Arquivo Confidencial — Instituto Xavier

Sujeito: Basco Khassan Markel

Codinome: Nevoeiro

Status: Integrado provisoriamente à equipe CelleXty. Risco elevado de influência extradimensional (Limbo).


Os primeiros dias de Basco na EBX transcorreram de maneira muito diferente daquilo que imaginara quando despertara na enfermaria após o incidente no Osasco Plaza Shopping. Acostumado a viver sozinho havia anos, esperava encontrar uma rotina marcada por desconfiança, avaliações constantes ou algum tipo de período de adaptação formal. Nada disso aconteceu. A escola funcionava como um organismo vivo, onde cada pessoa encontrava naturalmente seu espaço sem a necessidade de grandes apresentações. Jovens mutantes circulavam pelos corredores carregando livros, participando de treinamentos ou simplesmente conversando nos espaços comuns, enquanto pesquisadores e instrutores mantinham a estrutura funcionando sem transformar o lugar em um quartel. Aos poucos, Basco percebeu que a EBX possuía algo raro: conseguia oferecer proteção sem aprisionar aqueles que viviam ali.

Foi apenas ao final da primeira semana que conheceu oficialmente o homem responsável por coordenar as operações dos CelleXty. Embora Raul administrasse a escola com eficiência admirável, existia alguém encarregado das decisões em campo, dos resgates e das situações em que erros podiam custar vidas. O nome de Alex Aleff já circulava pelos corredores acompanhado de um respeito quase unânime. Nenhum aluno falava dele com medo. Nenhum integrante da equipe demonstrava obediência cega. O sentimento predominante parecia ser confiança. Aquilo chamou a atenção de Basco imediatamente, pois líderes verdadeiramente respeitados eram muito mais raros do que líderes simplesmente obedecidos.

Quando Alex entrou na sala de reuniões, a primeira impressão foi surpreendente. Nada em sua aparência lembrava um comandante de operações perigosas. O homem vestia um elegante terno cinza, mantinha a barba cuidadosamente aparada e usava óculos discretos que lhe conferiam a aparência de um professor universitário. Seus movimentos eram tranquilos e econômicos, sem qualquer necessidade de demonstrar autoridade através da postura. Ainda assim, bastaram poucos segundos para que Basco percebesse por que todos o respeitavam. Havia segurança em cada gesto. Não a segurança arrogante de quem acredita saber tudo, mas a serenidade de quem enfrentou situações difíceis o suficiente para compreender que o controle emocional vale mais do que qualquer demonstração de força.

A apresentação aconteceu sem formalidades excessivas. Lucius limitou-se a aproximar-se e apresentar os dois. Alex apertou sua mão com firmeza, observando-o durante alguns segundos antes de sorrir.

— Finalmente nos encontramos.

A voz possuía um leve sotaque português que tornava cada frase mais suave.

— Ouvi falar bastante sobre você.

Basco respondeu ao aperto de mão sem esconder um discreto sorriso.

— Espero que tenham contado as partes boas.

Alex pareceu refletir por um instante.

— Ainda estou tentando descobrir quais são.

A resposta arrancou risadas dos demais presentes e dissolveu imediatamente qualquer tensão que ainda existisse. Basco percebeu que aquela habilidade de deixar as pessoas confortáveis não era acidental. Alex sabia exatamente como conduzir uma conversa sem transformar uma reunião em um interrogatório.

Durante os minutos seguintes, a atenção voltou-se para o funcionamento da escola. Grandes monitores exibiam mapas do Brasil marcados por diferentes ocorrências mutantes, enquanto relatórios eram compartilhados entre os integrantes da equipe. Foi então que Basco percebeu um equipamento instalado próximo à parede lateral. Mesmo sendo menor que a versão original existente nos Estados Unidos, reconheceu imediatamente sua função. Tratava-se de uma adaptação do Cérebro, o sistema criado por Charles Xavier para localizar mutantes em diferentes partes do mundo. A simples presença daquela tecnologia reforçava algo que já suspeitava: a ligação entre a Escola Xavier e a EBX era muito mais profunda do que imaginara.

Alex percebeu o interesse do recém-chegado e explicou que o próprio Professor Xavier ajudara a desenvolver aquele sistema anos antes. A revelação trouxe a Basco uma sensação inesperada de familiaridade. Pela primeira vez desde que deixara Westchester, sentiu que parte de sua antiga vida ainda permanecia conectada ao presente. Talvez não estivesse tão distante de tudo quanto acreditava.

Após discutirem questões operacionais da escola, Alex finalmente voltou toda a atenção para ele. Durante alguns segundos permaneceu em silêncio, como se procurasse compreender algo além das informações registradas em relatórios.

— Você passou por muita coisa em pouco tempo.

A observação não possuía julgamento.

Apenas sinceridade.

Basco assentiu.

— Passei.

Alex cruzou lentamente os braços.

— E, mesmo assim, continua aqui.

A frase pareceu simples, mas carregava um significado maior do que aparentava. Basco compreendeu imediatamente. Muitas pessoas enfrentavam tragédias. Nem todas conseguiam continuar seguindo em frente. Durante alguns instantes recordou-se de Thamine, de Illyana, dos anos passados tentando fugir da própria dor e de todas as vezes em que acreditara não possuir forças para continuar.

— Algumas perdas deixam de doer. — respondeu. — Outras apenas aprendemos a carregar.

Alex permaneceu observando-o por alguns segundos antes de concordar.

— É exatamente essa diferença que costuma definir o futuro de um mutante.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Pelo contrário. Basco percebeu que, diferente de muitos líderes que conhecera ao longo da vida, Alex não falava para impressionar. Falava apenas quando acreditava ter algo relevante a dizer.

Foi então que o assunto principal da reunião surgiu.

Alex explicou que a Escola Brasil X possuía um grupo responsável pelas operações externas mais delicadas. Não se tratava de uma equipe militar nem de uma tentativa de reproduzir os X-Men em território brasileiro. Eram mutantes que assumiam voluntariamente a responsabilidade de proteger outros mutantes, investigar ameaças e agir quando ninguém mais podia fazê-lo.

— Chamamo-nos CelleXty.

O nome era novo para Basco.

Ainda assim, algo nele despertou uma sensação imediata de pertencimento.

Alex continuou explicando que os integrantes da equipe atuavam em diferentes partes do país, auxiliando jovens perseguidos, investigando ocorrências incomuns e oferecendo suporte a mutantes que não possuíam para onde ir. Quanto mais escutava, mais Basco percebia que aquela missão possuía o mesmo espírito que o inspirara anos antes na Escola Xavier.

Por fim, Alex fez o convite.

Não houve discurso.

Não houve pressão.

Apenas a oportunidade de escolher.

Basco observou Lucius, Ivan e Isabelle. Durante pouco tempo de convivência, aquelas pessoas já haviam feito mais por ele do que muitos conhecidos ao longo dos anos. Pela primeira vez desde que deixara os Estados Unidos, a ideia de pertencer a um grupo não parecia assustadora.

Respirou fundo antes de responder.

— Passei tempo demais tentando sobreviver sozinho.

Fez uma breve pausa.

— Se vocês acreditam que posso ajudar... então aceito.

O sorriso que surgiu no rosto de Alex foi discreto, mas sincero.

— Então seja bem-vindo aos CelleXty.

Naquele momento, sem perceber, Basco encerrava um dos períodos mais solitários de sua vida.

E outro capítulo começava.

A integração de Basco aos CelleXty aconteceu de forma mais natural do que ele imaginava. Nos dias seguintes à reunião com Alex Aleff, passou a participar da rotina da equipe, conhecendo não apenas os protocolos operacionais da organização, mas também as pessoas que a mantinham funcionando. A convivência diária revelou facetas que dificilmente apareceriam durante treinamentos ou missões. Ivan, por exemplo, possuía um senso de humor quase irritante em determinados momentos, mas era impossível não reconhecer sua lealdade. Isabelle equilibrava firmeza e sensibilidade de maneira admirável, funcionando muitas vezes como o elo que impedia discussões de transformarem-se em conflitos. Lucius continuava sendo o mais reservado do grupo, embora agora Basco enxergasse por trás da serenidade habitual um peso que antes não conseguira perceber.

Pouco tempo depois da oficialização de sua entrada na equipe, surgiu a oportunidade de participar do primeiro treinamento externo. Diferentemente das simulações realizadas dentro da escola, aquela atividade tinha como objetivo preparar os novos integrantes para cenários reais envolvendo infraestrutura urbana. A região escolhida foi uma antiga estação de distribuição elétrica localizada em uma área industrial parcialmente desativada da Grande São Paulo. O local oferecia quilômetros de estruturas metálicas, transformadores abandonados e corredores de manutenção que simulavam perfeitamente ambientes onde mutantes frequentemente precisavam atuar durante resgates ou investigações.

O céu permanecia encoberto quando o grupo chegou ao local. Grandes torres metálicas desenhavam silhuetas sombrias contra as nuvens, enquanto o vento fazia cabos antigos vibrarem suavemente acima de suas cabeças. Alex conduziu a primeira parte do treinamento com a mesma tranquilidade que demonstrava dentro da EBX. Em vez de focar exclusivamente em combate, enfatizou percepção, tomada de decisão e trabalho em equipe. Segundo ele, a maioria dos erros cometidos por jovens mutantes não acontecia durante confrontos, mas antes deles. Pessoas morriam porque alguém interpretava mal uma situação, ignorava informações importantes ou permitia que emoções assumissem o controle.

Basco escutava atentamente. Muitas das lições lembravam ensinamentos recebidos anos antes de Magneto e Hank McCoy. Ainda assim, ouvir aquelas palavras em solo brasileiro possuía um significado diferente. Pela primeira vez desde sua volta ao país, sentia que estava construindo algo em vez de apenas reagir aos acontecimentos.

Durante uma pausa, afastou-se com Ivan para uma área elevada da estação. Dali era possível observar praticamente toda a estrutura industrial espalhada pelo terreno. O vento carregava cheiro de chuva, enquanto o som distante da cidade chegava apenas como um murmúrio constante.

— Você está estranho desde que entrou para a equipe. — comentou Ivan.

Basco ergueu uma sobrancelha.

— Estranho como?

— Como alguém esperando que tudo dê errado.

A observação foi direta demais para ser ignorada.

Ivan apoiou os cotovelos sobre uma das grades metálicas e continuou observando o horizonte.

— Não estou criticando. Só reconheço o padrão.

Durante alguns segundos, Basco permaneceu em silêncio.

— E por que reconheceria?

Ivan soltou uma breve risada.

— Porque eu também era assim.

A sinceridade da resposta desarmou qualquer tentativa de defesa. Pela primeira vez desde que se conheceram, a conversa abandonava as brincadeiras habituais para tocar algo mais profundo.

— Quando você perde pessoas suficientes, começa a acreditar que perder é inevitável. — continuou Ivan. — O problema é que isso também faz você esperar a próxima tragédia o tempo inteiro.

Basco desviou o olhar para as nuvens.

Não respondeu.

Porque sabia que Ivan tinha razão.

Foi justamente nesse instante que algo mudou.

Primeiro veio a sensação.

Uma pressão estranha no ar.

Depois o som.

Um ruído grave, semelhante ao ranger de metal sob tensão extrema.

Os dois voltaram-se simultaneamente para o centro da estação.

A poucos metros dali, o espaço parecia distorcer-se.

Como se uma parte da realidade estivesse sendo lentamente rasgada.

A energia elétrica presente nos transformadores começou a oscilar violentamente. Faíscas atravessaram estruturas metálicas, lâmpadas explodiram e o chão vibrou sob seus pés. O treinamento terminou instantaneamente. Todos os integrantes dos CelleXty assumiram posições defensivas enquanto Alex avaliava a situação.

Então a ruptura abriu-se completamente.

Basco já havia testemunhado fenômenos extradimensionais antes. Conhecia os portais utilizados por Illyana Rasputina e lembrava-se perfeitamente das descrições sobre o Limbo feitas por diferentes membros dos X-Men. Ainda assim, nada o preparou para a visão diante de seus olhos.

A abertura parecia uma ferida viva suspensa no ar.

Sombras moviam-se em seu interior.

Relâmpagos vermelhos iluminavam paisagens impossíveis.

E algo atravessava lentamente aquela passagem.

A criatura possuía mais de dois metros de altura. A pele avermelhada lembrava rocha vulcânica, enquanto longos chifres curvavam-se para trás acompanhando o formato do crânio. As asas membranosas agitavam-se lentamente atrás das costas, e os olhos brilhavam como brasas acesas. Sua simples presença fazia o ambiente parecer menor.

Basco sentiu o sangue gelar.

Porque conhecia aquela aparência.

Não pessoalmente.

Mas através das histórias.

Dos registros.

Dos avisos.

Do medo.

Limbo.

A palavra surgiu imediatamente em sua mente.

A criatura avançou alguns passos para fora da ruptura dimensional e observou o grupo diante dela. Seus olhos percorreram Ivan, Isabelle, Lucius e Alex sem demonstrar interesse real. Então encontraram Basco.

E permaneceram ali.

Um sorriso cruel surgiu lentamente em seu rosto.

— Finalmente.

A voz parecia composta por múltiplos sons sobrepostos.

Grave.

Antiga.

Inumana.

Todos os membros da equipe imediatamente perceberam que algo estava errado.

A criatura não surgira por acaso.

Ela estava procurando alguém.

E esse alguém era Basco.

O mutante sentiu o coração acelerar.

Memórias esquecidas começaram a agitar-se nas profundezas de sua mente. Sonhos antigos. A floresta envolta pela neblina. A sensação constante de ser observado durante a infância. Durante anos acreditara que aquelas lembranças fragmentadas fossem apenas consequências do trauma provocado pelo desaparecimento do pai e do irmão.

Agora já não tinha tanta certeza.

A criatura abriu lentamente as asas.

— Belasco estava certo.

O nome atingiu Basco como um golpe.

Mesmo sem compreender totalmente o motivo, sentiu uma reação instintiva percorrer seu corpo.

Como se aquela palavra estivesse ligada a algo enterrado muito profundamente dentro dele.

— Você realmente sobreviveu.

O silêncio tornou-se absoluto.

Nem Alex.

Nem Lucius.

Nem qualquer outro integrante dos CelleXty parecia compreender o significado daquelas palavras.

Mas Basco sabia.

Ou melhor.

Alguma parte esquecida dele sabia.

E essa parte estava começando a despertar.

O silêncio que tomou conta da antiga estação elétrica parecia impossível diante da quantidade de equipamentos, estruturas metálicas e transformadores espalhados pelo local. Ainda assim, durante alguns segundos, ninguém se moveu. A criatura permanecia parada diante da ruptura dimensional, observando Basco com uma mistura inquietante de reconhecimento e satisfação. O nome mencionado momentos antes — Belasco — continuava ecoando dentro de sua mente como uma lembrança esquecida tentando romper uma barreira antiga. Ele não sabia exatamente quem era Belasco. Não conscientemente. Porém, alguma parte de sua memória reagira àquele nome de forma imediata, despertando uma sensação de perigo que ultrapassava qualquer lógica.

Alex foi o primeiro a romper a paralisação.

Sem elevar a voz, posicionou-se discretamente alguns passos à frente do grupo, avaliando a situação com a mesma calma que demonstrava durante as reuniões na EBX. A experiência ensinara que o medo era contagioso, e líderes eficientes não permitiam que ele se espalhasse. Ivan e Isabelle assumiram posições de combate quase simultaneamente, enquanto Lucius observava atentamente a criatura. O brilho azulado começou a surgir novamente em seu braço direito, percorrendo a pele como pequenas correntes luminosas. A presença daquela energia indicava que ele reconhecia a gravidade do que estava acontecendo.

A criatura abriu lentamente as asas, revelando uma envergadura impressionante. O vento produzido pelo movimento espalhou poeira e pequenos fragmentos metálicos pelo terreno.

— Meu nome é Nastirth.

Sua voz parecia surgir de vários lugares ao mesmo tempo.

— E atravessei o Limbo para encontrá-lo, Basco Khassan Markel.

O uso de seu nome completo provocou um arrepio involuntário. Basco avançou um passo, ignorando o impulso de permanecer atrás dos companheiros.

— Como sabe quem eu sou?

O sorriso da criatura aumentou.

— Porque seu nome é conhecido há muito tempo.

Nastirth inclinou levemente a cabeça.

— Muito antes de você nascer.

A resposta apenas ampliou a confusão.

Durante anos, Basco conviveu com perguntas sem resposta sobre o desaparecimento do pai e do irmão. Havia aprendido a aceitar que talvez jamais descobrisse toda a verdade. Agora, porém, uma entidade surgida de outra dimensão demonstrava conhecer detalhes de sua vida que nem mesmo ele compreendia.

— Você está mentindo.

Nastirth soltou uma espécie de gargalhada grave.

— Se estivesse mentindo, não teria atravessado mundos para encontrá-lo.

A atmosfera tornou-se ainda mais pesada.

Lucius observava atentamente cada palavra trocada entre os dois. Alex, por sua vez, parecia avaliar possibilidades estratégicas enquanto mantinha a equipe preparada para reagir caso o diálogo fracassasse.

Foi então que Nastirth pronunciou as palavras que mudariam tudo.

— Seu pai não morreu.

O impacto foi imediato.

Basco permaneceu imóvel.

Não porque acreditasse instantaneamente naquilo.

Mas porque aquela frase atingia o centro de uma ferida que jamais cicatrizara.

Durante toda a infância ouviu versões contraditórias sobre Edher. Algumas pessoas afirmavam que ele havia abandonado a família. Outras sugeriam um desaparecimento misterioso. Com o passar dos anos, a ausência de respostas transformou-se em uma espécie de luto permanente.

Agora, diante dele, estava uma criatura afirmando exatamente o contrário.

— Você não sabe do que está falando.

Sua voz saiu mais dura do que pretendia.

Nastirth aproximou-se lentamente.

— Sei muito mais do que imagina.

A criatura voltou os olhos para a ruptura dimensional atrás de si.

— Edher atravessou caminhos que poucos humanos suportariam percorrer.

Fez uma breve pausa.

— E não estava sozinho.

O coração de Basco acelerou.

— Igon...

O nome escapou antes mesmo que pudesse impedir.

Pela primeira vez, Nastirth demonstrou surpresa.

Uma surpresa genuína.

— Então você ainda se lembra dele.

A frase confirmou aquilo que Basco temia.

Igon também estava ligado àquele mistério.

Seu irmão.

A criança que desaparecera junto com o pai.

A lembrança mais antiga que ainda conseguia preservar.

Durante alguns segundos, todas as demais pessoas presentes pareceram desaparecer. O mundo reduziu-se àquela conversa absurda entre um mutante marcado por perdas e uma criatura vinda do Limbo.

— Onde eles estão?

Nastirth observou-o atentamente.

— Essa é exatamente a pergunta que Belasco acreditava que você faria.

O nome voltou a surgir.

Desta vez acompanhado de algo ainda pior.

Medo.

Não o medo comum diante de uma ameaça física.

Era uma reação mais profunda.

Instintiva.

Como se determinadas memórias enterradas estivessem tentando permanecer ocultas por um motivo muito específico.

Alex finalmente interveio.

— Chega.

Sua voz cortou o diálogo.

— Se veio apenas para brincar com a mente dele, a conversa termina aqui.

Nastirth voltou-se lentamente para o líder dos CelleXty.

Por um instante, seus olhos assumiram um brilho ameaçador.

— Você acredita que compreende a situação, humano.

As sombras ao redor da criatura começaram a agitar-se.

— Mas existem forças muito mais antigas em movimento.

O ar tornou-se pesado.

A energia azul de Lucius intensificou-se.

A névoa começou a espalhar-se involuntariamente ao redor de Basco.

E então o confronto tornou-se inevitável.

Nastirth avançou.

A reação dos CelleXty foi imediata.

Ivan transformou-se em um borrão de velocidade, surgindo ao lado da criatura antes mesmo que ela completasse o primeiro movimento. Isabelle utilizou seus poderes para erguer uma barreira protetora entre o grupo e a ruptura dimensional. Lucius projetou símbolos luminosos que cortaram o ar como lâminas de energia, obrigando o demônio a recuar.

Basco também agiu.

A névoa expandiu-se violentamente pelo terreno, envolvendo estruturas metálicas, transformadores e passarelas elevadas. Em poucos segundos, grande parte da estação desapareceu sob uma espessa cortina branca. O objetivo não era destruir Nastirth.

Era limitar sua visão.

Criar oportunidades.

Trabalhar em equipe.

Pela primeira vez desde sua entrada nos CelleXty, sentiu-se verdadeiramente parte daquele grupo.

O combate durou poucos minutos.

Mas foi suficiente para demonstrar que Nastirth não estava ali para vencer uma batalha. Sua verdadeira missão era entregar uma mensagem.

Quando percebeu que o elemento surpresa havia desaparecido, voltou a recuar em direção à ruptura dimensional.

— O tempo está acabando, Basco.

Sua voz ecoou através da névoa.

— Seu pai continua procurando um caminho de volta.

As sombras começaram a envolver seu corpo.

— E seu irmão está mais próximo do que imagina.

Antes que qualquer pessoa pudesse impedir, a criatura atravessou novamente o portal. A abertura dimensional começou a fechar-se imediatamente depois, reduzindo-se a uma fina rachadura luminosa antes de desaparecer por completo.

O silêncio retornou.

Desta vez, porém, era um silêncio diferente.

Ninguém sabia exatamente o que dizer.

Alex aproximou-se primeiro.

Observou Basco durante alguns segundos antes de falar.

— Você acredita nele?

A pergunta era simples.

A resposta, não.

Basco voltou os olhos para o local onde o portal existira.

Pensou em Edher.

Pensou em Igon.

Pensou nos sonhos recorrentes que o perseguiam desde a infância.

E pensou no medo que sentira ao ouvir o nome Belasco.

— Não sei.

A resposta saiu sincera.

— Mas pela primeira vez em muitos anos... acho que alguém finalmente me deu uma pista verdadeira.

Alex assentiu lentamente.

Não tentou oferecer consolo.

Não tentou apresentar teorias.

Apenas colocou a mão sobre seu ombro.

Às vezes, isso era suficiente.

Enquanto a equipe iniciava os procedimentos para registrar o ocorrido e investigar os vestígios deixados pela ruptura dimensional, Basco permaneceu observando o céu encoberto acima da estação elétrica. Pela primeira vez desde o desaparecimento do pai e do irmão, a possibilidade de encontrá-los deixava de parecer uma fantasia construída pela esperança.

Agora existia um caminho.

Pequeno.

Perigoso.

Talvez até falso.

Mas existia.

E Basco sabia que o seguiria até o fim.