Celle, o retorno
34 A bronca dos pais
Nick acordou sentindo como se a sua cabeça tivesse levado marretadas na noite anterior, tamanha a dor. Estava zonzo, mas, fez um esforço para se levantar e ir até o banheiro, fazer a sua higiene pessoal e, temeroso à reação dos pais, arriscou entrar na cozinha para fazer o seu desjejum.
Sam e Freddie viram o filho entrar sem nenhum comentário, tampouco um bom dia. O rapaz também não teve coragem de encarar os pais. Simplesmente se sentou e se serviu de uma xícara de café preto. Estranhou não ver Eddie no local, já que o irmão sempre acordava antes dele, mas não perguntou nada.
Eddie, de fato, estava acordado, ocupando o antigo quarto de Isabelle, mas seus pensamentos estavam longe. Recordava-se de cada detalhe da noite anterior com um sorriso bobo. A imagem da bela Valentina não lhe saia da cabeça. Onde ela estaria agora? Certamente num avião, com a família, retornando para a vida dela em Los Angeles. Em breve ele também retornaria à sua vida na universidade, mas, acreditava que a força do amor poderia resistir ao tempo e à distância e que o destino provocaria um reencontro mais cedo do que ele poderia esperar.
Nick tomou o café preto, comeu um pão de trigo com margarina e preparava-se para deixar a cozinha quando Sam o chamou:
— Se está sóbrio e alimentado, é hora de termos uma conversinha.
Ele olhou resignado para a mãe e tudo o que disse foi:
— Está bem.
Freddie falou:
— Melhor nos sentarmos na sala.
Nick deixou-se cair no sofá maior, desanimado, fitando os pais, que se sentaram nas poltronas próximas. Freddie começou:
— Recorda-se do que aconteceu ontem?
— Em parte.
Foi a vez de Sam:
— O suficiente para saber a merda que fez, com certeza! – irritada.
— Adianta eu pedir perdão agora?
— É claro que não! – respondeu Sam.
— Como eu imaginava.
Freddie interveio:
— Está satisfeito por ter se tornado a principal atração das bodas de prata dos seus pais?
— E por ter desrespeitado a filha dos nossos melhores amigos de infância? – completou Sam.
— É claro que não!
— Então por que fez esse circo? – quis saber Freddie.
— Ora, porque bebeu que nem um gambá – manifestou-se Sam, nervosa.
— Deixa ele responder, amor – pediu Freddie à esposa.
— Estão mesmos interessados em saber? Pensei que só ligassem para os sentimentos do “pobre” Eddie!
Sam rebateu:
— Se estamos perguntando, é porque queremos saber.
— Deviam perguntar ao Eddie.
— Não foi ele que bebeu e passou vergonha – disse Freddie, também ficando irritado com a postura insolente do filho – Agora, diga logo! Afinal, já é um homem! Não é mais um moleque que só nos causava problemas!
— Claro, porque o Eddie sempre foi o gêmeo perfeito! O queridinho de vocês! O filho exemplar! Eu sou o garoto problema! O acidente! O extra que não estavam esperando!
— Chega de drama, Nicolas! Isso não é sobre o Eddie, é sobre você! – cortou Sam.
— Não, é sobre o Eddie também!
— Não fale do seu irmão pelas costas, ele não está aqui para se defender – falou Freddie.
— Então, acordem ele! Se eu estivesse dormindo até essa hora, já teriam me jogado da cama!
Nesse momento, Eddie já entrava na sala e começou a se defender:
— Eu não estava dormindo, só descansando. Ontem a festa acabou tarde.
— Descansando ou pensando na namorada que roubou de mim?
Sam e Freddie olharam para Eddie, surpresos. O rapaz rebateu:
— Eu não roubei a sua namorada, até porque você nunca teve uma! Só sabe pegar as garotas. O seu problema é que essa você não pegou e por isso está recalcado!
Sam manifestou-se:
— Alguém me explica quem é essa garota?
— Valentina! – falaram Eddie e Nick ao mesmo tempo.
— Não acredito que além de Nick ter beijado Sophie, filha da minha melhor amiga Carly, Eddie e Nick estão brigando por Valentina, filha da minha melhor amiga Cat! Isso está pior que novela mexicana! Alguém me arranja uma pasta de queijo para eu digerir tudo isso, pelo amor de Deus!
Eddie falou:
— Belinha está praticamente casada com Cris, que também é filho da sua melhor amiga Carly, porque não posso me casar com a Valentina?
— Olha o bobalhão já pensando em casamento! Tudo isso porque perdeu o BV com a garota? – debochou Nick.
— Sua inveja é patética – provocou Eddie.
Sam desabafou:
— Eu não me importo se você, Eddie, se casar com a Valentina, tampouco me importo se Nick namorar a Sophie, o que eu não suporto é ver os meus dois filhos brigando por causa de uma garota ou saber que um dos meus filhos pode estar brincando com os sentimentos da minha afilhada Sophie!
Nick falou:
— Eu me arrependo de ter beijado a Sophie, se quer saber. Não quero brincar com os sentimentos de ninguém. Hoje mesmo estou voltando para a universidade.
Foi a vez de Eddie:
— Eu sinto muito se te deixamos triste, mãe. Não era a minha intenção. Eu me apaixonei pela Valentina de verdade. Nem pensei que Nick poderia estar mesmo gostando dela, porque ele nunca gosta de ninguém.
— Se isso foi um pedido de desculpas, foi dos piores e eu não aceito – disse Nick – Vou juntar as minhas coisas e logo estarei longe daqui.
Sam foi até o filho e o abraçou:
— Não precisa fazer isso, Nicolas.
— Mas, eu quero – respondeu ele, desvencilhando-se da mãe e dirigindo-se ao quarto.
Freddie percebeu que os olhos de Sam encheram-se de lágrimas e foi atrás de Nick:
— Você não tem o direito de fazer isso com a sua mãe!
— Justamente por não querer causar mais tristeza à minha mãe, vou embora. Ela não merece ver dois filhos que se odeiam.
— Você não pode odiar o seu irmão por uma garota! Isso não está certo!
— Não o odeio pela garota, eu o odeio por pensar que sou alguém sem sentimentos.
Freddie percebeu o quanto Nick estava magoado e entendeu que era melhor deixá-lo ir. Assim, ele teria tempo para esfriar a cabeça e deixar a poeira assentar. Tinha certeza de que ele voltaria, afinal, sabia que ele e Sam haviam feito um bom trabalho com os filhos, ainda que a situação parecesse difícil naquele momento.
Quando Nick passou pela porta levando a sua mala, Sam não conteve mais as lágrimas e chorou nos braços do marido, que continha o próprio pranto, acreditando que tudo iria passar.
Eddie percebeu a tristeza dos pais e sentiu-se culpado também. Resolveu voltar para o quarto de Isabelle, de onde não teve vontade de sair pelo restante do dia.
Os dias se passaram e Eddie resolveu voltar, também, para a faculdade, mas o fez com bem menos drama que o irmão. Despediu-se dos pais no aeroporto e prometeu voltar para visitá-los em breve. Não mais tocou no nome de Valentina e se esforçou para tirá-la de seus pensamentos no período.
Enquanto isso, Isabelle e Cris contavam os dias para a ultrassonografia, ansiavam por saber se estava tudo bem com o bebê e qual era o sexo dele. Já imaginavam como seria o quartinho, o berço, as roupinhas, os brinquedos, se falaria primeiro papai ou mamãe, se seria loiro como a mãe ou moreno como o pai, cogitando como seria a relação do novo integrante da família com Ellie.
A imaginação do jovem casal prosseguiu até à clínica da obstetra. Uma jovem senhora que ganhara fama em Seattle por trazer ao mundo bebês saudáveis em partos humanizados.
A enfermeira preparou Isabelle, passando o gel na barriga e a médica chegou para o exame. A imagem começou a aparecer, bem como o alto volume de batidas cardíacas podia ser ouvido pelos futuros pais, que estavam emocionados. Todos olhavam atentamente para a tela. Antes mesmo que a médica pudesse falar, Isabelle e Cris olharam-se e trocaram o sorriso, demonstrando que haviam tido a mesma visão.
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