CelleXty Saga - A Nova Geração
8 Ao som da destruição - Parte I

A chegada à cidade de Carazinho aconteceu sob um céu pesado, carregado por nuvens tão baixas que pareciam esmagar lentamente a cidade sob uma camada opaca de concreto e umidade. Diferente do silêncio sobrenatural de Cruz Alta, ali havia excesso de vida. Ruídos atravessavam as avenidas em todas as direções. Motores aceleravam sem necessidade, caixas de som explodiam músicas diferentes em cada esquina e grupos de jovens se espalhavam pelas calçadas iluminadas por letreiros de neon, fumando, rindo e vivendo aquela falsa sensação de normalidade que as cidades grandes costumam oferecer. Carazinho sempre fora uma cidade de passagem, moldada pelo fluxo constante de pessoas e mercadorias vindas do norte do Rio Grande do Sul. Mas naquela noite havia algo escondido sob a superfície. Algo que se camuflava justamente no excesso de estímulo.
Onde tudo é barulho, o verdadeiro horror aprende a respirar sem ser percebido. Basco e Málaca estacionaram próximo à casa noturna BierSite, observando a fila que serpenteava pela calçada sob luzes pulsantes. O grave da música atravessava as paredes da casa noturna e vibrava diretamente no asfalto, subindo pelos pneus, atravessando a lataria e alcançando o peito de todos antes mesmo que saíssem do veículo. Málaca permaneceu alguns segundos imóvel, sentindo as vibrações se propagarem pelo chão. Não era apenas som. Havia força física naquelas ondas. Algo orgânico, vivo, pulsando sob o concreto. Mika encarava a entrada iluminada enquanto dezenas de jovens atravessavam os portões sem imaginar o que realmente os aguardava ali dentro. Emerson observava o movimento com atenção desconfortável, como um animal percebendo uma mudança invisível no ambiente. Já Kaila parecia inquieta. O som da casa noturna não atingia apenas seus ouvidos. Entrava diretamente em suas cordas vocais, interferindo na frequência natural de sua mutação.
— Aqui ninguém percebe nada… até ser tarde demais — disse Mika,
Málaca manteve os olhos fixos na entrada.
— E isso torna tudo pior. Lugar cheio significa risco dobrado. Qualquer erro nosso vira tragédia pros outros.
Basco se virou levemente para o grupo, sustentando o olhar em cada um deles.
— As pistas que temos de Arleqquin e Melissa nos trouxeram até aqui. Talvez até o tal Hypnos possa dar as caras. Ambiente cheio muda a regra. Vocês não enfrentam só o inimigo. Vocês enfrentam o efeito que ele provoca nos outros… e o que isso faz com vocês. Não sabemos que tipos de armadilhas esses dois prepararam desta vez.
Kostya assentiu, absorvendo mais do que as palavras.
— Então não pode sair do controle.
Basco respondeu sem alterar o tom:
— Não pode atingir quem não escolheu estar nisso.
...
O interior da BierSite parecia construído para engolir percepção humana. As luzes cortavam o ar em feixes violentos de azul, vermelho e púrpura enquanto fumaça artificial criava camadas que distorciam profundidade e direção. O chão vibrava continuamente sob os pés do público, sincronizando os corpos às batidas eletrônicas de maneira quase involuntária. Não era apenas música. Era presença física. Entrava pela pele, pelo peito, pela respiração. No centro daquele caos perfeitamente organizado, elevado sobre uma plataforma metálica cercada por telões pulsantes, estava Francisco. Jovem. Magro. Concentrado.
Completamente entregue ao próprio som. Os dedos dele dançavam pelos controladores da mesa como se tocassem algo invisível entre as frequências. Cada alteração mínima na música mudava o ambiente inteiro. Quando o grave aumentava, copos vibravam sobre as mesas. Quando os sintetizadores cortavam as frequências agudas, algumas pessoas levavam as mãos à cabeça sem entender o motivo da súbita dor latejante.
Mika foi a primeira a perceber que aquilo ultrapassava qualquer equipamento de som comum.
— Isso não é tecnologia… — murmurou ela enquanto observava as ondas de vibração distorcendo os reflexos dos vidros espalhados pelo salão. — O garoto tá manipulando tudo isso.
Kostya estreitou os olhos.
— O DJ?
— Ele não é só isso — respondeu Málaca, sentindo o chão estremecer sob seus pés. — O som tá reagindo ao corpo dele… e ele tá reagindo ao som.
Emerson fechou os olhos por um instante, tentando separar os estímulos ao redor, mas a música parece exercer um controle sobre seus poderes.
— Minhas escamas tão vibrando. Isso nunca acontece.
Kaila levou a mão ao peito, desconfortável. Também percebe que as vibrações fazem suas escamas se manifestarem de maneira involuntária.
— Parece que a música tá tentando entrar dentro da gente. — Eu não consigo distinguir o que é som… e o que é sensação. As batidas, elas são...
Mika observava com intensidade crescente.
— Porque ele misturou tudo. Frequência, emoção, corpo… não tem mais limite.
Basco permaneceu imóvel observando Francisco do outro lado da pista. O garoto não parecia agressivo. Não demonstrava prazer em causar dor. Pelo contrário. Havia entrega genuína no modo como conduzia cada batida, como se estivesse tentando criar algo belo através do próprio poder. E justamente por isso Basco desconfiou ainda mais.
— Então a gente não interfere ainda. A gente não sabe se ele está com Arleqquin e a Melissa, ou é mais um mutante vivendo sua vida na cidade.
...
A ruptura não veio com violência. Veio com ausência. A música cessou de forma abrupta, como se tivesse sido arrancada do espaço, deixando um vazio que não era silêncio — era falta. Francisco congelou. Seus olhos desceram lentamente até o celular ao lado da mesa de som. A tela iluminava o rosto dele com uma luz fria demais para aquele ambiente. Uma mensagem. Curta. Irreversível. “Ela tá comigo.” O ar pareceu parar quando viu a foto na tela. Amordaçada em um galpão, sua melhor amiga da escola.
— Não… — a palavra saiu dele como se fosse puxada de dentro.
O público começou a reclamar. Algumas vaias surgiram próximas ao palco. Pessoas erguiam celulares tentando filmar o que imaginavam ser apenas uma falha técnica. Francisco mal ouvia qualquer coisa. Seus olhos estavam presos àquela mensagem enquanto o desespero começava a consumir lentamente sua expressão. A multidão reagiu com confusão, murmúrios, impaciência. Ainda não era medo, mas era o início da confusão — Quem…? — a voz dele falhou.
— A escolha sempre vem quando você não está pronto pra fazer — disse uma voz atrás dele.
Melissa. Imóvel. Serena demais. Ela toca no ombro de Francisco e exibe no celular uma fotos de Basco e os demais CelleXtys. Eles eram o novo alvo do DJ e já se encontravam na casa de show. Melissa se propôs a abrir o caminho na multidão enquanto Francisco focava nos alvos. Seu poder não se restringia a fazer os outros se divertirem. Poderia ser mortal quando necessário. Os cabelos escuros caíam sobre os ombros enquanto parecia dominar o jovem Francisco com as suas palavras
O enxame não surgiu de imediato. Primeiro veio o som — um zumbido baixo, quase imperceptível, que se infiltrava no espaço deixado pela música. Aos poucos, pequenos pontos escuros começaram a ocupar o ar acima da pista, descendo em espiral, preenchendo o ambiente como uma presença viva e consciente. Milhares de cigarras em uma sinfonia ensurdecedora invadiram o ambiente. A reação foi instantânea. Gritos. Correria. Pânico.
— Todo mundo pra fora! — Ordenou os seguranças, já avançando.
Mas o controle já não era deles. Arleqquin surgiu entre as luzes, batendo palmas e integrado ao caos como se sempre tivesse pertencido àquele cenário. Seu sorriso não era apenas satisfação — era domínio. As luzes da pista o seguiam como se o caos fosse o palco natural de sua existência. Suspensórios antigos pendiam sobre a camisa amarelada pelo tempo enquanto sua maquiagem branca rachava levemente ao redor do sorriso exagerado. Fantasmas começaram a surgir atrás dele em meio à fumaça artificial da casa noturna.
Homens, mulheres e crianças vestidos com roupas de décadas diferentes caminhavam lentamente entre os convidados sem serem percebidos de imediato. Seus corpos já apodrecidos e ressequidos e alguns permanecem na escuridão do que um dia foi o primeiro cemitério da cidade (1870), hoje extinto. Como prédios foram erguidos sobre o terreno, seus corpos jamais deixaram o local. Assim, suas almas também permaneceram presas à cidade. Dois fantasmas seguravam firmemente uma jovem pelos braços. A amiga de Francisco a qual o rapaz nutria uma paixão secreta fora trazida para o espetáculo e para garantir que o rapaz faria o que fosse preciso para salvá-la.
— Continue — disse Arleqquin, olhando para Francisco.
— Eu não posso
— É claro que pode, garoto! O espetáculo não pode parar!
Melissa deu um passo à frente.
— Ou ela morre. Meu colega é muito bom com punhais e raramente erra um alvo.
...
A música voltou. Mas agora não havia arte. Apenas força. As batidas começaram a atingir o ambiente com violência crescente, reverberando pelas estruturas do prédio. O concreto respondeu com fissuras finas, o vidro vibrava em frequência perigosa, e o ar parecia comprimir a cada impacto. Daquela vez não havia arte. Não havia emoção. Apenas destruição. Francisco deslizou os dedos pelos controladores enquanto lágrimas se misturavam ao suor em seu rosto. O grave explodiu pelas caixas de som como um terremoto comprimido. O chão da BierSite tremeu violentamente.
Lustres explodiram. Vidros se estilhaçaram em centenas de fragmentos enquanto rachaduras começaram a surgir pelas colunas do prédio. Cada batida parecia atingir diretamente as estruturas de concreto da casa noturna. Pessoas corriam desesperadas em direção às saídas. Algumas eram derrubadas pela vibração antes mesmo de conseguirem ficar de pé. Outras sangravam pelos ouvidos. Mesas tombavam. O teto rangia perigosamente acima da multidão em pânico.
— Ele vai derrubar isso tudo! — Gritou Kaila, lutando para se manter de pé.
— Então segura o que der! — Respondeu Basco.
Francisco mudou a frequência. As batidas eletrônicas deram lugar a guitarras distorcidas e baterias agressivas. O efeito foi imediato. As ondas sonoras atravessaram o chão como explosões sísmicas. Partes do piso simplesmente cederam. Um carro estacionado do lado de fora foi lançado contra a vitrine da BierSite enquanto o asfalto da rua rachava diante do estabelecimento. Mika avançou, erguendo fragmentos de vidro que capturavam e distorciam as ondas sonoras, tentando quebrar o padrão que amplificava a destruição.
— Eu reduzo… mas não consigo parar!
Málaca decide ajudar as pessoas do lado de fora da casa de shows. Kostya se posicionou ao lado Mika, criando pontos de sustentação que absorviam parte da vibração. Enquanto ganhava tempo, Kaila fechou os olhos e deixou o som atravessar o corpo antes de responder. Sua voz emergiu no meio do caos como um fio contínuo, não competindo com a música, mas reorganizando o que ela desestruturava. Algumas pessoas desaceleraram. Outras pararam. A menina sorria enquanto observava que sua ação surtia o efeito desejado. Basco e Kostya direcionavam as pessoas por uma passagem segura o máximo que podiam. Basco ordena que Emerson ajude a jovem, amiga de Francisco que se encontrava presa por criaturas fantasmagóricas invocadas por Arleqquin.
No meio daquele inferno sonoro, Kaila percebeu algo. Francisco não controlava apenas destruição física. A música também atravessava o sistema nervoso das pessoas. Frequências suaves começaram a surgir por trás do caos. Violinos. Coral. Tons operísticos misturados às batidas eletrônicas. O efeito foi imediato. Algumas pessoas simplesmente congelaram no lugar. Outras caíram ajoelhadas sentindo dores lancinantes na cabeça enquanto lágrimas escorriam involuntariamente.
— Ele tá atacando o cérebro deles… — disse Kaila horrorizada.
Basco percebeu no mesmo instante.
— Não é intencional. O poder dele tá descontrolado!
Kaila fechou os olhos e deixou sua própria voz emergir em resposta ao caos. Seu canto atravessou a pista como uma onda contínua e hipnotizante, reorganizando frequências e desacelerando parte da histeria coletiva. Algumas pessoas conseguiram recuperar a consciência do pânico e começaram a ajudar outras em direção às saídas. Melissa observava tudo em silêncio. Mas não havia satisfação em seu olhar. Nos bastidores, o ambiente era outro tipo de caos. Cabos vibravam, estruturas rangiam, e o som chegava distorcido, como se atravessasse camadas erradas do espaço. A garota estava presa, o medo visível, mas ainda consciente.
— Calma… a ajuda chegou — disse Emerson, aproximando-se com cuidado e lançando punhados de sal contra os espectros que mantinham a jovem sob ameaça. Gritos nefastos podiam ser ouvidos enquanto as figuras se dissipavam no ar. Kostya abriu caminho com precisão controlada. Ergueu muralhas de concreto por onde poderiam passar com segurança até o lado externo do ambiente.
Do lado de fora da casa noturna, os primeiros sobreviventes já começavam a gritar acusações.
— É ELE! O “DJ CHICO” FEZ ISSO!
— MUTANTE DESGRAÇADO!
— Aqueles outros também! Eles tão usando poderes!
Celulares gravavam tudo. Vídeos dos CelleXtys utilizando suas habilidades começaram a circular imediatamente entre os curiosos e sobreviventes. Algumas pessoas apontavam para Mika controlando vidro. Outras filmavam Kaila utilizando seu grito sônico para conter o pânico. Emerson, parcialmente transformado, tentava retirar vítimas presas sob escombros enquanto Kostya sustentava estruturas inteiras para impedir o colapso total do prédio. Málaca tentava ajudar os feridos e ignorar os mais revoltosos. Pedia para que alguém chamasse ambulâncias para resgatar os feridos.
No interior da BierSite, Basco entendeu. Arleqquin e Melissa não queriam apenas destruir. Eles queriam exposição. Queria transformar os mutantes em monstros diante dos olhos do mundo. Não muito diferente de alguns membros da Geração Vamp em São Paulo, dos Borgs ou de alguns políticos conservadores. Nos bastidores, Emerson e Kostya encontraram a garota presa entre fantasmas que a seguravam violentamente pelos braços. O ambiente parecia mais frio ali atrás. Cabos vibravam no teto enquanto os sons distorcidos atravessavam as paredes como batimentos cardíacos gigantescos.
Emerson lançou punhados de sal contra os espectros, dissipando parte das entidades em gritos grotescos que ecoaram pelos corredores escuros.
— Calma… a gente vai tirar você daqui.
A garota mal conseguia responder de tanto medo. Kostya abriu passagem criando muralhas improvisadas de concreto e metal para protegê-los dos destroços que continuavam caindo ao redor.
— Não hoje — murmurou ele ao destruir outro espectro com uma barra metálica arrancada da parede.
No palco, Francisco já não parecia humano. Seus olhos brilhavam em um verde jade intenso. As ondas sonoras atravessavam o próprio corpo do garoto. Sangue escorria lentamente de seu nariz enquanto seus olhos permaneciam presos à garota sendo ameaçada pelos fantasmas.
— PARA! — Gritou ele.
Mas Arleqquin, a alguns metros de distância, apenas ria.
— Mais alto, maestro! Eles ainda conseguem ficar de pé!
Basco avançou através da destruição ignorando as ondas de choque que faziam o chão estremecer. Partes de seu corpo assumiam forma de nevoeiro para atravessar destroços e impactos sonoros até alcançar a frente do palco.
— Francisco! Ela tá segura! — Gritou.
O garoto hesitou. Foi a primeira vez desde o início do caos que o olhar dele encontrou algo diferente de medo. Escolha. A música cessou instantaneamente. O silêncio foi brutal. Corpos espalhados pelo chão. Gritos ao longe. Alarmes de incêndio disparando. Fumaça subindo entre luzes quebradas. E então Arleqquin começou a aplaudir lentamente.
— Agora sim… isso foi arte.
...
Arleqquin ampliava o colapso. Objetos se moviam não apenas lançados, mas guiados por uma lógica invisível de seus fantasmas. Pessoas eram empurradas, derrubadas, algumas presas em movimentos que já não eram seus. O caos havia sido instaurado. O vilão sentia prazer em suas ações. Era nítido que os gritos dos aflitos lhe traziam um êxtase simultâneo. No palco, Francisco caiu de joelhos diante da mesa de som destruída.
— Eu fiz isso…
Basco aproximou-se devagar enquanto observava as pessoas sendo retiradas do local pelos bombeiros e socorristas.
— Não. Ele é o culpado! — Apontando para onde o vilão deveria estar. Arleqquin não se encontrava mais no local. Seu objetivo principal nunca fora a destruição da BierSite e estava sendo alcançado naquele exato momento, do lado de fora da casa de shows. O tom era inegociável.
— Você foi usado.
O garoto ergueu o olhar, perdido entre culpa e choque, sem saber o que fazer ou dizer. Desde que seus poderes se manifestaram, hoje foi a primeira vez que pessoas haviam morrido através do seu dom. Estava aliviado por sua amiga estar segura, mas sentia-se culpado pelo caos e destruição que causou. Contudo, Basco o acolheu. Sabia que o verdadeiro responsável estava tentando escapar e não poderiam permitir isso. Arleqquin deveria ser detido de uma vez por todas. Basco reúne Kaila e os Kzardos mas não via sinal de Málaca.
Do lado de fora, o ar parecia pesado demais para ser apenas noite. A música havia cessado. Mas algo ainda reverberava. Málaca tentava ajudar aos feridos quando sente uma picada em seu pescoço. O veneno age rápido e deixa Málaca cambaleante. A mutante sente as forças lhe deixando. Se esvaindo até lhe faltar forças para se manter de pé. Exaurida, na calçada, Málaca mal vê Melissa se aproximando
- Vocês tinham que dificultar as coisas, não é? Se meter onde não foram chamados. Hypnos e eu só queríamos os nossos amigos de volta, mas agora, vocês terão que morrer!
Málaca ergue a mão num gesto de força que já não lhe é mais concedida. Cipós começaram a emergir do chão em movimentos violentos, rachando o asfalto ao redor. Mas seu corpo já não respondia corretamente. As raízes perderam força enquanto fantasmas surgiam atrás de Melissa e carregavam a jovem indígena desacordada para dentro de um carro roubado estacionado na rua lateral.
Enquanto isso, no interior da BierSite, gritos, medo, pequenas explosões e muita fumaça ainda circulava pelos ambientes. Parte do local acabou desmoronando e trouxe ainda mais pânico aos convidados. Kostya cria diversas colunas de cimento que impedem que o restante da casa de shows entre em colapso. Kaila e Mika percebem que Málaca havia desaparecido. Ficou evidente para todos que usar o jovem Francisco foi apenas uma distração para capturar Málaca. Caminhando em meio aos escombros, Francisco olhou para trás. Depois para os CelleXtys.
...
Francisco saiu da BierSite observando a fumaça subir para o céu de Carazinho enquanto sirenes preenchiam a cidade. Pessoas ainda o encaravam com medo. Algumas filmavam. Outras o chamavam de monstro. Ele olhou para Basco. E finalmente tomou sua decisão.
— Vocês salvaram ela… então agora eu vou ajudar a salvar a amiga de vocês.
Basco sustentou o olhar do garoto por alguns segundos antes de assentir lentamente. Pela primeira vez desde Santa Maria, eles não estavam apenas perseguindo Arleqquin e Melissa. Agora aquilo era pessoal. A chuva começou poucos minutos depois. Primeiro fina, quase invisível sob as luzes vermelhas das ambulâncias espalhadas diante da BierSite. Depois mais intensa, lavando lentamente o sangue misturado à poeira de concreto que descia pelas calçadas destruídas. O cheiro de fumaça, fios queimados e bebida alcoólica ainda pairava no ar enquanto bombeiros atravessavam os destroços da casa noturna à procura de sobreviventes presos sob partes do teto que haviam cedido. Sirenes ecoavam por toda a avenida, refletindo nas vitrines rachadas dos prédios vizinhos e criando flashes intermitentes que davam ao cenário uma aparência quase irreal. Carazinho parecia ter sido atingida por um terremoto localizado. E, de certa forma, tinha sido exatamente isso.
Basco permanecia imóvel próximo à entrada destruída da BierSite observando a movimentação dos socorristas enquanto tentava reorganizar mentalmente tudo o que havia acontecido. O caos daquela noite não se parecia com Santa Maria ou Cruz Alta. Ali havia testemunhas demais. Câmeras demais. Pessoas demais olhando diretamente para eles enquanto utilizavam seus poderes. Os CelleXtys haviam deixado de ser apenas um segredo escondido nas sombras do interior gaúcho. Agora existiam vídeos. Relatos. Acusações. E o pior: medo.
Mika percebeu o mesmo. A jovem observava alguns sobreviventes sendo entrevistados por jornalistas locais que já começavam a surgir diante da tragédia. Uma mulher chorava enquanto apontava para a casa noturna destruída.
— Foi aquele DJ! Ele fez o chão tremer!
Outro homem, ensanguentado, interrompia logo em seguida:
— Não! Tinha mais gente! Uns adolescentes! Eles controlavam vidro, metal… tinha uma garota gritando e explodindo tudo!
Kostya fechou os punhos imediatamente.
— Ótimo… agora além de caçar psicopatas sobrenaturais, a gente virou atração da TV.
— Isso era parte do plano — respondeu Basco em voz baixa. — Arleqquin queria exposição. Ele quer que as pessoas tenham medo da gente.
Emerson surgiu logo atrás deles acompanhado da garota que haviam resgatado. Ela tremia violentamente, ainda coberta pela fumaça e poeira dos bastidores da BierSite. Francisco caminhava alguns passos atrás, destruído emocionalmente. Os olhos vermelhos denunciavam não apenas o esforço físico de controlar o próprio poder, mas a culpa esmagadora que começava a consumi-lo. Ele observou os bombeiros retirando um corpo desacordado dos escombros.
— Eu machuquei essas pessoas…
Basco virou-se lentamente na direção do garoto.
— Você foi forçado.
— Mas fui eu quem causou aquilo! — Rebateu Francisco, elevando a voz pela primeira vez. — Eu senti cada vibração atravessando o prédio! Senti quando as colunas começaram a ceder! Eu ouvi os ossos das pessoas quebrando no meio daquela música!
O silêncio caiu entre eles por alguns segundos. Não havia resposta fácil para aquilo. Kaila aproximou-se devagar. A chuva já encharcava seus cabelos enquanto pequenas gotas escorriam pelo rosto da jovem sereia.
— Você parou — disse ela suavemente. — Se fosse igual ao Arleqquin… não teria parado.
Francisco abaixou o olhar. Mas a culpa continuava ali. Pesada demais.
Do outro lado da cidade, Melissa dirigia pelas ruas escuras enquanto o enxame de cigarras acompanhava o veículo como uma sombra viva. Os insetos batiam contra os vidros molhados do carro numa sinfonia incessante que preenchia o silêncio desconfortável do interior do automóvel. No banco traseiro, Málaca permanecia desacordada, parcialmente envolta por raízes que surgiam involuntariamente debaixo de sua pele e serpenteavam pelo banco como reflexos inconscientes de defesa. Mesmo sedada, o corpo da jovem indígena ainda reagia ao perigo ao redor.
Arleqquin observava aquilo com fascínio quase infantil.
— Impressionante… — murmurou enquanto aproximava os dedos de uma das raízes pulsantes. — Ela responde até dormindo.
Melissa manteve os olhos fixos na estrada.
— Você exagerou.
Arleqquin soltou uma risada baixa.
— E funcionou não é mesmo?
— Quase matou centenas de pessoas.
— Mas não matou. — Ele abriu os braços teatralmente dentro do carro. — Esse é o detalhe frustrante! O garoto parou antes do gran finale.
Melissa permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de responder:
— Você tá transformando tudo isso num jogo.
O sorriso de Arleqquin desapareceu lentamente. Pela primeira vez naquela noite, havia algo diferente em seu olhar. Cansaço.
— Você ainda não entendeu, rainha das cigarras? — Perguntou ele num tom muito mais baixo. — Isso deixou de ser um jogo faz tempo.
Ela finalmente desviou os olhos da estrada por um breve instante.
— Então o que é?
Arleqquin observou Málaca desacordada no banco traseiro.
— Sobrevivência, querida!
...
Enquanto isso, na área externa da BierSite, a tensão aumentava rapidamente. Viaturas policiais começavam a cercar a região enquanto curiosos se acumulavam atrás das faixas de isolamento improvisadas. Algumas pessoas ainda fotografavam os CelleXtys discretamente. Outras apontavam diretamente para Francisco, reconhecendo o DJ da tragédia.
— É ele! — Gritou alguém no meio da multidão. — Foi ele quem derrubou o prédio!
O garoto recuou imediatamente com a respiração ficou irregular. Basco percebeu o perigo antes dos outros pois as emoções de Francisco interferiam diretamente em seus poderes. O som ao redor começou a vibrar novamente. Postes metálicos estremeceram e os vidros restantes da BierSite rangeram perigosamente.
— Francisco — disse Basco calmamente. — Olha para mim.
Mas o garoto mal conseguia ouvir. As acusações continuavam vindo da multidão. “Mutante!”, “Assassino!”... “Monstro!”
A frequência sonora começou a crescer ao redor dele de forma involuntária. Pequenas ondas sísmicas fizeram a água acumulada nas ruas vibrar violentamente. Kaila aproximou-se devagar.
— Ei… escuta minha voz.
Ela começou a cantar baixo. Uma melodia suave. Quase um sussurro, fazendo as vibrações ao redor diminuíram lentamente. Francisco ergueu os olhos na direção dela enquanto tentava recuperar o controle da respiração. E então percebeu que a adolescente não estava usando o poder para controlá-lo, mas tentava acalmá-lo. O tremor cessou gradualmente. Mika soltou o ar devagar.
— Tá… isso foi quase outro desastre.
Kostya passou a mão pelos cabelos molhados pela chuva.
— A gente precisa sair daqui agora.
Basco concordou imediatamente. Porque no fundo todos sabiam da verdade. Aquilo em Carazinho não havia sido o fim de nada. Era apenas mais um passo na direção de algo muito maior. E muito pior.
...
Mais distante, nas sombras da cidade, Melissa observava em silêncio enquanto deixavam a cidade de Carazinho para trás.
— Isso não era pra acontecer assim…
Arleqquin sorriu, satisfeito.
— Agora ficou melhor.
Ele virou o rosto lentamente, como quem já pensava no próximo ato ao observar Málaca inconsciente no banco detrás do carro que roubaram horas antes.
— A gente vai precisar de ajuda. Ainda bem que vai terminar logo!
Melissa não respondeu, mas sabia que Arleqquin estava certo. Aquele jogo de gato e rato estava perto do fim. Pouco tempo depois, na cidade vizinha, uma porta antiga de uma velha casa nos arredores se abriu com um rangido seco, revelando um interior mergulhado em penumbra.
E uma voz, calma demais para aquele contexto, respondeu:
— Vocês demoraram.
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