CelleXty Saga - A Nova Geração
9 Olhos de Coruja - Parte II

A saída de Carazinho aconteceu sob chuva intensa e faróis borrados pela água que escorria continuamente pelos vidros dos veículos abandonados diante da BierSite destruída. A fumaça ainda subia em espirais escuras sobre parte do prédio parcialmente colapsado enquanto ambulâncias, bombeiros e viaturas policiais cercavam a região como insetos atraídos por uma ferida aberta. Basco observou o caos pela última vez antes de entrar na velha Kombi 1978 de Francisco. Nenhum deles tinha condições de continuar utilizando os carros anteriores. Havia muitos olhares ao redor. Testemunhas demais. Perguntas demais.
A estrada até Passo Fundo parecia mais escura do que deveria naquela madrugada. O interior do Rio Grande do Sul se estendia além das janelas como um oceano negro de plantações, matas e pequenas propriedades isoladas pela chuva constante. O grupo avançava em silêncio quase absoluto, interrompido apenas pelo ruído cansado do motor da Kombi e pelo movimento repetitivo dos limpadores de para-brisa. Atrás deles, Carazinho permanecia viva em sirenes vermelhas e luzes distantes refletidas nas nuvens baixas. Nenhum dos jovens comentava diretamente sobre a destruição da BierSite, mas todos carregavam aquilo estampado nos olhos.
O cheiro de fumaça ainda impregnava as roupas. Pequenos cortes permaneciam espalhados pelos braços de Mika e Emerson. Kaila mantinha os dedos apertados uns contra os outros numa tentativa silenciosa de controlar a ansiedade. Kostya, imóvel no fundo do veículo, observava a escuridão da estrada como se esperasse que Melissa surgisse a qualquer momento entre os campos.
Basco dirigia em silêncio enquanto os pensamentos se atropelavam dentro de sua mente. O reflexo da chuva no para-brisa deformava sua imagem de maneira irregular, quase fantasmagórica. Desde Santa Maria, ele vinha sustentando decisões rápidas, improvisando esconderijos e tentando proteger adolescentes que mal compreendiam os próprios poderes. Mas Carazinho havia sido diferente. Pela primeira vez os CelleXtys haviam sido vistos em público utilizando suas habilidades diante de dezenas de pessoas.
Havia testemunhas e relatos dos sobreviventes. Talvez notícias esperando o amanhecer para se espalharem por todo o estado. O pior não era o medo do governo ou da polícia. Era o medo das pessoas comuns. Basco conhecia aquele tipo de reação humana. Sabia como monstros eram criados muito antes de realmente existirem.
Ao lado dele, Francisco observava a estrada através da janela lateral sem realmente enxergar nada. Havia sangue seco próximo ao ouvido esquerdo do garoto, consequência direta das frequências sonoras que atravessaram seu próprio sistema nervoso durante o colapso da casa noturna. Os dedos tremiam discretamente sobre as pernas enquanto ele revivia mentalmente cada vibração que destruíra a BierSite. O rapaz conseguia lembrar do instante exato em que as colunas começaram a ceder. Do som dos vidros explodindo. Dos gritos. Isso era o que mais o destruía por dentro: ele ouvira tudo.
— Você vai acabar enlouquecendo se continuar revivendo aquilo — disse Basco sem desviar os olhos da estrada.
Francisco demorou alguns segundos antes de responder.
— Quantas pessoas se machucaram?
A sinceridade de Basco veio sem suavidade.
— Muitas.
A resposta atingiu o garoto de maneira mais brutal do que qualquer mentira confortável poderia atingir.
— Então eu tava certo.
Basco apertou o volante com mais força antes de responder.
— Não. Você tá confundindo responsabilidade com manipulação.
Francisco virou lentamente o rosto na direção dele.
— Qual a diferença?
Basco permaneceu alguns segundos em silêncio enquanto a Kombi atravessava um trecho vazio da rodovia cercado por árvores escuras.
— Responsabilidade é reconhecer o que você fez. Manipulação é esquecer quem te obrigou a fazer.
O silêncio voltou logo em seguida, mas daquela vez já não parecia tão pesado. Francisco absorvia cada palavra lentamente enquanto observava os campos escuros surgindo além da rodovia. Pela primeira vez desde o ataque à BierSite, começava a perceber que culpa e condenação talvez não fossem exatamente a mesma coisa.
Mais atrás, Mika permanecia encostada contra a janela observando os reflexos borrados da chuva atravessarem o vidro. Desde Cruz Alta ela carregava uma sensação estranha sob a pele, como se parte de sua consciência ainda estivesse presa em algum lugar distante provocado pela água amaldiçoada utilizada por Mariane. Emerson, aparentemente exausto, conseguira dormir sentado mesmo com o balanço constante da Kombi. Ainda assim, a percepção aguçada do rapaz parecia permanecer alerta mesmo inconsciente.
— Tu tá estranha desde que a gente saiu de Carazinho — murmurou Emerson sem abrir os olhos.
Mika soltou um pequeno riso cansado.
— E tu parece um caminhoneiro bêbado dormindo desse jeito.
O comentário arrancou um sorriso discreto dele antes que o silêncio voltasse. A chuva engrossava do lado de fora enquanto luzes ocasionais da rodovia atravessavam rapidamente o interior do veículo.
— Eu sonhei com uma mulher estranha enquanto tava apagada em Cruz Alta — continuou Mika em voz mais baixa. — Não parecia fantasma do Arleqquin. Parecia… outra coisa.
Emerson abriu os olhos devagar.
— Que mulher?
Mika hesitou alguns segundos.
— Não sei explicar. Ela usava roupas antigas. Parecia me observar de um lugar escuro… mas conhecia o Basco.
No fundo da Kombi, Kostya mantinha os braços cruzados enquanto observava a estrada através do vidro traseiro. O rapaz tentava parecer calmo, mas o movimento repetitivo do pé batendo no chão denunciava o contrário. Kaila percebeu imediatamente.
— Tá preocupado com a Melissa né?
Kostya soltou um pequeno suspiro nasal.
— Ela sabe se virar.
Kaila inclinou levemente a cabeça.
— Tá tão na cara assim?
O rapaz permaneceu alguns segundos em silêncio antes de responder.
— Porque eu vi quem ela era antes disso tudo.
Kaila aguardou.
— Antes do Hypnos. Antes dos roubos. Antes do Arleqquin. A gente cresceu junto num orfanato no Paraná. Eram Mika, Melissa e eu. Quando ele adotou a gente parecia que finalmente ia existir alguma coisa parecida com uma família.
A chuva continuava batendo contra a lataria da Kombi enquanto Kostya mantinha os olhos perdidos na escuridão.
— Hoje eu tenho certeza que Hypnos escolheu a gente por causa dos nossos poderes. Primeiro os meus surgiram. Depois os da Melissa e depois a Mika. Ele nunca foi exatamente humano… mas naquela época eu não entendia isso.
Kaila observou o rapaz por alguns segundos.
— E tu ainda acha que ela pode voltar?
Kostya demorou para responder.
— Acho que uma parte dela nunca foi embora.
Horas depois, as primeiras placas indicando Passo Fundo começaram a surgir entre a chuva e a neblina da madrugada. A cidade apareceu lentamente no horizonte como um oceano de luzes espalhadas entre avenidas extensas e bairros que pareciam nunca terminar. Diferente de Cruz Alta ou Carazinho, Passo Fundo possuía outro tipo de energia. Não havia silêncio sobrenatural nem caos festivo. Havia movimento constante. Hospitais iluminados funcionando madrugada adentro. Ônibus atravessando avenidas largas. Pessoas caminhando mesmo naquele horário como se a cidade jamais realmente dormisse.
Conhecida como um dos maiores polos médicos do sul do Brasil, Passo Fundo crescera rapidamente ao longo das décadas até se transformar numa espécie de capital regional do norte gaúcho. E talvez justamente por isso o lugar parecesse tão vivo. Ou tão vulnerável. Basco reduziu a velocidade da Kombi enquanto atravessavam bairros cada vez mais afastados do centro.
— Temos que descansar primeiro — disse ele finalmente. — Depois a gente pensa no resto.
A Kombi atravessou ruas silenciosas até alcançar uma área mais afastada do bairro Vila Cruzeiro. O lugar parecia isolado do restante da cidade. Havia poucos sobrados antigos, terrenos baldios e um grande galpão de reciclagem. Na curva seguinte, Basco estacionou diante de uma antiga casa de madeira cercada por muros baixos e dois pequenos cachorros que começaram a latir desesperadamente.
Basco buzinou apenas uma vez.
Poucos segundos depois, a porta se abriu revelando um homem baixo, corpulento e de barba espessa já tomada por fios grisalhos. O forte sotaque árabe surgiu antes mesmo que ele atravessasse completamente a porta.
— Finalmente habib! Achei que vocês não chegariam nunca! Tu falou dois dias atrás, criatura!
Basco desceu da Kombi quase sorrindo pela primeira vez em dias.
— Tio Saalim.
Saalim abriu os braços imediatamente e puxou o sobrinho para um abraço apertado. O homem morava em Passo Fundo havia cerca de três anos depois de deixar o Ceará, onde Basco buscara refúgio após a morte de sua mãe. Apesar da distância, acompanhava discretamente notícias sobre o sobrinho e sabia muito mais do que fingia saber.
— Entrem logo! Vocês tão com cara de quem brigou com um caminhão.
O interior da casa era simples, mas extremamente acolhedor. O cheiro de café fresco misturado com temperos árabes preenchia o ambiente inteiro. Uma mesa já estava posta com pão sírio, carne assada, arroz, café e uma cuia de chimarrão fumegando ao centro.
— A casa é pequena — comentou Saalim enquanto fechava a porta — mas amanhã vocês vão conhecer o lugar novo. Já consegui ajeitar tudo.
Basco franziu o cenho.
— Lugar novo?
— Uma casinha maior e esquecida no Lucas Araújo, perto do Bosque. Dois andares. Afastada dos curiosos. Achei melhor vocês ficarem em um lugar mais confortável.
Antes que pudessem conversar mais, Basco ligou imediatamente a televisão da sala enquanto Kaila aumentava o volume do rádio da cozinha. Todos aguardavam a qualquer instante notícias sobre mutantes destruindo uma casa noturna em Carazinho.
Mas nada veio.
As rádios mencionavam apenas uma explosão de gás na BierSite. A televisão falava sobre falha estrutural e curto-circuito. Nenhuma palavra sobre mutantes. Nenhuma imagem dos CelleXtys. Nenhum vídeo de Francisco destruindo o prédio.
O silêncio que tomou conta da casa foi quase tão desconfortável quanto o da estrada.
— Isso tá errado — murmurou Mika.
Basco observava a televisão com o cenho fechado.
— Muito errado.
Saalim apoiou a cuia sobre a mesa.
— As rádios tão falando disso desde cedo. Mas ninguém comentou nada diferente.
Francisco permaneceu imóvel observando a reportagem.
— Tinha gente tirando fotos com câmeras e celulares.
— Exatamente — respondeu Basco em voz baixa.
Naquela madrugada nenhum deles conseguiu dormir direito.
Do outro lado da cidade, muito longe das avenidas movimentadas e dos hospitais iluminados, Melissa dirigia por ruas estreitas cercadas por árvores antigas enquanto a chuva caía sobre o para-brisa do carro roubado. O enxame de cigarras acompanhava o veículo como uma sombra viva, chocando-se contra os vidros molhados numa sinfonia perturbadora. No porta-malas, Málaca permanecia desacordada. Pequenas raízes emergiam involuntariamente da pele da jovem indígena, espalhando-se pelo estofado como reflexos inconscientes de defesa.
Arleqquin lembrava do que havia acontecido em Carazinho e com fascínio infantil.
— Impressionante não foi? O garoto, o tal Chico.
Melissa mantinha os olhos fixos na estrada.
— Você exagerou em Carazinho.
Arleqquin soltou uma risada baixa.
— E funcionou.
— Quase matou centenas de pessoas.
— Mas não matou. Esse é o detalhe frustrante.
A estrada terminou diante de uma propriedade antiga, parecendo abandonada e cercada por árvores altas nos arredores de Passo Fundo. A casa parecia esquecida pelo tempo. Dois andares. Madeira escurecida pela umidade. Janelas fechadas. Nenhuma luz externa. Melissa desligou o carro lentamente.
— Isso não era pra acontecer assim, Arleqquin.
Arleqquin observou a casa com um sorriso estranho.
— Agora ficou melhor.

A porta principal se abriu antes mesmo que eles batessem. O interior mergulhado em penumbra revelou apenas a silhueta de uma mulher alta parada no corredor.
— Vocês demoraram — disse ela numa voz calma demais para aquele contexto.
Arleqquin abriu os braços teatralmente.
— Ah, minha anfitriã favorita!
A mulher ignorou completamente a provocação e observou Melissa por alguns segundos antes de direcionar o olhar para Málaca desacordada e carregada pelo vilão.
— Entrem. O tempo aí fora está ruim. E nada é tão ruim que não possa piorar não é mesmo?
O interior da casa era amplo e antigo. Havia livros espalhados por estantes enormes, símbolos estranhos desenhados nas paredes e um cheiro constante de ervas queimadas misturado à madeira úmida. Melissa imediatamente percebeu que aquela mulher era muito mais perigosa do que aparentava. Mas havia autoridade suficiente em sua presença para fazer até Arleqquin diminuir o tom teatral por alguns instantes. Melissa sentiu algo sinistro em torno da anfitriã. Uma mulher aparentando mais de 40 anos de idade, cabelos crespos, negros e longos até os quadris. Tinha um rosto fino e alongado, braços esguios, e sua pele era pálida como uma vela seca. Usava um vestido longo em tons de roxo e um xale cinza lhe cobria as costas. Mal se podia ver os pés, pois a bainha retalhada do vestido lhes cobria.
— Onde está Hypnos? — Perguntou Melissa finalmente.
A mulher permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de responder.
— Morto.
A palavra atingiu o ambiente como uma lâmina. Os irmãos Kzardos passaram anos acreditando que Hypnos comandava tudo das sombras. Melissa também. Mas ali, naquela velha casa escondida nos arredores de Passo Fundo, a verdade surgiu fria e definitiva.
— Impossível — murmurou Melissa.
— Não para alguém como ele — respondeu a mulher calmamente. — O velho Hypnos serviu ao seu propósito: encontrar pessoas especiais como vocês e durante um tempo ele realmente conseguiu. Mas ele era da velha guarda. Achava que o mundo girava em torno apenas dos mutantes e ousou se opor contra mim. É claro que eu não podia permitir. Tem coisas mais antigas que a mutandade nesse país, minha querida!
Arleqquin sorriu discretamente enquanto colocava o corpo de Málaca em um divã.
— Eu disse que ela ia gostar da verdade.
Melissa virou-se imediatamente na direção dele.
— Tu sabia?
— Não completamente.
A mulher caminhou lentamente até uma mesa repleta de mapas antigos. Só então, Melissa percebeu uma grande coruja no fundo da sala que observava toda a movimentação com extrema atenção.
— Vocês não foram reunidos por acaso. Nem você. Nem Arleqquin.
Ela então desviou o olhar para o corredor escuro atrás de si.
— Podem sair.
Dois vultos emergiram lentamente da penumbra. O primeiro era gigantesco. Alto, musculoso, cabelos longos e escuros caindo sobre os ombros. Os olhos dourados brilhavam de maneira animalesca mesmo na pouca luz. Cicatrizes atravessavam parte do peito exposto sob uma jaqueta velha. Havia algo profundamente selvagem na maneira como ele se movia.
— Este é Guará — apresentou a mulher.
O homem permaneceu em silêncio absoluto. Mas Melissa imediatamente percebeu o cheiro de terra molhada, sangue e animal que parecia acompanhá-lo e mesmo temerosa, não se deixou intimidar.
— Licantropo? — Perguntou ela.
— Lobo-Guará — respondeu a mulher.
A segunda figura surgiu logo atrás. Uma jovem de cabelos escuros cacheados e pele extremamente clara observava tudo em silêncio. Os traços italianos eram evidentes. Vestia roupas elegantes demais para aquele lugar e mantinha uma expressão tranquila, quase melancólica.
— Caterina, a mais nova.
A jovem apenas inclinou levemente a cabeça. Melissa não conseguiu identificar exatamente o que ela era. Não parecia humana. Mas também não lembrava nenhum mutante que conhecesse. A mulher misteriosa voltou a encarar o grupo.
— O tempo acabou. Os CelleXtys já estão em Passo Fundo. E vocês trouxeram exatamente o que precisávamos.
- Hypnos nunca me falou de você. Aliás...quem é você afinal? – Perguntou Melissa
Os olhos da mulher pousaram sobre Málaca desacordada. Pela primeira vez desde Carazinho, Melissa sentiu medo de verdade.
- Sou conhecida por muitos nomes: Matinta Pereira, a “Sétima filha”, Mouriça, mas pode me chamar de Nicácia!
...
Os três dias seguintes foram consumidos por buscas frustradas. Mesmo após vasculharem diferentes regiões de Passo Fundo, terrenos abandonados, antigos galpões industriais e áreas rurais nos arredores da cidade, Basco e os outros não encontraram qualquer sinal de Málaca. Era como se a jovem simplesmente tivesse desaparecido da existência.
A mudança para a nova casa aconteceu na manhã do segundo dia. A mansão localizada entre o bairro Lucas Araújo e a região do Bosque parecia completamente deslocada do restante da cidade. Cercada por árvores antigas e escondida atrás de muros altos cobertos por vegetação, a propriedade permanecera anos vazia depois da morte dos antigos donos. O lugar possuía dois pisos amplos, corredores extensos, uma sala enorme com lareira de pedra, cozinha espaçosa, vários quartos e banheiros distribuídos pelos dois andares. Nos fundos existia até mesmo um pequeno bosque particular que dificultava qualquer visão externa da residência.
— Tá… isso definitivamente não é uma casa — comentou Mika enquanto observava o enorme corredor principal.
— Eu prefiro chamar de oportunidade imobiliária esquecida — respondeu Saalim orgulhoso.
Apesar da grandiosidade da mansão, havia algo melancólico nela. O piso rangia em alguns pontos. Cortinas antigas bloqueavam parcialmente a luz do sol. O cheiro de madeira envelhecida preenchia os corredores. Ainda assim, pela primeira vez desde Cambará do Sul, os adolescentes tinham quartos próprios.
Francisco permaneceu hospedado com eles. O garoto passava grande parte do tempo isolado no quarto do segundo andar tentando controlar os próprios poderes. Pequenas frequências sonoras involuntárias faziam objetos vibrarem ao redor sempre que emoções mais fortes surgiam. Kaila frequentemente o ajudava utilizando sua voz para estabilizar as ondas emitidas por ele.
Basco aproveitou os dias seguintes para organizar estratégias de busca. Emerson e Kostya percorriam bairros afastados durante a noite. Mika investigava notícias estranhas na internet enquanto Saalim utilizava contatos locais para descobrir qualquer movimentação incomum.
Nada. Nenhum sinal de Melissa. Nenhum sinal de Arleqquin. Nenhum sinal de Málaca. E aquilo começou a incomodar Basco de maneira profunda. Porque monstros como Arleqquin nunca desapareciam sem motivo. Na terceira noite, enquanto a chuva voltava a cair sobre Passo Fundo, Basco observava a cidade através da sacada do segundo andar da mansão quando ouviu passos atrás de si.
Francisco aproximou-se devagar.
— Ainda acha que ela tá viva?
Basco demorou para responder.
— Claro! Málaca é forte. É guerreira indígena!
O garoto observou as luzes distantes da cidade.
— E se isso tudo for maior do que a gente consegue enfrentar?
Basco permaneceu em silêncio alguns segundos antes de responder.
— Então a gente enfrenta mesmo assim. E juntos! Olha Francisco...
- Chico! Pode me chamar de Chico
- Chico....a gente tá junto. Os CelleXtys nunca abandonam os seus!
...
Ao longe, um trovão atravessou os céus de Passo Fundo enquanto, em algum lugar da cidade. Em uma árvore próxima da mansão, uma velha coruja observava Basco e Chico à distância.
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