CelleXty Saga - Temporada I
16 Mortos não batem continência!
Arquivo Confidencial — Instituto Xavier
Sujeitos: Basco Khassan Markel (Nevoeiro), Gregory D’Luca, Igon Markel (Scariotis), Althy, Isabelle Hoffmann (Rosa Vermelha), Folkhen, Madalenna (Mandala), Carcará, Pappylon, Testament, Sphinx, Caio (Clã Brujah), Lira (Clã Giovanni)
Status: Testament eliminada. Sphinx resgatado. Gangue Fantasma reforçada por dissidentes vampíricos. Escalada estratégica iminente.
O verão de 1998 aproximava-se do fim, mas o calor continuava impregnado no concreto das grandes cidades brasileiras. Dezembro avançava trazendo consigo as cores habituais das festividades, vitrines iluminadas e campanhas publicitárias que prometiam felicidade instantânea em parcelas acessíveis. Para a maior parte da população, o país parecia viver um momento de relativa estabilidade. Contudo, por trás da superfície otimista construída pelos noticiários, uma tensão silenciosa espalhava-se pelas ruas. O julgamento dos ex-policiais militares envolvidos na chacina de Vigário Geral reacendera discussões antigas sobre violência, poder e impunidade. Entre rumores nunca oficialmente confirmados, surgiam relatos de mutantes que teriam participado dos confrontos tanto entre criminosos quanto entre forças de segurança. Nenhuma dessas informações foi comprovada. Ainda assim, bastava a suspeita para alimentar o medo.
Nos bairros mais pobres do Rio de Janeiro e de São Paulo, grupos civis começavam a organizar patrulhas improvisadas. Algumas se diziam defensivas. Outras assumiam abertamente posições radicais contra qualquer indivíduo suspeito de possuir habilidades extraordinárias. Mutantes passaram a desaparecer com frequência crescente. Alguns eram expulsos das próprias comunidades. Outros simplesmente nunca mais voltavam para casa. O país aprendia lentamente a desconfiar daquilo que não conseguia compreender, repetindo um comportamento tão antigo quanto a própria humanidade. Para os CelleXtys, aquilo representava um alerta tão perigoso quanto qualquer supervilão.
Em contraste quase irônico, a cultura popular seguia celebrando justamente aquilo que muitos temiam. Durante a passagem da turnê Reunion pelo Brasil, a lendária banda Black Sabbath lotou apresentações em diversas cidades. Em São Paulo, na Pista de Atletismo do Ibirapuera, milhares de pessoas vibravam diante de amplificadores ensurdecedores e luzes que cortavam a escuridão da noite. Em determinado momento do espetáculo, Ozzy Osbourne convidou ao palco um jovem chamado Leandro Gomes. Poucos sabiam quem ele era. Menos ainda imaginavam o que aconteceria a seguir. Quando as luzes se apagaram e um único refletor iluminou o rapaz, enormes asas membranosas abriram-se atrás de suas costas como uma sombra viva. O público silenciou por um segundo antes de explodir em aplausos. Leandro alçou voo sobre a multidão, atravessando o céu noturno enquanto milhares de pessoas celebravam a existência de um mutante. Por alguns minutos, não houve medo. Não houve preconceito. Apenas fascínio.
Aquela celebração, porém, estava muito longe da realidade enfrentada pelos CelleXtys.
Enquanto multidões cantavam e comemoravam, uma guerra silenciosa continuava sendo travada nas sombras.
Foi uma pista aparentemente insignificante que levou a equipe até Sorocaba. Após os eventos envolvendo Althy e as visões captadas por Rosa Vermelha, diversos registros históricos começaram a ser revisados. Alguns documentos apontavam para atividades incomuns nas proximidades do antigo Museu Histórico Sorocabano, instalado em um casarão que já recebera a visita da Marquesa de Santos durante o século XIX. O edifício era um símbolo da memória regional, guardando objetos ligados à Revolução Liberal de 1842 e à trajetória de figuras históricas como Rafael Tobias de Aguiar e Padre Diogo Antônio Feijó. Contudo, para aqueles que conheciam os bastidores da história mutante brasileira, existiam narrativas muito menos conhecidas associadas ao local.
Segundo relatos preservados apenas em arquivos clandestinos, Rafael Tobias não era apenas um político ou militar. Havia rumores antigos descrevendo-o como um mutante capaz de influenciar animais selvagens, comandando verdadeiros exércitos de criaturas através de uma conexão biológica inexplicável. Alguns acreditavam que suas vitórias militares tinham origem nessa habilidade. Outros afirmavam que tudo não passava de superstição. A verdade jamais foi comprovada. Ainda assim, determinadas histórias insistiam em sobreviver ao tempo. E onde existiam histórias persistentes, frequentemente existiam segredos.
Foi Isabelle quem percebeu a presença primeiro.
Enquanto o grupo se aproximava do museu ao cair da tarde, uma sensação desconfortável percorreu sua mente. Não era uma invasão psíquica tradicional. Não havia agressividade. Parecia mais um rastro deixado propositalmente por alguém que desejava ser encontrado. Um pensamento distante, escorregadio, quase imperceptível, movendo-se pelos limites de sua percepção como uma sombra deslizando sobre gelo fino. A sensação desaparecia sempre que ela tentava focá-la diretamente, apenas para surgir novamente segundos depois.
— Tem alguém aqui — disse ela em voz baixa.
Basco imediatamente diminuiu o ritmo dos passos.
Gregory observou as janelas antigas do casarão.
Folkhen e Madalenna trocaram olhares silenciosos.
Todos já haviam aprendido que ignorar os instintos de Rosa Vermelha costumava ser um erro.
O interior do museu encontrava-se estranhamente silencioso. O piso de madeira rangia sob o peso dos visitantes enquanto vitrines antigas exibiam armas, documentos, uniformes e objetos ligados à história paulista. O ar parecia mais frio do que deveria. Não havia funcionários. Não havia visitantes. Apenas corredores vazios e uma sensação crescente de que estavam sendo observados.
A armadilha fechou-se no instante em que atravessaram o salão principal.
Portas bateram.
Janelas estremeceram.
E a presença psíquica desapareceu.
Subitamente, os CelleXtys perceberam que haviam sido conduzidos exatamente para onde seus inimigos desejavam.
Folkhen, Madalenna e Isabelle ficaram isolados na ala interna do museu, cercados por corredores estreitos e salas de exposição repletas de sombras. No extremo oposto, Basco, Gregory e Carcará foram empurrados para o antigo pátio central do casarão, onde carruagens restauradas e esculturas históricas permaneciam expostas sob uma cobertura de vidro.
Foi ali que eles os encontraram.
Scariotis.
Althy.
E o passado.
A vidente permanecia imóvel junto à antiga carruagem, observando os recém-chegados com a serenidade de alguém que aguardava aquele encontro havia muito tempo. Seus cabelos prateados refletiam a luz que atravessava o teto de vidro, enquanto os olhos azuis analisavam cada reação dos presentes. Igon permanecia ao seu lado, silencioso, envolto pela mesma energia translúcida que costumava acompanhá-lo em batalha. Diferente das outras vezes, porém, não demonstrava agressividade imediata. Parecia apenas esperar.
Basco sentiu o estômago se contrair.
Não por medo.
Mas porque compreendia que aquela reunião não fora preparada para terminar em combate.
Pelo menos não inicialmente.
Althy deu alguns passos à frente.
Então falou.
E as palavras que saíram de sua boca começaram a desmontar séculos de segredos cuidadosamente enterrados.
...
Parte 2 — A Queda de TestamentO silêncio que tomou conta do pátio central do museu após as palavras de Althy parecia mais pesado do que qualquer ataque físico. Basco sentia o próprio mundo reorganizar-se à força enquanto tentava absorver a sucessão de revelações que a vidente despejava diante dele com uma serenidade quase cruel. Durante anos, a ausência de respostas sobre Edher e Igon fora uma ferida aberta em sua vida. Crescera ouvindo fragmentos de histórias, observando o sofrimento silencioso de Thamine e tentando preencher lacunas que jamais encontravam explicação. Agora, diante daquela mulher que atravessara séculos como uma sombra persistente, descobria que o desaparecimento do pai e do irmão não fora consequência de um acidente, de uma perseguição política ou de um infortúnio qualquer. Havia sido resultado de uma escolha. Uma intervenção deliberada. Althy observava suas reações como quem contempla uma peça finalmente encaixando-se em um quebra-cabeça iniciado muito antes de seu nascimento, e isso tornava tudo ainda mais perturbador.
Sem demonstrar qualquer remorso, ela descreveu o confronto ocorrido anos antes na Serra da Cantareira. Falou sobre Edher com um respeito desconfortável, reconhecendo sua força, inteligência e capacidade estratégica. Explicou que tentou recrutá-lo mais de uma vez, oferecendo alianças, poder e acesso a conhecimentos que poucos mutantes possuíam. Contudo, Edher recusara todas as propostas. Não por arrogância, mas porque enxergava em Althy algo que poucos conseguiam perceber. Ele compreendia que sua guerra não era por justiça, nem por sobrevivência mutante. Era uma guerra pessoal travestida de causa coletiva. Quando a recusa tornou-se definitiva, o conflito tornou-se inevitável. Althy não entrou em detalhes sobre a batalha, mas a forma como pronunciou a frase “eu venci” foi suficiente para que Basco compreendesse toda a gravidade do ocorrido. Não havia orgulho em sua voz. Apenas a frieza de alguém que registra um acontecimento histórico.
Ao lado dela, Igon permaneceu imóvel. Nenhuma emoção atravessava seu rosto. Nenhuma dúvida surgia em seu olhar. Basco percebeu então o tamanho do estrago provocado ao longo daqueles anos. Não estava diante do irmão desaparecido que procurara durante tanto tempo. Estava diante de alguém reconstruído peça por peça por outra pessoa. Althy não apenas apagou memórias. Ela reescreveu significados. Transformou abandono em lealdade, dor em propósito e ausência em devoção. Quando Basco o encarou, procurando qualquer sinal de reconhecimento, encontrou apenas uma muralha erguida ao longo de quinze anos de manipulação emocional. E foi justamente naquele instante que compreendeu algo terrível: resgatar Igon talvez fosse muito mais difícil do que derrotá-lo.
Enquanto a verdade era revelada do lado de fora, a guerra explodia nos corredores internos do museu. Folkhen, Isabelle e Madalenna haviam sido empurrados para uma ala repleta de salas de exposição, vitrines históricas e corredores estreitos onde qualquer vantagem numérica desaparecia. Testament conhecia exatamente o tipo de terreno que favorecia seus poderes. Não precisava destruir seus adversários fisicamente quando podia fazê-los destruir a si mesmos. A mutante concentrou-se imediatamente em Madalenna, percebendo nela vulnerabilidades que nenhum dos demais inimigos possuía. Havia medos antigos escondidos sob a disciplina da jovem. Havia lembranças dolorosas cuidadosamente enterradas. Havia dúvidas que ela raramente compartilhava. Testament mergulhou em tudo aquilo sem hesitação.
A Amnésia Noturna atingiu Madalenna como uma tempestade. O museu desapareceu diante de seus olhos. Os corredores tornaram-se cenários fragmentados de diferentes momentos de sua vida. Rostos familiares surgiam onde deveriam estar inimigos. Vozes misturavam-se. Passado e presente deixavam de existir como conceitos separados. A sensação era semelhante à de afogar-se em memórias enquanto alguém reorganizava cada lembrança para transformá-la numa arma. Quando Folkhen tentou aproximar-se para ajudá-la, a jovem não o reconheceu. Enxergou apenas uma ameaça avançando em sua direção. O espadim lunar reagiu antes mesmo que a razão pudesse interferir. A lâmina descreveu um arco brilhante e atingiu o veterano com violência devastadora.
O impacto lançou Folkhen contra uma das vitrines centrais do museu. Vidro, madeira e metal explodiram ao redor de seu corpo enquanto ele atravessava a estrutura expositiva e colidia contra uma parede de alvenaria. O corte aberto pelo espadim rasgou músculos e tecido, espalhando sangue sobre o piso encerado que, durante décadas, preservara apenas as marcas discretas da passagem de visitantes. A cena atingiu Isabelle com força. Ela sentiu o choque emocional de Madalenna, a dor física de Folkhen e a satisfação silenciosa de Testament quase ao mesmo tempo. Precisava agir rapidamente. Se a influência mental continuasse por mais alguns segundos, a jovem poderia matar um dos próprios companheiros.
Entretanto, Pappylon já havia previsto essa reação. O mutante espalhou seu pólen pelo ambiente de maneira quase imperceptível, transformando o ar dos corredores em uma armadilha biológica. Cada respiração tornava os pensamentos mais lentos. As pernas pareciam perder força. A concentração exigida pelos poderes telepáticos de Isabelle tornava-se cada vez mais difícil de manter. O museu inteiro assumiu contornos irreais. As sombras pareciam mover-se de forma independente. O som dos próprios batimentos cardíacos tornava-se distante. Pappylon observava o efeito com tranquilidade quase artística. Para ele, a derrota dos CelleXtys era apenas questão de tempo.
Foi então que algo mudou.
Caída de joelhos no centro do corredor, Madalenna lutava para distinguir realidade e ilusão. As vozes continuavam misturando-se dentro de sua mente. Imagens surgiam e desapareciam sem lógica aparente. Contudo, em meio ao caos, encontrou algo que Testament não conseguira corromper. A lua. Não a lua física que iluminava o céu naquela noite, mas aquilo que ela representava em sua própria identidade. Equilíbrio. Constância. Direção. A conexão que mantinha com aquela força tornou-se um ponto fixo dentro da tempestade mental. Lentamente, uma aura prateada começou a surgir ao redor de seu corpo, dissipando as distorções que envolviam sua consciência. As mentiras implantadas por Testament começaram a ruir. As vozes desapareceram. O medo perdeu força.
Quando Madalenna voltou a ficar de pé, não havia hesitação em seus movimentos. Testament percebeu tarde demais que perdera o controle da situação. A jovem avançou com velocidade surpreendente. O espadim lunar brilhou intensamente enquanto atravessava o corredor. O golpe foi limpo. Preciso. Definitivo. A lâmina penetrou o abdômen da mutante, atravessando carne e órgãos antes de emergir pelas costas. Durante alguns segundos, Testament permaneceu imóvel. Os olhos arregalaram-se não pela dor, mas pela surpresa. Pela primeira vez desde que os CelleXtys a conheciam, parecia incapaz de acreditar no que estava acontecendo. Tentou falar. Talvez uma ameaça. Talvez uma maldição. Talvez apenas o nome de alguém. Nenhuma palavra saiu.
O corpo perdeu força gradualmente. Os joelhos dobraram. O sangue escorreu lentamente sobre o piso do museu. Então ela caiu.
Morta.
O silêncio que se instalou em seguida foi quase tão impactante quanto o golpe que encerrara sua vida. Porque aquela não era apenas uma derrota. Era a primeira baixa real da Gangue Fantasma. Até então, o grupo de Althy perdera confrontos, planos e oportunidades, mas jamais perdera um dos seus. A morte de Testament alterava completamente as regras do jogo. E todos os presentes compreenderam isso imediatamente. Pappylon foi o primeiro a sentir. O choque atravessou sua mente antes mesmo que seus olhos encontrassem o corpo caído da companheira. Pela primeira vez desde o início da batalha, sua confiança desapareceu.

A morte de Testament alterou instantaneamente o ritmo da batalha. Durante anos, ela fora uma das peças mais constantes da Gangue Fantasma. Não era a mais poderosa do grupo, tampouco a mais temida, mas exercia uma função que poucos compreendiam completamente. Era ela quem explorava fraquezas emocionais, quem desmontava adversários por dentro antes que qualquer golpe físico fosse desferido. Sua presença tornara-se tão habitual que até mesmo seus aliados pareciam acreditar que ela era intocável. Ver seu corpo estendido sobre o piso do museu, cercado pelo brilho prateado que ainda emanava do espadim de Madalenna, produziu um choque silencioso em todos os envolvidos. Pela primeira vez, a Gangue Fantasma compreendeu que também podia sangrar. Pela primeira vez, percebeu que a morte não era uma ameaça reservada apenas aos seus inimigos.
Pappylon foi o mais afetado. O mutante permaneceu imóvel por alguns segundos, incapaz de desviar os olhos da companheira caída. O choque transformou-se rapidamente em raiva. O pólen espalhado pelo ambiente tornou-se mais denso, assumindo tonalidades esverdeadas que não costumavam acompanhar suas manifestações habituais. Isabelle sentiu a mudança imediatamente. Não era apenas um ataque biológico. Era emocional. O controle refinado que Pappylon normalmente mantinha sobre suas habilidades começava a ceder espaço para impulsos mais primitivos. O ar tornou-se pesado, quase sufocante, e os corredores do museu pareciam girar lentamente ao redor dos presentes. A diferença era que, desta vez, Rosa Vermelha estava preparada.
A telepata concentrou-se apesar do cansaço provocado pelo combate. Sua mente encontrou a de Pappylon em meio ao turbilhão de emoções que o consumia. O contato ocorreu como o choque entre duas tempestades. Durante um breve instante, Isabelle enxergou fragmentos da vida do adversário: cidades europeias iluminadas por néons, clubes noturnos repletos de rostos esquecidos, experiências fracassadas, rejeições acumuladas e, acima de tudo, uma necessidade desesperada de pertencimento. A Gangue Fantasma não era apenas uma equipe para ele. Era família. Era refúgio. Era identidade. A morte de Testament havia arrancado uma parte dessa estrutura. Aproveitando aquela vulnerabilidade, Isabelle lançou um contra-ataque psíquico devastador. Não buscou destruir sua mente. Apenas obrigou-o a encarar a própria dor sem filtros.
Pappylon cambaleou.
O pólen dispersou-se de forma irregular.
Madalenna avançou imediatamente.
A jovem ergueu novamente o espadim lunar. A lâmina refletia a luz que atravessava os vitrais antigos do museu, transformando-se em um arco prateado capaz de encerrar definitivamente aquele confronto. Seus olhos permaneciam fixos em Pappylon. Não havia ódio ali. Apenas determinação. Ela compreendia que uma oportunidade como aquela talvez nunca voltasse a surgir. Um golpe bastaria. Um único movimento encerraria a ameaça. Entretanto, antes que pudesse agir, uma mão segurou seu braço.
Folkhen.
Mesmo ferido, mesmo coberto pelo próprio sangue, o veterano havia conseguido levantar-se.
— Ele sabe que perdeu.
A frase saiu entrecortada pela dor, mas firme.
Madalenna hesitou.
Pappylon também.
Durante alguns segundos, ninguém se moveu.
Então o mutante recuou lentamente, levando consigo o peso da derrota e da perda que acabara de sofrer.
Do lado de fora, a batalha alcançava proporções ainda mais violentas.
Basco e Igon moviam-se pelo pátio do museu como duas forças naturais incapazes de coexistir no mesmo espaço. A cada colisão entre a névoa de Nevoeiro e os campos telecinéticos de Scariotis, ondas de impacto atravessavam o casarão inteiro. Vidros quebravam. Paredes rachavam. Estruturas centenárias tremiam sob a pressão liberada pelos dois irmãos. Basco continuava tentando encontrar alguma brecha sob a máscara construída por Althy. Não procurava apenas vencer. Procurava alcançar o homem escondido sob o codinome de Scariotis. Queria encontrar Igon. Queria acreditar que ainda existia algo a ser salvo.
Igon, porém, não demonstrava a mesma intenção.
Movia-se com precisão quase mecânica. Cada golpe era calculado. Cada ataque possuía um objetivo específico. O punhal dourado que carregava atravessava a névoa como se fosse capaz de ferir a própria essência dos poderes de Basco. Em diversos momentos, o Nevoeiro sentiu a lâmina passar perigosamente próxima de seu corpo físico antes de conseguir dispersar-se novamente. A magia ensinada por Althy estava funcionando exatamente como planejado. Pela primeira vez desde o reencontro, Basco percebeu que seu irmão possuía meios reais de neutralizar algumas de suas maiores vantagens.
Enquanto isso, Althy observava.
Não interferia diretamente.
Estudava.
Aprendia.
Cada movimento dos dois irmãos parecia fornecer informações valiosas para algum cálculo que apenas ela compreendia.
Foi Gregory quem rompeu aquele equilíbrio.
O jovem avançou quando percebeu a movimentação da vidente. Três anos de treinamento no Limbo haviam transformado não apenas seu poder, mas também sua forma de pensar. Ele não atacava por impulso. Avaliava cenários. Antecipava reações. Escolhia prioridades. Quando Althy ergueu as mãos e começou a traçar símbolos arcanos no ar, Gregory já estava se movendo.
O portal abriu-se acima do pátio.
E o dragão surgiu.
Diferente da criatura enfrentada no Brás, aquele parecia mais sólido. Mais estável. Escamas escuras refletiam tons azulados sob a iluminação elétrica do museu, enquanto asas enormes projetavam sombras que cobriam boa parte do terreno. O rugido fez o vidro do teto vibrar. Algumas placas chegaram a estilhaçar-se.
A criatura mergulhou.
Gregory não recuou.
Seu corpo começou a transformar-se imediatamente.
Camadas de prata viva espalharam-se pela pele, endurecendo músculos, braços e pernas. As garras do dragão encontraram aquela superfície metálica e produziram apenas faíscas. O impacto lançou o rapaz vários metros para trás, mas não causou o dano esperado. Gregory rolou pelo chão e levantou-se antes mesmo que a criatura completasse a curva para um segundo ataque.
Então contra-atacou.
Três dardos de prata surgiram em suas mãos.
O primeiro atingiu a asa direita do monstro, desviando sua trajetória.
O segundo atravessou uma região próxima ao pescoço, obrigando-o a recuar.
O terceiro foi direcionado para Althy.
A vidente moveu-se apenas o suficiente para evitar que o projétil atravessasse seu peito. Ainda assim, a prata rasgou parte de sua manga e abriu um corte superficial em seu braço. Pela primeira vez desde que os CelleXtys a conheciam, alguém conseguira feri-la diretamente.
A reação foi imediata.
A concentração necessária para sustentar a criatura vacilou.
O dragão rugiu mais uma vez.
Depois começou a desfazer-se.
As escamas transformaram-se em partículas luminosas. As asas dissolveram-se como fumaça. Em poucos segundos, restavam apenas fragmentos de energia desaparecendo no ar.
Foi naquele momento que Althy compreendeu que a situação havia mudado.
Testament estava morta.
Pappylon estava abalado.
Ela própria estava ferida.
E os CelleXtys haviam recuperado dois combatentes extremamente importantes.
A retirada tornou-se inevitável.
Scariotis percebeu a decisão antes mesmo que ela fosse verbalizada.
Um pulso telecinético explodiu a partir de seu corpo, atravessando o pátio como uma onda invisível. Basco, Gregory, Carcará e os demais foram lançados contra paredes, colunas e estruturas históricas. O impacto criou a distração necessária. Althy reuniu-se a Pappylon enquanto o dragão era reconstruído parcialmente através de um novo círculo mágico. Ferida, mas ainda funcional, a criatura voltou a existir apenas o suficiente para transportá-los.
Igon foi o último a partir.
Por um instante, seus olhos encontraram os de Basco.
Nenhuma palavra foi dita.
Nenhum gesto aconteceu.
Mas algo pareceu vacilar.
Algo pequeno.
Quase imperceptível.
Então ele desapareceu junto aos demais.
A batalha havia terminado.
Mas a guerra estava apenas começando.
Os dias seguintes transcorreram de maneira estranhamente silenciosa. Folkhen recusou-se a permanecer hospitalizado por muito tempo, insistindo em retornar à EBX assim que seus ferimentos permitiram. A vitória conquistada em Sorocaba possuía um sabor amargo. Testament estava morta. Pappylon escapara. Althy continuava livre. E a presença psíquica detectada por Isabelle pouco antes da batalha permanecia sem explicação. Alguém observara tudo. Alguém suficientemente poderoso para evitar ser identificado.
Na virada de 1998 para 1999, enquanto milhões de pessoas comemoravam o início de um novo ano, Althy reunia os remanescentes da Gangue Fantasma em um local desconhecido. A perda de Testament criara um vazio que precisava ser preenchido rapidamente. Foi nesse contexto que dois novos aliados surgiram.
Caio era um vampiro do clã Brujah. Alto, coberto por tatuagens e dono de uma voz capaz de manipular percepções, passara anos entrando em conflito com lideranças tradicionais da Geração Vamp. Ao seu lado estava Lira, pertencente ao clã Giovanni. Elegante, silenciosa e assustadoramente eficiente, possuía a capacidade de drenar a força vital de qualquer ser vivo que permanecesse próximo demais por tempo suficiente. Ambos haviam sido expulsos de círculos importantes da comunidade vampírica. Ambos carregavam ressentimentos profundos.
Althy ofereceu exatamente aquilo que procuravam.
Liberdade.
Propósito.
E vingança.
Eles aceitaram.
Meses depois, já no outono de 1999, o primeiro movimento da nova formação da Gangue Fantasma aconteceu.
O alvo era um Arsenal de Guerra localizado na Lapa, em São Paulo.
Quando Caio e Lira atravessaram os portões da instalação militar, poucos imaginavam que estavam testemunhando o início de uma nova fase do conflito. Os primeiros soldados caíram rapidamente. Depois vieram os alarmes. Os gritos. A correria. Então Caio utilizou seu poder.
Os mortos levantaram-se.
Não estavam vivos.
Não verdadeiramente.
Eram ilusões vestidas sobre cadáveres recentes.
Mas ninguém percebeu a diferença.
Homens que haviam acabado de morrer começaram a caminhar novamente entre antigos companheiros de farda. Alguns chamavam nomes. Outros murmuravam pedidos de ajuda. Outros apenas avançavam em silêncio. O terror espalhou-se pelo quartel muito mais rápido do que qualquer ataque convencional.
Enquanto isso, Lira movia-se entre os corredores.
Invisível.
Elegante.
Letal.
Onde passava, soldados envelheciam em segundos. A pele retraía. Os músculos desapareciam. Os corpos transformavam-se em figuras mumificadas antes mesmo de atingirem o chão.
Quando tudo terminou, o silêncio dominava a instalação.
No subsolo, preso em um tanque preenchido por substâncias conservantes, encontrava-se Sphinx.
Tubos atravessavam seu corpo.
Sensores monitoravam cada função vital.
Experimentos haviam sido conduzidos durante semanas.
Caio destruiu o tanque com um único gesto.
Lira arrancou as conexões restantes.
A água espalhou-se pelo piso.
Durante alguns segundos, nada aconteceu.
Então Sphinx abriu os olhos.
E naquele instante, em algum lugar de São Paulo, Althy sorriu.
Porque a guerra acabara de mudar de patamar.
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