Celle, o retorno

33 Confusão de fim de festa


Sam e Freddie dançavam juntinhos em meio a muitos convidados, os quais se divertiam na pista de dança.

Isabelle observava a festa, animada e chamou Cris para dançar:

— Amor, vamos dançar?

Cris não respondeu. Olhava fixamente para Mabel.

Isabelle percebeu e se contrariou:

— Cristopher Shay, eu não sou dada a crises de ciúmes, mas olhar desse jeito para a Mabel, já é demais! Tá arrependido? Quer voltar para ela?

— Desculpa, meu amor. Não é nada disso. Você reparou como a Mabel está ganhando peso?

— E o que tem isso?

— Eu me preocupo com ela, apesar de tudo. Ela está comendo sem parar desde que chegou à festa, isso pode ser um transtorno alimentar. Há pouco tempo, ela estava em depressão, pode ser uma fuga pela comida.

— Então, ela que se trate com um psicólogo, um psiquiatra ou sei lá o quê.

— Você realmente não se importa com ela?

— Eu deveria? Ela faz de tudo para transformar a nossa vida num inferno! Nem mesmo o divórcio ela quer dar para empatar o nosso casamento!

— Mesmo assim... Ela ainda é a mãe da Ellie e sua prima. Passou por experiências realmente traumáticas desde a idade da Ellie, sentiu a rejeição, o abandono e a violência sexual. Talvez a fragilidade emocional e a tristeza dela façam-na parecer essa pessoa ruim.

— Você tem razão, ela ainda é a minha prima. Mas, eu realmente não sei como ajudá-la.

— Eu também não sei, mas sinto por ela. Quem sabe um dia a gente descubra.

— Quem sabe um dia. Como nada podemos fazer hoje, vamos dançar?

— É claro – disse ele, tomando a mão da amada e indo com ela para a pista de dança.

Eddie e Valentina dançavam colados. A moça tinha deitado a cabeça no ombro dele. O rapaz podia sentir o doce perfume dela, deliciando-se. Nick observava de longe, enquanto entornava doses de vodka.

Valentina levantou a cabeça, fitou os olhos tímidos de Eddie e comentou:

— Eu gosto do seu olhar.

— Sério? Ah, valeu! – sentindo-se ficar rosado.

— O seu jeito acanhado também é encantador.

— Você acha isso mesmo ou só está sendo gentil?

— Eu acho mesmo. Isso te faz diferente dos outros rapazes. Com você, eu não me sinto a “caça”.

— Isso é bom?

— Com toda certeza. Você me passa segurança. Me dá vontade de ficar perto de você.

— Como amigo?

— Você só quer ser meu amigo?

— Eu não sei qual é a resposta correta. Você gostaria de ser mais que minha amiga?

— Precisamos ter todas as respostas agora? Vamos aproveitar o momento.

Os dois continuaram dançando calados, até que Valentina convidou Eddie para tomar um ar, no jardim do lado de fora ao salão.

Os dois sentaram-se num banco e apreciaram a lua cheia e o céu estrelado. O dia havia sido incrivelmente ensolarado e a noite estava igualmente bela, com o céu iluminado. Ela falou:

— Quando eu vim para as bodas de prata dos amigos dos meus pais, pensei que a festa seria um saco. Valeu por tornar essa noite especial, Eddie.

— De nada. Ninguém nunca me agradeceu por algo assim.

— Que estranho. Por que não?

— Porque Nick sempre foi muito mais sociável que eu. Na verdade, eu sou o gêmeo nerd e ele o popular. Eu até tenho que usar óculos e ele não – rindo.

— Você não devia se sentir menos que o seu irmão.

— Eu não me sinto menos, só diferente. Ele é bom com as garotas, nas festas, no papo... Eu sou muito bom nos estudos, sempre fui. Sou o melhor aluno do curso de administração.

— Mas, você falou que Nick é bom com as garotas no plural. Talvez, você seja muito melhor que ele com a garota certa, no singular.

— Talvez – concordou ele, olhando para Valentina, com cara de bobo.

A moça percebeu e tomou a iniciativa do beijo. Eddie foi surpreendido ao sentir os lábios dela sobre os seus, mas, logo correspondeu. Pela primeira vez, o toque dos lábios e o calor das bocas fizeram ambos sentirem o coração acelerar. Eddie pediu passagem para a língua e ela abriu mais a boca. Ambos imprimiram o mesmo ritmo ao beijo, com a mesma energia. Quando cessaram, já ofegantes, olharam-se e abriram um sorriso.

— Bom, isso... – ele começou a falar.

Ela tampou a boca dele com os dedos:

— Essa noite foi incrível, nada mais precisa ser dito. O amanhã é incerto. O que tiver que ser, será. Vivemos longe um do outro, mas, quem sabe o destino vá querer o nosso reencontro. Eu vou entrar agora. Meus pais não devem se demorar para ir embora, afinal, minha irmã dorme cedo.

— Claro.

Ela sorriu pra ele e se afastou. Ele acompanhou ela se afastar, sem saber o que pensar.

Ao longe, Sophie observava a cena. Vira o beijo. Saiu do salão atrás do casal ao vê-los se afastar. As lágrimas corriam pelo rosto da moça. Desde pequena, alimentava fantasias com Eddie. Via o jovem nerd como o seu príncipe encantado. Agora, seu mundo dos sonhos havia vindo abaixo. Ele não fora capaz de esperar por ela, arranjara outra. Ao pensar nisso, sentia seu frágil e sonhador coração se dilacerar.

Eddie finalmente levantou-se e voltou ao salão. Sophie permaneceu no jardim, chorando sozinha. Não queria que ninguém a visse nesse estado, pois não queria contar a ninguém o que se passara. De repente, ela viu Nick, cambaleante, entrar cantarolando no jardim:

— Se meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar... – com a língua pesada.

Ela enxugou rapidamente as lágrimas e tentou sair rapidamente dali, mas ele a viu:

— Qual foi, baixinha? Tá chorando por quê? Não gostou da música? Eu canto outra...

— Não é nada disso, Nick. Eu preciso voltar, minha mãe deve estar me procurando.

Ele a segurou pelo braço, dizendo:

— Calma aí. Não precisa fugir só porque está triste. Eu também estou. A mina que eu gosto, gosta do meu irmão.

— Eu sei disso.

— Sabe? Como?

— Eu vi os dois se beijando!

— Traidores! – gritou Nick, começando a chorar e sentando-se no chão.

Sophie ficou com pena dele e sentou-se ao lado, confessando:

— Eu também estava chorando por causa disso. Eu meio que gostava do Eddie.

— Do Eddie? – perguntou ele, secando as lágrimas e rindo.

— Que mau gosto que você tem. Eu sou muito mais bonito e esperto!

— É, você tem razão. Fui uma boba.

— Acontece.

— Eu deveria ter gostado de você – disse Sophie, fitando a boca de Nick e se aproximando.

Nick afastou-se e disse:

— Eu não beijo mais novinhas, porque isso é muito errado!

— Eu não iria te beijar mesmo. Eu nem sei beijar – confessou ela.

— Não acredito que ainda é BV aos 15 anos – caindo na gargalhada.

— Não precisa rir de mim desse jeito – fazendo bico.

— Que biquinho bonitinho. Eu posso resolver esse problema – aproximando os próprios lábios dos lábios dela.

Ela o empurrou:

— Você não disse que beijar novinhas é errado?

— Eu não vou te beijar, vou te dar uma aula de beijo, aí pode — tomando os lábios dela antes que ela pudesse falar mais alguma coisa.

Sophie estranhou o primeiro contato. Nick parecia querer engolir os lábios dela, sugando-os. A língua dele invadiu a boca dela. A moça não sabia como reagir. Mas, ele assumiu o controle, capturando a língua dela em movimentos circulares.

Os dois foram interrompidos por um grito raivoso:

— Larga a minha filha, agora! – era Gibby, que já fuzilava Nick com o olhar.

Os jovens interromperam o beijo e fitaram Gibby, assustados.

Gibby pegou Nick pelo colarinho e o levantou com força. Sophie começou a gritar:

— Pai, larga ele!

— Eu vou dar uma boa lição nesse abusado! Minha filha é menor de idade!

Nick respondeu com deboche:

— Eu estava beijando a sua filha, não estava transando com ela... ainda.

Gibby meteu um soco na boca de Nick, tirando sangue. Sophie gritou por socorro e logo os convidados começaram a sair do salão e se aproximar, inclusive Carly, Sam e Freddie.

Sam conteve Gibby, prendendo os braços dele para trás e Freddie puxou o filho. Sophie abraçou Carly, assustada.

Gibby falou para Sam:

— Me solta! Seu filho é um canalha! Conquistador de mocinhas indefesas! Estava assediando a minha Sophie!

Freddie indagou a Nick:

— O que fez a Sophie?

— Nada! Eu só a beijei. Todo esse escândalo só por causa de uns beijinhos. Eu não tirei a pureza da menina!

Sam soltou Gibby e pegou o filho pela orelha:

— Você está fedendo a álcool, Nick!

— Ai, mãe! Vai arrancar a minha orelha!

Gibby falou:

— Devia era arrancar outra coisa!

Carly perguntou à filha:

— Nick forçou o beijo?

— Não, mãe – respondeu a menina, abaixando a cabeça.

Gibby rebateu:

— Não importa. Nossa filha é uma menina ingênua. Ele a seduziu.

Carly amenizou:

— Eu entendo o seu susto. Mas, Sophie não é mais uma criança. Todos nós aqui já beijamos aos 15 anos.

— Ele é bem mais velho do que ela! – observou Gibby.

Sam ralhou com o filho:

— Eu estou farta da sua falta de juízo, Nick! Sophie foi criada como sua irmã!

— Sophie não é a minha irmã. A Belinha é minha única irmã. E ela já fez até um filho com Cris, que é irmão da Sophie. Pelo visto, o incesto é permitido nessa nossa família confusa, todo mundo já pegou todo mundo, inclusive meu pai e Carly – rindo, com deboche – Ainda querem me dar lição de moral.

Freddie inteveio:

— Nick está bêbado, não temos condições de conversar com ele agora. É melhor levá-lo para casa e deixar a lição de moral para amanhã.

— Falou o papai metido a certinho – aplaudindo e rindo.

Sam e Freddie levaram o filho até o carro, onde Freddie comprometeu-se com Sam a deixar Nick em casa e retornar para a festa.

Freddie colocou o filho em baixo do chuveiro, passou um café forte para ele e limpou o seu ferimento na boca. O rapaz logo apagou no sofá da sala e o pai retornou para a festa, que já estava acabando.

Ellie já dormia no colo de Cris. Sam, Isabelle e Eddie comiam alguns salgados restantes.

Ao ver o marido, Sam se aproximou:

— Como está Nick?

— Apagou. Vai acordar amanhã com uma baita dor de cabeça.

— Pensei que quando ele fosse para a faculdade nossos problemas com ele diminuiriam.

— Quanto mais os filhos crescem, mais os problemas aumentam. Enfim... Pena que a festa já acabou.

— Melhor assim, estou cansada, já até tirei os sapatos.

— Os músicos já foram embora?

— Ainda não. Acabaram de parar.

Freddie aproximou-se da banda e pediu uma última música. Então foi até a filha:

— Essa festa não pode acabar antes que eu dance com a minha princesa.

Isabelle pegou a mão do pai e foram para a pista de dança. Ele comentou:

— Sinto saudades de quando ainda podia dançar sobre os meus pés. Se você tiver uma menininha, Cris terá que me dar a chance de fazer isso também.

— Tenho certeza de que ele não vai se opor, pai. Mas, eu também sempre vou querer a minha vez de dançar com o meu herói.

— Eu sempre estarei aqui pra você, enquanto eu viver.

— Eu sei disso, pai. Você é o melhor do mundo – dando um beijo na bochecha do pai – Eu ficaria muito decepcionada se essa festa acabasse sem a nossa dança.

— Eu também.

Sam e Cris observavam a cena, sorrindo.