Notas iniciais
Musical: Chicago

Pop

“So I took the shotgun off the wall and I fired two warning shots. Into his head.”



Nara Temari.

Idade: 29 anos.

Estado civil: Casada/Viúva.

Crime: Assassinato.

A primeira mulher que Tsunade julgaria naquela segunda-feira, 17, não parecia nem inocente, nem arrependida. E, visto que seu advogado não era ninguém menos que Hatake Kakashi, a juíza podia imaginar o quanto ele tinha se esforçado para que ela transparecesse ambos.

Com dignidade, Temari subiu no banco dos réus e jurou dizer a verdade, apesar de o leve dar de ombros não ter escapado aos olhos da magistrada.

Assim que todos tomaram seus assentos, o promotor, Uchiha Obito, iniciou as perguntas com sua voz firme:

— Você é Nara Temari?

— Sim.

— E esse é seu nome de casada?

— Exato.

— Pode nos contar, senhora Nara, como conheceu seu marido?

— Na adolescência. Fizemos estágio juntos.

— E o senhor Shikamaru Nara era um bom marido?

— Quando não era um marido ruim, sim.

Riso do júri.

— E com que frequência ele era um marido ruim?

— Muito frequentemente.

— Ele batia na senhora?

Temari soltou um som de desdém.

— Ah, se ele tentasse.

— Ele traía a senhora?

— Não que eu saiba.

— Ele contribuia em casa?

— Claro. Assim como eu. Isso é obrigação.

— Verdade, senhora. E vocês têm filhos?

— Não, não temos.

— Por quê? Estavam casados já há muitos anos. Poderiam ter tido, nesse tempo, pelo menos duas crianças.

A ré deu de ombros.

— Bebês só comem, dormem, choram e sujam as coisas. Para isso, eu já tinha o meu marido.

Novo riso do júri.

— E a senhora amava o seu marido? Pois, só aqui neste tribunal, o menosprezou duas vezes.

— Amava sim. — ela respondeu e parecia sincera. — Mas isso não me impedia de ver os defeitos dele.

— Quais defeitos, senhora Nara?

— Ele era acomodado e preguiçoso.

— E foi por esse motivo que a senhora disparou uma arma contra a cabeça dele? E não uma, mas duas vezes! A senhora o matou a sangue frio apenas porque o senhor seu marido era um homem acomodado e preguiçoso?!

— Claro que não.

— Então, por qual motivo, senhora Nara? Esclareça-nos! Como uma mulher bonita como a senhora, jovem como a senhora, pôde cometer um crime dessa barbaridade?

Temari respirou fundo e suspirou.

— Shikamaru tinha uma mania muito irritante. Ele fumava dentro de casa. Veja bem, eu não me importava que ele fumasse desde que fosse fora de casa. Dentro de casa, além do cheiro horrível, as cinzas caiam pelos móveis.

Hatake Kakashi ergueu-se.

— E, lembrem-se, senhores do júri, do perigo. Um homem viciado pode fumar perto de um vidro de álcool ou pode usar o fogão para acender o cigarro e esquecer o gás aberto. E então? Pensem só na tragédia.

O júri soltou um “ah” compreensivo.

— Pedi a ele mil vezes que fumasse no quintal, mas nunca resultou em nada. Um dia, eu cheguei em casa, irritada com o trânsito, e o encontrei no sofá, bebendo saquê e fumando. Eu disse: “se você acender só mais um cigarro…”

Ela suspirou.

— Ele acendeu. Então, eu peguei a arma na parede e dei dois tiros de advertência. Os dois na cabeça dele.

Hatake Kakashi voltou a se erguer.

— Um clássico caso de estresse extremo, senhores do júri. Vocês sabem, melhor do que ninguém, o quanto é enlouquecedor repetir e ter que voltar a repetir. A minha cliente, como vocês ouviram, já tinha pedido ao marido que não fumasse dentro de casa. Imaginem ter que falar isso dia após dia durante dez anos, que é o tempo em que eles eram casados. Sem contar, senhores do júri, sem contar que, como os senhores bem ouviram, ela quis dar tiros de advertência. Sua intenção real nunca foi matá-lo, apenas assustá-lo.

— Protesto! — o promotor gritou.

— Protesto aceito. Mude sua abordagem, advogado de defesa.

O advogado de defesa limpou a garganta e retomou com gravidade.

— Senhores do júri, olhem para a minha cliente. Uma mulher jovem, bonita e cheia de vida. Ela cometeu um erro? Sim, mas eu posso afirmar que não foi intencional. Ela amava o marido e, justamente por isso, estava estressada e cansada de vê-lo se matando dia a dia com esse vício maldito. Ela pedia a ele que fumasse fora de casa, mas, na realidade, o que ela queria é que ele parasse de fumar, que se cuidasse, assim como ela cuidava dele. Os tiros, como os senhores ouviram, foram de advertência, não intencionalmente fatais. Quem devemos culpar quando existe uma arma, sem licença, carregada e totalmente exposta? Uma arma sem vigilância, livre para que qualquer pessoa faça dela o que quiser.

Silêncio.

Tsunade virou-se.

— Senhores do júri?

Depois de alguns acenos de cabeça, um representante falou:

— Precisamos conversar, meritíssima.

— Certo. Recesso de uma hora. E depois voltamos com mais um caso seu, Hatake.

— Sim, excelência.

Os senhores do júri saíram cabisbaixos e pensativos, sem lançar olhares de ódio em direção a Temari.

A ré e o advogado se encararam e piscaram cúmplices.

Ponto positivo.