CelleXty Saga - Temporada I
8 A Profecia

Sujeitos: Basco Khassan Markel (Nevoeiro), Alex Aleff, Lucius (Inquisidor), Ivan “Tornado”, Isabelle (Rosa Vermelha), Forge, Charles Xavier
Status: Equipe em consolidação. Atividade mística latente identificada. Monitoramento contínuo recomendado.
A primavera de 1997 trouxe uma rara sensação de estabilidade para a vida de Basco Khassan. Depois dos acontecimentos envolvendo Nastirth e das revelações perturbadoras sobre o possível paradeiro de seu pai e de seu irmão, ele esperava mergulhar novamente em uma espiral de dúvidas e obsessões. Em vez disso, encontrou algo que não experimentava havia muitos anos: rotina. Os dias na Escola Brasil X possuíam horários, responsabilidades e objetivos claros. Pela primeira vez desde sua saída do Instituto Xavier, ele não precisava acordar pensando apenas em sobreviver. Havia um lugar para onde retornar ao final de cada missão, pessoas que o aguardavam e uma estrutura construída para proteger aqueles que, como ele, aprenderam cedo demais o peso de serem diferentes.
A EBX escondia-se sob a cidade como um organismo vivo. O que inicialmente parecera apenas uma instalação subterrânea revelou-se um complexo muito maior do que Basco imaginava. Túneis abandonados do metrô, antigos ramais ferroviários desativados e galerias esquecidas pelo crescimento urbano haviam sido incorporados ao longo de décadas, formando uma verdadeira cidade oculta sob São Paulo. Corredores ligavam dormitórios, laboratórios, enfermarias, áreas de treinamento e centros de pesquisa. Em alguns setores ainda era possível identificar placas antigas enferrujadas, lembranças de um passado que a superfície já havia esquecido. Para os mutantes da escola, porém, aqueles espaços representavam muito mais do que concreto e aço. Representavam segurança.
Lucius assumiu naturalmente o papel de guia durante os primeiros meses. Sempre que os horários permitiam, conduzia Basco por setores que ele ainda não conhecia, compartilhando histórias que raramente apareciam nos relatórios oficiais da escola. Foi assim que descobriu que grande parte da infraestrutura tecnológica da EBX existia graças ao trabalho de Forge. O mutante, conhecido mundialmente por sua genialidade mecânica e intuitiva, passara temporadas no Brasil a pedido de Charles Xavier durante as décadas anteriores. Sua missão fora simples apenas na teoria: transformar uma rede de túneis esquecidos em um refúgio capaz de proteger gerações inteiras de mutantes brasileiros.
Enquanto caminhavam por um dos corredores mais antigos da instalação, Lucius apontava detalhes que passariam despercebidos para qualquer visitante comum. Sistemas de ventilação ocultos, mecanismos de camuflagem e passagens de emergência integravam um projeto concebido para resistir tanto ao tempo quanto à perseguição. Basco observava tudo com admiração crescente. Conhecia a grandiosidade da Escola Xavier, mas existia algo particularmente impressionante naquela estrutura construída longe dos holofotes internacionais. A EBX sobrevivera durante décadas sem chamar atenção, protegendo pessoas que a maioria da população sequer imaginava existir.
Entre todos os lugares apresentados por Lucius, nenhum exerceu fascínio tão imediato quanto a biblioteca. Ocupando aproximadamente duzentos metros de um antigo trecho ferroviário subterrâneo, o local parecia desafiar qualquer expectativa. Estantes metálicas e de madeira estendiam-se por longas galerias iluminadas por luzes suaves, criando a sensação de que os corredores jamais terminavam. Milhares de livros repousavam organizados por áreas de conhecimento, abrangendo desde física avançada e genética até filosofia, história e tradições espirituais de diferentes culturas. Para alguém acostumado a buscar respostas em registros antigos, aquele espaço parecia um tesouro.
Basco passou a frequentar a biblioteca quase diariamente. Em pouco tempo percebeu que o verdadeiro valor daquele acervo não estava apenas na quantidade de livros, mas naquilo que eles preservavam. Muitos dos registros ali armazenados simplesmente não existiam em nenhum outro lugar do mundo. Relatórios, diários, cartas e documentos narravam a trajetória de mutantes brasileiros ao longo dos séculos, revelando uma história paralela completamente ausente dos livros escolares. Aos poucos, ele descobriu que a presença do Gene X no país remontava aos primeiros períodos da colonização, surgindo entre povos indígenas, comunidades africanas trazidas à força para o continente e até mesmo entre grupos de imigrantes perseguidos por motivos religiosos ou culturais.
Quanto mais lia, mais percebia que a história oficial era apenas uma versão simplificada da realidade. Existiam relatos de guerreiros indígenas capazes de controlar animais, curandeiros cujos dons desafiaram a medicina de sua época e mulheres acusadas de bruxaria simplesmente porque possuíam habilidades que ninguém conseguia explicar. Havia também registros sobre ciganos deportados para o Brasil durante o período colonial, muitos deles portadores do Gene X e frequentemente confundidos com feiticeiros ou profetas. Para Basco, aquelas narrativas possuíam um efeito quase pessoal. Pela primeira vez compreendia que a história dos mutantes brasileiros era muito mais antiga e complexa do que imaginara.
Foi durante uma dessas pesquisas que Lucius decidiu aprofundar outro assunto. Sentado diante de uma mesa coberta por documentos antigos, começou a narrar a trajetória dos primeiros CelleXty modernos. Diferentemente da equipe atual, composta por jovens mutantes de diferentes origens, a geração anterior havia sido formada por um grupo extremamente reduzido. Durante décadas, apenas cinco indivíduos sustentaram praticamente sozinhos a proteção dos mutantes brasileiros. Alex Aleff permanecia na ativa até hoje, mas nomes como Cassiopéia, Folkhen, Carmem Kalitch e Carcará já haviam se transformado em figuras quase lendárias dentro da escola.
Lucius falava sobre eles com evidente admiração. Não porque fossem heróis perfeitos, mas porque sobreviveram a períodos em que não existia qualquer estrutura semelhante à EBX. Durante anos atuaram sem apoio internacional significativo, enfrentando perseguições, conflitos e ameaças que raramente chegaram ao conhecimento público. Com o crescimento da população mutante brasileira durante os anos noventa, Charles Xavier decidiu reativar oficialmente o projeto dos CelleXty, convocando Alex para liderar uma nova geração. A missão permanecia a mesma: proteger aqueles que não tinham quem os protegesse.
Enquanto escutava aquela história, Basco sentiu algo próximo do orgulho. Não era orgulho por pertencer à equipe. Ainda era cedo para isso. Era orgulho por descobrir que, mesmo em meio a tantas dificuldades, pessoas comuns haviam encontrado forças para construir algo duradouro. Talvez fosse exatamente isso que diferenciava organizações como os X-Men e os CelleXty. Elas não eram sustentadas por poderes extraordinários. Eram sustentadas pela decisão constante de continuar lutando quando seria muito mais fácil desistir.
Ao final daquela tarde, quando a maioria dos estudantes já deixava a biblioteca para cumprir outras atividades, Lucius conduziu-o até uma área raramente acessada pelos alunos. O corredor que levava ao setor mais antigo do acervo possuía iluminação reduzida e portas reforçadas por sistemas de segurança pouco comuns para uma simples coleção de livros. Ao perceber a curiosidade do amigo, Lucius apenas sorriu.
— Existe uma parte da história que não aparece nas aulas da EBX.
Basco acompanhou seus passos entre as estantes antigas sem imaginar que estava prestes a encontrar algo capaz de mudar completamente sua visão sobre os CelleXty, os mutantes e talvez até sobre o próprio destino.
...
Parte 2 — A ProfeciaA área restrita da biblioteca possuía uma atmosfera completamente diferente do restante do acervo. O silêncio parecia mais profundo, quase reverencial, como se as próprias paredes compreendessem o valor daquilo que protegiam. As estantes tornavam-se mais antigas, construídas em madeira escurecida pelo tempo, enquanto vitrines reforçadas preservavam manuscritos que sobreviveram a guerras, incêndios e séculos de transformações históricas. Basco caminhava devagar, observando volumes encadernados à mão, mapas amarelados e documentos cuja simples existência parecia improvável. A sensação era a de atravessar um museu secreto escondido sob uma cidade que desconhecia completamente aquela herança.
Lucius conduziu-o até uma sala menor localizada ao final do corredor. O ambiente era simples, mas cuidadosamente protegido. Uma grande mesa ocupava o centro do espaço, cercada por estantes que guardavam obras consideradas importantes demais para permanecer nas galerias principais. Ao entrarem, o jovem beneditino fechou a porta atrás de si e aproximou-se de um armário metálico embutido na parede. Depois de digitar uma sequência de códigos e utilizar uma pequena chave física, retirou uma caixa revestida em couro escuro.
Basco observou tudo em silêncio.
Já havia visto protocolos semelhantes na Escola Xavier.
Objetos protegidos daquela forma raramente eram comuns.
Com cuidado quase cerimonial, Lucius colocou a caixa sobre a mesa e removeu a tampa. No interior repousava um livro antigo de proporções consideráveis. A capa, confeccionada em couro envelhecido, era ornamentada por detalhes em ouro e prata que permaneciam surpreendentemente preservados apesar da idade. Símbolos desconhecidos adornavam as extremidades, enquanto um emblema central representava uma estrela cercada por círculos concêntricos.
— Século XIV. — explicou Lucius. — Pelo menos essa é a estimativa mais conservadora.
Basco aproximou-se.
A simples presença do volume parecia carregar um peso difícil de explicar.
— E o que ele contém?
Lucius permaneceu alguns segundos observando a capa antes de responder.
— Uma das histórias mais importantes já preservadas pela EBX.
Ao abrir cuidadosamente o tomo, páginas amareladas revelaram ilustrações, símbolos e textos escritos em diferentes idiomas. Algumas passagens estavam em latim. Outras utilizavam línguas que Basco jamais havia visto. Havia desenhos representando figuras humanoides envoltas por luz, criaturas gigantescas e constelações organizadas em padrões aparentemente impossíveis.
— Este livro fala sobre Khyrie.
O nome era novo.
Ainda assim, algo na maneira como Lucius o pronunciou demonstrava profundo respeito.
Durante os minutos seguintes, o jovem começou a explicar uma tradição preservada por séculos entre determinados grupos ligados à história mutante. Segundo aqueles registros, Khyrie não era um deus no sentido convencional da palavra. Tratava-se de uma entidade cósmica ancestral, associada à criação, ao equilíbrio e à proteção da vida em múltiplos mundos. Seus servos mais poderosos eram conhecidos como Montreais, guerreiros escolhidos para atuar quando ameaças capazes de destruir civilizações inteiras surgiam.
Basco escutava atentamente.
A narrativa possuía elementos que lembravam antigas histórias asgardianas, lendas indígenas e até mesmo algumas tradições religiosas que conhecera durante a infância. Não era a primeira vez que encontrava mitos envolvendo entidades protetoras ou batalhas cósmicas. A diferença era que, naquele caso, os registros não eram tratados como simples folclore.
Lucius acreditava naquilo.
E não estava sozinho.
Ao longo das páginas surgiam referências a diferentes épocas históricas. Alguns textos afirmavam que os primeiros mutantes não seriam apenas indivíduos portadores do Gene X, mas manifestações físicas de antigos Montreais reencarnados ao longo dos séculos. Essa ligação explicaria a existência de determinados poderes considerados excepcionais e a repetição de certos arquétipos em culturas completamente distintas.
— Os CelleXty receberam esse nome por causa dessa tradição. — explicou Lucius. — A palavra original mudou diversas vezes ao longo dos séculos, mas sua origem está diretamente ligada aos registros de Khyrie.
Basco passou os dedos pela borda de uma das páginas.
Não demonstrava descrença.
Mas também não aceitava tudo sem questionar.
A convivência com os X-Men havia lhe ensinado que o impossível existia. Ainda assim, existência e verdade não eram necessariamente a mesma coisa.
— E onde entra a profecia?
Lucius sorriu.
Era evidente que esperava aquela pergunta.
Virou algumas páginas até alcançar uma seção ilustrada por símbolos dourados e figuras armadas posicionadas diante de uma grande escuridão.
— Aqui.
O texto descrevia a chegada de uma era marcada pelo surgimento de um mal adormecido. Quando esse momento chegasse, os Montreais seriam novamente reunidos sob a liderança de uma figura chamada Kraystos, conhecido como a Luz do Amanhecer. Caberia a ele conduzir os guerreiros de Khyrie contra uma ameaça capaz de atravessar mundos e alterar o destino da própria existência.
O silêncio tomou conta da sala.
Basco observava os desenhos enquanto tentava organizar os pensamentos.
Parte dele reconhecia a grandiosidade da narrativa.
Outra parte enxergava algo preocupante.
Durante a adolescência, aprendera que profecias frequentemente produziam mais problemas do que soluções. Pessoas passavam a moldar suas decisões tentando encaixar a realidade em previsões antigas. Algumas construíam religiões inteiras ao redor dessa necessidade.
Depois de alguns instantes, voltou os olhos para Lucius.
— Então vocês acreditam que um salvador vai aparecer para resolver tudo?
A pergunta não carregava ironia.
Apenas curiosidade genuína.
Lucius refletiu antes de responder.
— Eu acredito que as pessoas interpretam profecias da maneira que desejam.
Fez uma breve pausa.
— Alguns esperam um herói. Outros enxergam um aviso. Eu prefiro vê-las como possibilidades.
A resposta agradou Basco mais do que imaginava.
Ainda assim, ao observar novamente as páginas do livro, não conseguiu evitar um pensamento incômodo.
Durante meses ouvira falar sobre os CelleXty como uma equipe dedicada a proteger mutantes.
Agora descobria uma tradição ancestral, guerreiros cósmicos, profecias e figuras messiânicas.
Por um breve instante, questionou-se se havia entrado para um grupo de super-heróis... ou para uma ordem que aguardava o retorno de um salvador.
A conversa foi interrompida pela chegada de dois novos estudantes. O primeiro atravessou a porta com a energia típica de quem parecia incapaz de permanecer parado por muito tempo. Alto, atlético e dono de enormes asas que se dobravam parcialmente atrás das costas, João Victor chamava atenção imediatamente. Seu apelido dentro da escola era Hardcore, uma combinação de personalidade impulsiva, gosto musical questionável e tendência quase sobrenatural para envolver-se em confusão.
A jovem que o acompanhava representava o completo oposto.
Raquel Muniz movia-se de forma silenciosa, observando o ambiente antes de qualquer interação. Sua pele extremamente pálida contrastava com os cabelos escuros, enquanto seus olhos demonstravam uma maturidade incomum para alguém tão jovem. O codinome Quarentena surgira por causa de sua mutação, que lhe permitia transmitir doenças e agentes biológicos através do contato físico direto. O poder transformara a adolescência em um pesadelo e acabara contribuindo para seu afastamento da própria família.
Ao conhecer ambos, Basco sentiu uma familiaridade imediata.
Não porque compartilhassem os mesmos poderes.
Mas porque reconheceu nos dois algo que também carregara durante anos.
A sensação de ter sido rejeitado por algo que jamais escolheram ser.
Enquanto observava João discutir animadamente com Lucius e Raquel analisar discretamente os livros espalhados pela mesa, percebeu que a EBX continuava reunindo pessoas muito diferentes por um motivo simples.
Todos precisavam de um lugar para pertencer.
E, naquele instante, começava a entender que talvez aquela fosse a verdadeira força dos CelleXty.
...
Parte 3 — Construindo um LarA chegada de João Victor e Raquel marcou o início de uma nova fase para Basco dentro da EBX. Até então, sua rotina girava principalmente em torno de Lucius, Alex, Ivan e Isabelle, pessoas que já possuíam papéis definidos dentro da estrutura da escola. Hardcore e Quarentena, por outro lado, ainda estavam construindo seus próprios caminhos. Isso tornava a convivência mais espontânea. Pela primeira vez desde sua entrada nos CelleXty, Basco sentiu que não era apenas um integrante recém-chegado observando um grupo já estabelecido. Agora fazia parte de uma geração que crescia junta, cometia erros juntos e aprendia a lidar coletivamente com os desafios impostos pela mutação.
Os meses seguintes transcorreram sem grandes crises, mas foram fundamentais para consolidar essa sensação de pertencimento. Enquanto o restante do mundo continuava discutindo o aumento da presença mutante no Brasil, a vida nos túneis subterrâneos da EBX seguia seu próprio ritmo. Treinamentos ocupavam boa parte das manhãs. Estudos, missões de reconhecimento e atividades comunitárias preenchiam o restante do tempo. Para muitos alunos, aquela rotina podia parecer cansativa. Para Basco, representava algo precioso. Estrutura. Depois de anos vagando entre perdas, fugas e incertezas, finalmente possuía um lugar onde o amanhã não parecia uma ameaça constante.
Grande parte dessa evolução aconteceu graças aos treinamentos conduzidos por João Victor. Hardcore possuía um estilo completamente diferente daquele adotado por Alex ou Lucius. Não gostava de discursos longos nem de explicações excessivamente teóricas. Acreditava que a melhor forma de aprender era praticando até que o corpo compreendesse aquilo que a mente ainda tentava processar. Muitas tardes foram passadas em áreas de treinamento improvisadas nos antigos túneis ferroviários, onde os dois repetiam movimentos, estratégias e exercícios de resistência até a exaustão. Apesar da personalidade impulsiva, João revelava uma percepção aguçada sobre combate e adaptação. Sabia exatamente quando pressionar alguém e quando permitir que encontrasse seu próprio ritmo.
Foi durante esse período que a mutação de Basco começou a apresentar avanços significativos. Até então, sua principal habilidade consistia em transformar o próprio corpo em névoa e manipular massas de vapor com relativa precisão. Contudo, quanto mais treinava, mais percebia que existiam possibilidades ainda inexploradas. Aos poucos, aprendeu a alterar a densidade da neblina que criava, condensando partes dela até obter consistência suficiente para interagir fisicamente com o ambiente. No início eram apenas formas simples e instáveis. Pequenas barreiras, plataformas temporárias ou extensões dos próprios braços. Com o tempo, essas manifestações tornaram-se mais complexas.
Alex acompanhava esse desenvolvimento com atenção. Em diversas ocasiões observou os treinamentos sem interferir, permitindo que Basco descobrisse sozinho os limites das novas habilidades. A principal lição que tentava transmitir era simples: poder bruto raramente decidia o resultado de um confronto. Criatividade e controle quase sempre produziam resultados melhores. Seguindo essa filosofia, Basco passou a experimentar diferentes aplicações para sua mutação. Aprendeu a criar lâminas de névoa condensada, escudos temporários e até estruturas capazes de suportar peso durante curtos períodos. Ainda estavam longe de ser técnicas perfeitas, mas demonstravam que seu potencial continuava evoluindo.
Enquanto isso, os CelleXty também começavam a confiar cada vez mais nele durante missões externas. A maioria dessas operações não envolvia grandes batalhas ou ameaças espetaculares. Na realidade, grande parte do trabalho consistia em localizar jovens mutantes antes que fossem encontrados por pessoas mal-intencionadas. Alguns haviam fugido de casa após manifestarem poderes de forma traumática. Outros eram perseguidos por grupos que enxergavam os mutantes como monstros ou aberrações. Existiam ainda aqueles que simplesmente não compreendiam o que estava acontecendo com seus próprios corpos. Nessas situações, a presença dos CelleXty frequentemente representava a diferença entre segurança e tragédia.
Basco identificava-se profundamente com esses resgates. Em cada adolescente assustado enxergava fragmentos de sua própria história. Recordava-se do medo, da confusão e da sensação de isolamento que dominaram sua vida quando descobriu ser diferente. Talvez por isso desenvolvesse uma facilidade particular para estabelecer confiança. Não precisava inventar discursos inspiradores. Bastava falar a verdade. Sabia exatamente como aquelas pessoas se sentiam porque também já estivera naquele lugar. Aos poucos, essa capacidade transformou-se em uma de suas maiores contribuições para a equipe.
Mesmo com a relativa tranquilidade daquele período, alguns assuntos permaneciam presentes em segundo plano. O encontro com Nastirth e as revelações sobre Edher e Igon continuavam ocupando espaço em seus pensamentos. Em diversas ocasiões retornou à sala dos manuscritos para reler trechos relacionados a Khyrie, aos Montreais e à profecia de Kraystos. Não porque acreditasse cegamente no texto, mas porque algo naquela narrativa insistia em despertar sua curiosidade. Parte dele acreditava que tudo não passava de uma tradição antiga reinterpretada ao longo dos séculos. Outra parte, porém, lembrava-se constantemente de que já vivera experiências impossíveis demais para descartar qualquer hipótese com facilidade.
O final daquele ano chegou quase sem que percebessem. Quando dezembro trouxe consigo as celebrações de Natal, a atmosfera da escola mudou consideravelmente. Mesmo funcionando em absoluto sigilo, a EBX encontrava maneiras de preservar tradições. Corredores foram decorados, refeições coletivas tornaram-se mais frequentes e alunos de diferentes regiões do país compartilharam histórias, músicas e costumes familiares. Para muitos daqueles jovens, era a primeira vez em anos que passavam uma data comemorativa cercados por pessoas que os aceitavam exatamente como eram.
Durante a confraternização principal, realizada em um amplo salão adaptado nos níveis centrais da instalação, Basco observou os colegas reunidos ao redor de mesas repletas de comida, conversas e risadas. Ivan discutia alguma teoria absurda com João Victor. Raquel finalmente parecia confortável o suficiente para participar das brincadeiras. Isabelle ajudava na organização enquanto Lucius observava tudo com seu habitual sorriso discreto. Alex circulava entre os grupos conversando com alunos e instrutores, demonstrando a mesma atenção dedicada que o tornara tão respeitado dentro da escola.
Foi naquele momento simples que Basco percebeu algo importante.
Durante anos procurou respostas para o desaparecimento do pai.
Tentou compreender a morte da mãe.
Buscou sentido para as perdas, os conflitos e as mudanças que moldaram sua vida.
Nenhuma dessas perguntas havia sido completamente respondida.
Mesmo assim, algo dentro dele estava diferente.
Pela primeira vez desde a adolescência, não sentia que caminhava sozinho.
Enquanto observava a movimentação ao redor, compreendeu que lar não era necessariamente um lugar. Não era uma casa específica, uma cidade ou um país. Lar era o espaço construído pelas pessoas que escolhiam permanecer ao seu lado quando tudo o mais desmoronava. E, gostasse ou não de admitir, os túneis escondidos sob São Paulo haviam se transformado exatamente nisso.
Mais tarde, quando a comemoração já se aproximava do fim, Basco voltou sozinho à biblioteca. Caminhou entre as estantes silenciosas até alcançar a sala dos manuscritos raros. Ali, protegido dentro da vitrine reforçada, repousava o antigo tomo que apresentara a história de Khyrie e dos Montreais. Permaneceu observando a capa ornamentada durante alguns minutos, lembrando-se das palavras de Lucius, das revelações de Nastirth e das dúvidas que ainda permaneciam sem resposta.
Não sabia se acreditava na profecia.
Não sabia se Kraystos realmente existiria.
E certamente não sabia qual papel desempenharia nos acontecimentos futuros.
Mas tinha certeza de uma coisa.
Aquela história ainda estava longe de terminar.
E, em algum lugar além das páginas daquele livro antigo, o destino já começava a mover suas próximas peças.
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