CelleXty Saga - Temporada I
9 O misterioso Scariotis!
Arquivo Confidencial — Instituto Xavier
Sujeitos: Basco Khassan Markel (Nevoeiro), Ivan “Tornado”, João Victor (Hardcore), Verônica (Clã Toreador), Gregory, Sphinx, Pappylon, Testament, Scariotis
Status: Confronto urbano iminente. Ameaça de extermínio em massa. Presença de entidade desconhecida com poder telecinético extremo.
O outono de 1998 chegou trazendo noites mais frias para São Paulo e uma rotina cada vez mais intensa para os CelleXty. À medida que a população mutante brasileira crescia, também aumentavam os conflitos envolvendo grupos extremistas, organizações criminosas e fenômenos que escapavam completamente da compreensão das autoridades convencionais. Para Basco, aquilo significava menos tempo dentro da segurança relativa da EBX e mais horas percorrendo ruas, becos e regiões esquecidas da metrópole. A cidade possuía milhões de habitantes, mas também escondia um segundo mundo que despertava apenas depois do pôr do sol. Era nesse mundo que os CelleXty costumavam atuar.
Naquela noite, Basco dividia a patrulha com Ivan e João Victor. A combinação parecia improvável para qualquer observador externo. Ivan continuava exibindo o mesmo humor irreverente de sempre, alternando comentários sarcásticos com observações surpreendentemente inteligentes. Hardcore, por outro lado, carregava uma energia inquieta que o fazia parecer constantemente preparado para uma briga. Ainda assim, os três funcionavam bem juntos. O tempo compartilhado em treinamentos e missões havia criado uma confiança difícil de explicar, mas extremamente valiosa quando as coisas saíam do controle.
O destino da ronda levou o grupo novamente à Rua Augusta.
Ao avistar a fachada do Mascarade, Basco sentiu uma sensação familiar percorrer sua memória. Anos haviam se passado desde a primeira vez que atravessara aquelas portas, mas o local continuava preservando a mesma identidade. O prédio pulsava vida própria. Luzes coloridas escapavam das janelas superiores enquanto diferentes estilos musicais misturavam-se no ar noturno. Pessoas de tribos completamente distintas dividiam o mesmo espaço com uma naturalidade rara em qualquer outro ponto da cidade. Góticos, headbangers, punks, clubbers, artistas e estudantes transformavam a casa noturna em uma espécie de território neutro para aqueles que não se encaixavam nos padrões convencionais.
Ivan observava tudo com uma expressão desconfiada.
— Vou ser sincero... ainda não entendo como este lugar continua funcionando.
— Porque ninguém aqui quer ser normal. — respondeu Basco.
— Isso explica muita coisa.
João Victor soltou uma gargalhada.
— Diz o cara que usa corrente brilhante como arma.
A discussão continuou enquanto atravessavam a entrada da boate. Apesar do tom descontraído, todos permaneciam atentos. A missão oficial consistia em investigar possíveis movimentações mutantes registradas na região durante as semanas anteriores. Porém, Basco sabia que o Mascarade raramente era apenas o cenário de uma missão comum.
O interior continuava tão impressionante quanto em suas lembranças. Os três andares mantinham atmosferas distintas, mas igualmente vibrantes. O que a maioria dos frequentadores desconhecia era que o local também servia como ponto de encontro para representantes da chamada Geração Vamp. Membros dos treze grandes clãs transitavam discretamente entre humanos distraídos, protegidos por uma combinação de influência, dinheiro e tradição. Para muitos vampiros, o Mascarade representava um dos poucos lugares onde podiam existir sem precisar esconder completamente sua verdadeira natureza.
Basco conhecia esse mundo melhor do que gostava de admitir.
Foi justamente por isso que a reconheceu imediatamente.
Verônica permanecia praticamente inalterada pelo tempo. Sua pele continuava tão pálida quanto mármore polido, os cabelos negros caíam em longos cachos sobre os ombros e seus olhos carregavam aquela mistura perturbadora de beleza e perigo que jamais conseguira esquecer. Mais de duzentos anos de existência estavam escondidos atrás da aparência de uma jovem mulher. Quando seus olhares se encontraram através da multidão, nenhum dos dois demonstrou surpresa.
A vampira aproximou-se lentamente.
— É bom revê-lo, Basco.
Sua voz mantinha o mesmo tom sedutor que ele recordava.
— Sentiu minha falta?
Ivan e João Victor perceberam imediatamente que existia história entre os dois. A tensão não era hostil. Era algo muito mais complicado.
— Depende da definição de problema. — respondeu Basco.
Verônica sorriu.
— Então sentiu.
Os dois CelleXty trocaram olhares curiosos. Basco percebeu exatamente o que estavam pensando e decidiu encerrar o mistério antes que a imaginação deles produzisse versões ainda mais absurdas.
— Antes que vocês inventem teorias ridículas... eu conheço a Verônica há bastante tempo.
— Quanto tempo? — perguntou Ivan.
Basco suspirou.
— Ela foi a primeira mulher com quem me envolvi.
O silêncio que se seguiu foi imediatamente substituído pela expressão incrédula dos dois companheiros.
— Você perdeu a virgindade com uma vampira de duzentos anos? — perguntou João Victor.
— Tecnicamente, sim.
— Isso é a coisa mais absurda que já ouvi.
Verônica parecia divertir-se profundamente com a situação.
Por alguns minutos, a conversa afastou a tensão habitual das missões. Porém, o clima mudou quando Basco percebeu um jovem apoiado próximo ao balcão principal. O rapaz aparentava não ter mais do que treze anos. O rosto era juvenil demais para aquele ambiente. Seus movimentos demonstravam nervosismo constante, enquanto os olhos evitavam contato direto com as demais pessoas.
Foi o barman quem esclareceu a situação.
— Esse é Gregory.
Basco observou o garoto levantar um copo.
Não havia álcool ali.
Nem refrigerante.
Nem qualquer bebida comum.
A coloração escura do líquido revelou imediatamente sua natureza.
Sangue.
Uma sensação desagradável instalou-se em seu peito. Não era preconceito contra vampiros. Depois de tudo que vivera, já havia aprendido que monstros e heróis existiam em todas as espécies. O problema era a idade do garoto. Treze anos. Preso para sempre naquele estágio da vida.
Quando os três CelleXty finalmente deixaram o Mascarade, a imagem de Gregory continuava ocupando seus pensamentos.
Nenhum deles imaginava que o verdadeiro motivo daquela visita ainda estava prestes a se revelar.
...Parte 2 — O Senhor das LamentaçõesA Rua Augusta permanecia movimentada quando os três deixaram o Mascarade, mas a sensação de normalidade desapareceu rapidamente à medida que se afastavam da entrada principal da boate. O relógio já avançava pela madrugada, e o fluxo de pessoas diminuía gradualmente nas ruas secundárias que cercavam a região. Basco ainda pensava em Gregory. A imagem do garoto segurando um copo de sangue insistia em retornar à sua mente, trazendo consigo uma reflexão desconfortável sobre escolhas que jamais puderam ser feitas. Muitos mutantes eram obrigados a conviver com poderes que não escolheram. Talvez os vampiros enfrentassem algo semelhante, apenas sob circunstâncias diferentes.
Ivan caminhava alguns passos à frente, observando o movimento ao redor com atenção crescente. João Victor mantinha as mãos nos bolsos do casaco enquanto analisava os telhados e becos laterais. A experiência compartilhada em diversas missões já os havia ensinado que o perigo raramente surgia onde todos estavam olhando.
Foi Ivan quem percebeu primeiro.
— Estamos sendo seguidos.
A frase foi pronunciada em tom baixo, sem interromper o ritmo da caminhada.
Basco imediatamente expandiu sua percepção. Pequenas partículas de névoa espalharam-se discretamente pelo ambiente, infiltrando-se entre carros estacionados, vielas e entradas de edifícios próximos. Alguns segundos depois, confirmou a suspeita.
Havia alguém ali.
Ou melhor.
Mais de uma pessoa.
O trio mudou de direção, conduzindo deliberadamente a perseguição para uma área menos movimentada. Velhos galpões comerciais e estacionamentos praticamente vazios ocupavam aquela parte da região central. As luzes dos postes projetavam sombras longas sobre o asfalto úmido, enquanto o som distante da cidade parecia cada vez mais abafado.
Foi então que uma voz surgiu da escuridão.
— Já vão embora tão cedo?
A figura que emergiu das sombras era familiar.
Baixa.
Ágil.
Coberta por pelos escuros.
As mãos terminavam em garras alongadas que refletiam a luz dos postes como lâminas naturais.
Sphinx.
O mutante felino inclinou levemente a cabeça enquanto exibia um sorriso predatório.
— Eu esperava uma recepção mais calorosa.
João Victor imediatamente abandonou a postura relaxada.
As asas começaram a expandir-se sob o casaco.
— Eu sabia que a noite estava tranquila demais.
Antes que qualquer outra palavra fosse dita, uma segunda presença surgiu sobre um dos veículos estacionados próximos. O homem possuía traços europeus refinados, cabelos claros e uma elegância quase teatral. Seu sobretudo escuro movia-se suavemente com o vento, enquanto um sorriso confiante permanecia estampado em seu rosto.
Pappylon.
Basco recordava perfeitamente os relatórios da EBX.
O pólen produzido por aquele mutante era capaz de causar alucinações, desorientação e perda de consciência em poucos segundos.
— Sempre tão hostis. — comentou Pappylon. — Nós viemos conversar.
— Vocês nunca aparecem para conversar. — respondeu Ivan.
O sorriso do europeu aumentou.
— Talvez vocês simplesmente não saibam escutar.
A atmosfera tornou-se mais pesada.
Todos sabiam que aquilo não era um encontro casual.
A Gangue Fantasma jamais surgia sem motivo.
E então veio a terceira figura.
Testament caminhou lentamente para fora das sombras como se o ambiente ao redor lhe pertencesse. Seus cabelos escuros desciam pelos ombros, e os olhos carregavam o mesmo brilho perturbador que Basco recordava do Mascarade. Desde o primeiro encontro, havia algo nela que despertava inquietação. Não apenas por seus poderes. Existia convicção em Testament. Uma crença perigosa de que seus atos eram justificados por algum propósito maior.
Ao vê-la, Basco sentiu a tensão aumentar imediatamente.
A última vez que estiveram frente a frente terminara em violência.
— Faz tempo, Nevoeiro.
— Não tempo suficiente.
Testament ignorou a provocação.
Seu olhar percorreu rapidamente os três CelleXty antes de voltar-se para a direção do Mascarade.
— Esta noite deveria ser histórica.
A frase fez Ivan franzir a testa.
— Do que está falando?
A mulher abriu um sorriso frio.
— Limpeza.
O silêncio tomou conta do estacionamento.
— Algumas pessoas influentes decidiram que a cidade está cansada de conviver com parasitas.
Basco compreendeu imediatamente.
— Os vampiros.
— Exatamente.
A voz de Testament tornou-se mais intensa.
— Homens ricos. Empresários. Políticos. Gente poderosa. Todos cansados de fingir que criaturas como aquelas merecem continuar existindo.
João Victor avançou meio passo.
— E vocês aceitaram dinheiro para cometer um massacre?
— Chamem do que quiserem.
A resposta veio sem qualquer hesitação.
— Nós chamamos de solução.
O clima transformou-se instantaneamente.
As correntes psiônicas de Ivan começaram a emitir reflexos azulados.
João Victor abriu completamente as asas.
A névoa espalhou-se ao redor de Basco.
O confronto parecia inevitável.
Mas então algo aconteceu.
Testament recuou.
Sphinx recuou.
Até mesmo Pappylon abandonou a postura provocativa.
Por um instante, ninguém compreendeu o motivo.
Então o silêncio mudou.
O próprio ar pareceu tornar-se mais pesado.
Uma sensação de pressão espalhou-se pelo estacionamento como uma tempestade invisível.
Basco sentiu imediatamente.
Todos sentiram.
Alguém estava chegando.
Da entrada principal do estacionamento surgiu uma figura envolta por um longo manto negro. O tecido arrastava-se lentamente pelo asfalto, ocultando quase completamente o corpo do recém-chegado. O capuz escondia seu rosto, deixando visível apenas parte da face e um único olho.
Um olho envolto em chamas.
Não fogo comum.
Algo muito mais antigo.
Muito mais perturbador.
O homem continuou caminhando sem pressa.
Cada passo parecia alterar a atmosfera ao redor.
Basco sentiu seus instintos gritarem.
Perigo.
Não era uma ameaça comum.
Não era como enfrentar um mutante poderoso.
Nem como enfrentar vampiros.
Aquilo era diferente.
Profundamente diferente.
O desconhecido ergueu lentamente uma das mãos.
Foi um gesto simples.
Quase casual.
Mas o efeito foi devastador.
Uma força invisível explodiu contra os três CelleXty ao mesmo tempo.
Basco sentiu o próprio corpo ser arrancado do chão antes mesmo de conseguir reagir. Ivan foi arremessado contra um veículo estacionado, enquanto João Victor chocou-se violentamente contra uma estrutura de concreto. O impacto espalhou dor por todos os músculos de seu corpo.
Durante alguns segundos, ninguém conseguiu levantar-se.
O peso do ar parecia esmagador.
Como se toneladas invisíveis pressionassem cada centímetro do ambiente.
Testament inclinou levemente a cabeça.
O gesto lembrava reverência.
Respeito.
Talvez até devoção.
— Este é o Senhor das Lamentações.
A voz dela ecoou pelo estacionamento.
— A Foice dos Amaldiçoados.
O homem permaneceu imóvel.
O olho em chamas observava os três mutantes sem qualquer emoção aparente.
— Aquele que colocará fim à raça vampiresca.
Basco tentou mover-se.
Seu corpo respondeu lentamente.
Com dificuldade.
Como se a própria gravidade tivesse sido alterada.
— Vocês deveriam estar ao nosso lado. — continuou Testament. — E não sobre o muro.
O desconhecido avançou mais um passo.
O peso invisível aumentou.
Ivan cerrou os dentes.
João Victor tentou abrir as asas novamente.
Nenhum dos dois conseguiu.
Então Testament pronunciou o nome.
Um único nome.
Mas que pareceu atravessar o estacionamento como uma sentença.
— Curvem-se perante... Scariotis.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
E, pela primeira vez desde que ingressara nos CelleXty, Basco sentiu algo que não era medo.
Nem raiva.
Nem desespero.
Era uma sensação muito pior.
Um presságio.
Como se aquele encontro representasse apenas o primeiro movimento de algo muito maior que ainda estava por vir.
...
Parte 3 — O Símbolo da BalançaO retorno à EBX aconteceu em silêncio. Nenhum dos três tinha disposição para brincadeiras ou comentários sarcásticos depois do encontro no estacionamento do Mascarade. A derrota não havia ocorrido através de um combate convencional. Não existira troca de golpes, estratégia ou oportunidade de reação. Scariotis simplesmente surgira e demonstrara um nível de poder capaz de neutralizar três CelleXty experientes sem esforço aparente. Aquilo era o que mais incomodava Basco. Durante toda sua trajetória, aprendera que mesmo adversários extremamente poderosos possuíam limitações. No entanto, o homem encapuzado parecera agir como se as leis físicas fossem apenas sugestões.
Alex Aleff aguardava o grupo na sala de operações quando chegaram. A notícia do incidente já havia alcançado a escola através dos canais de monitoramento da equipe, mas o líder dos CelleXty preferia ouvir os relatos diretamente de quem estivera presente. Enquanto médicos avaliavam os ferimentos mais graves de Ivan e João Victor, Basco descreveu detalhadamente tudo o que acontecera desde a saída do Mascarade. Nenhum detalhe foi omitido. Falou sobre Sphinx, Pappylon, Testament, o plano para exterminar os vampiros e, principalmente, sobre a chegada de Scariotis.
Alex permaneceu em silêncio durante quase toda a explicação. Sua expressão mantinha a mesma serenidade habitual, mas aqueles que o conheciam sabiam interpretar os sinais. Quanto mais quieto ficava, mais preocupado estava. Quando Basco terminou o relato, o líder apoiou os cotovelos sobre a mesa e permaneceu alguns segundos observando os mapas holográficos projetados no centro da sala.
— Você disse que ele usava um medalhão?
A pergunta surpreendeu Basco.
Entre tantos acontecimentos, quase havia esquecido daquele detalhe.
— Sim.
— Prateado. Antigo. Com um símbolo gravado.
Alex assentiu lentamente.
— Desenhe-o.
Poucos minutos depois, o símbolo aparecia reproduzido em uma tela digital. Era uma figura simples à primeira vista: uma balança ornamentada cercada por círculos e inscrições antigas. No entanto, bastou a imagem ser ampliada para que todos percebessem a complexidade dos detalhes. Aquilo não parecia pertencer a nenhuma organização mutante conhecida. Também não lembrava símbolos religiosos convencionais.
A investigação começou imediatamente.
Daniel, um dos pesquisadores mais experientes da escola, foi convocado para auxiliar na análise. Lucius também juntou-se ao grupo, levando consigo diversos registros históricos retirados da biblioteca. Nas horas seguintes, a sala de operações transformou-se em um centro improvisado de pesquisa. Livros, documentos digitalizados e fotografias espalharam-se pelas mesas enquanto diferentes hipóteses eram consideradas e descartadas.
O problema era simples.
Ninguém sabia quem era Scariotis.
Pior.
Ninguém sequer encontrava referências consistentes ao nome.
Alguns documentos mencionavam figuras semelhantes ao longo dos séculos, sempre associadas a massacres, conflitos religiosos ou desaparecimentos misteriosos. Porém, nenhuma informação era suficientemente sólida para estabelecer uma linha histórica confiável. Era como se a entidade surgisse periodicamente, deixasse um rastro de destruição e desaparecesse novamente antes que qualquer registro detalhado pudesse ser produzido.
Foi Lucius quem encontrou a primeira pista relevante.
Já passava da meia-noite quando o jovem surgiu carregando um volume antigo retirado da área restrita da biblioteca. O livro apresentava sinais evidentes de desgaste, e suas páginas precisavam ser manuseadas com extremo cuidado. Ao colocá-lo sobre a mesa, abriu diretamente em uma seção marcada por anotações feitas décadas antes.
— Acho que encontrei alguma coisa.
Todos voltaram a atenção para ele.
Lucius apontou para uma ilustração quase apagada pelo tempo. A imagem representava uma balança extremamente semelhante àquela observada no medalhão de Scariotis. As diferenças eram mínimas. Alguns detalhes ornamentais haviam mudado, mas o símbolo principal permanecia inconfundível.
O silêncio instalou-se imediatamente.
— De onde veio isso? — perguntou Alex.
— Arquivo dos primeiros CelleXty.
A resposta aumentou ainda mais a tensão.
Lucius virou algumas páginas até encontrar um trecho específico. O texto estava escrito em português arcaico misturado com expressões que pareciam derivadas do latim e de outros idiomas mais antigos. A tradução parcial havia sido realizada décadas antes por estudiosos ligados à EBX.
Ele começou a ler.
— "Quando a balança abandonar o equilíbrio..."
A frase ecoou pela sala.
Ninguém interrompeu.
— "...e o peso dos condenados superar o peso dos justos, surgirá o Senhor das Lamentações para reclamar aquilo que lhe foi prometido."
Um arrepio percorreu a espinha de Basco.
As palavras não pareciam uma simples coincidência.
— Tem mais. — continuou Lucius.
O jovem avançou para os parágrafos seguintes.
O texto falava sobre guerras ocultas, julgamentos conduzidos por forças desconhecidas e indivíduos marcados por símbolos semelhantes ao encontrado no medalhão. Em diferentes passagens, surgia a referência a uma figura responsável por restaurar um equilíbrio perdido através da destruição. Não existiam nomes diretos. Contudo, a repetição dos títulos utilizados por Testament era impossível de ignorar.
Senhor das Lamentações.
Foice dos Amaldiçoados.
Guardião da Balança.
As peças começavam a se encaixar.
Ainda não existia uma explicação completa.
Mas já havia algo muito mais perigoso do que ignorância.
Existia contexto.
Alex permaneceu observando os documentos durante vários minutos. Quando finalmente falou, sua voz carregava uma firmeza incomum.
— A partir deste momento, Scariotis torna-se prioridade máxima para os CelleXty.
Ninguém contestou.
Não havia motivo para isso.
O homem surgira demonstrando poder suficiente para enfrentar mutantes experientes sem esforço aparente. Possuía ligação com a Gangue Fantasma, interesse direto na comunidade vampírica e conexões históricas que pareciam atravessar gerações. Ignorá-lo seria irresponsabilidade.
A reunião prosseguiu por mais algumas horas. Estratégias foram discutidas. Informações cruzadas. Possíveis locais de atuação analisados. Ainda assim, quando tudo terminou, a sensação predominante era a mesma.
Eles sabiam muito pouco.
Pouco antes do amanhecer, Basco deixou a sala de operações e caminhou sozinho pelos corredores silenciosos da EBX. O cansaço físico já começava a pesar, mas sua mente permanecia inquieta. Enquanto atravessava os túneis subterrâneos da escola, voltou a pensar em Gregory, em Verônica, em Testament e no olhar de Scariotis. Havia algo profundamente errado naquela história. Algo que ultrapassava a simples rivalidade entre vampiros e mutantes.
Quando alcançou uma das áreas de observação da escola, parou diante do vidro reforçado que permitia enxergar parte dos antigos túneis abandonados sob São Paulo. Durante alguns minutos permaneceu imóvel, observando a escuridão além do reflexo.
A profecia dos Montreais.
Nastirth.
Belasco.
Agora Scariotis.
Cada resposta encontrada parecia abrir espaço para novas perguntas.
E, pela primeira vez desde sua entrada nos CelleXty, Basco começou a suspeitar que todos aqueles acontecimentos talvez estivessem ligados por algo muito maior do que imaginava.
Em algum lugar da cidade, Scariotis continuava à solta.
E a balança mencionada nos manuscritos antigos parecia ter começado a se mover.
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