Celeridade
7 Prêmio, Dez, Ventas
Notas iniciais
Aconteceu. Tudo que eu não queria. Tudo que eu temia.
Não pude fazer nada para salvar minha mãe.
Ela tem cinco minutos para falar comigo.
E eles começam agora.
A porta na minha frente se abre e uma mulher de laranja corre para me abraçar.
Seu abraço sufocante é respondido pelo meu.
–Fuja, fuja daqui! Fuja rápido! – minha mãe implora, ela não sabe como eu consegui entrar aqui, apesar dos guardas.
–Apaguei as gravações, mãe. – sussurro em seu ouvido, sem largá-la do abraço.
–Apagou? – ela pergunta.
–Sim. Todas elas. Não podem me incriminar. – ela me afasta de seu corpo.
O maior sorriso que a vi fazer em toda a minha vida estampa seu rosto.
Recordo-me da última vez que vi um sorriso grande como aquele.
Então lembro da última vez que vi um sorriso quase tão grande como aquele.
Eu tinha seis anos apenas e não lembro mais em que série eu estava e tinha acabado de me apresentar no show de talentos da minha antiga escola.
Esse foi meu número. Não sei mais como fazer isso, mas na época eu era boa mesmo, uma das melhores da cidade.
É esse o tipo de mérito que se ganha por viver numa cidade com cinco mil habitantes.
Outra menina apresentou um solo de canto. Interpretando a música do Mágico de Oz, se não me engano.
Os juízes adoraram e todos os presentes acharam super fofo. Mais fofo que a filha da Serena Spokojstvo sapateando. Péssima crítica.
Quando anunciaram que a cantora mirim tinha ganhado em primeiro lugar, minha mãe surtou de vez. Criou argumentos que era sacrificado me pôr numa escola de dança, que ela trabalhava doze horas por dia para me sustentar, que não sei mais o quê.
Todos esses convincentes pontos apresentados no escuro, gritando a plenos pulmões.
Eu ganhei em segundo lugar, e se fosse hoje, estaria feliz, mas eu fiquei muito triste naquele momento e quase chorei.
Mas não cheguei a chorar. Com meus sapatos especiais, dei um chute no bumbum da cantora e peguei seu troféu. Corri até minha mãe e entreguei o prêmio a ela.
Foi a primeira vez que vi um sorriso tão grande como aqueles.
Ela estava orgulhosa de mim.
Quando ela me diz que “só pegou uns dezinhos” em meio a sorrisos, vejo o quanto ela está feliz por mim.
Os policiais invadem a sala.
Não acredito que já acabaram nossos cinco minutos.
E não acabaram.
Não estão levando minha mãe.
Estão me levando.
–Me soltem! – digo balançando os braços, mas eles são muitos.
Ouço minha mãe gritar e pular em cima de um deles, mas é inútil.
Ele derruba minha mãe como se ela fosse uma bonequinha de pano.
Sou arrastada para fora violentamente, mas vejo que não estou sozinha com os guardas.
Cintia também está sendo carregada no ombro de um deles, e vejo Ítalo sendo puxado como eu.
Por quê?
Como?
Ítalo e eu apagamos as gravações e quebramos o CD...
De repente, tudo fica claro como água.
Ainda tinha uma câmera gravando.
A da sala onde nós batalhamos.
Nem tocamos naquela câmera.
E ela gravou tudo.
O fogo.
O vento.
O ciclone.
Uma cicatriz está no rosto de Cintia. Ela parece cansada.
Ítalo pede desculpas a mim repetidas vezes, e eu abano com a mão.
Tento me soltar mais uma vez, mas não adianta.
–Que mãos fortes vocês dois têm! – digo sorrindo para os guardas. Eles mal olham para mim.
–Cala essa boca, Robin. – Cintia grita para mim.
Na certa isso é tudo culpa dela, que ficou lá na cena do crime para dedurar.
Pode ser que seja culpa minha, afinal, eu tirei seu ar.
Não.
Ela acordou e ficou lá. É isso.
–Vem aqui me calar, sua vadia! – grito em resposta.
Ela tenta se soltar, mas é claro que não consegue. Quando vejo seu rosto furioso, tenho uma ideia brilhante.
Na verdade, é a ideia mais idiota que eu tive.
E, sim, estou contando com a ideia maluca de entrar na prefeitura pela chaminé quando a porta estava perfeitamente aberta.
Monitoro o perímetro e começo a ofender Cintia como nunca ofendi ninguém.
A cara dela está cada vez mais vermelha e parece que ela vai explodir.
–Não precisa ficar tão esquentadinha... – preparo-me para estourar a bomba – Parece que vai soltar fogo pelas ventas...
E é isso que ela faz.
Não pelas ventas, mas ainda acontece.
No entanto, não acontece como eu queria. Ela está com tanta raiva que o que eu queria ver, uma combustão mínima, torna-se uma fogueira ambulante.
O guarda que a carregava está em chamas.
Ela o ignora totalmente e avança em minha direção. Uma rajada de fogo atinge os guardas que me seguravam e eles caem no chão.
Avanço celeremente nela e a derrubo. Ela fecha a mão num punho em chamas e soca meu braço.
Outra manga de jaqueta queimada...
Dou-lhe um belo tapa na cara para se acalmar.
–Livres. – digo a ela.
Ela olha em volta e me empurra para longe.
Quando ela levanta, me abraça e agradece por irritá-la. O perfume dela machuca meu nariz.
Infelizmente, o momento maravilhoso é interrompido por mais duas dúzias de guardas com barreiras transparentes vêm até nós. Ítalo está sumido. Acho que eles querem terminar o serviço.
Eles formam um círculo em nossa volta enquanto descem as escadas.
Sem escapatória. Muito inteligente, prefeito.
Ele tem um dos três mutantes da cidade, mas não vou o deixar ter mais um.
As labaredas se espalhando pelo chão me dizem que Cintia também não vai deixar.
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