CelleXty Saga - A Nova Geração
7 A santa de Cruz Alta

A estrada até o município de Cruz Alta foi atravessada por um silêncio que já não exigia explicação, apenas aceitação. Não era o tipo de silêncio que surge do cansaço ou da falta de assunto, mas aquele que se instala quando algo dentro de cada um ainda tenta reorganizar o que viu, o que sentiu… e o que não conseguiu compreender completamente. O que haviam deixado para trás em Santa Maria não se encaixava em nenhuma experiência anterior, e isso pesava mais do que qualquer derrota. Era como se, pela primeira vez, eles não estivessem reagindo a um evento, mas sendo lentamente conduzidos por ele.
Basco mantinha as mãos firmes no volante, conduzindo o carro com uma tranquilidade que não era relaxamento, mas controle. Seus olhos alternavam entre a estrada e o retrovisor, não para vigiar o caminho, mas para observar o grupo, captar as pausas, os olhares desviados, os pensamentos que ninguém dizia em voz alta. Málaca seguia logo atrás com o olhar fixo no horizonte, mas distante demais para estar realmente vendo a paisagem. Havia algo nela que ainda permanecia no teatro, como se parte de sua percepção tivesse ficado presa naquele espaço antigo.
Foi Kostya, no banco do carona, quem rompeu o silêncio.
— Ela hesitou.
A frase saiu baixa, quase neutra, mas carregada de implicações que nenhum deles ignorou.
— Por um segundo — respondeu Mika, sem olhar para ele.
— Foi suficiente pra saber. Acho que ela também tá de saco cheio dessa vida, mana.
Mika virou o rosto lentamente, os olhos mais atentos do que a voz sugeria.
— Ou foi tudo que ela conseguiu fazer. Tu te lembras que Melissa sempre foi a mais fiel de nós em seguir o Hypnos?
...
A diferença entre as duas possibilidades não foi discutida. Ficou suspensa no ar, densa, como tudo que ainda não tinha resposta. No carro da frente, Emerson permanecia calado no banco de trás, mas seu corpo não acompanhava o silêncio. Havia tensão nos ombros, alerta nos olhos, como se ele esperasse que algo pudesse surgir a qualquer momento — da estrada, da mata ou de dentro deles mesmos. Kaila, por sua vez, mantinha os braços cruzados, mas sua atenção não estava no presente. O olhar perdido denunciava que ela ainda tentava compreender a sensação de estar frente a frente com as figuras fantasmagóricas do teatro em Santa Maria.
— É sempre assim? — Perguntou Kaila, quebrando o gelo.
— O quê? — Questionou Basco.
— Essa loucura. Gente morta, gente nos perseguindo… fantasmas.
Basco soltou um suspiro curto antes de responder.
— Eu espero que não. Há algumas semanas tenho pensado nisso. Cambará serviu a um propósito: o treinamento. Mas vocês ainda são adolescentes. Não deveriam viver escondidos do mundo, longe da escola, da vida… como se já tivessem nascido condenados a isso.
Kaila observou o reflexo dele pelo espelho retrovisor.
— E nós estamos?
Basco demorou alguns segundos para responder.
— Ainda não deixei isso acontecer.
O silêncio que veio depois não foi desconfortável. Pela primeira vez em muitos dias, havia algo próximo de humanidade entre eles. Uma tentativa frágil de lembrar que ainda eram jovens, apesar das mortes, das perseguições e das criaturas que pareciam surgir a cada nova cidade.
...
A entrada em Cruz Alta não trouxe o alívio que normalmente acompanha a chegada a um novo lugar. Pelo contrário. A cidade se apresentou com uma normalidade tão precisa que causava desconforto. As ruas estavam limpas, o comércio ativo, as pessoas caminhavam com tranquilidade, conversando em tons leves, rindo sem esforço. Nada fora do lugar. Nada excessivo. Nenhum sinal de tensão, de pressa ou de desgaste. Era como observar um cenário cuidadosamente ajustado para funcionar sem falhas.
E era justamente isso que estava errado.
Cruz Alta, fundada ainda no século XIX e marcada por sua importância histórica no interior do Rio Grande do Sul, carregava em suas ruas largas e prédios antigos uma sensação constante de permanência. A cidade crescera lentamente, sustentada por raízes profundas, preservando praças, igrejas e construções históricas como quem tenta impedir o tempo de avançar completamente. Mas o que existia ali não parecia estabilidade natural. Parecia manutenção.
Málaca foi a primeira a desacelerar o passo assim que desceram dos veículos. Seus olhos percorriam as fachadas antigas, os postes, as árvores e até o chão das calçadas como se tentasse ouvir algo escondido sob a superfície.
— Isso aqui não tá equilibrado… a terra fala. Tem alguma coisa errada.
Basco se aproximou lentamente.
— O que você sente exatamente?
— Fluxo contínuo demais. Não tem variação… não tem ruído.
Mika cruzou os braços enquanto observava os moradores passando tranquilamente.
— Parece que ninguém percebe o mal que veio pra cá.
Emerson fechou os olhos por um breve instante, inspirando profundamente o ar da cidade.
— Eu não sinto ameaça direta. Talvez o Arleqquin e a Melissa tenham só passado por aqui.
Ele abriu os olhos novamente, mais atento.
— E isso me incomoda mais do que sentir alguma coisa.
Basco assentiu.
— Então a gente não reage ainda. Observa primeiro. Vamos fazer uma varredura pela cidade. Se eles estão nos guiando pra algum lugar maior… vão aparecer.
...
O movimento ao redor do Arroio Panelinha não chamava atenção pela intensidade, mas pela repetição. Pessoas chegavam em pequenos grupos, algumas sozinhas, outras acompanhadas, aproximavam-se da água com respeito quase ritualístico, recolhiam pequenas quantidades em recipientes simples e bebiam ali mesmo, sob o olhar tranquilo de quem já conhecia o efeito.
O arroio refletia o céu cinzento do fim da tarde com uma serenidade quase artificial.
Próximo dali, o monumento que homenageava a antiga lenda permanecia silencioso, lembrando aos visitantes a frase que atravessava gerações.
Kaila leu em voz baixa:
— “Quem bebe da Panelinha nunca mais deixa Cruz Alta.”
Kostya soltou um leve suspiro.
— Conveniente demais pra ser só folclore.
Mika deu de ombros.
— Cada cidade inventa uma história dessas.
Málaca se aproximou da margem sem tocar na água.
— Tem intervenção aqui.
Basco manteve distância.
— Que tipo?
— Não é física… é influência.
Mika riu de leve, tentando quebrar a tensão.
— Tá dizendo que a água é mágica agora?
Ela se abaixou antes que alguém pudesse impedi-la e levou um pouco da água até os lábios.
— Relaxem. É só água.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
Então Málaca percebeu.
Uma senhora caiu desacordada na esquina próxima. Um rapaz deixou as compras escaparem das mãos antes de desabar lentamente sobre o próprio carro. O som estridente de uma ambulância cortou a praça logo em seguida.
— O que tá acontecendo? — Perguntou Emerson.
Kostya virou bruscamente.
— MIKA!
Ela caiu ao lado da fonte antes mesmo de conseguir responder. Kostya correu imediatamente, segurando-a antes que sua cabeça atingisse o chão. O corpo da garota permanecia quente, os sinais vitais normais… mas ela dormia profundamente, como se tivesse sido arrancada da realidade.
Málaca verificou seu pulso.
— Ela tá viva.
Explosões ecoaram ao longe. Acidentes começaram a surgir pelas ruas. Pessoas adormeciam dentro de carros, em mercados, em hospitais, nos corredores de farmácias e restaurantes. Cruz Alta mergulhava lentamente num caos silencioso, sem sangue, sem gritos… apenas corpos caindo em sono profundo pelas calçadas.
Basco percebeu o padrão quando viu uma mãe oferecer água ao filho em uma garrafa antes de beber também.
Os dois tombaram segundos depois.
— É a água! — Gritou Basco. — Não é só a fonte. É o abastecimento inteiro!
O horror se espalhou rapidamente pela cidade como uma doença invisível.
— Málaca, fica com a Mika — ordenou Basco. — Eu, Emerson, Kaila e Kostya vamos pro centro.
Emerson revelou que já ouvira histórias sobre Cruz Alta muito antes de chegarem ali. Segundo o jovem cigano, os relatos circulavam entre viajantes há alguns anos. Pessoas curadas. Doenças desaparecendo. Feridas fechando em dias. Mas havia outro detalhe. Ninguém queria ir embora.
— Antes curava… agora faz dormir? — Perguntou Basco enquanto caminhavam pelas ruas tomadas pelo caos silencioso.
— Então isso não é ataque direto — disse Kostya. — É indução.
Basco assentiu.
— E quem faz isso não queria matar ninguém.
Kostya olhou para ele, aflito.
— E o que a gente faz?
Basco parou diante do garoto e colocou a mão em seu ombro.
— Primeiro: a Mika vai acordar. Segundo: ninguém sai dessa cidade até a gente resolver isso.
A firmeza na voz dele não eliminava o medo… mas organizava o desespero.
...
Eles a encontraram no fim da tarde. Sentada próxima ao arroio, conversando calmamente com uma criança. O toque delicado de seus dedos carregava uma serenidade impossível de fingir. A menina caiu adormecida segundos depois.
— É ela — disse Kaila.
— Não tem como não ser — respondeu Emerson.
Kostya avançou imediatamente.
— Ei! Você vai desfazer isso agora!
A jovem ergueu os olhos devagar. Loira. Pele clara. Olhos azuis intensos demais para parecerem reais sob a luz fria do entardecer.
— Vocês não são daqui — disse ela calmamente.
— Não — respondeu Basco. — Mas você é.
Ela assentiu.
— Nasci aqui.
Kostya observava suas mãos.
— Como você faz isso?
Mariane baixou o olhar.
— Eu só ajudo. Alguns me chamam de santa… outros de bruxa.
Basco deu um passo à frente.
— Mutante?
Ela ergueu os olhos imediatamente.
Pela primeira vez, alguém parecia compreender sem julgá-la. Mariane contou sobre a morte da mãe, quando ela tinha apenas 12 anos, o ataque cardíaco do pai durante o velório e o instante em que seus poderes despertaram. Falou sobre curas silenciosas, doenças desaparecendo e líquidos “purificados” por seu toque.
Até que Melissa e Arleqquin chegaram. Seu pai foi sequestrado. E ela foi obrigada a contaminar o reservatório de água da cidade.
— Eu não consegui machucar ninguém… — disse ela, a voz falhando. — Então fiz eles dormirem.
Basco respirou fundo.
— Arleqquin e Melissa.
Kostya aproximou-se dela quase implorando.
— Minha irmã bebeu daquela água. Traz ela de volta.
Mariane desviou o olhar.
— Eu não posso. Se eu acordar uma única pessoa… eles matam meu pai.
Basco aproximou-se lentamente.
— Então a gente salva ele.
...
Kostya sentiu antes de ver. Virou-se rapidamente.
— Basco… ela tá aqui.
No alto de um prédio antigo, Melissa observava em silêncio. Ao lado dela, Arleqquin permanecia imóvel, sorrindo levemente enquanto o vento agitava os cabelos úmidos que escorriam até os ombros.
— Eles estavam esperando — murmurou Kostya.
Basco manteve o olhar fixo.
— E não é aqui que a gente reage.
— A gente vai deixar isso acontecer?! — Explodiu Kostya.
— Tem gente demais aqui! — Respondeu Basco. — Eles querem pânico ou que as pessoas que estão em sono profundo nem veja o que os atingiu.
Kaila observava Melissa. E pela primeira vez havia algo diferente no olhar da garota dos insetos. Cansaço. Basco avançou alguns passos em direção ao prédio.
— Onde está o pai dela?
Arleqquin abriu os braços teatralmente.
— Digamos que ele também esteja dormindo profundamente.
— O que você quer?
O sorriso do vilão aumentou lentamente.
— Apenas conhecer melhor o líder dos “CelleXtys gaúchos”.
E então ele saltou.
O impacto no chão rachou parte do calçamento antigo da praça. Antes mesmo que alguém reagisse, Arleqquin avançou contra Basco numa velocidade brutal. O primeiro soco atingiu o abdômen do jovem Khassan como uma marreta, obrigando-o a recuar dois passos.
Basco tentou responder imediatamente, mas percebeu tarde demais que os movimentos do inimigo não eram totalmente humanos. Fantasmas surgiam junto aos golpes, ampliando impactos, alterando direções, confundindo percepção e distância.
Arleqquin gargalhava enquanto lutava.
— Você sente isso, Basco?! Eles adoram violência!
Basco transformou parcialmente o corpo em neblina no instante em que um chute atravessou seu rosto. Reapareceu ao lado do vilão e acertou um golpe direto em sua mandíbula. O sangue escorreu pelo canto da boca maquiada de Arleqquin.
E ele sorriu ainda mais.
Melissa desceu logo depois. O enxame surgiu como uma nuvem viva ao redor dela. Gafanhotos e moscas!
Kostya avançou primeiro.
— MELISSA!
Mas os enxames vieram antes. Emerson puxou Kaila para trás enquanto os enxames avançavam como uma tempestade negra. O cigano lançou sal contra os insetos, criando pequenas explosões de dispersão no ar.
— Isso tá funcionando?! — Gritou Kaila.
— Melhor do que ficar parado!
Melissa ergueu a mão.
...
Os enxames se dividiram e as moscas rumaram contra Kostya imediatamente. Kostya criou uma estrutura improvisada de metal arrancando placas de sinalização da rua para proteger Kaila, mas o enxame atravessava qualquer abertura mínima.
Málaca, ao longe, mantinha raízes erguidas ao redor de Mika desacordada, protegendo-a como em um casulo.
Kaila se posicionou à frente de Emerson. Era sua vez de demonstrar coragem diante do perigo. O som hipnotizante de sua voz ecoou pelas ruas do centro da cidade como uma onda invisível. Vidros explodiram. Postes estremeceram. O enxame de gafanhotos perdeu formação por alguns segundos e, em seguida, as moscas. Melissa cambaleou.
Emerson percebeu.
— Parece que ela não quer lutar!
Melissa ergueu os olhos rapidamente na direção dele.
Por um instante — dor.
Mas o enxame perdeu sua força e sua agressividade. Os insetos pareciam desvirtuados do controle de sua mestra.
Basco e Arleqquin continuavam trocando golpes entre sombras e fantasmas. A praça parecia cada vez mais distorcida ao redor deles, como se a própria cidade estivesse sendo contaminada pela presença do vilão.
— Eu conheço você! O cara do Limbo...”Filho do Nevoeiro”. Detentor de conhecimentos arcanos. Você acha mesmo que está protegendo eles? — Perguntou Arleqquin enquanto desviava de um golpe. — O Hypnos foi melhor tutor em um instante do que você será em uma década!
Basco o acertou violentamente no rosto.
— Então por que vocês continuam fugindo?
Arleqquin parou. O sorriso desapareceu por meio segundo. E aquilo foi resposta suficiente. Não daria respostas à Basco enquanto não fosse do seu interesse. Com um gesto de mãos, Arleqquin sinaliza a alguns fantasmas a trazerem um corpo que se encontrava em um dos prédios próximos. Tratava-se do pai de Mariane, desacordado!
- A questão aqui é simples, “fumacento”: Entregue os irmãos Kzardos e deixo o pai dessa garota, sã e salvo bem na sua frente. O que me diz?
- Dessa vez não!
...
A voz vinha de Emerson que sorrateiramente, em meio a distração criada por Kaila, assumira a sua mutação por completo. O jovem lagarto conseguiu escalar a lateral do prédio onde Arleqquin e Melissa encontravam-se anteriormente e saltou ferozmente sobre o vilão! Suas garras rasgam as costas de Arleqquin que num instante de dor, perde o controle sobre as almas penadas ao redor. O pai de Mariane estava liberto e agora era amparado por Kaila!
O sol se punha lentamente, alongando sombras pela praça. Melissa recuou primeiro juntamente com os seus enxames de gafanhotos. Foi a primeira vez que alguém havia repelido o seu poder com tamanha facilidade. Kaila a preocupava de maneira superficial, mas não era alguém a ser subestimada. Arleqquin observou Basco por alguns segundos antes de, mesmo ferido por Emerson, rir baixo.
— Sigam a estrada, Khassan. O espetáculo ainda tá começando.
Melissa e Arleqquin deixam o local, protegidos por um enxame de moscas que os cercam, enquanto fantasmas começavam a surgir nas janelas dos prédios ao redor prontos para transformar o centro da cidade num gigantesco mausoléu. E então eles desapareceram. Kostya respirava pesadamente.
— Ela quer que a gente siga.
Basco assentiu.
— Então a gente segue, mas por hora...
Ele olhou para Mariane.
— Protege ela.
Mais tarde, afastados do arroio, Málaca sentou-se ao lado de Mariane.
— Você consegue desfazer isso?
— Depende do que eu sinto.
— Então você pode restaurar… ou destruir.
Mariane abaixou os olhos.
— Eu nunca quis machucar ninguém.
Málaca segurou sua mão suavemente.
— E é por isso que você não deve sair daqui.
Antes de partirem, Mariane segurou as mãos de Málaca com cuidado. O contato foi suave, mas imediato. Algo pareceu reorganizar-se dentro da jovem indígena, como se uma energia antiga tivesse sido devolvida ao lugar correto. Málaca fechou os olhos lentamente.
Quando os abriu novamente, havia equilíbrio.
— Obrigada.
Mariane sorriu de forma simples.
— Eu só devolvi o que já era seu.
Basco observou em silêncio antes de concluir:
— Você vai ficar bem?
Ela assentiu.
— Aqui ainda precisam de mim.
...
Quando deixaram Cruz Alta, Kostya aproveita para relatar a Mika, tudo o que perdeu enquanto tirava sua soneca! Para Basco a sensação era clara. Eles não estavam mais reagindo a eventos isolados. Estavam sendo conduzidos. E o próximo movimento não seria sutil.
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