Cecília

15 Amor e poesia


Depois daquela noite, não havia hora nem lugar, os dois embrenhavam-se na mata, e passavam longas horas longe de tudo e de todos. Ela conheceu o prazer e gostou. Amava aquele homem quase que com desespero, entregava-se sem barreiras, ou tabus. Permitia que ele a possuísse de todas as maneiras, que mostrasse a ela o quanto era maravilhoso amar.

Mesmo que quisessem, não tinham como esconder o que sentiam. Os olhares revelavam o quanto se amavam e o quanto se desejavam. Preocupada com o que poderia acontecer, Rosália tratou de alertar Cecília.

— Eu sei que sou apenas uma empregada, e sei também que não tenho o direito de lhe falar de certos assuntos... Mas estou preocupada com você. — Disse-lhe em tarde na qual a patroa decidiu ficar em casa.

A moça engoliu mais um pouco do café, ela já imaginava o porquê da preocupação da cozinheira, fingiu-se porém, de desentendida.

— Preocupada? Com o quê? — Indagou-a.

— O Robério é comprometido, Cecília! Ele tem uma namorada... Ou... Sei lá, acho que uma noiva na cidade.

Cecília revirou os olhos, colocou os cotovelos sobre a mesa, e apoiou o queixo com o dorso das mãos.

— Rosália. O que eu tenho com isso? O Robério é livre e maior de idade, ele pode namorar quem ele quiser! E além do mais... Ele é apenas um empregado. Eu não tenho que saber da vida amorosa dele.

— Você disse que eu e o Venâncio somos seus amigos. Amigos não mentem entre si. — Falou com voz firme. Cecília levantou um pouco as sobrancelhas e bufou.

— Tudo bem. Você está certa... — Ela fez uma pausa, levantou-se e foi até a janela, olhou para quintal e depois virou-se novamente para a cozinheira, melhor que ela soubesse de tudo. — Eu já sei da história dele com a outra... Ele me contou.

— E você vai continuar com isso?

— Ele me ama, Rosália! E vai terminar com outra. O Robério prometeu que vai se casar comigo.

A empregada arregalou os olhos, e entreabriu o boca, demorou um pouco para compreender o que acabara de ouvir, com a mão sobre o peito, retrucou com voz alterada.

— Casar? Você enlouqueceu? Esse rapaz é um coitado. Você merece coisa melhor! Cecília! Cecília maneou a cabeça e fungou antes de rebater.

— Eu o amo, Rosália! E não me importo com as condições sociais dele. Eu não preciso de um homem rico, eu preciso de um homem que me ame.

— A Eulália não vai permitir que ele se case com você. Não mesmo! — Garantiu com firmeza na voz.

— E você está torcendo por isso, não é? Ele me ama Rosália, e nada e nem ninguém vai nos separar. — Retrucou de olhos meios cerrados.

— Cecília. Você tem essa fazenda para tomar conta, tem projetos a realizar. Não pode se envolver com um rapaz que nem se sustenta sozinho. Todos sabem que o Robério vive às custas do pai, e que não gosta de trabalhar! Se eu fosse você, eu conheceria outros rapazes, tem muito fazendeiro rico por aqui.

— Ai Rosália! Por favor... — Ela pegou o chapéu dependurado na parede, e colocou sobre a cabeça, antes de sair da cozinha, falou. — Eu vou casar com o Robério e vou ser muito feliz. Conforme-se!

A empregada cruzou os braços sobre os peitos, e da porta dos fundos, ficou da olhando a moça caminhar em direção a derrubada, desanimada maneou a cabeça, Venâncio tinha razão, ela era obstinada.

O namoro seguiu em “segredo.” Os beijos furtivos eram um ensaio para o que acontecia a noite. Deitada no quarto ao lado, Rosália ouvia quando Robério batia na janela de Cecília, ela olhava para o marido, maneava a cabeça e soltava um resmungo.

Os enamorados, depois que faziam amor, descansavam a luz do luar. Então ele pedia que ela recitasse um poema. Amava ouvi-la, tinha verdadeira adoração pelas palavras que saíam de sua boca, as vezes, ele não conhecia o significado de vocábulos complexos ou arcaicos. Contentava-se porém, em sorver o manancial derramado em forma de versos.

Os dias passavam como um vento furioso, e com ele trazia a fugaz alegria das paixões arrebatadoras, que não dá aos apaixonados o direito de serem racionais.

— Nunca vi gente para comer tanto! — Comentou Cecília ao ver Rosália enchendo as marmitas dos trabalhadores. Antes de responder, a cozinheira colocou um pouco mais de feijão nas marmitas.

— O serviço é pesado, e isso aumenta a fome!

— Eu tenho que ir novamente a cidade, para comprar mais mantimentos! Rosália balançou a cabeça concordando.

— Fale com o Venâncio para ir com você.

— Não... Eu vou com o Robério. Ele tem mais força pra carregar as caixas de mantimentos. — Argumentou despreocupada.

— O Venâncio aguenta peso, Cecília! É melhor ele ir com você!

— Que foi Rosália? Você está com medo da outra nos ver juntos? — Cecília fez uma pausa, e cerrou um pouco os olhos. — Até que seria bom se ela nos visse juntos, assim ele poria um fim nesse... Nesse negócio que ele teve com ela.

— Duvido que ele termine o namoro com ela. O Robério morre de medo da Eulália!

— O Robério já é um homem, com mais de vinte anos, Rosália. A mãe dele tem que entender. Eu hem! — Alardeou torcendo os lábios.

Depois dessa compra, foi feito um cronograma, a cada trinta dias, iriam a cidade para renovar o estoque de mantimentos, e manter a despensa cheia. Nesse ínterim, Venâncio a aconselhou a vender a madeira da derrubada para fazer dinheiro. Nesta época Rolim de Moura era conhecida, como a capital da madeira, tinha muitas serrarias e caminhões de toras rodando pelas estradas. Com o dinheiro da venda da madeira, comprava-se os mantimentos e pagava os peões, menos Robério, que recusava a receber o salário, por mais que Cecília insistisse, ele dizia que não. Então, para a dissuadi-la, pedia que ela lhe recitasse um poema. Ele não se cansava de ouvi-la dizendo que o amor é fogo que arde...

Entrementes, começou um zum, zum, zum, um disse me disse. Todos falavam do mesmo assunto, tanto nas rodadas de bebida, ou entre os vizinhos de perto ou os mais de longe; a conversa era uma só. Cecília e Robério estavam tendo um caso.

Não demorou muito, Eulália ficou sabendo o que o filho estava fazendo. Uma vizinha meio ociosa e fofoqueira, veio lhe contar. Ao descobrir o que todos já sabiam, a mulher ficou pálida, sentou-se na cadeira, e colocou a mão sobre o peito.

— Quem foi que contou essa mentira pra senhora dona Cida? — Perguntou Eulália com voz trêmula.

— Não é mentira não! — Retrucou a mulher antes de puxar uma cadeira e sentar-se. — Viram o Robério pulando à janela dela! E viram os dois no meio do mato! — A mulher torceu os lábios e fez uma careta, aumentando ainda mais as rugas no rosto magro e branco. — Uma pouca-vergonha. Resmungou a denunciante.

— Quem viu o Robério pulando à janela daquela moça? — Quis saber a mãe do rapaz.

— Quem me contou é uma pessoa que não mente! Só que eu não posso dizer quem foi, pois ela me pediu segredo. — Respondeu passando ligeiramente a mão pelo cabelo ralo, amarrado em um fino rabo de cavalo.

— Ai meu Deus! Isso não pode estar acontecendo! — Angustiada Eulália coçou a cabeça. — A Joana não pode saber dessa história!

A mulher revirou os olhos, depois fingiu-se preocupada.

— Olha só, Eulália, eu não vou contar! Mas acho difícil ela não saber! O jeito que esse povo daqui é fofoqueiro! Redarguiu.

— Meu filho enlouqueceu dona Cida! Qual o futuro dele com essa moça?

— Infelizmente, nenhum! Logo essa moça se cansa desse lugar, vende a fazenda e volta pra São Paulo. Aí o Robério fica sem ela e sem a Joana.

Eulália juntou as mãos e colocou-as sobre o peito, estava muito preocupada.

— É verdade! Ele corre esse risco! O que eu faço, meu Deus?

— O pior é se ele resolver ir embora com ela! — A vizinha cobriu a boca com uma das mãos — Melhor nem pensar nisso! — Coaxou por entre os dedos.

Eulália colocou as duas mãos sobre a mesa, e com voz firme falou.

— Eu não vou deixar que isso aconteça, dona Cida! Meu filho é noivo da Joana! E é com ela que ele vai casar!

Depois que dona Cida foi embora, Eulália passou algum tempo imaginando o que falar para o filho, o que fazer para pôr fim aquela sandice. Decidiu preparar um bolo de leite, pois era o que o filho mais gostava.

Para sua surpresa, ele nem notou a guloseima sobre a mesa, chegou apressado, entrou no quarto e saiu com uma toalha no pescoço.

— Eu fiz bolo de leite, filho. — Ela falou antes que ele saísse porta afora.

O rapaz virou-se rapidamente, passou a mão pelo cabelo e meio inseguro, falou.

— Ah, sim mãe, depois eu como, agora... Eu vou tomar banho.

— Você nunca dispensou meu bolo de leite. O que está acontecendo?

— Nada... Por quê? — Ele deu de ombros.

A mãe deu dois passos em direção ao filho e o olhou fixamente.

— Não minta pra mim, Robério. É inútil!

— Eu não estou mentindo...

A mãe cerrou um pouco os olhos, tinha que manter a firmeza na voz.

— Eu já sei de tudo, Robério!

Os lábios dele tremularam antes de falar.

— De tudo... O quê?

— Não se faça de inocente! E não se esqueça que Joana é sua noiva!

— Mãe... Eu... Eu... Não sei do que a senhora está falando.

— A Joana não merece isso que você está fazendo com ela!

O rapaz engoliu em seco, entendeu que a mãe já sabia o que estava acontecendo entre ele e Cecília, decidiu tomar coragem e falar a verdade.

— Mãe... Eu... Eu deixei de gostar da Joana... Eu... Eu me apaixonei pela... Pela Cecília.

Eulália ficou alguns segundos emudecida, depois iniciou falando baixinho.

— Eu não estou ouvindo isso... Eu não estou ouvindo isso... Eu não estou ouvindo isso... EU NÃO ESTOU OUVINDO ISSO!!! — Gritou por fim.

— Mãe, mãe. Entenda, por favor...

— Entender o quê? A mãe levantou as duas mãos para o alto. — Que você está jogando sua vida fora por uma loucura? Sinto muito meu filho, eu não posso entender, e muito menos concordar!

— Eu amo da Cecília mãe! Quer a senhora queira ou não!

— Essa moça te enfeitiçou! Ela está usando você... É isso. Ela Quer você pra se divertir, pra passar um tempo...

— Não mãe! A Cecília é uma mulher honrada! Ela jamais me usaria para se divertir. Agora chega dessa conversa. Eu vou tomar banho!

Robério deixou a mãe na cozinha reclamando, e foi para a represa. Enquanto seguia pela estreita trilha pensava no que acabara de acontecer, a mão já sabia de tudo, possivelmente os vizinhos também. Nervoso, resmungou algo indecifrável, talvez um palavrão. No fundo, ele sabia que tinha que ser corajoso e enfrentar a situação, e principalmente proteger Cecília das línguas maldosas.

— Casa comigo Robério! Vamos encher esta terra de gado e de crianças. — Ela pediu naquela noite.

Ele a aconchegou em seus braços e prometeu-lhe.

— Sim meu amor. Eu vou me casar com você.

— Vamos ser ricos, Robério! Vamos ter tanto gado que não poderemos contar. Vamos fazer nossa casa naquele morro, aquele que você me levou. Você lembra?

— Claro que me lembro. Como poderia esquecer?

— Vamos fazer uma casa grande. Uma casa com muitos quartos, suítes. Eu quero um closet de artista!

— Primeiro vamos nos casar, depois pensamos em construir a casa. Na próxima semana, nós vamos a cidade e selamos nossas vidas.

Ela o acariciou nos cabelos, adorava enfiar os dedos por entres os cachos negros.

— Eu nem acredito que serei a senhora Ferrazzo! É um sonho! — Ela celebrou.

— Eu farei de você, a mulher mais feliz desse mundo, Cecília.

— Você já faz meu amor.