Celeridade
5 Celular, Árvore e Testa
O plano está em execução neste exato momento.
O plano para minha mãe não descobrir o outro plano também está em andamento.
É uma operação cheia de falhas, mas deve dar para o gasto.
Oscar está agora na prefeitura tentando invadir o sistema de segurança do pai dele, com ajuda dos meninos da banda e Ítalo. E eu estou fazendo compras com a minha mãe.
Ela me mostra uma jaqueta num cinza brilhante pela qual nutro simpatia, me convence a entrar para experimentá-la.
A vendedora arregala os olhos a me ver. Ela disfarça e continua com sua função.
–Bom dia, meu nome é Léia, posso ajudar em alguma coisa? – ela diz tentando não parecer preocupada.
Ela não está conseguindo.
–A gente queria ver se a jaqueta lá da vitrine está à venda. – minha mãe pede sorrindo.
–Sim, senhora, vou buscar. – a vendedora sai apressadamente e soluçando.
Eu e minha mãe nos entreolhamos. Aponto para mim mesma, confusa. Minha mãe faz que talvez com a cabeça e dá de ombros.
Ela volta com a jaqueta. Visto-a por cima da minha. Minha mãe bate aplaude quando dou um giro. Dou de cara com a vendedora temerosa ao terminar minha demonstração.
–Tem alguma coisa na minha cara? – pergunto a ela.
Acho que meu tom de voz a assustou porque ela recua um pouco. Ela continua se afastando até chegar no balcão. Sua mão desliza para trás dele e uma sirene começa a tocar.
A moça corre em disparada até nós. Ela me empurra no chão e derruba uma arara em cima de mim. Minha mãe a pega pelos cabelos castanhos e aplica nela uma chave de braço.
–Que merda é essa? – minha mãe vai apertando cada vez mais enquanto me levanto – E então?
Minha mãe solta a mulher quando ela vê cinco viaturas da polícia com as sirenes ligadas, apontando seus faróis, em plena luz do dia, para as portas da loja. A moça escapa com dificuldade e falta de ar, mas escapa.
–Droga, perdemos um refém! – minha mãe solta em desânimo.
Não faço nada além de encará-la por alguns segundos.
–Não siga meus exemplos. – ela me diz.
–Nem precisa pedir duas vezes. – retruco.
A polícia nos manda sair. Eles teriam vindo só atrás de mim, se minha mãe não tivesse enlouquecido com a vendedora dedo-duro.
Nós duas andamos para trás lentamente. Fazendo movimentos vagarosos e em silêncio. Alguns policiais saem dos carros e meu coração dispara. Minha mãe insiste que devo manter a calma, mas não consigo.
Penso no que o prefeito vai fazer comigo.
Abrir meu crânio.
Dissecar meu cérebro.
Amputar meus membros.
Santo Deus...
Vem até mim a ideia de me disfarçar para sair daqui, mas a vendedora deve ter informado à polícia que só estávamos nós três aqui dentro.
–Escute, Robin, vou me entregar. – minha mãe diz procurando algo em sua bolsa.
Tento trazê-la a realidade dizendo que é loucura (é burrice também, mas já disse muita merda pra ela), mas ela não me dá ouvidos.
Ela tira uma caixa da bolsa e me entrega.
É um telefone celular.
–Era pra ter te dado quando cheguei, mas aconteceu tanta coisa e... – ela começa a chorar – Desculpe por ser uma mãe terrível.
O choro de minha mãe me faz sentir culpada.
–Eu que sou uma filha terrível, mamãe... – digo abraçando-a.
–Eu sei, mas você melhora! – ela responde e a afasto – Só quero te deixar pra cima um pouco.
A gente se abraça por mais algum tempo, ignorando os policiais lá fora que gritam sem parar.
–Ele já vem com meu número. Fuja daqui. – ela ordena e aponta a porta dos fundos – Só me ligue quando estiver em segurança total, entendeu?
Aceno com a cabeça e a dou um último abraço.
Ela sai da loja e, enquanto ela distrai as autoridades, eu escapo pelos fundos.
Tento não parecer suspeita, mas com apenas alguns passos, descubro como a vendedora me reconheceu.
Tem um cartaz com meu rosto borrado no primeiro poste que encontro.
E no segundo.
E no terceiro.
E nos dez postes seguintes.
Ignoro isso e decido ir até a prefeitura. Arriscado e idiota, mas acho que os meninos ainda estão lá.
Subo as escadas que dão para a entrada do prédio.
Antes mesmo de poder colocar a mão na maçaneta, ouço um barulho de explosão vindo de dentro. Decido não entrar pela frente.
Uma ideia louca me passa pela cabeça quando avisto uma chaminé.
Vou para a lateral direita da prefeitura e começo a subir escalar uma árvore que está por perto o suficiente para pular dela para o parapeito de uma janela.
Um esquilo me morde o dedo, quando chego a um galho mais alto. Dou-lhe um tapa e ele cai da árvore.
–Antes ele do que eu. – digo para mim mesma.
Pulo para o parapeito.
Do parapeito, dou meu melhor salto para a calha que fica colada ao telhado.
Saio da calha e estou no telhado da prefeitura. Minhas mãos estão podres e meus sapatos também. Tinha que usar os de grife falsos justo hoje...
Ando cautelosamente até a chaminé. Outro barulho de explosão, mais alto que o anterior desta vez.
Coloco minhas pernas dentro da chaminé. Vou tentando me prender com os pés e as mãos, para não cair de vez e morrer. Devagar, desço com dificuldade até o que parece ser a sala do prefeito.
Quando levanto a cabeça, encontro um dos meninos da banda de Oscar que deve estar fazendo a guarda.
–Você tá preta. – ele comenta, me olhando de cima a baixo.
–E que cor você queria? – aponto para a chaminé com a mão – O que foi aquele barulho?
–Vieram lá de baixo, mas Oscar disse para que eu não saísse daqui de jeito nenhum – ele me informa.
Agradeço e saio da sala correndo como um ser humano normal.
O corredor tem mais algumas portas, até uma escada que desce para a entrada. Minha escolha é seguir o caminho. Vou lentamente.
Outro barulho de explosão.
Jogo meu “lentamente” no lixo e acelero sobrenaturalmente para o andar de baixo.
Vejo Oscar jogado no chão.
Corro até ele.
–O que houve? – pergunto a ele.
–Robin... Você tá preta. – ele diz com esforço, reviro os olhos e refaço minha pergunta – Foi ele. – e aponta para uma saleta mais a frente.
Ajudo-o a andar até um lugar mais seguro. Ele jura que ficará bem. Beijo sua testa e sigo para o destino que ele me disse.
Ando com passos rápidos até a sala que ele apontou como origem dos barulhos perigosos. Uma voz conhecida chama meu nome.
Ítalo.
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