Celeridade
6 Cadeira, Âncora e Lagosta
–Você está preta, Robin-Marie. – ele diz e eu solto um grito de cansaço.
Avanço lentamente enquanto penso no que ele pode fazer numa fração de segundos.
Ele pode fazer uma rajada potente o suficiente para me arrastar daqui pra bem longe.
Ou derrubar o ventilador de teto na minha cabeça.
Talvez até derrubar a prefeitura inteira.
Mas me dou conta de que ele não é o problema.
Uma outra silhueta se move mais distante.
Recuo um pouco e aponto para a figura humanoide se movendo.
–Estou cuidando disso. – ele me responde e corre até a sombra.
Como eu pensei que ele faria comigo, uma ventania derruba o ventilador e acerta a parede, mas acredito que errando a figura.
Uma rajada de fogo é disparada na direção de Ítalo, mas ele desvia. Desvio com facilidade dela, me agachando um pouco.
Algumas cadeiras começam a flutuar e avançam velozmente em direção à figura.
Uma parece ter acertado e me revela uma coisa: a tal sombra é de uma moça.
Seus gritos femininos ecoam na sala, seguidos de uma série de labaredas que se alastram pelas cortinas. Acelero até o banheiro e pego um copo d’água.
Jogo nas cortinas, mas é claro que é inútil.
A batalha já mudou de lugar e descubro quem é a moça que está incendiando o local.
A líder das Cintia-lantes desfere uma bola de fogo na minha direção, mas não tenho tanta sorte quanto da última vez e o golpe queima a manga da jaqueta que eu roubei sem ter consciência.
Grito com a ardência.
Ela dá uma gargalhada maligna.
–Por que você está aqui? – pergunto em meio a dor.
–Pela recompensa. – ela responde com um sorriso. Recordo-me de ter visto alguns números nos meus cartazes pela cidade – Eu sabia que você ia tentar acabar com as gravações.
A encaro em silêncio enquanto me levanto. O fogo deixou uma marca no meu braço que dói. Muito.
Ignoro a dor e cambaleio até ela.
–Olha, Ro-Ro, não vou matar você. O prefeito só vai me pagar se você estiver aqui com vida. – ela dispara uma outra bola de chamas, porém no teto. Um pedaço de gesso cai em cima de mim.
Grito involuntariamente. É pesado demais para levantar.
–Agora eu vou pegar as cenas pra, tipo, não ficar sem provas, né? – ela torna sua voz insuportável de novo.
Como um foguete, uma outra cadeira a acerta no rosto e ela cai do meu lado.
O vento levanta meu gesso e grito um “obrigada” para Ítalo.
Ela se levanta com o rosto sangrando.
–O prefeito não deu recompensa por você, então eu posso te matar. – ela libera chamas tão potentes que machucam meus olhos.
Ítalo está voando e arranca pedaços do teto para tentar acertá-la.
Que cara mais vesgo...
Lembro de uma aula de química do ano passado.
“Para poder haver uma explosão deve haver combustão. E pra isso, precisa-se de oxigênio.”
Depois, de uma de climatologia.
“Não há como respirar dentro de um furacão.”
Sem pensar duas vezes, começo a girar o mais rápido que consigo ao redor da Cintia-lante.
Ela começa a arfar.
Ítalo desce ao chão, mas continuo correndo.
Por mais que tente respirar, ela não consegue. A vejo desmaiar e paro.
Não a quero morta.
–Plano brilhante, Robin-Marie. – ele elogia.
Pegamos as gravações e vamos resgatar os outros meninos.
Ajudo Oscar a se levantar, mas ele que me ajuda a andar.
O gesso deixou sequelas nas minhas costas.
Demônio quebra o cd em seu joelho e saímos pela porta da frente.
Pego o celular que minha mãe me deu e ligo para ela, já que estou em segurança. Bom... Quase em segurança.
Chamando...
Chamando...
Começo a ficar preocupada.
Um criminoso não deve voltar à cena do crime, mas peço para Oscar e Ítalo me acompanharem até a loja de roupas em que minha mãe se entregou pra me salvar hoje mais cedo.
Tudo parece estar na mais perfeita calma.
Não tem um carro no estacionamento e a loja está exatamente como estava quando eu saí.
Estranho. Estranho demais.
Oscar entra na loja e não tem ninguém lá dentro além dele.
Ligo novamente para o número da minha mãe.
Chama, mas não há resposta.
Quando percebo, estou hiperventilando.
Lágrimas correm pelo meu rosto.
Ítalo olha em volta, mas não encontra nada.
–Robin! Robin vem aqui, rápido! – Oscar grita de dentro da loja.
O mais rápido que posso, sigo sua voz.
Ele está vendo uma televisão pequena e em preto e branco no balcão da loja.
É o noticiário da cidade.
–A criminosa conhecida como “Ligeirinha” sofreu um grande golpe nesta manhã. – a âncora diz. Ao fundo da imagem, vejo minha mãe – Sua mãe, Serena, está agora na cadeia, e o julgamento será amanhã. Ela está sendo condenada por agressão, roubo e perturbação da paz.
Ela passa a voz para outro repórter, mas não tenho fibra para ouvir mais nada.
Minha mãe está presa. Por minha culpa.
Ítalo promete que vai me levar ao tribunal amanhã para que eu testemunhe por ela.
É o mínimo que eu posso fazer.
De volta ao hotel, passo pela recepcionista com receio.
–Eu não vou entregar você, querida, não tenha medo. – ela me diz com um sorriso doce.
–Não? – pergunto – Como posso confiar?
–Vou responder com outra pergunta. Por que eu entregaria você? – ela continua com seu sorriso – Eu não preciso do dinheiro. Tem coisa mais importante nessa vida. Se precisar de ajuda pra... – ela aponta para a porta de saída – Você sabe o número da recepção.
Em meio às lágrimas vou até ela e a dou um abraço.
Agradeço e subo com Oscar para meu quarto.
Enxugo minhas lágrimas e sento na cama.
Faço biquinho involuntariamente.
–Podia ser pior... – Oscar começa.
–Não tente me animar. – interrompo-o – Você e minha mãe fazem isso. Tentam me animar e pioram tudo.
Ele se desculpa e se senta do meu lado.
Começo a fungar e deito em seu colo. Afundo minha cabeça em seus joelhos e choro alto. Ele afaga minha cabeça em silêncio e me deixa desesperar o quanto eu precisar.
Percebo o quanto isso está me deixando pior.
Não posso simplesmente vomitar meus sentimentos e gritar nas pernas do meu namorado. Também não posso tirar minha mãe da cadeia tão fácil. O sistema penal americano é duro.
–Por que nada do que eu faço dá certo? – grito.
Oscar me levanta.
Pela primeira vez em algum tempo, ele não está fedendo.
–Se continuar se culpando por tudo, vai continuar destruindo meus jeans. – ele responde – Agora, por exemplo, é fundamental culpar outra pessoa. Tentar resolver sem se martirizar desse jeito.
Ele me abraça calorosamente.
Nos beijamos. Ele se deita e eu me deito por cima dele.
É o mais longe que já fomos, em termos de relacionamento. Ele me consola e eu esmago o peito dele.
Devíamos fazer isso mais vezes.
–Viu? – ele diz quando começo a rir. Mexo com os cachos de seu cabelo – Vai ficar tudo bem. Por mais romântico que seja, não somos eu e você contra o mundo, Robin.
Sinto que ele também dorme.
Não nos encontramos no mundo dos sonhos.
Eu encontro uma lagosta verde esquisita que fala em algum dialeto que não compreendo.
Quando acordo, ele ainda está dormindo.
Troco de roupa e espero na recepção por Ítalo.
Só espero que minha mãe esteja bem...
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