CelleXty Saga - Temporada I
18 Brasil - Protocolos de Contenção
Arquivo Confidencial — Instituto Xavier
Sujeitos: Gangue Fantasma; Geração Vamp; Camarilla; Verônica (Clã Toreador); Caio (Clã Brujah); Lira (Clã Giovanni); Gregory (Sangue de Prata); ESSEX
Status: Nível de Ameaça Nacional — Escalada Paranormal e Política
"Início de 1999..."
Parte 1 — Protocolos de Contenção
As consequências do massacre no Anhembi espalharam-se pelo Brasil com velocidade impossível de conter. Durante dias, emissoras de televisão exibiram repetidamente as mesmas imagens: pessoas correndo entre veículos destruídos, cadáveres levantando-se diante das câmeras e uma figura envolta por luz prateada pairando acima do caos como uma entidade saída de alguma profecia antiga. O governo tentou controlar a narrativa. Especialistas foram convocados para explicar o inexplicável. Autoridades militares classificaram parte dos registros como montagens ou interpretações equivocadas. Nada funcionou. Havia testemunhas demais. Havia gravações demais. Pela primeira vez, mutantes e vampiros deixavam de existir apenas nos bastidores da sociedade brasileira para ocupar o centro do debate nacional.
A pressão popular cresceu rapidamente. Programas de televisão passaram a discutir diariamente o que chamavam de “ameaça metahumana”. Editorialistas exigiam respostas. Parlamentares competiam entre si para apresentar propostas de segurança cada vez mais rígidas. Enquanto isso, grupos civis organizavam manifestações em diversas capitais. Algumas defendiam a proteção dos mutantes. Outras exigiam sua identificação imediata. Em poucas semanas, o país dividiu-se entre medo e indignação. Para muitos brasileiros, o problema não era mais econômico, político ou social. O problema agora possuía rosto, poderes extraordinários e capacidade de destruir cidades inteiras.
Foi nesse cenário que o governador de São Paulo surgiu em rede estadual numa noite de domingo. O pronunciamento foi transmitido simultaneamente por emissoras públicas e privadas. Atrás dele, bandeiras oficiais permaneciam imóveis sob a iluminação cuidadosamente planejada. O discurso começou moderado, mencionando segurança pública, estabilidade institucional e proteção da população. Porém, à medida que os minutos avançavam, o tom tornou-se mais duro. Falou sobre responsabilidade. Falou sobre ameaças invisíveis. Falou sobre a necessidade de medidas extraordinárias diante de circunstâncias extraordinárias. Quando terminou, anunciou oficialmente a criação dos chamados Protocolos de Contenção.
A medida concedia às Forças Armadas poderes ampliados para identificar, monitorar e capturar qualquer indivíduo que demonstrasse habilidades consideradas sobre-humanas em território paulista. O que inicialmente foi apresentado como uma ação temporária rapidamente revelou intenções muito mais profundas. Quarenta e cinco dias depois, o decreto transformou-se em política federal. O governo brasileiro, pressionado por setores militares, empresariais e internacionais, adotou oficialmente uma estrutura de vigilância mutante sem precedentes na história do país.
Equipamentos especializados começaram a surgir em aeroportos, rodoviárias, escolas, universidades e hospitais. Dispositivos capazes de detectar assinaturas genéticas associadas ao Gene X passaram a integrar operações de rotina. Agentes federais realizavam inspeções sem aviso prévio em empresas, residências e instituições públicas. Bastava uma suspeita para que alguém fosse levado aos recém-criados Departamentos de Registro Mutante. Oficialmente, tratava-se apenas de um cadastro nacional. Na prática, era o primeiro passo para algo muito mais perigoso.
Aqueles que resistiam ao registro enfrentavam consequências severas. Prisões especiais começaram a surgir em diferentes estados brasileiros. Estruturas modernas, isoladas e equipadas com tecnologias capazes de neutralizar diversas manifestações mutantes. A origem desses equipamentos gerou controvérsia imediata. Investigações independentes apontavam para contratos firmados entre o governo brasileiro e uma corporação norte-americana chamada ESSEX. Pouco conhecida do público, a empresa possuía histórico obscuro envolvendo pesquisas genéticas, segurança avançada e desenvolvimento de protocolos biotecnológicos de uso militar. Quanto mais seu nome aparecia em documentos oficiais, maior se tornava a preocupação entre os membros da comunidade mutante.
As consequências foram imediatas. Em cidades como Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador e Rio de Janeiro, confrontos explodiram entre forças de segurança e grupos que denunciavam perseguições indiscriminadas. Milhares de pessoas abandonaram centros urbanos. Algumas fugiam por medo dos mutantes. Outras fugiam por serem mutantes. Pequenas comunidades começaram a surgir em regiões afastadas do interior, enquanto relatos sobre milícias civis armadas multiplicavam-se em fóruns clandestinos e redes independentes. Alimentados por discursos extremistas, esses grupos passaram a caçar qualquer indivíduo suspeito de possuir habilidades especiais. Muitas vezes, sequer verificavam suas acusações.
No subsolo da antiga rede metroviária de São Paulo, a Escola Brasil X transformou-se definitivamente em uma fortaleza. Os tempos de relativa mobilidade haviam acabado. Patrulhas tornaram-se permanentes. Rotas de fuga eram revisadas diariamente. Sistemas de comunicação passaram por reformulações completas. Folkhen e Carcará dedicavam boa parte do tempo à elaboração de planos de evacuação e estratégias defensivas. O que antes era um refúgio tornou-se um bunker. E mesmo ali ninguém se sentia verdadeiramente seguro.
A situação da comunidade vampírica não era muito diferente. A Boate Mascarade continuava funcionando, mas sua função mudara profundamente. O local transformara-se em um dos poucos pontos seguros para membros da Geração Vamp que desejavam evitar exposição pública. Ainda assim, nem todos os clãs compartilhavam dos mesmos interesses. Alguns vampiros passaram a colaborar diretamente com autoridades e grupos privados. Mediante pagamentos generosos, entregavam esconderijos mutantes, rotas clandestinas e informações estratégicas. A antiga coexistência precária entre as duas comunidades começava a ruir.
Naquela madrugada, entretanto, nenhuma dessas preocupações ocupava a mente de Ivan Castro de Medeiros.
O cowboy dormia profundamente em um dos dormitórios improvisados da EBX. O confronto no Anhembi deixara marcas severas em seu corpo. Embora a manifestação lunar de Madalenna tivesse acelerado sua recuperação, diversos ferimentos ainda exigiam repouso. Pela primeira vez em muitos dias, seu sono era tranquilo. Talvez por isso ninguém tenha percebido a invasão.
Já passava das duas da manhã quando uma névoa escura começou a infiltrar-se pelos dutos de ventilação. O movimento era quase imperceptível. Sensores não dispararam. Alarmes permaneceram silenciosos. Até mesmo os mecanismos psíquicos desenvolvidos por Isabelle falharam em detectar a intrusão. A névoa avançou pelos corredores como uma criatura viva, evitando câmeras, sensores térmicos e sistemas de monitoramento antes de alcançar o quarto de Ivan.
Lentamente, a fumaça condensou-se.
Assumiu forma humana.
Verônica.
A Toreador permaneceu imóvel por alguns segundos, observando o mutante adormecido. Preso ao próprio pulso, um pequeno dispositivo neural emitia pulsos quase invisíveis de energia, mascarando temporariamente sua assinatura mental. A tecnologia era sofisticada. Cara. E provavelmente ilegal mesmo pelos padrões vampíricos. Ela sabia que teria apenas alguns minutos antes que os sistemas começassem a perceber algo errado.
Sem produzir qualquer ruído, aproximou-se da cama.
Retirou um pequeno frasco preso à cintura.
O líquido possuía tonalidade escura e consistência incomum.
Com cuidado, deixou algumas gotas escorrerem entre os lábios do cowboy.
Ivan engoliu instintivamente.
Foi nesse momento que uma voz surgiu atrás dela.
— Como entrou aqui?
Verônica não se assustou.
Sorriu.
Porque já reconhecia aquele cheiro.
Já conhecia aquela presença.
Gregory permanecia próximo à porta, parcialmente envolto por reflexos prateados que começavam a se espalhar por seus braços.
— Pode ter enganado os sistemas de segurança — continuou ele — mas jamais enganaria meu olfato.
A vampira observou o jovem durante alguns segundos.
Então riu baixinho.
— Gregory... você realmente cresceu.
...
Parte 2 — A Camarilla
Gregory permaneceu parado junto à entrada do dormitório por vários segundos, observando Verônica com uma atenção que poucos conseguiriam sustentar sem desconforto. Os anos passados no Limbo haviam alterado profundamente não apenas seus poderes, mas também sua percepção do mundo. Seu olfato era capaz de distinguir odores específicos em ambientes lotados, identificar alterações químicas no ar e reconhecer indivíduos antes mesmo que surgissem em seu campo de visão. Por isso, quando sentiu a presença da Toreador atravessando silenciosamente os corredores da Escola Brasil X, soube imediatamente que algo incomum estava acontecendo. O que o surpreendeu não foi a invasão em si, mas o fato de ela não demonstrar qualquer intenção hostil. A vampira permanecia ao lado da cama de Ivan com uma serenidade incompatível com alguém que acabara de penetrar clandestinamente na instalação mutante mais protegida do país.
O jovem percebeu também que Verônica parecia diferente. Não fisicamente, pois sua aparência permanecia praticamente inalterada desde o primeiro encontro no Mascarade. O que mudara era algo mais difícil de identificar. Havia cansaço em seu olhar. Não um desgaste corporal, mas emocional. A expressão de quem carregava preocupações que não podia compartilhar livremente. Gregory conhecia aquele sentimento. Durante muito tempo carregara sozinho o medo de se tornar uma ameaça para aqueles que tentavam ajudá-lo. Talvez por isso tenha decidido escutá-la antes de reagir de forma agressiva.
Quando questionou o conteúdo do pequeno frasco utilizado em Ivan, Verônica respondeu sem hesitação. Explicou que os efeitos deixados por Caio durante a batalha do Anhembi não haviam desaparecido completamente. A manifestação lunar de Madalenna estabilizara o organismo do cowboy, mas resíduos da influência vampírica permaneciam ativos em seu sistema nervoso. Com o passar dos meses, poderiam surgir complicações graves, comprometendo funções motoras, cognitivas e até mesmo a estabilidade de seus poderes. O líquido administrado era um antídoto raro, desenvolvido séculos antes por alquimistas ligados à própria comunidade vampírica. Não existiam muitas doses disponíveis. O simples fato de utilizá-lo demonstrava que Verônica considerava Ivan importante o suficiente para justificar o risco.
A sinceridade daquela explicação produziu um silêncio desconfortável entre os dois. Gregory havia passado boa parte da adolescência acreditando que vampiros e mutantes estavam destinados a permanecer em lados opostos de uma guerra inevitável. Contudo, quanto mais conhecia figuras como Verônica, mais difícil se tornava sustentar uma visão tão simples da realidade. Ela não se comportava como uma inimiga. Também não era exatamente uma aliada. Existia em algum espaço intermediário, navegando entre interesses conflitantes e tentando evitar que o mundo desabasse completamente ao seu redor. Talvez fosse justamente isso que a tornasse tão perigosa. Pessoas absolutamente boas ou absolutamente más costumavam ser previsíveis. Verônica não era nenhuma das duas coisas.
A conversa avançou quando Gregory percebeu que a vampira carregava um segundo recipiente escondido sob o casaco. O odor era diferente do primeiro, misturando componentes químicos e orgânicos que ele jamais encontrara antes. Quando a questionou, Verônica revelou que também trouxera tratamento para Isabelle. A telepata ainda apresentava efeitos residuais provocados pelas ilusões de Caio e pelo esforço psíquico realizado durante os eventos do Anhembi. Embora os sintomas fossem discretos, poderiam se agravar futuramente. Gregory observou-a durante alguns segundos sem dizer nada. Quanto mais respostas recebia, mais perguntas surgiam. Afinal, por que alguém arriscaria tanto para ajudar pessoas que, teoricamente, pertenciam a um grupo rival?
A resposta veio de forma simples. Verônica não tentou construir discursos elaborados nem justificar suas ações através de interesses políticos. Limitou-se a afirmar que nem todos os vampiros desejavam aquela guerra. A frase pareceu pequena diante da complexidade dos acontecimentos recentes, mas carregava um peso enorme. Porque significava que as divisões existentes dentro da própria comunidade vampírica eram muito mais profundas do que os CelleXtys imaginavam. Havia facções. Havia disputas internas. Havia indivíduos tentando impedir que o conflito escalasse para algo irreversível. Gregory não sabia exatamente o que pensar sobre aquilo. Apenas percebeu que o mundo continuava ficando mais complicado a cada nova descoberta.
Cerca de meia hora depois, Basco caminhava pelos corredores subterrâneos da EBX em direção a uma das antigas áreas de manutenção ferroviária desativadas. Gregory fora direto ao ponto ao avisá-lo sobre a visita inesperada. Não fornecera explicações detalhadas, mas também não precisara. O cheiro característico de Verônica permanecia no ar, misturando perfumes sofisticados com o aroma quase imperceptível de sangue antigo. Quando finalmente a encontrou, sentada sobre uma caixa metálica esquecida pelos tempos em que aqueles túneis ainda serviam ao metrô paulistano, sentiu uma estranha sensação de deslocamento. Por alguns segundos, a guerra, os Protocolos de Contenção, Althy e até mesmo Igon pareceram pertencer a outra realidade.
Verônica percebeu sua chegada antes mesmo que ele falasse. O olhar dela acompanhou cada passo enquanto ele se aproximava. Havia algo familiar naquele encontro. Algo que o fazia recordar noites passadas no Mascarade, quando seus maiores problemas envolviam missões de patrulha e discussões ocasionais com Lucius. Naquela época, o mundo parecia infinitamente mais simples. Ou talvez ele apenas fosse jovem demais para perceber a dimensão das ameaças que já existiam ao seu redor. Seja como fosse, a lembrança provocou um desconforto nostálgico difícil de ignorar.
— Você está com uma aparência horrível — comentou ela.
Basco soltou uma risada breve.
A naturalidade da observação contrastava de forma quase absurda com tudo o que estava acontecendo.
— Você acha que eu não sabia o que estava acontecendo? — perguntou Verônica, mantendo o olhar fixo nos presentes. — Eu sabia. Há meses.
O silêncio tomou conta do ambiente.
— Então por que não fez nada? — questionou Basco.
Verônica respirou profundamente antes de responder.
— Porque não estava autorizada. Os clãs observaram cada movimento de Althy, da Gangue Fantasma e dos Lycans. Interferir sem consenso poderia iniciar uma guerra entre facções que existe há séculos. Esperei enquanto ainda existia uma chance de conter tudo pelas sombras. Só agi quando ficou claro que o equilíbrio já havia sido rompido.
Verônica sustentou o olhar dele por alguns segundos antes de permitir que um sorriso discreto surgisse em seus lábios. Não era um sorriso provocativo, como os que costumava exibir no Mascarade para desconcertar visitantes desavisados. Havia algo diferente naquele momento. Talvez cansaço. Talvez alívio. Talvez apenas a estranha tranquilidade que surge quando duas pessoas sobrevivem a guerras suficientes para compreender que certos encontros podem ser mais raros do que gostariam de admitir. Basco percebeu isso imediatamente. Por trás da postura elegante e da aparente confiança, existia uma tensão que ela normalmente escondia com muito mais eficiência.
— E você continua usando o mesmo repertório de cumprimentos — respondeu ele, aproximando-se da antiga caixa metálica. — Imagino que vampiros de duzentos anos já tenham desenvolvido maneiras mais criativas de iniciar uma conversa.
— Desenvolvemos. Só não funcionam com você.
A resposta veio rápida demais para parecer ensaiada. Durante um instante, ambos ficaram em silêncio. O som distante dos sistemas de ventilação ecoava pelos túneis abandonados, misturando-se ao ruído quase imperceptível das tubulações antigas. Era um ambiente estranho para uma conversa daquela natureza, mas talvez nenhum dos dois estivesse interessado em conforto naquele momento. O mundo exterior tornara-se imprevisível demais para que pequenos detalhes importassem.
Basco observou o envelope que Verônica mantinha apoiado sobre o colo. Já havia aprendido que vampiros raramente corriam riscos sem motivo. Se ela decidira entrar clandestinamente na EBX, contornar sistemas de segurança e expor-se a possíveis confrontos com os CelleXtys, então o conteúdo daquele material provavelmente justificava o perigo.
— Gregory disse que você veio trazer respostas.
— Não exatamente.
— Então veio trazer problemas?
— Respostas costumam ser problemas disfarçados.
A frase arrancou um leve sorriso do mutante, mas ele percebeu imediatamente que a vampira estava falando sério. Verônica pegou o envelope e o entregou a ele. O papel estava envelhecido. Algumas marcas sugeriam que aqueles documentos haviam sido manuseados inúmeras vezes ao longo dos anos. Basco abriu cuidadosamente o conteúdo e encontrou fotografias, reproduções de manuscritos, registros financeiros, árvores genealógicas e anotações escritas em diferentes idiomas. Em um primeiro momento, nada parecia possuir relação direta com a Gangue Fantasma ou com os acontecimentos recentes. Entretanto, conforme seus olhos percorriam os documentos, começou a perceber um padrão inquietante.
Os mesmos sobrenomes apareciam repetidamente.
As mesmas organizações.
As mesmas cidades.
Os mesmos símbolos.
Séculos separavam alguns daqueles registros, mas certas figuras pareciam atravessar gerações sem jamais desaparecer completamente.
— O que estou olhando?
Verônica apoiou os cotovelos sobre os joelhos antes de responder. Ela parecia escolher cuidadosamente cada palavra, como alguém consciente de que determinadas informações, uma vez reveladas, não poderiam mais ser esquecidas.
— Você conhece a Geração Vamp porque ela existe aqui. Conhece os treze clãs porque eles fazem parte da realidade brasileira. Conhece o Mascarade porque é uma das estruturas mais visíveis da nossa comunidade. Mas tudo isso representa apenas uma pequena parte de algo muito maior.
Basco ergueu os olhos dos documentos.
— Maior quanto?
A Toreador respirou fundo.
— Grande o suficiente para atravessar continentes. Antigo o suficiente para sobreviver a impérios. Influente o suficiente para derrubar governos sem jamais aparecer em jornais.
Ela fez uma breve pausa.
— A Camarilla.
O nome pairou entre eles.
Basco já o ouvira antes. Comentários isolados. Rumores espalhados entre vampiros mais antigos. Referências ocasionais durante conversas que terminavam abruptamente quando alguém percebia sua presença. Nunca, porém, recebera uma explicação completa.
— Pensei que fosse apenas uma organização vampírica internacional.
— É isso que muitos acreditam.
O tom da resposta deixou claro que a realidade era muito mais complexa.
Verônica levantou-se e começou a caminhar lentamente pelo antigo corredor ferroviário. As luzes amareladas dos túneis projetavam sombras longas sobre as paredes de concreto, tornando sua figura quase espectral à distância. Quando voltou a falar, sua voz carregava um peso diferente.
— Imagine uma estrutura criada para sobreviver ao tempo. Não décadas. Séculos. Imagine famílias, clãs, linhagens inteiras dedicadas a preservar poder através das gerações. Agora imagine que essas pessoas não envelhecem. Não morrem de causas naturais. Não abandonam seus projetos porque o tempo passou. É assim que a Camarilla funciona.
Basco permaneceu em silêncio.
Ela continuou.
— Reis morreram. Presidentes desapareceram. Revoluções aconteceram. Fronteiras mudaram. A Camarilla permaneceu. Ela não governa países diretamente. Não precisa. Controla bancos, corporações, instituições religiosas, conglomerados de mídia e organizações privadas. Influencia decisões sem precisar aparecer. Move recursos sem precisar assinar documentos. Quando você olha para um conflito internacional, existe uma boa chance de que alguém ligado à Camarilla tenha lucrado com ele.
O mutante sentiu um desconforto crescente.
Aquilo ultrapassava qualquer coisa que esperava ouvir.
— E onde a Geração Vamp entra nisso?
— Somos periféricos.
A resposta veio sem orgulho.
— Importantes em escala regional. Úteis em determinadas operações. Mas periféricos.
Basco demorou alguns segundos para processar a informação.
— Você está dizendo que existe uma organização vampírica global capaz de influenciar governos inteiros e nós sequer sabíamos da existência dela?
— Vocês sabiam.
Ela corrigiu.
— Apenas não compreenderam a dimensão do problema.
O silêncio retornou.
Basco voltou a examinar os documentos espalhados sobre a caixa metálica. Pela primeira vez percebeu referências indiretas a eventos históricos que conhecia apenas superficialmente. Algumas organizações apareciam ligadas a crises econômicas internacionais. Outras estavam associadas a conflitos militares. Certos nomes surgiam próximos a registros envolvendo desaparecimentos, experimentos e operações clandestinas. Nada era conclusivo isoladamente. Porém, quando reunidos, aqueles fragmentos formavam uma imagem inquietante.
— E por que está me mostrando isso agora?
A pergunta fez Verônica parar.
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Porque a Camarilla começou a demonstrar interesse no Brasil.
Basco sentiu um frio percorrer a espinha.
— Interesse em quê?
— Em tudo.
A resposta foi simples.
E exatamente por isso tão preocupante.
Verônica voltou a sentar-se diante dele. Pela primeira vez desde o início da conversa, parecia genuinamente preocupada.
— O massacre no Anhembi chamou atenção internacional. Os Protocolos de Contenção chamaram atenção internacional. O surgimento da Gangue Fantasma chamou atenção internacional. Althy chamou atenção internacional. Tudo o que está acontecendo aqui deixou de ser um problema local.
Ela apontou para um dos documentos.
— E quando a Camarilla começa a observar uma região, normalmente significa que alguém pretende agir.
Basco permaneceu imóvel.
A sensação de que o tabuleiro estava se tornando muito maior voltava com força total. Primeiro os Protocolos de Contenção. Depois a ESSEX. Agora uma organização vampírica secular capaz de influenciar acontecimentos globais.
Por um instante, compreendeu algo que o deixou profundamente inquieto.
Talvez Althy não fosse a única jogadora movendo peças nas sombras.
Talvez nem fosse a mais perigosa.
E, se Verônica estivesse certa, a verdadeira guerra ainda nem havia começado.
...
Parte 3 — O Governo Invisível
Basco permaneceu em silêncio durante vários minutos após a partida de Verônica. Os documentos continuavam espalhados sobre a antiga caixa metálica, mas sua atenção já não estava concentrada apenas nos nomes, datas e organizações registradas nas páginas amareladas. Pela primeira vez desde o surgimento da Gangue Fantasma, teve a sensação de estar observando apenas uma pequena parte de um mecanismo muito maior. Durante meses, todos os esforços da EBX estiveram voltados para compreender Althy, localizar seus esconderijos e impedir seus planos. Entretanto, se a existência da Camarilla fosse tão relevante quanto Verônica sugeria, então talvez estivessem analisando apenas as peças mais visíveis do tabuleiro enquanto outros jogadores moviam-se livremente nas sombras.
Quando finalmente retornou aos setores centrais da Escola Brasil X, encontrou uma situação diferente daquela que deixara poucas horas antes. O ataque ao Anhembi e a implementação dos Protocolos de Contenção haviam transformado a rotina da base. O movimento era constante. Técnicos circulavam pelos corredores carregando equipamentos. Mutantes recém-chegados eram encaminhados para áreas de acolhimento improvisadas. Monitores exibiam transmissões de diferentes emissoras de televisão, todas discutindo o mesmo assunto: segurança nacional. Alguns canais falavam em regulamentação. Outros defendiam medidas ainda mais severas. Poucos demonstravam qualquer preocupação com os direitos daqueles que seriam afetados pelas novas políticas.
Gregory encontrava-se em uma das salas técnicas adaptadas nos antigos túneis ferroviários. Diversas telas exibiam diagramas, mapas da cidade e linhas de programação que avançavam rapidamente pelo monitor principal. Desde seu retorno do Limbo, o jovem demonstrara facilidade incomum para compreender sistemas complexos. Parte disso vinha da disciplina adquirida ao longo dos três anos passados sob a tutela de Basco. Outra parte parecia simplesmente fazer parte de sua própria natureza. O rapaz observava atentamente uma sequência de códigos quando percebeu a aproximação do mentor.
— Ela contou sobre a Camarilla?
A pergunta surgiu antes mesmo que Basco se sentasse.
O mutante lançou um olhar curioso para o rapaz.
— Você já sabia?
Gregory balançou a cabeça negativamente.
— Não. Mas consegui sentir o cheiro do medo nela.
Basco apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Desde quando você identifica emoções pelo cheiro?
— Desde que comecei a prestar atenção.
O comentário arrancou uma breve risada.
Entretanto, a leveza desapareceu rapidamente.
Gregory fechou algumas janelas do sistema antes de voltar-se completamente para ele.
— Ela está assustada.
— Eu também estaria.
— Não. É diferente.
O rapaz escolheu cuidadosamente as palavras.
— Ela não está com medo da Gangue Fantasma. Nem de Althy. Nem dos Protocolos de Contenção.
Basco permaneceu atento.
— Então do quê?
Gregory respirou fundo.
— Daquilo que está vindo depois.
A resposta ecoou de maneira desconfortável.
Porque era exatamente a mesma sensação que Basco experimentava desde a conversa nos túneis.
Durante anos, acreditara que os grandes conflitos surgiam de maneira clara. Existia uma ameaça. Existia uma resistência. Existia um objetivo. Agora tudo parecia nebuloso. Havia Althy. Havia a Camarilla. Havia a ESSEX. Havia governos. Havia organizações que sequer conheciam. Cada nova resposta produzia perguntas ainda maiores.
Enquanto isso, em outro ponto da cidade, Caio observava a chuva cair através dos vitrais quebrados de uma antiga construção industrial abandonada. O vampiro permanecia sentado sobre uma mesa enferrujada, girando lentamente uma moeda entre os dedos. Lira encontrava-se próxima a uma janela, recuperando-se dos ferimentos sofridos durante o confronto com Madalenna. As queimaduras provocadas pela energia lunar já haviam cicatrizado parcialmente, mas a lembrança permanecia viva.
Nenhum dos dois parecia confortável.
A derrota no Anhembi ainda pairava sobre o ambiente como uma sombra.
— Você acredita nela?
A pergunta partiu de Lira.
Caio demorou alguns segundos para responder.
— Em quem?
— Althy.
O Brujah soltou uma breve risada.
— Essa pergunta chegou alguns séculos atrasada.
Lira não sorriu.
Continuava séria.
— Estou falando sério.
— Eu também.
A moeda desapareceu entre seus dedos.
— Não sigo Althy porque acredito nela. Sigo porque os caminhos dela continuam funcionando.
O silêncio retornou.
Lira cruzou os braços.
— E se ela estiver errada?
Caio observou a chuva por alguns instantes.
— Então estaremos mortos antes de descobrir.
A resposta não ofereceu conforto algum.
Porque ambos sabiam que havia verdade nela.
Pela primeira vez desde que ingressaram na Gangue Fantasma, começavam a perceber que talvez nem mesmo Althy possuísse controle absoluto sobre os acontecimentos. O surgimento de Madalenna alterara completamente diversos cálculos. A exposição pública provocada pelo Anhembi acelerara processos que deveriam levar anos. E agora forças externas começavam a demonstrar interesse pelo conflito brasileiro.
Era um cenário que ninguém previra.
Nem mesmo a vidente temporal.
Dias depois, os efeitos dos Protocolos de Contenção tornaram-se ainda mais evidentes.
Operações coordenadas ocorreram simultaneamente em diversas capitais brasileiras. Centros comunitários foram fechados. Pequenas associações de apoio a mutantes tiveram suas atividades suspensas. Universidades receberam ordens para compartilhar dados genéticos coletados em pesquisas médicas. O discurso oficial continuava falando sobre proteção da população. Contudo, na prática, o país começava a construir uma infraestrutura de vigilância permanente.
Na EBX, as notícias eram acompanhadas com crescente preocupação.
Lucius encontrava-se reunido com Folkhen, Carcará e Basco em uma das antigas salas administrativas convertidas em centro de operações. Diversos documentos espalhavam-se sobre a mesa. Entre eles estavam relatórios relacionados à ESSEX, registros de movimentações militares e informações fornecidas por contatos espalhados pelo país.
— Estão construindo alguma coisa — afirmou Folkhen.
— Não apenas construindo — corrigiu Lucius. — Estão preparando terreno.
Carcará apoiou os braços sobre a mesa.
— Para quê?
Ninguém respondeu imediatamente.
Porque todos possuíam a mesma suspeita.
Mas ninguém queria verbalizá-la.
Basco permaneceu observando os documentos relacionados à ESSEX. Algumas transferências financeiras chamavam atenção. Contratos. Aquisição de terrenos. Importação de equipamentos especializados. Nada parecia ilegal isoladamente. Porém, quando analisados em conjunto, apontavam para uma estrutura muito mais ampla do que simples centros de contenção.
— Eles não estão se preparando para centenas de mutantes — disse por fim.
Os demais voltaram os olhos para ele.
— Estão se preparando para milhares.
O silêncio que se seguiu foi suficiente para confirmar que todos haviam chegado à mesma conclusão.
Naquela mesma noite, Gregory apresentou sua primeira grande contribuição para a defesa da Escola Brasil X.
Utilizando equipamentos abandonados, sistemas reaproveitados e tecnologias recuperadas ao longo dos anos, ele desenvolvera uma nova arquitetura de segurança para a base. Diferentemente dos mecanismos tradicionais, o sistema combinava sensores físicos, monitoramento térmico, reconhecimento biológico e algoritmos capazes de identificar padrões comportamentais incomuns. O objetivo era simples: impedir que qualquer invasor repetisse o feito de Verônica.
A apresentação ocorreu diante de praticamente toda a liderança da EBX.
— Não será perfeito — explicou Gregory enquanto exibia diagramas nas telas. — Mas tornará muito mais difícil entrar sem ser detectado.
Ivan, já recuperado graças ao antídoto fornecido pela vampira, observava tudo com expressão impressionada.
— Você tem dezesseis anos.
— Tecnicamente.
— Eu mal conseguia ligar um videocassete com dezesseis anos.
A observação arrancou algumas risadas.
Algo raro nos últimos tempos.
Por alguns minutos, a atmosfera tornou-se menos pesada.
Quase normal.
Quase.
Porque todos sabiam que aquela tranquilidade seria temporária.
Pouco antes do amanhecer, o rádio da Polícia Militar registrou a primeira transmissão de emergência.
A ocorrência vinha da região de Perdizes.
Inicialmente parecia apenas mais uma chamada comum envolvendo atividade suspeita em uma antiga instalação industrial desativada. A equipe enviada ao local manteve contato regular durante os primeiros minutos da operação. Informaram que encontraram sinais de invasão. Relataram movimentação no interior da estrutura. Solicitaram reforços.
Então as comunicações começaram a falhar.
Primeiro uma interferência.
Depois ruídos.
Em seguida silêncio.
Outras viaturas foram deslocadas.
Nenhuma conseguiu estabelecer contato com a equipe original.
Quando reforços finalmente chegaram à fábrica abandonada, encontraram os portões parcialmente destruídos. Havia marcas recentes de combate espalhadas pelo terreno. Paredes apresentavam sinais de impacto incompatíveis com armamentos convencionais. Diversas áreas mostravam vestígios de queimaduras, explosões e energia residual.
No interior do complexo, a situação era ainda pior.
Corpos estavam espalhados pelos corredores.
Alguns pertenciam a policiais.
Outros não puderam ser identificados imediatamente.
Havia sangue.
Havia destroços.
Havia marcas de fuga.
Mas não havia qualquer sinal da Gangue Fantasma.
Nem de Althy.
Nem de Caio.
Nem de Lira.
Nem de Sphinx.
Era como se todos tivessem desaparecido minutos antes da chegada dos reforços.
Na manhã seguinte, quando os relatórios preliminares chegaram à Escola Brasil X, Basco sentiu a mesma inquietação que o acompanhava desde a conversa com Verônica.
A guerra estava mudando.
Novos jogadores surgiam.
Novas alianças estavam sendo formadas.
E, pela primeira vez, ele começou a suspeitar que a Gangue Fantasma talvez não fosse a única força operando nas sombras.
Talvez fosse apenas a mais visível.
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