CelleXty Saga - Temporada I
17 O Brilho da Lua
Arquivo Confidencial — Instituto Xavier
Sujeitos: Basco Khassan Markel (Nevoeiro), Gregory D’Luca, Igon Markel (Scariotis), Althy, Isabelle Hoffmann (Rosa Vermelha), Ivan Castro de Medeiros (Tornado), Lucius Viriato (Inquisidor), Madalenna (Mandala), Carcará, Sphinx, Caio (Clã Brujah), Lira (Clã Giovanni)
Status: Confronto público de larga escala. Massacre televisionado. Manifestação lunar de nível ômega detectada. Escalada irreversível do conflito mutante-vampírico.
Parte 1 — O Pavilhão dos Mortos
O outono de 1999 avançava sobre São Paulo carregando a estranha sensação de que algo estava mudando no mundo. O século aproximava-se do fim e, com ele, desaparecia também a ilusão de estabilidade construída ao longo dos anos anteriores. A tecnologia avançava em velocidade inédita, empresas surgiam prometendo revolucionar a comunicação global e governos falavam constantemente sobre progresso. Entretanto, sob a superfície daquele discurso otimista, cresciam tensões que nem políticos nem empresários pareciam capazes de controlar. Mutantes continuavam desaparecendo em diferentes regiões do país. Pequenos grupos extremistas multiplicavam-se silenciosamente. Vampiros moviam-se pelas sombras com ousadia crescente. E a Gangue Fantasma deixara claro que não pretendia mais permanecer escondida.
Naquela manhã, porém, nada parecia indicar o desastre que se aproximava. O Salão do Automóvel ocupava praticamente todo o Centro de Convenções do Anhembi. Corredores amplos ligavam dezenas de estandes iluminados por refletores poderosos que transformavam carros em obras de arte futuristas. Executivos discursavam sobre inovação tecnológica, jornalistas disputavam entrevistas exclusivas e milhares de visitantes percorriam os pavilhões observando lançamentos vindos da Europa, Estados Unidos e Japão. O ambiente pulsava com entusiasmo. O cheiro de metal novo misturava-se ao perfume caro dos convidados, criando a sensação de que o futuro estava sendo exibido ali, diante dos olhos de todos.
As câmeras de televisão transmitiam imagens ao vivo para diferentes estados do país quando o primeiro sinal de que algo estava errado surgiu de maneira quase imperceptível. Um jornalista que entrevistava representantes de uma montadora interrompeu a própria fala no meio da frase. Durante um segundo, pareceu apenas confuso. Então levou a mão ao peito. O microfone escorregou entre seus dedos. Os joelhos perderam força. Antes que alguém pudesse ajudá-lo, sua pele começou a enrugar diante das câmeras. As veias escureceram. Os olhos afundaram nas órbitas. O homem envelheceu décadas em questão de segundos, tombando sobre o carpete vermelho sem sequer conseguir gritar.
O cinegrafista continuou filmando por puro reflexo profissional. Talvez por choque. Talvez porque sua mente ainda tentasse encontrar uma explicação racional para o que estava vendo. A lente captou cada detalhe da transformação. O rosto do jornalista afundando sobre os próprios ossos. Os dedos tornando-se finos e ressecados. Os lábios adquirindo a aparência de pergaminho antigo. Quando finalmente compreendeu que aquilo não era uma encenação nem um efeito especial, já era tarde demais. O pânico espalhava-se pelo pavilhão.
Os primeiros gritos ecoaram entre os estandes da Ford e da Chevrolet. Em poucos segundos, centenas de pessoas corriam em direções diferentes, derrubando estruturas promocionais, vitrines e equipamentos de iluminação. Crianças eram arrancadas dos braços dos pais na tentativa desesperada de escapar. Funcionários abandonavam seus postos. Seguranças sacavam armas sem sequer saber contra quem deveriam apontá-las. O caos crescia como um incêndio alimentado pelo vento, espalhando-se por corredores inteiros antes que qualquer autoridade compreendesse a dimensão da ameaça.
Do alto de uma estrutura metálica utilizada para iluminação, Caio observava tudo com expressão tranquila. A movimentação frenética abaixo dele parecia diverti-lo. Vestido com elegância quase exagerada para um massacre daquela proporção, o vampiro acompanhava cada reação humana como um maestro observando os primeiros acordes de uma sinfonia cuidadosamente ensaiada. Não havia raiva em seus olhos. Não havia prazer sádico. Apenas convicção. Para ele, aquele ataque não era um ato de crueldade gratuita. Era uma mensagem.
Ao seu lado, Lira fechou os olhos.
Foi nesse instante que o verdadeiro horror começou.
As pessoas que tombavam não permaneciam imóveis.
Os primeiros corpos voltaram a se mover poucos segundos após a morte. Um segurança que tivera a força vital drenada tentou levantar-se apoiando-se em uma coluna. Uma promotora de eventos arrastou-se lentamente para fora de um estande. Um fotógrafo ergueu-se com movimentos descoordenados, segurando ainda a câmera quebrada entre os dedos ressecados. Nenhum deles possuía vida. Nenhum deles possuía consciência. Ainda assim caminhavam.
O pânico transformou-se em terror absoluto.
Alguns visitantes acreditaram estar presenciando um ataque biológico. Outros imaginaram tratar-se de algum tipo de atentado terrorista. Poucos sequer cogitaram a possibilidade de vampiros e mutantes estarem envolvidos. A verdade era muito pior. Corpos continuavam levantando-se à medida que novas vítimas caíam. Em questão de minutos, o Salão do Automóvel transformou-se em um labirinto povoado por cadáveres ambulantes.
Quando o alerta finalmente chegou à Escola Brasil X, a situação já havia saído completamente do controle.
Ivan foi o primeiro a atravessar a entrada principal do pavilhão.
Ao seu lado estavam Lucius e Madalenna.
O trio parou por alguns segundos diante da cena que se desenrolava à frente deles. O ar estava impregnado pelo cheiro de sangue, fumaça e medo. Sirenes ecoavam do lado de fora do centro de convenções, mas eram quase abafadas pelo som dos gritos vindos dos corredores internos. Pessoas corriam desesperadamente em busca de saídas enquanto dezenas de figuras cambaleantes avançavam entre veículos de exposição e estruturas promocionais destruídas.
Ivan reagiu primeiro.
Correntes de energia psiônica explodiram de suas mãos como serpentes luminosas. Os chicotes energéticos atravessaram três cadáveres que avançavam em direção a um grupo de civis encurralados. A descarga abriu crateras fumegantes nos torsos das criaturas, lançando-as vários metros para trás. Durante um breve instante, Tornado acreditou ter resolvido o problema. Então os corpos voltaram a se mover. Ossos estalaram. Músculos rasgados reorganizaram-se. Mandíbulas quebradas fecharam novamente.
— Eles não sentem dor! — gritou.
A constatação chegou tarde demais.
Novos mortos avançavam.
Lucius ergueu imediatamente o braço direito enquanto o olho esquerdo começava a emitir o brilho característico de suas manifestações psíquicas. A pressão telecinética espalhou-se pelo ambiente como uma onda invisível. Dezenas de cadáveres foram arremessados contra um estande metálico que desabou sob o impacto. Estruturas inteiras amassaram-se sobre os corpos. Costelas quebraram. Crânios partiram-se contra o aço retorcido. Durante alguns segundos, o silêncio pareceu retornar àquele setor do pavilhão.
Então uma mão surgiu entre os destroços.
Depois outra.
E outra.
Os mortos continuavam se levantando.
Madalenna tentou encontrar consciências por trás daqueles movimentos, procurando alguma presença mental que pudesse ser neutralizada. Não encontrou nada. Nenhum pensamento. Nenhuma emoção. Nenhuma identidade. Apenas ecos vazios movendo-se através de corpos que deveriam estar mortos. A percepção daquela ausência produziu um arrepio involuntário. Não estavam enfrentando pessoas controladas. Estavam enfrentando instrumentos.
E os verdadeiros responsáveis ainda não haviam aparecido.
"Três meses depois..."
Parte 2 — Barueri
Enquanto o caos consumia o Anhembi e imagens de morte começavam a ser transmitidas para emissoras de todo o país, outro confronto igualmente importante desenrolava-se a dezenas de quilômetros dali. O antigo Arsenal de Guerra, em Barueri, permanecia cercado por muros altos, galpões industriais e estruturas militares parcialmente abandonadas após os eventos recentes envolvendo a Gangue Fantasma. O céu daquela tarde carregava tons acinzentados que anunciavam chuva, mas a atmosfera pesada não vinha apenas do clima. Havia algo mais profundo pairando sobre aquele lugar. Uma sensação de inevitabilidade. Como se todos os caminhos percorridos pelos irmãos Markel ao longo dos últimos quinze anos convergissem finalmente para aquele momento.
Basco observava Igon a poucos metros de distância sem conseguir ignorar a mistura de emoções que se acumulava dentro dele. Durante anos imaginara como seria reencontrar o irmão desaparecido. Fantasiara inúmeras possibilidades. Pensara em abraços, explicações, reencontros dolorosos ou até mesmo em confrontos inevitáveis. Contudo, a realidade mostrava-se muito mais cruel do que qualquer cenário que sua imaginação construíra. O homem diante dele possuía o mesmo rosto que aparecia nas fotografias antigas guardadas por Thamine, mas carregava nos olhos algo completamente diferente. Havia dureza. Havia convicção. Havia uma tristeza profunda escondida sob camadas de disciplina e ressentimento. A presença de Althy em sua vida havia deixado marcas que não poderiam ser apagadas facilmente.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou. Gregory permaneceu próximo a Basco, observando tudo com atenção silenciosa. Isabelle, por sua vez, mantinha a mente parcialmente aberta, monitorando as inúmeras presenças psíquicas espalhadas pela região. O silêncio prolongado acabou sendo rompido pelo próprio Nevoeiro.
— A polícia procurou você e o nosso pai durante semanas — disse Basco, mantendo a voz firme apesar da tensão evidente. — Quando as buscas oficiais terminaram, minha mãe continuou procurando sozinha. Ela entrou naquela mata inúmeras vezes. Voltava exausta. Machucada. Às vezes coberta de lama. Eu queria acompanhá-la, mas ela nunca permitia. Achava que ainda existia uma chance de encontrar vocês. Achava que vocês podiam estar perdidos, feridos ou esperando ajuda. Os dias viraram semanas. As semanas viraram meses. E, aos poucos, ela foi deixando de ser a mesma pessoa.
Igon ouviu sem interromper.
O vento atravessou o terreno vazio do arsenal, movimentando levemente seus cabelos.
Quando respondeu, sua voz carregava uma serenidade desconfortável.
— Em outra realidade, talvez as coisas realmente pudessem ter sido diferentes.
Basco apertou os punhos.
A resposta parecia distante demais.
Fria demais.
Como se estivesse ouvindo alguém comentar sobre a vida de desconhecidos.
— Igon, por que você continua seguindo Althy? — perguntou. — Quantas mortes ainda serão necessárias para perceber que ela destrói tudo o que toca?
Um leve sorriso surgiu no rosto de Scariotis.
Não era um sorriso de deboche.
Era um sorriso de quem já ouvira aquela pergunta inúmeras vezes.
— Porque ela me encontrou quando ninguém mais encontrou. Porque ela me protegeu quando eu estava sozinho. Porque ela me ensinou coisas que vocês sequer imaginam existir. E porque foi ela quem me mostrou o que está esperando os mutantes no futuro.
A resposta veio sem hesitação.
Sem dúvida.
Como uma verdade absoluta.
— Ela mostrou linhas temporais inteiras sendo destruídas. Mostrou governos criando campos de contenção. Mostrou mutantes transformados em cobaias. Mostrou guerras que vocês ainda nem conseguem imaginar.
— E você acreditou nela?
— Eu vi.
O tom de sua voz tornou-se mais firme.
— Há uma diferença enorme entre acreditar e testemunhar.
Basco respirou profundamente.
Sabia que aquela conversa jamais seria simples.
Sabia também que atacar diretamente as convicções do irmão apenas reforçaria as barreiras construídas por Althy.
Ainda assim, precisava tentar.
— O futuro não é algo fixo.
— Isso é exatamente o que vocês querem acreditar.
Scariotis começou a caminhar lentamente pelo pátio.
— Quantos mutantes você acha que desapareceram nos últimos cinco anos? Quantos foram presos, estudados ou mortos sem que qualquer jornal publicasse uma linha sequer? Quantos precisaram abandonar suas cidades para sobreviver?
O olhar dele encontrou o de Basco.
— Vocês CelleXtys vivem escondidos em túneis, hospitais abandonados e bases secretas. Chamam isso de proteção. Eu chamo de confinamento.
A acusação atingiu Basco mais profundamente do que gostaria de admitir.
Porque parte dela continha verdade.
A Escola Brasil X existia justamente porque a convivência entre mutantes e sociedade ainda estava longe de ser segura.
Igon percebeu a hesitação.
E avançou.
— Você acha que o Soro Prometheus surgiu do nada? — perguntou. — Acha que a Operação Tolerância Zero nos Estados Unidos foi apenas um acidente político? Acha que Sphinx passou meses sendo torturado porque alguns militares tiveram um dia ruim?
O nome do companheiro trouxe uma sombra ao seu semblante.
Pela primeira vez, a emoção rompeu parte da armadura construída ao longo dos anos.
— Eu vi laboratórios. Vi celas. Vi mutantes sendo desmontados como máquinas defeituosas. Enquanto vocês tentam convencer o mundo de que a coexistência é possível, o mundo continua construindo maneiras de nos controlar.
Basco permaneceu em silêncio por alguns segundos.
As palavras do irmão ecoavam perigosamente próximas de algumas verdades que ele próprio conhecia.
Mas ainda assim havia uma diferença.
Uma diferença fundamental.
— E as ações da Gangue Fantasma ajudam em quê? — perguntou finalmente. — Quantos mutantes morreram por causa dos ataques de vocês? Quantas pessoas passaram a nos temer ainda mais depois do que aconteceu em Sorocaba, na Lapa e em tantas outras cidades?
Scariotis não desviou o olhar.
— Nós mostramos que não somos vítimas.
A resposta veio imediatamente.
— Mostramos que podemos reagir.
— Matando inocentes?
— Inocentes?
O sorriso desapareceu.
— Quando estivemos em Sorocaba, lembra do mutante que a telepata de vocês detectou?
Basco sentiu um arrepio percorrer a espinha.
Lembrava.
Muito bem.
Durante semanas acreditaram que aquela presença desconhecida fazia parte de algum plano da Gangue Fantasma.
— Nós o encontramos três dias depois — continuou Igon. — Encontramos o corpo em uma ferrovia abandonada. Espancado. Executado. Alguns policiais participaram do assassinato.
O silêncio caiu entre eles.
Basco sentiu o estômago se contrair.
— Eu não sabia.
— Eu sei que não sabia.
A resposta veio sem agressividade.
Talvez fosse exatamente isso que tornasse tudo mais difícil.
— Encontramos outros mutantes na cidade. Nenhum deles queria lutar. Nenhum deles queria se juntar a nós. Então demos uma escolha. Apenas isso. Eles partiram.
Basco permaneceu imóvel.
Pela primeira vez desde o reencontro, enxergava claramente o motivo pelo qual tantas pessoas acabavam seguindo Althy.
Ela não oferecia apenas revolta.
Oferecia respostas simples para problemas complexos.
Oferecia pertencimento.
Oferecia ação.
Mesmo quando a ação levava ao desastre.
A tensão entre os irmãos cresceu gradualmente. A névoa começou a escapar dos braços de Basco em finos filamentos. Ao mesmo tempo, pequenas descargas escarlates passaram a percorrer as mãos de Scariotis. O ar ao redor dos dois parecia vibrar, reagindo à energia acumulada.
A batalha estava prestes a começar.
Foi então que Isabelle levou a mão à cabeça.
Uma onda psíquica atravessou sua mente.
Dor.
Pânico.
Sangue.
Morte.
O Anhembi.
Ela viu fragmentos do combate acontecendo a quilômetros dali. Sentiu a presença de Ivan. Reconheceu Lucius. Encontrou Madalenna afundando em um oceano de sofrimento emocional.
E percebeu que eles estavam perdendo.
— Basco!
A voz da telepata ecoou pelo pátio.
— Anhembi. Agora!
O Nevoeiro reagiu instantaneamente.
Sem hesitar, ergueu as mãos e pronunciou as palavras aprendidas anos antes durante suas jornadas pelo Limbo. O espaço à frente deles rasgou-se como tecido sendo cortado por uma lâmina invisível. Um portal tomou forma, revelando fragmentos do pavilhão destruído do outro lado.
Antes de atravessar, Basco voltou-se uma última vez para o irmão.
Igon permaneceu imóvel.
Observando.
Esperando.
Então falou.
— Quando escolherem um lado, Basco... não haverá retorno.
As palavras acompanharam Nevoeiro enquanto ele atravessava o portal.
E, pela primeira vez desde o reencontro, ele teve a sensação de que aquela não era uma ameaça.
Era um aviso.

Parte 3 — O Brilho da Lua
No Anhembi, a situação havia ultrapassado qualquer possibilidade de controle convencional. O pavilhão central, que poucas horas antes exibira os símbolos do progresso tecnológico brasileiro, transformara-se em um cenário que lembrava relatos apocalípticos. As luzes de emergência piscavam intermitentemente entre colunas danificadas, projetando sombras distorcidas sobre veículos destruídos e estruturas metálicas retorcidas. O sistema de combate a incêndio fora acionado automaticamente após diversas explosões, fazendo uma chuva constante de água cair sobre corredores cobertos por sangue, vidro quebrado e equipamentos abandonados. O som das sirenes misturava-se aos gritos dos sobreviventes e ao eco distante dos helicópteros que começavam a sobrevoar a região, criando uma atmosfera sufocante que parecia comprimir o próprio ar.
Madalenna mal conseguia permanecer consciente. A drenagem promovida por Lira avançava lentamente, consumindo não apenas sua energia física, mas algo mais profundo. Era como se a vampira estivesse arrancando fragmentos da própria vitalidade da mutante, esvaziando-a pouco a pouco. A jovem sentia as pernas perderem força, a visão tornar-se turva e os pensamentos adquirirem uma lentidão assustadora. Ao mesmo tempo, as ilusões criadas por Caio continuavam atacando sua mente sem descanso. Ela via a Escola Brasil X em chamas. Via Lucius caído entre escombros. Via Ivan esmagado sob montanhas de concreto. Via Basco afundando em um oceano de névoa escura que parecia devorar sua própria identidade. Cada imagem surgia carregada por emoções tão intensas que se tornava difícil distinguir o que era mentira e o que era realidade. A intenção do vampiro era clara: destruir sua capacidade de resistir antes mesmo de destruir seu corpo.
Ivan tentava levantar-se novamente, mas cada movimento transformava-se em uma batalha particular. O confronto contra Caio deixara marcas profundas. Duas costelas quebradas dificultavam sua respiração, e a energia psiônica que normalmente percorria seu corpo com facilidade agora surgia em explosões irregulares, instáveis e dolorosas. Ainda assim, Tornado recusava-se a permanecer no chão. A cada tentativa de erguer-se, observava Madalenna sendo consumida lentamente pela vampira e sentia a urgência crescer dentro de si. Não era apenas uma companheira em perigo. Era alguém que se tornara parte daquela família improvisada que os CelleXtys haviam construído ao longo dos anos. O simples pensamento de perdê-la alimentava sua determinação muito mais do que qualquer discurso heroico.
Lucius também encontrava-se em situação crítica. O punhal dourado de Sphinx não era uma arma comum. Cada golpe parecia absorver parte da energia que sustentava seus poderes, tornando progressivamente mais difícil manter o controle sobre as manifestações psíquicas. O braço direito tremia involuntariamente. O olho esquerdo ardia como se estivesse sendo queimado por dentro. Mesmo assim, o Inquisidor continuava lutando. Recuava um passo. Atacava. Recuava novamente. O egípcio avançava com a precisão de um predador experiente, explorando cada abertura, cada hesitação e cada sinal de desgaste físico. Para alguém observando de fora, parecia apenas questão de tempo até que Lucius fosse finalmente derrotado.
Sphinx percebeu isso também.
Um sorriso surgiu em seu rosto enquanto girava o punhal entre os dedos.
Ele não demonstrava pressa.
Não precisava.
Sabia que a exaustão estava fazendo o trabalho por ele.
— Você sempre acreditou que disciplina seria suficiente — comentou enquanto circulava o adversário. — Sempre acreditou que controle resolveria tudo. Mas a verdade é que o mundo não respeita regras, Lucius. Nunca respeitou.
O Inquisidor não respondeu.
Concentrou-se apenas em permanecer de pé.
— Olhe ao redor — continuou Sphinx. — Este lugar é a prova disso. Os humanos dizem que querem paz. Dizem que querem coexistência. Mas basta sentirem medo para que tudo mude. Basta uma ameaça para que construam prisões, laboratórios e exércitos.
A provocação atingiu algo que Lucius não gostava de admitir.
Porque, em alguma medida, havia verdade naquelas palavras.
Entretanto, antes que pudesse formular qualquer resposta, o teto do pavilhão estremeceu violentamente.
Uma explosão ocorrida em outro setor do complexo havia comprometido parte da estrutura principal. O impacto percorreu vigas metálicas, suportes de iluminação e placas de revestimento. Diversos refletores despencaram. Colunas vibraram. Uma sequência de estalos percorreu o teto como um aviso.
Então uma enorme fissura se abriu acima deles.
Por ela surgiu a lua.
Inteira.
Brilhante.
Majestosa.
Durante uma fração de segundo, ninguém compreendeu o que estava acontecendo.
A luz prateada atravessou a abertura recém-formada e desceu sobre o pavilhão como uma cascata silenciosa. Não possuía a intensidade agressiva de um raio solar. Não queimava. Não cegava. Parecia algo antigo. Familiar. Como se estivesse retornando para casa depois de uma longa ausência.
O primeiro contato ocorreu com Madalenna.
A jovem ainda encontrava-se ajoelhada quando a luz tocou sua pele.
O efeito foi imediato.
Lira sentiu.
Antes mesmo de compreender.
Antes mesmo de reagir.
A conexão que mantinha com a mutante simplesmente desapareceu.
Não foi rompida por força.
Não foi bloqueada.
Foi anulada.
Como se jamais tivesse existido.
Uma onda de energia branca explodiu ao redor de Madalenna e lançou a vampira vários metros para trás. Lira atravessou uma fileira de cadeiras metálicas antes de colidir violentamente contra uma estrutura promocional. O impacto arrancou um grito involuntário de seus lábios.
Caio também recuou.
Pela primeira vez desde o início do confronto, seu semblante demonstrou preocupação genuína.
Porque as ilusões haviam desaparecido.
Todas elas.
Instantaneamente.
As imagens que aprisionavam a mente de Madalenna evaporaram como névoa diante do vento.
A jovem levantou-se lentamente.
O sangue que escorria por suas costas começou a transformar-se em partículas luminosas que desapareciam no ar. Seus pés deixaram o chão poucos centímetros. Os cabelos movimentaram-se sem que houvesse qualquer corrente de vento. E seus olhos tornaram-se duas esferas prateadas que refletiam não apenas a luz da lua, mas algo muito maior do que ela.
Ivan observou a transformação sem conseguir esconder o espanto.
Lucius também.
Até mesmo Sphinx pareceu hesitar.
Porque aquilo não se parecia com uma mutação comum.
Não se parecia sequer com uma manifestação de poder.
Parecia uma entidade despertando.
A energia expandiu-se pelo pavilhão em ondas sucessivas. Cada pulso percorria o ambiente como o som silencioso de um coração colossal. Onde a luz passava, os mortos animados por Caio simplesmente desabavam. Não eram destruídos. Apenas deixavam de se mover. Como marionetes cujos fios haviam sido cortados. Os vampiros sentiram algo muito pior. Suas peles começaram a arder. Não como queimaduras físicas, mas como se a própria essência que sustentava sua condição estivesse sendo exposta a uma força incompatível com sua natureza.
Lira tentou levantar-se.
Não conseguiu.
Caio protegeu os olhos com o braço.
A dor era evidente.
Sphinx avançou por puro instinto, recusando-se a aceitar que qualquer adversário pudesse alterar completamente o equilíbrio daquela batalha. O punhal dourado descreveu um arco perfeito enquanto ele investia contra Madalenna. Porém, antes que a lâmina alcançasse seu alvo, uma explosão silenciosa de energia lunar atravessou o espaço entre eles. O impacto atingiu o egípcio em cheio, lançando-o contra uma das colunas centrais do pavilhão. O concreto rachou. Fragmentos voaram em todas as direções. Pela primeira vez em muito tempo, Sphinx permaneceu alguns segundos sem conseguir se levantar.
Madalenna não parecia agir por raiva.
Nem por desejo de vingança.
Esse era justamente o aspecto mais assustador.
Ela simplesmente irradiava.
A lua não respondia às suas emoções.
A lua respondia à sua existência.
Cada pulso de energia ampliava a sensação de que algo ancestral estava se manifestando através dela. Uma força que não pertencia apenas ao mundo dos mutantes. Uma força ligada a ciclos, marés, céu e tempo. Algo que existia muito antes da criação da EBX, da Gangue Fantasma ou mesmo dos conflitos que dividiam humanos, vampiros e mutantes.
Ivan sentiu suas costelas começarem a se recompor sob a influência daquela energia.
Lucius percebeu a dor diminuir gradualmente.
Os sobreviventes espalhados pelo pavilhão também começaram a recuperar forças.
Era como se a própria presença de Madalenna restaurasse equilíbrio onde antes existia apenas caos.
Caio compreendeu que a batalha estava perdida.
E agiu imediatamente.
Sem orgulho.
Sem heroísmo.
Sem discursos.
Apenas sobrevivência.
Agarrou Lira pelo braço e recuou para as sombras mais próximas. Sphinx, ainda atordoado, conseguiu erguer-se e seguiu o mesmo caminho. Nenhum dos três pretendia continuar enfrentando aquela manifestação.
Foi nesse instante que um rasgo surgiu no ar.
Um portal.
Basco atravessou primeiro.
A névoa girava ao redor de seu corpo enquanto Gregory e Isabelle surgiam logo atrás. Bastou um olhar para compreender a situação. Os destroços. Os mortos. Os feridos. A energia lunar envolvendo Madalenna.
— Retirada! — ordenou imediatamente.
Os CelleXtys não precisaram ouvir duas vezes.
Helicópteros aproximavam-se.
Equipes militares cercavam o local.
Jornalistas continuavam transmitindo imagens ao vivo.
A guerra havia saído das sombras.
E milhões de pessoas estavam assistindo.
Um a um, os integrantes da equipe atravessaram o portal. Madalenna foi a última. A luz ao seu redor diminuiu gradualmente enquanto cruzava a abertura dimensional. Quando desapareceu, o pavilhão mergulhou novamente na escuridão parcial das luzes de emergência.
Ficaram para trás os corpos.
Os veículos destruídos.
As câmeras quebradas.
As gravações.
As testemunhas.
E a certeza de que nada voltaria a ser como antes.
Porque, naquela noite, sob o brilho da lua, o mundo inteiro viu monstros caminhando entre os vivos.
E viu heróis tentando detê-los.
A guerra não pertencia mais às sombras.
Agora ela pertencia à história.
Epílogo — Depois da Lua
Nas horas que se seguiram ao confronto, São Paulo mergulhou em um estado de confusão que nenhuma autoridade parecia preparada para administrar. As imagens transmitidas ao vivo pelas emissoras de televisão espalharam-se pelo país inteiro antes que qualquer tentativa de censura pudesse ser organizada. Especialistas discutiam freneticamente diante das câmeras. Políticos concediam entrevistas contraditórias. Militares evitavam perguntas. Enquanto isso, milhões de brasileiros assistiam repetidamente às mesmas cenas: pessoas correndo desesperadas pelos corredores do Anhembi, corpos que se recusavam a permanecer mortos e uma figura envolta por luz prateada elevando-se acima do caos como uma aparição impossível. Pela primeira vez na história recente do país, a existência de indivíduos extraordinários deixava de ser rumor, lenda urbana ou teoria conspiratória. Agora havia imagens. Havia testemunhas. Havia provas.
Nos subterrâneos da Escola Brasil X, o clima estava longe de qualquer celebração. A enfermaria encontrava-se lotada. Tornado permanecia deitado em uma das macas enquanto equipamentos improvisados monitoravam seus sinais vitais. Embora parte dos ferimentos tivesse sido amenizada pela energia irradiada por Madalenna, diversas lesões internas ainda exigiam atenção constante. Lucius ocupava outra ala do setor médico. O corte provocado pelo punhal de Sphinx continuava apresentando reações incomuns, como se algum resíduo da energia contida na arma permanecesse interferindo em sua recuperação. Mesmo assim, ambos insistiam em participar das reuniões emergenciais convocadas após o ataque.
Basco observava tudo em silêncio. A conversa com Igon continuava ecoando dentro de sua mente com insistência perturbadora. Ao longo dos últimos meses, tornara-se cada vez mais fácil enxergar Scariotis apenas como um inimigo. Contudo, o encontro em Barueri complicara essa visão. Pela primeira vez, ouvira argumentos que não podiam ser descartados simplesmente como manipulação de Althy. O assassinato do mutante em Sorocaba. Os experimentos conduzidos contra indivíduos como Sphinx. O Soro Prometheus. A Operação Tolerância Zero. Cada exemplo citado pelo irmão possuía raízes em acontecimentos reais. Isso não justificava os crimes da Gangue Fantasma, mas revelava uma verdade desconfortável: o medo que alimentava aquele movimento não surgira do nada.
Foi Gregory quem interrompeu seus pensamentos.
O adolescente aproximou-se carregando diversos jornais recolhidos naquela manhã. As manchetes ocupavam praticamente todas as capas. Algumas falavam em ataque terrorista. Outras utilizavam termos como "epidemia", "fenômeno paranormal" ou "evento biológico desconhecido". Poucas se arriscavam a mencionar mutantes ou vampiros diretamente, mas todas descreviam o mesmo sentimento coletivo: medo. Gregory espalhou os jornais sobre a mesa e observou as fotografias impressas. Em várias delas era possível identificar, ainda que de forma borrada, a silhueta luminosa de Madalenna pairando acima do pavilhão destruído.
— Eles vão procurar culpados — disse o rapaz.
Ninguém discordou.
Porque era exatamente isso que a sociedade costumava fazer quando confrontada por algo que não compreendia.
Em outro ponto da cidade, muito longe da proteção oferecida pela EBX, Althy observava aquelas mesmas notícias. Sentada diante de uma antiga janela de vitral, ela folheava jornais, relatórios e transcrições de programas televisivos com atenção quase acadêmica. Caio permanecia encostado em uma parede próxima. Lira recuperava-se dos ferimentos sofridos no confronto. Sphinx, ainda marcado pela experiência vivida no Arsenal, mantinha-se em silêncio. A morte de Testament continuava sendo uma ferida aberta dentro do grupo.
— Eles estão assustados — comentou Caio.
Althy fechou lentamente um dos jornais.
— Sim.
— E isso ajuda nossos planos?
A vidente voltou os olhos para a cidade visível além da janela.
As luzes de São Paulo brilhavam sob a noite como um oceano artificial.
— O medo sempre acelera mudanças.
Ninguém respondeu.
Porque todos sabiam o que ela queria dizer.
Ao longo da história, grandes conflitos raramente começavam por ideais. Começavam por medo.
Naquela mesma noite, em algum lugar desconhecido da capital, Igon observava uma fotografia antiga. O papel já apresentava sinais do tempo. As bordas estavam amareladas. Pequenas manchas dificultavam a identificação de alguns detalhes. Ainda assim, os rostos permaneciam reconhecíveis.
Edher.
Thamine.
Basco.
E ele próprio.
Durante vários minutos, permaneceu imóvel, encarando uma vida que parecia pertencer a outra pessoa. As palavras do irmão continuavam retornando contra sua vontade. A imagem de Thamine atravessando florestas em busca dos filhos desaparecidos insistia em reaparecer. As certezas construídas ao longo de quinze anos continuavam de pé, mas algo começava a se mover sob elas. Algo pequeno. Quase imperceptível. Uma dúvida.
E dúvidas eram perigosas.
Principalmente para alguém que dedicara a própria existência a uma única causa.
Muito acima da cidade, escondida entre nuvens iluminadas pelo luar, uma lua cheia continuava brilhando.
E, em algum lugar dos corredores silenciosos da EBX, Madalenna despertou sob sua luz.
Sem saber que sua manifestação no Anhembi não havia sido apenas uma demonstração de poder.
Havia sido um aviso.
Porque forças antigas estavam despertando.
E a guerra que todos acreditavam compreender estava prestes a se transformar em algo muito maior.
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