CelleXty Saga - Temporada I

10 Revelações da madrugada


Arquivo Confidencial — Instituto Xavier

Sujeitos: Basco Khassan Markel (Nevoeiro), Ivan “Tornado”, João Victor (Hardcore), Alex Aleff, Isabelle (Rosa Vermelha), Lucius (Inquisidor), Raquel Muniz (Quarentena), Verônica (Clã Toreador), Gregory, Testament, Sphinx, Pappylon, Scariotis

Status: Baixas confirmadas. Transformação irreversível registrada. Revelação familiar crítica.


Parte 1 — A Guerra do Mascarade

Já passava das três da madrugada quando a atmosfera ao redor do Mascarade começou a mudar. Não era apenas a escuridão natural das últimas horas da noite. Havia algo mais profundo, quase ritualístico, tomando forma entre as ruas da Augusta. O ar parecia mais pesado. Os sons da cidade tornavam-se distantes, abafados por uma sensação crescente de inquietação. Muitos vampiros acreditavam que aquele horário representava o momento em que a fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos se tornava mais frágil. Basco nunca dera muita atenção a superstições. Contudo, enquanto observava a movimentação caótica ao redor da boate, teve a impressão de que aquela crença talvez escondesse alguma verdade.

Dentro do Mascarade, a tensão espalhava-se rapidamente. Funcionários conduziam frequentadores para saídas secundárias, enquanto membros da chamada Geração Vamp organizavam rotas de evacuação improvisadas. O ataque ocorrido minutos antes havia provocado algo raro: medo coletivo. Alguns vampiros mais antigos exigiam respostas imediatas. Outros cobravam providências de Verônica. Entre os sobreviventes começava a surgir uma ideia perigosa. Para muitos deles, a simples presença dos CelleXty e da comunidade mutante transformara o Mascarade em alvo. Comentários inflamados espalhavam-se pelos corredores, alimentando a crença de que vampiros e mutantes jamais deveriam compartilhar o mesmo território.

Verônica percorria os ambientes internos tentando impedir que o pânico se transformasse em revolta aberta. Sua autoridade continuava sendo respeitada, mas até mesmo ela parecia compreender que a situação caminhava para um ponto crítico. A proprietária do Mascarade conhecia guerras. Sobrevivera a impérios, revoluções e perseguições religiosas. Ainda assim, a ameaça representada por Scariotis despertava um tipo diferente de preocupação. Pela primeira vez desde que Basco a conhecera, seus olhos demonstravam algo próximo da apreensão.

Do lado de fora, a situação deteriorava-se ainda mais rapidamente.

O estacionamento transformara-se em uma espécie de fronteira improvisada entre dois mundos. De um lado estavam os CelleXty. Do outro, a Gangue Fantasma. Acima de todos eles pairava a presença silenciosa de Scariotis. O homem encapuzado permanecia imóvel, observando o cenário como alguém que já conhecia o desfecho da batalha antes mesmo de ela começar. O manto negro movia-se suavemente sob o vento da madrugada, enquanto o único olho visível continuava envolto por aquelas chamas sobrenaturais que pareciam não pertencer ao mundo físico.

Basco sentia algo estranho sempre que observava aquele olhar. Não era apenas a percepção de estar diante de um adversário poderoso. Existia familiaridade. Uma sensação incômoda de reconhecimento que surgia e desaparecia antes que pudesse ser compreendida. Desde o primeiro encontro, algo dentro dele reagia à presença de Scariotis de maneira diferente. O problema era que não conseguia identificar a origem daquela reação.

O silêncio foi rompido pelo próprio Scariotis.

Ele não gritou.

Não discursou.

Não tentou intimidar ninguém.

Limitou-se a erguer lentamente uma das mãos.

O gesto foi pequeno.

Quase despretensioso.

Mas imediatamente a Gangue Fantasma entrou em movimento.

Hardcore reagiu primeiro. As enormes asas abriram-se atrás de suas costas com um som seco, espalhando penas metálicas pelo estacionamento. Sem esperar qualquer comando, lançou-se contra Sphinx. O mutante felino respondeu com a mesma agressividade, saltando sobre veículos estacionados enquanto as garras cresciam até assumirem o formato de lâminas orgânicas. O choque entre os dois ocorreu sobre o teto de um automóvel abandonado, amassando a lataria sob o impacto da colisão. Durante alguns segundos, asas e garras misturaram-se em uma sequência violenta de ataques e contra-ataques.

Ao mesmo tempo, Ivan girava suas correntes psiônicas em amplos círculos ao redor do corpo. As chamas azuladas que percorriam os elos começaram a crescer, alimentadas pelo vento gerado por sua própria mutação. Em poucos instantes, pequenos tornados de poeira, papel e estilhaços espalharam-se pelo estacionamento. Quando Pappylon tentou avançar liberando o pólen entorpecente que tornara seu nome conhecido entre os criminosos mutantes, encontrou uma barreira de ar em constante movimento. As partículas brilhantes foram capturadas pelos redemoinhos antes de alcançar qualquer alvo.

Basco procurava Testament.

Sabia que ela estaria ali.

A mutante surgira em todos os momentos importantes daquele conflito. Encontrá-la tornou-se quase inevitável. Não demorou para localizá-la próxima à entrada lateral do estacionamento. Os olhos da mulher permaneciam fixos nele desde o início do confronto. Havia algo pessoal naquela perseguição. Algo que ultrapassava alianças temporárias ou objetivos estratégicos.

Quando começou a transformar o próprio corpo em névoa, preparando-se para enfrentá-la, algo inesperado aconteceu.

Scariotis congelou.

Pela primeira vez desde sua chegada, o líder da Gangue Fantasma demonstrou emoção.

Seu olhar abandonou completamente o restante da batalha.

Fixou-se apenas em Basco.

O estacionamento pareceu desaparecer por um breve instante.

Mutantes lutavam.

Vampiros fugiam.

Veículos eram destruídos.

Mas nada disso parecia importar.

O homem encapuzado observava a névoa como alguém observando um fantasma retornando do passado.

Não havia ódio em sua expressão.

Nem desprezo.

Havia reconhecimento.

Um reconhecimento tão profundo que chegou a ser perturbador.

Então ele avançou.

Não em direção aos CelleXty.

Não em direção aos vampiros.

Diretamente para Basco.

E, pela primeira vez naquela noite, o Nevoeiro teve a sensação de que aquela guerra talvez não fosse sobre vampiros.

Talvez nunca tivesse sido.

Parte 2 — O Despertar de Gregory

A movimentação de Scariotis alterou completamente o ritmo da batalha. Até aquele momento, o confronto seguia uma lógica relativamente compreensível: vampiros tentando sobreviver, CelleXty impedindo um massacre e a Gangue Fantasma executando o plano para o qual fora contratada. Entretanto, quando o líder encapuzado voltou toda sua atenção para Basco, algo mudou. Foi como se uma força invisível atravessasse o estacionamento e obrigasse todos os presentes a perceber que existia uma história muito maior escondida por trás daquele conflito.

Scariotis ergueu a mão na direção de Basco.

O impacto veio antes que qualquer reação fosse possível.

A força telecinética atingiu o mutante como uma locomotiva desgovernada. Seu corpo atravessou o estacionamento, chocando-se contra uma fileira de automóveis estacionados. O metal retorceu-se sob a violência da colisão, alarmes dispararam simultaneamente e fragmentos de vidro espalharam-se pelo asfalto. Durante alguns segundos, a visão de Basco tornou-se confusa. A dor irradiava pelo corpo inteiro, mas algo o incomodava muito mais do que os ferimentos. Mesmo depois daquele ataque brutal, continuava sentindo que Scariotis estava hesitando.

Como se não desejasse matá-lo.

Ou não pudesse.

O restante do conflito explodiu ao mesmo tempo.

Sphinx conseguiu romper momentaneamente a defesa de Hardcore, rasgando parte de uma das asas com as garras envenenadas. João Victor respondeu com violência proporcional, utilizando as próprias penas endurecidas como lâminas capazes de cortar concreto. O mutante felino recuou apenas o suficiente para evitar ferimentos mais graves, mas o sorriso predatório permanecia estampado em seu rosto. Para alguém como ele, a batalha parecia representar diversão tanto quanto sobrevivência.

Do outro lado do estacionamento, Ivan continuava pressionando Pappylon. Os tornados criados por suas correntes psiônicas impediam que o pólen se espalhasse livremente, obrigando o adversário a recuar constantemente. Ainda assim, o europeu mantinha a elegância característica, desviando das rajadas de vento com movimentos quase coreografados. A cada segundo, ficava mais evidente que a Gangue Fantasma não era apenas um grupo de criminosos. Seus integrantes estavam acostumados a lutar juntos.

Foi então que Testament decidiu agir.

A mutante fechou os olhos por alguns instantes e ergueu lentamente os braços. Sua expressão tornou-se serena, quase religiosa. O efeito manifestou-se imediatamente. Diversos vampiros que tentavam abandonar o Mascarade interromperam seus movimentos. Alguns pararam no meio da corrida. Outros voltaram-se para o estacionamento com olhares vazios. Em poucos segundos, dezenas deles começaram a caminhar na direção do conflito como marionetes obedecendo a um comando invisível.

Basco reconheceu o que estava acontecendo.

Controle mental.

Não era uma influência sutil.

Era dominação completa.

Os vampiros avançavam sem qualquer preocupação com a própria segurança, transformando-se em armas improvisadas contra seus semelhantes.

O caos aumentou.

Foi justamente nesse momento que os reforços chegaram.

Alex Aleff surgiu na entrada principal acompanhado por Lucius, Isabelle e Raquel. A presença deles alterou imediatamente o equilíbrio da batalha. Enquanto os vampiros dominados avançavam de forma desordenada, Alex posicionou-se entre os dois grupos com a firmeza de alguém acostumado a enfrentar situações impossíveis. Não havia agressividade em seus movimentos. Apenas determinação. Seu objetivo era impedir que aquele conflito se transformasse em um massacre.

Lucius avançou logo atrás. A energia azulada percorreu seu braço direito e espalhou-se pelo ar na forma de símbolos luminosos. Rajadas psicocinéticas atingiram os vampiros controlados por Testament, derrubando-os sem causar ferimentos permanentes. Ao mesmo tempo, Isabelle utilizava suas habilidades telepáticas para romper a influência mental imposta pela adversária. Cada mente libertada representava uma pequena vitória dentro de uma situação que piorava a cada minuto.

Raquel escolheu outro alvo.

Quarentena conhecia os riscos envolvidos em sua mutação melhor do que qualquer pessoa. Por isso evitava combates físicos sempre que possível. Naquela noite, porém, não havia espaço para cautela. Pappylon já havia demonstrado ser uma ameaça grave demais para permanecer livre. Enquanto Ivan o mantinha ocupado, Raquel aproximou-se rapidamente e conseguiu tocar seu braço.

O efeito foi imediato.

A pele do mutante começou a escurecer.

Veias tornaram-se visíveis.

Tecido muscular entrou em colapso.

Pappylon gritou de dor enquanto a necrose espalhava-se pelo membro atingido.

Mas ele também reagiu.

Num reflexo desesperado, liberou uma quantidade massiva de pólen diretamente contra Raquel.

A nuvem dourada envolveu a jovem antes que qualquer pessoa pudesse intervir.

Basco percebeu o perigo imediatamente.

Tentou alcançá-la.

Tarde demais.

Raquel cambaleou.

Depois caiu.

Sua própria mutação parecia entrar em colapso. O organismo, já alterado pelo contato constante com agentes biológicos e toxinas, começou a reagir de forma imprevisível ao ataque químico de Pappylon. Convulsões percorreram seu corpo enquanto a pele assumia tonalidades cada vez mais pálidas.

Lucius correu em sua direção.

Isabelle também.

Mas ambos perceberam rapidamente que a situação ultrapassava suas capacidades.

Enquanto isso, Testament voltava sua atenção para Hardcore.

A mulher pronunciou palavras em um idioma que nenhum dos presentes reconheceu completamente. Não eram gritos nem encantamentos dramáticos. Pareciam instruções sussurradas diretamente para a mente do alvo. João Victor interrompeu o combate de forma abrupta. Seu olhar perdeu o foco. As asas relaxaram.

Por um instante, permaneceu imóvel.

Então ergueu lentamente uma das penas transformadas em lâmina.

E apontou-a para o próprio peito.

Basco sentiu o estômago gelar.

Não era controle físico.

Era algo pior.

Testament estava convencendo Hardcore a destruir a si mesmo.

A intervenção de Isabelle aconteceu no último segundo. A telepata rompeu a sugestão mental com uma descarga psíquica precisa, libertando o jovem antes que a lâmina atravessasse seu corpo. João Victor recuou atordoado, sem compreender completamente o que acabara de acontecer.

Foi nesse instante que Scariotis decidiu encerrar a resistência.

A energia invisível espalhou-se pelo estacionamento como uma onda sísmica.

Veículos foram esmagados.

Postes entortaram.

Corpos foram arremessados contra paredes e fachadas.

A pressão era tão intensa que muitos vampiros simplesmente desmaiaram.

Outros morreram.

Basco tentou levantar-se.

Lucius esforçava-se para proteger os mais próximos.

Alex mantinha-se de pé apenas pela força de vontade.

Então um grito atravessou o caos.

Gregory.

O menino vampiro estava ajoelhado próximo à entrada do Mascarade.

Assustado.

Ferido.

E completamente incapaz de compreender o que acontecia ao redor.

Algo despertou dentro dele.

Uma luz prateada começou a surgir sob sua pele.

Primeiro nas mãos.

Depois nos braços.

Então por todo o corpo.

O fenômeno espalhou-se como uma explosão silenciosa.

Tudo que tocava começava a mudar.

O asfalto transformava-se em prata.

Fragmentos de concreto convertiam-se em metal reluzente.

Vampiros atingidos pelo fenômeno tornavam-se estátuas imóveis.

Pappylon gritou quando parte de seu rosto começou a cristalizar.

Hardcore tentou afastar-se.

Não conseguiu.

A onda prateada alcançou suas pernas.

Depois o tronco.

Depois as asas.

Em poucos segundos, João Victor transformou-se em uma magnífica estátua metálica congelada no meio do campo de batalha.

Então Gregory perdeu a consciência.

E o silêncio finalmente caiu sobre o estacionamento.

Quando a poeira começou a baixar, Basco percebeu a dimensão da tragédia.

Hardcore permanecia imóvel.

Transformado em prata.

Raquel já não respirava.

E a madrugada que começara como uma simples missão havia se transformado no dia mais sombrio da história dos CelleXty.

Parte 3 — Igon

O silêncio que tomou conta do estacionamento após a explosão prateada provocada por Gregory não possuía qualquer traço de tranquilidade. Era o silêncio dos campos de batalha depois da devastação, quando sobreviventes ainda tentam compreender a dimensão da tragédia que testemunharam. Alarmes de automóveis continuavam disparando ao longe, fumaça subia lentamente dos veículos destruídos e fragmentos de concreto cobriam o asfalto como destroços de uma guerra. Basco ergueu-se com dificuldade entre os carros amassados, sentindo dores por todo o corpo. Seus olhos procuraram imediatamente João Victor. A visão foi suficiente para apertar seu peito. Hardcore permanecia imóvel, completamente transformado em prata. As asas continuavam abertas, congeladas no instante exato em que tentara resistir à onda liberada por Gregory. Não parecia um cadáver. Parecia uma escultura perfeita. Mas a ausência de qualquer movimento tornava aquela imagem ainda mais cruel.

Poucos metros adiante, Lucius permanecia ajoelhado ao lado de Raquel. O Inquisidor não precisava pronunciar palavra alguma para que todos compreendessem o que havia acontecido. A jovem já não respirava. Sua batalha contra Pappylon terminara da forma mais injusta possível. Depois de uma vida inteira sendo tratada como ameaça por causa de sua mutação, encontrara na EBX um lugar onde finalmente podia existir sem medo. Agora jazia sobre o asfalto frio enquanto Isabelle permanecia ao seu lado, incapaz de esconder a tristeza. A morte de Raquel atingia todos os presentes de maneira profunda porque não representava apenas a perda de uma companheira de equipe. Representava a perda de alguém que havia se tornado parte daquela família construída nos subterrâneos da cidade.

O choque coletivo foi interrompido pelo estampido de uma arma de fogo. Basco virou-se instintivamente e viu Pappylon próximo aos destroços de um automóvel. Metade de seu rosto havia sido tomada pela cristalização prateada provocada pelo poder de Gregory, mas o ódio que queimava em seus olhos parecia superar a dor física. Segurando uma escopeta calibre doze, o mutante apontou a arma na direção do garoto vampiro e de Alex Aleff. Isabelle tentou invadir sua mente no mesmo instante, mas não foi rápida o suficiente para impedir o disparo. O som ecoou pelo estacionamento e os projéteis atingiram Alex em cheio. O líder dos CelleXty foi lançado para trás, tombando próximo a Gregory. Durante um breve segundo, todos acreditaram que mais uma vida havia sido perdida naquela madrugada.

Mas Alex recusou-se a cair. Mesmo ferido, ergueu-se lentamente enquanto sua mutação regenerativa trabalhava para reconstruir tecidos destruídos e conter o sangramento. A dor estampada em seu rosto demonstrava que o processo estava longe de ser simples, mas ele ignorou completamente os próprios ferimentos. Sua primeira preocupação foi alcançar Gregory. O garoto permanecia inconsciente, exausto após liberar uma quantidade absurda de energia mutante. Alex verificou seus sinais vitais e respirou aliviado ao constatar que ele continuava vivo. Aquela pequena vitória era uma das poucas coisas positivas que ainda restavam naquela noite.

Foi então que Basco voltou sua atenção para Scariotis. O homem permanecia parado no centro do estacionamento, observando os destroços, os mortos e os feridos com uma expressão impossível de interpretar. Pela primeira vez desde que surgira, não parecia uma entidade sobrenatural nem um guerreiro invencível. Parecia alguém tentando compreender um acontecimento que escapara ao seu controle. A morte de Raquel, a transformação de Hardcore e o despertar de Gregory claramente não faziam parte de seus planos. Ainda assim, sua presença continuava sendo a origem de toda aquela tragédia. A revolta que Basco tentava controlar desde o início da batalha finalmente rompeu qualquer limite racional.

A névoa espalhou-se violentamente pelo estacionamento. Em poucos segundos, veículos destruídos, postes retorcidos e montanhas de escombros desapareceram sob uma massa branca e densa. Scariotis foi engolido pela tempestade de vapor antes que pudesse reagir. Dentro daquele ambiente, as regras mudavam completamente. A névoa não era apenas uma manifestação de poder. Era uma extensão da consciência de Basco. Cada partícula carregava sua percepção, seus sentidos e sua vontade. Pela primeira vez naquela noite, o equilíbrio do combate mudou. Scariotis lançou sucessivas ondas telecinéticas que destruíram concreto e rasgaram o asfalto, mas toda sua força parecia inútil contra um adversário que não possuía uma forma física fixa para atingir.

Movendo-se através da neblina, Basco surgiu diante do inimigo diversas vezes, atacando e desaparecendo antes que qualquer reação fosse possível. A cada investida, a certeza de que poderia encerrar aquele conflito aumentava. Bastava continuar pressionando. Bastava encontrar uma abertura. Bastava ignorar as dúvidas que insistiam em surgir sempre que encarava aquele rosto oculto sob o capuz. Foi exatamente nesse momento que a voz de Testament atravessou a névoa.

A frase atingiu Basco com mais força do que qualquer golpe recebido naquela madrugada. Quando a mulher perguntou se ele realmente pretendia matar o próprio irmão, algo se rompeu dentro dele. O mundo ao redor pareceu perder consistência. A névoa vacilou. As memórias vieram sem qualquer aviso, emergindo das profundezas de sua mente como fragmentos de uma vida que julgava esquecida para sempre. Ele viu uma casa simples cercada por árvores. Viu uma criança correndo entre trilhas cobertas pela névoa da manhã. Escutou risadas, vozes familiares e recordou uma sensação de felicidade que não experimentava havia muitos anos. Entre todas aquelas imagens, um rosto repetia-se continuamente. O rosto de um menino que o acompanhava em todas as lembranças importantes da infância. Um menino que desaparecera junto com seu pai. Um menino chamado Igon.

A revelação não aconteceu apenas dentro da mente de Basco. Quando as barreiras criadas pela névoa enfraqueceram, algo semelhante a uma conexão psíquica estabeleceu-se entre os dois. Fragmentos de memória passaram de uma consciência para outra em um fluxo impossível de controlar. Basco viu momentos da vida de Scariotis. Scariotis viu as perdas, os medos e os anos de solidão enfrentados por Basco. Durante alguns segundos, ambos compartilharam lembranças suficientes para compreender uma verdade que nenhuma investigação, profecia ou documento seria capaz de revelar. Eles não eram estranhos. Nunca haviam sido.

Quando a névoa finalmente começou a se dissipar, os dois permaneceram imóveis em meio aos destroços. O olhar de Scariotis havia mudado completamente. A frieza desaparecera. Em seu lugar existiam emoções muito mais humanas: confusão, dor e algo que se aproximava de saudade. Testament percebeu imediatamente o que acabara de acontecer. Pela primeira vez, a mutante pareceu genuinamente preocupada. Antes que qualquer nova palavra fosse pronunciada, as sirenes da polícia começaram a ecoar ao longe. Scariotis voltou-se lentamente para seus aliados e ordenou a retirada. Sphinx obedeceu sem questionar. Pappylon recuou carregando seus próprios ferimentos. Testament lançou um último olhar para Basco antes de desaparecer na escuridão.

Horas depois, já nos túneis subterrâneos da Escola Brasil X, o silêncio continuava pesando sobre todos os sobreviventes. Gregory era levado para a enfermaria. Alex recebia atendimento médico. Lucius ajudava Basco a caminhar enquanto Isabelle permanecia alguns passos atrás. Nenhum deles sabia como lidar com as perdas daquela noite. Foi então que Basco finalmente reuniu forças para verbalizar aquilo que já não podia mais negar. Com a voz baixa e carregada pelo cansaço, revelou a verdade que mudaria completamente o rumo daquela guerra. Scariotis não era apenas o líder da Gangue Fantasma. Não era apenas o responsável pelo massacre daquela madrugada. Scariotis era Igon. Seu irmão desaparecido. E essa descoberta tornava tudo infinitamente mais complicado do que qualquer um deles poderia imaginar.

Basco permaneceu em silêncio enquanto os corredores da EBX desapareciam à sua frente. Durante anos acreditara que o pai e o irmão haviam sido engolidos pelo passado. Agora sabia que um deles continuava vivo. Não como a criança que recordava, mas como o homem responsável por espalhar morte e destruição naquela madrugada. A descoberta não trouxe conforto, nem esperança. Trouxe apenas uma certeza inquietante: a guerra contra Scariotis não seria vencida com força, estratégia ou poder. Porque, antes de ser um inimigo, ele era Igon. E nenhuma batalha é mais difícil do que lutar contra o próprio sangue.