, a noite transformou-se em dia. A abertura acima da Catedral colapsou. As torres desapareceram. As muralhas sumiram. A cidade além do véu foi empurrada de volta para as profundezas da realidade.
A guerra estava terminando.
Mas, no Shopping Eldorado, ainda restava uma última batalha.
Igon.
E Basco.
Basco permaneceu imóvel durante alguns segundos, observando o local onde a última fissura se fechara. O silêncio que tomou conta do Shopping Eldorado parecia impossível depois de tanta destruição. Os rugidos dos Lycans haviam desaparecido. As explosões cessaram. As distorções dimensionais deixaram de existir. Restavam apenas estruturas destruídas, fumaça pairando entre os andares e o som distante de alarmes de emergência ecoando pelos corredores vazios. Ainda assim, nenhuma daquelas coisas ocupava sua atenção. Seus olhos permaneciam fixos em Igon.
O irmão mais velho respirava com dificuldade. O combate havia cobrado seu preço. Pequenos cortes espalhavam-se pelos braços, pelo rosto e pelas roupas parcialmente rasgadas. Pela primeira vez desde que surgira no shopping, sua postura parecia menos agressiva. Não porque tivesse desistido. Mas porque começava a compreender a dimensão da derrota. Althy perdera o ritual. Sphinx estava morto. Os Lycans haviam desaparecido. A Gangue Fantasma estava sendo forçada a recuar. Todo o esforço construído ao longo dos últimos anos ruía diante deles.
Ainda assim, havia algo que continuava intacto.
O ressentimento.
— Então é assim que termina? — perguntou Igon, a voz carregada de amargura. — Depois de tudo... você vence?
Basco deu alguns passos à frente.
— Não existe vencedor aqui.
Igon soltou uma risada curta.
Sem humor.
Sem alegria.
Apenas cansaço.
— Você continua acreditando nisso.
— Porque é verdade.
— Não. — O irmão balançou a cabeça lentamente. — Você só continua acreditando porque nunca precisou perder tudo.
As palavras ficaram suspensas entre eles.
Por um momento, Basco pensou em responder. Pensou em falar sobre a mãe. Sobre os anos de busca. Sobre a culpa que carregava desde criança por nunca ter conseguido entender o que acontecera naquela floresta. Mas percebeu que nenhuma explicação seria suficiente. Nenhuma frase apagaria décadas de dor. Nenhuma justificativa reconstruiria o que havia sido destruído.
O destino deles não seria resolvido através de argumentos.
O ar ao redor começou a oscilar.
Basco sentiu imediatamente.
A destruição do ritual estava provocando instabilidades em diversos pontos da cidade. Pequenas fissuras surgiam e desapareciam conforme os últimos resquícios de energia dimensional eram consumidos. Uma delas abriu-se atrás de Igon.
Não era uma ruptura comum.
Basco reconheceu aquela assinatura energética imediatamente.
Limbo.
A dimensão vermelha.
A prisão de monstros.
O lugar onde Gregory aprendera a sobreviver.
A abertura surgiu instável, pulsando como uma ferida aberta na realidade. O vento começou a convergir para ela. Fragmentos de concreto deslizaram lentamente pelo chão em sua direção. Pequenos pedaços de metal desapareceram dentro da escuridão avermelhada.
Igon percebeu.
Basco também.
Os dois permaneceram imóveis por alguns segundos.
Talvez porque ambos compreendessem exatamente o significado daquele momento.
Talvez porque ambos soubessem que não haveria outra oportunidade.
Então Scariotis avançou.
A energia acumulada ao redor de seu corpo explodiu numa única investida desesperada. Correntes atmosféricas atravessaram o shopping como lâminas invisíveis. Basco reagiu instantaneamente, transformando parte do corpo em névoa para absorver o impacto. Os dois colidiram uma última vez no centro do átrio destruído. Não havia mais estratégia. Não havia mais cautela. Apenas força, emoção e anos de frustração sendo despejados naquele confronto final.
O piso cedeu sob seus pés.
Vigas metálicas despencaram do teto.
Vitrines explodiram.
Mas nenhum deles recuou.
Até que Basco encontrou a abertura.
Pequena.
Breve.
Suficiente.
Num único movimento, abriu deliberadamente a fissura do Limbo atrás do irmão. A ruptura expandiu-se imediatamente, revelando o céu vermelho e as estruturas distorcidas daquela dimensão. O vento tornou-se mais intenso. A atração gravitacional começou a puxar tudo ao redor.
Igon tentou resistir.
As correntes de ar comprimido explodiram ao redor de seu corpo numa tentativa desesperada de se ancorar ao mundo real.
Mas Basco já havia tomado sua decisão.
Avançou.
Segurou o braço do irmão.
E o encarou pela última vez.
O silêncio pareceu durar uma eternidade.
— Eu não vou te matar — disse com firmeza. — Mas também não vou deixar você destruir o que resta.
Igon sustentou seu olhar.
Pela primeira vez, não havia raiva.
Não havia ódio.
Apenas tristeza.
Uma tristeza profunda demais para ser expressa em palavras.
— Diga à nossa mãe... — começou ele.
Mas não terminou.
Basco empurrou.
A força da fissura fez o restante.
Scariotis desapareceu dentro do Limbo enquanto o portal colapsava sobre si mesmo. Um eco distante atravessou o átrio principal. Depois veio o silêncio.
Absoluto.
Definitivo.
O irmão desaparecera novamente.
E, desta vez, Basco não sabia se algum dia o veria de novo.
Gregory aproximou-se lentamente.
Nenhum dos dois falou.
Não era necessário.
Ambos observavam o local onde a fissura existira segundos antes.
Porque compreendiam que aquela vitória carregava um preço.
E que algumas feridas não cicatrizariam tão cedo.
Lá fora, os primeiros raios do amanhecer começavam a surgir sobre São Paulo.
A guerra pela cidade havia terminado.
Mas a história deles estava longe do fim.
Basco permaneceu parado por longos segundos após o fechamento da fissura. A ausência repentina de movimento parecia irreal depois de tantos minutos de combate ininterrupto. O vento gerado pelas distorções dimensionais desaparecera. Os últimos fragmentos de energia que dançavam pelo ar dissipavam-se lentamente entre as colunas destruídas do shopping. Ao redor dos dois mutantes, o cenário lembrava o interior de uma cidade bombardeada. Vigas metálicas pendiam do teto em ângulos perigosos, vitrines transformadas em montanhas de vidro refletiam as luzes de emergência e pequenas faíscas elétricas saltavam de cabos rompidos espalhados pelo chão. Mesmo diante daquela devastação, nada parecia ocupar a mente de Basco além da imagem do irmão desaparecendo novamente diante de seus olhos. A diferença era que, desta vez, ele próprio havia sido responsável por aquela separação. Não existia alívio na vitória. Existia apenas o peso de uma escolha que talvez o acompanhasse pelo resto da vida.
Gregory aproximou-se sem pressa, observando o amigo com a mesma cautela que alguém utilizaria diante de uma ferida ainda aberta. Os anos passados no Limbo haviam lhe ensinado a reconhecer determinados silêncios. Havia momentos em que palavras ajudavam. Havia momentos em que apenas pioravam tudo. Aquele era um dos segundos casos. O jovem permaneceu ao lado de Basco enquanto ambos observavam a região onde a fissura existira poucos instantes antes. A prata viva ainda percorria parte de seus braços, mas começava a recuar lentamente para debaixo da pele. Os ferimentos da batalha continuavam presentes. O cansaço também. Ainda assim, algo havia mudado. Pela primeira vez desde o despertar no Mascarade, Gregory não parecia o garoto assustado tentando sobreviver aos próprios poderes. Havia enfrentado Sphinx, destruído o artefato responsável pela invasão e ajudado a impedir uma catástrofe interdimensional. O treinamento no Limbo deixara de ser preparação. Tornara-se realidade.
Do outro lado da cidade, a Praça da Sé encontrava-se mergulhada numa quietude quase surreal. A destruição permanecia visível em cada canto do centro histórico, mas a guerra terminara. Os últimos fragmentos da redoma desintegravam-se no céu como pedaços de vidro dissolvidos pela luz do amanhecer. Bombeiros começavam a surgir nas extremidades da praça. Viaturas bloqueavam ruas adjacentes. Equipes de emergência atravessavam áreas ainda cobertas por poeira e destroços. Nenhum daqueles profissionais compreendia completamente o que acontecera durante a madrugada. Nos relatórios oficiais surgiriam explicações genéricas envolvendo explosões, falhas estruturais e incidentes ainda sob investigação. A verdade permaneceria enterrada junto a tantas outras verdades que jamais poderiam ser reveladas ao mundo. Porque admitir que uma cidade inteira quase atravessara uma ruptura dimensional seria impossível até mesmo para aqueles que haviam presenciado os acontecimentos.
Próxima às escadarias da Catedral, Isabelle sentou-se sobre um bloco de concreto parcialmente destruído e fechou os olhos por alguns instantes. Sua mente ainda estava repleta de ecos pertencentes a Althy. Fragmentos de memórias surgiam sem aviso. Rostos desconhecidos. Lugares desaparecidos. Idiomas esquecidos. Séculos inteiros de experiências acumuladas dentro de uma única consciência. A telepata compreendia que levaria dias, talvez semanas, para organizar tudo aquilo. Entre as inúmeras lembranças que atravessavam sua mente, entretanto, uma permanecia mais forte do que as demais. Arcana. A mulher surgia repetidamente em diferentes épocas, diferentes lugares e diferentes contextos. Agora Isabelle compreendia melhor do que nunca que a verdadeira tragédia daquela guerra não havia começado com mutantes, vampiros ou portais dimensionais. Começara com amor. Depois veio a perda. Depois veio a obsessão. E, por fim, surgira Althy, a mulher capaz de sacrificar cidades inteiras em busca de uma realidade onde jamais precisasse sofrer novamente.
A própria Althy já estava longe dali. Resgatada por Pappylon e protegida pela retirada organizada por Caio, a vidente abandonara o campo de batalha antes da chegada das autoridades. Ainda assim, sua derrota era evidente. Pela primeira vez em séculos, um de seus planos fracassara completamente. O ritual fora destruído. Sphinx estava morto. Lira transformara-se em cinzas. Igon desaparecera no Limbo. E a Cidade dos Exilados, seja lá o que fosse, continuava inacessível. A mulher que sempre enxergara incontáveis futuros agora era obrigada a lidar com uma realidade que não previra. Talvez fosse essa a maior derrota possível para alguém como ela. Não perder uma batalha. Perder a certeza.
O amanhecer avançou lentamente sobre São Paulo. Os primeiros raios de sol refletiam-se nas janelas dos edifícios enquanto a cidade despertava sem imaginar quão perto estivera do desastre. Em algum lugar, pessoas seguiam para o trabalho. Padarias abriam as portas. Ônibus retomavam seus itinerários. Crianças preparavam-se para a escola. A vida continuava. E talvez fosse exatamente por isso que os CelleXtys lutavam. Não por reconhecimento. Não por glória. Não por vitória. Lutavam para preservar a possibilidade de que o restante do mundo continuasse vivendo sem precisar conhecer os horrores que existiam nas sombras. Aquela percepção tornou-se especialmente clara para Basco quando finalmente deixou o Shopping Eldorado ao lado de Gregory. Ao observar o sol surgindo sobre a cidade, compreendeu que haviam vencido. Mas também compreendeu que algumas guerras jamais terminavam verdadeiramente. Algumas apenas mudavam de forma.
Horas depois, já na segurança relativa da EBX, o clima permanecia distante de qualquer celebração. O retorno dos sobreviventes ocorreu em silêncio. Cada integrante da equipe carregava suas próprias reflexões. Ivan ocupou-se imediatamente com reparos e treinamentos, transformando exaustão em trabalho. Gregory passou boa parte do dia tentando compreender a dimensão do que haviam realizado. Lucius desapareceu entre corredores e arquivos antigos da Ordem de São Bento. Isabelle dedicou-se a registrar tudo o que conseguia lembrar da mente de Althy antes que as lembranças começassem a desaparecer. E Basco permaneceu sozinho por algum tempo. O desaparecimento de Igon continuava ocupando seus pensamentos. Pela segunda vez na vida perdera o irmão. Pela segunda vez não sabia se algum dia voltaria a encontrá-lo. A diferença era que agora existia uma possibilidade. Pequena. Incerta. Mas real. O Limbo não era morte. E enquanto não fosse morte, ainda existia esperança.
Foi somente naquela noite que Lucius reapareceu carregando um volume antigo protegido por capas de couro desgastadas pelo tempo. O Inquisidor depositou o manuscrito sobre uma mesa da biblioteca subterrânea e convidou Basco a observá-lo. As páginas estavam amareladas. Algumas apresentavam anotações feitas por diferentes autores ao longo de séculos. Outras continham mapas, símbolos e ilustrações cuja origem parecia impossível de determinar. Porém, entre todos aqueles registros, uma imagem específica chamou imediatamente a atenção de Nevoeiro. Uma cidade cercada por muralhas gigantescas. Torres elevando-se em direção a céus impossíveis. Pontes suspensas sobre abismos que não pareciam pertencer a qualquer geografia conhecida. O sangue gelou em suas veias.
Era o mesmo lugar.
A mesma cidade que surgira acima da Praça da Sé.
A mesma cidade que observara através da ruptura dimensional.
Enquanto Basco examinava a ilustração, Lucius abriu outras páginas e revelou novos registros. Relatos escritos em diferentes idiomas. Mapas incompletos. Referências espalhadas por períodos históricos distantes entre si. Tudo apontava para o mesmo destino. Tudo mencionava o mesmo lugar. Finalmente, o Inquisidor pousou o dedo sobre uma anotação específica e revelou a tradução que vinha tentando concluir desde os eventos da batalha. O nome aparecia repetidamente ao longo dos documentos.
Cidade dos Exilados.
O silêncio tomou conta da biblioteca. Porque naquele instante tornou-se evidente que Althy jamais fora a ameaça definitiva. Nem mesmo a Gangue Fantasma representava o verdadeiro perigo. Existia algo muito maior aguardando além das fronteiras conhecidas da realidade. Uma civilização inteira. Antiga. Organizada. Poderosa. E, depois dos acontecimentos em São Paulo, aquela civilização agora sabia que a Terra existia. A batalha pela cidade terminara sob a luz do amanhecer. Mas uma guerra muito maior acabava de começar. E, pela primeira vez desde o início daquela jornada, Basco teve a sensação de que tudo o que viveram até então talvez tivesse sido apenas o prólogo.
Basco permaneceu observando o manuscrito durante vários minutos depois que Lucius terminou de falar. A ilustração da Cidade dos Exilados parecia diferente cada vez que seus olhos retornavam a ela. Em determinados momentos, as muralhas pareciam maiores. Em outros, as torres assumiam proporções quase impossíveis. Talvez fosse apenas o cansaço acumulado após a batalha. Talvez fosse algo mais. O fato era que a simples existência daqueles registros alterava completamente a percepção que tinham dos acontecimentos recentes. Até então, Althy parecia ocupar o centro de tudo. Seus planos, suas manipulações e sua influência haviam moldado boa parte dos conflitos enfrentados pelos CelleXtys. Agora, porém, tornava-se evidente que a vidente não estava caminhando em direção a um objetivo criado por ela mesma. Estava perseguindo algo que existia muito antes de sua intervenção. Algo antigo o suficiente para atravessar séculos escondido entre lendas, manuscritos religiosos e relatos considerados fantasiosos até mesmo pelos estudiosos do sobrenatural.
Lucius abriu outro dos documentos espalhados sobre a mesa e revelou uma sequência de anotações feitas por diferentes autores ao longo de quase trezentos anos. O que mais chamava atenção era a consistência dos relatos. Monges portugueses do século XVIII descreviam visões de uma cidade além do mundo. Exploradores espanhóis registravam encontros com viajantes que afirmavam ter atravessado "portas entre realidades". Ocultistas franceses mencionavam uma metrópole construída para abrigar povos banidos de inúmeras dimensões distintas. Nenhum daqueles autores conhecia os demais. Nenhum possuía qualquer ligação aparente. Ainda assim, todos descreviam estruturas semelhantes, símbolos semelhantes e, principalmente, o mesmo nome. A Cidade dos Exilados não parecia ser um mito isolado. Parecia uma memória fragmentada preservada por diferentes culturas ao longo do tempo.
A notícia espalhou-se rapidamente pelos membros mais próximos da equipe. Gregory foi um dos primeiros a chegar à biblioteca. O jovem permaneceu em silêncio enquanto observava as páginas abertas sobre a mesa. O Limbo havia lhe ensinado uma verdade simples: sempre existia algo pior escondido atrás da próxima porta. Ainda assim, mesmo ele demonstrou desconforto ao perceber a dimensão do que estavam descobrindo. Durante anos acreditara que o Limbo representava uma das regiões mais perigosas acessíveis aos mutantes. Agora surgia a possibilidade de existir uma civilização inteira além das fronteiras conhecidas da realidade, uma sociedade capaz de observar diferentes mundos e, talvez, influenciar eventos sem jamais se revelar completamente. A simples ideia fazia o treinamento que recebera sob a tutela de Basco parecer apenas o início de uma jornada muito maior.
Aos poucos, outros integrantes também se reuniram no local. Isabelle trouxe suas próprias anotações sobre a mente de Althy. Ivan apareceu ainda carregando ferimentos recentes da batalha na Praça da Sé. Folkhen chegou por último, visivelmente cansado, mas incapaz de ignorar uma descoberta daquela magnitude. Quando todas as informações começaram a ser comparadas, um padrão inquietante emergiu. Diversas memórias extraídas da mente da vidente mencionavam lugares que não pertenciam à Terra. Algumas descreviam guerras ocorridas sob céus verdes. Outras retratavam cidades construídas dentro de montanhas vivas ou desertos atravessados por estruturas flutuantes. Durante muito tempo, Isabelle acreditara tratar-se apenas de visões simbólicas. Agora já não tinha tanta certeza. Talvez Althy realmente tivesse visto aqueles lugares. Talvez tivesse visitado alguns deles.
Foi então que uma das anotações chamou a atenção de Basco. Diferentemente dos demais registros, aquela passagem não descrevia a Cidade dos Exilados. Descrevia seus habitantes. O texto encontrava-se incompleto, danificado pela ação do tempo, mas ainda era possível compreender parte da mensagem. Segundo o autor desconhecido, os exilados não pertenciam a um único povo. Eram descendentes de inúmeras civilizações diferentes, reunidas após guerras, colapsos dimensionais e eventos capazes de destruir mundos inteiros. Alguns haviam sido expulsos de seus lares. Outros haviam fugido voluntariamente. Alguns buscavam conhecimento. Outros buscavam poder. O que todos possuíam em comum era a impossibilidade de retornar ao lugar de origem. A cidade surgira precisamente para abrigá-los. Uma espécie de refúgio construído fora das rotas normais da realidade.
O silêncio tomou conta da sala novamente. Porque a informação levantava uma pergunta inevitável. Se aquela cidade realmente reunia povos oriundos de diferentes dimensões, quantos deles poderiam representar uma ameaça? Quantos enxergariam a Terra como um território a ser conquistado? Quantos teriam observado a ruptura aberta sobre São Paulo? Ninguém possuía respostas. E essa ausência de respostas era justamente o que tornava tudo mais assustador. Pela primeira vez desde a criação dos CelleXtys, os inimigos conhecidos pareciam pequenos diante daquilo que se escondia além do véu.
Basco fechou lentamente o manuscrito e apoiou as mãos sobre a mesa. O cansaço acumulado durante os últimos meses parecia pesar ainda mais agora. A derrota de Althy, a queda de Sphinx, o desaparecimento de Igon e a salvação de São Paulo haviam criado a ilusão de encerramento. Contudo, quanto mais observava aqueles documentos, mais compreendia que estavam diante de um novo começo. Talvez a Cidade dos Exilados jamais enviasse emissários à Terra. Talvez tudo aquilo permanecesse apenas como uma ameaça distante. Mas a experiência lhe ensinara a desconfiar de coincidências. E era difícil acreditar que a abertura dimensional sobre a Praça da Sé tivesse sido ignorada por quem quer que habitasse aquele lugar.
Do lado de fora da EBX, a noite avançava silenciosa sobre São Paulo. As ruas voltavam gradualmente à normalidade. Os jornais preparavam versões incompletas dos acontecimentos. As autoridades procuravam explicações aceitáveis para os danos espalhados pelo centro histórico e pelo Shopping Eldorado. A população seguiria em frente. Como sempre acontecia. Entretanto, nos subterrâneos da antiga base dos CelleXtys, um pequeno grupo de mutantes acabava de compreender que a maior batalha de suas vidas talvez ainda estivesse por vir. E, em algum lugar além das fronteiras conhecidas da realidade, atrás de muralhas impossíveis e torres erguidas sobre o vazio, existia uma cidade inteira observando o mesmo horizonte.
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