Cecília

16 Joana acata o conselho de Eulália


O dia Amanheceu nublado, triste. No sítio dos Ferrazzo, dona Eulália levantou-se muito cedo, e foi para a cozinha, apressada preparou o café e depois foi ao banheiro tomar um banho. Sim, na casa dos Ferrazzo tinha banheiro interno, geralmente só Eulália o usava, os dois homens preferiam a represa para se lavarem. O banheiro não era luxuoso, tinha um chuveiro decente, uma pia branca e um vaso com tampa amarela. Mas para quem morava no meio do mato, ter um banheiro interno, significava possuir um certo luxo.

Assim que terminou o banho, Eulália enrolou-se em uma toalha ricamente bordada nas barras, e voltou para o quarto. Sem emitir uma palavra, foi até o guarda-roupas, pegou um vestido apresentável, tirou a toalha, e vestiu-o, depois pegou um pente sobre a cômoda, e começou a pentear o cabelo. Ainda deitado, o marido estranhou vê-la se arrumando, recostou-se se cabeceira da cama, e curioso perguntou.

— Você vai sair, Eulália?

Ela revirou os olhos e respondeu sem o olhar.

— Eu vou a Rolim de Moura. Tenho que resolver um assunto.

— Que assunto? — Perguntou o marido coçando a barba.

― Nada homem! É assunto de mulher!

Genaro se levantou e encostou-se na cômoda, maneou a cabeça e franziu a testa.

― Eu sou seu marido, Eulália! E quero saber o que você vai fazer na cidade!

A mulher torceu os lábios e mais uma vez revirou os olhos, parecia irritada com tudo, principalmente com as perguntas do marido.

— E então? Eu estou esperando, Eulália!

Ela suspirou antes de responder.

― Você é inocente demais Genaro, o mal está a nossa porta, e você não vê! Ou “finge” que não vê!

— Do que você está falando?

— Pelo amor de Deus, Genaro! — Retrucou a mulher com voz alterada. — Abre os olhos! Seu filho está namorando aquela moça. A que herdou as terras. Imagina se a Joana descobre! Não quero nem pensar nessa hipótese!

— O Robério e a Cecília estão namorando? — Indagou Genaro franzindo o cenho.

— É Genaro! Infelizmente o que eu temia aconteceu! — Disse Eulália levantando as sobrancelhas.

Imaginando as intenções da esposa, o marido tentou persuadi-la.

— Mas e se ele gostar dessa moça, Eulália. Seria uma injustiça, separá-los.

— Injustiça? — Gritou Eulália fazendo uma careta. — Eu não acredito no que eu estou ouvindo! — Ela maneou a cabeça, agora estava mais irritada. — Você não sabe o que está falando, se o namoro com a Joana desandar, teremos que vender o sítio pra pagar o pai dela! Esqueceu que devemos ao senhor Raimundo?

O marido baixou a cabeça, e torceu os lábios, agora estava preocupado.

— Onde o Robério está?

— Ai meu Deus! Onde ele estaria? — Redarguiu levantando os dois braços para o alto.

— Eulália, eu sei que você se preocupa com a dívida.... Mas nosso filho não tem culpa se estamos devendo o pai da Joana. Ele tem o direito de escolher com quem quer ficar, então eu acho...

— Você não acha nada, Genaro! Entendeu? — Rebateu a mulher de olhos semicerrados, e com voz veemente. — Eu vou fazer o que tem que ser feito! A vida não é só amor. Às vezes, em prol de um bem coletivo, temos que sacrificar certos sentimentos. O Robério vai entender.

Ante a intimidação da esposa, Genaro baixou a cabeça e saiu do quarto, sentiu-se diminuído, fraco, e triste também. Eulália tinha o gênio forte e na maioria das vezes o vencia. Com perspicácia, conseguia elaborar frases que o deixavam sem um contra-argumento.

Ao ver o marido rendido, Eulália terminou de pentear o cabelo, fez um bonito coque no alto da cabeça e passou um pouco de pó no rosto. Ainda era nova, tinha uma pele viçosa, e sem manchas. Algumas poucas expressões começavam a surgir próximo aos olhos, principalmente quando sorria, e uma rusga mais profunda entre os dois olhos, talvez por estar sempre irritada com alguma coisa. Após olhar-se no espelho mais uma vez, foi até a pequena sapateira e pegou um sapato marrom. Sentou-se na cama e calçou-os.

“Preciso comprar um par de sapatos novos” pensou olhando para os pés.

Logo que chegou ao ponto de ônibus, sentou-se no banco e esperou. Quando finalmente o coletivo parou, fez-se uma nuvem de poeira. Eulália cobriu o nariz com a mão e correu para a entrada. Subiu os dois degraus e sentou-se na primeira poltrona vazia. Estava concentrada no que teria que fazer, os passos teriam que ser meticulosamente calculados, não poderia vacilar, uma palavra errada, e tudo iria por água abaixo.

Quando chegou a Rolim de Moura, desceu do ônibus e parou em uma sorveteria, enquanto o alimento gelado descia por sua garganta, ela pensava na conversa que teria com a futura nora.

“Eu vou te convencer Joana. E esse nó será desfeito” Pensou com olhar distante.

Ainda pensativa, ela levantou-se da cadeira, foi até o balcão e pagou o sorvete que acabara de comer. Depois seguiu pela Avenida Norte Sul. Seu destino era a Rua São Paulo, casa Número 55.

Trinta minutos depois, ela parou frente a uma casa verde, com grandes janelas frontais e um pequeno jardim. Antes de bater palmas, fechou momentaneamente os olhos e respirou fundo.

— Dona Eulália? — A moça parada na porta, franziu atesta. Passou alguns minutos estática, só quando Eulália lhe acenou sorrindo, ela desceu o degrau e caminhou até o portão para abri-lo.

— Bom dia, Joana. — Saudou a visitante.

— Dona Eulália? O que a trouxe aqui?

— Eu passei pelo armazém, estranhei não vê-la lá. — Disse Eulália sem responder a pergunta feita pela interlocutora.

— Ah, sim! Eu tive um probleminha com meu pai. Ele ordenou que eu não colocasse mais os meus pés no armazém.

Eulália pôs a mão no queixo, e com voz curiosa perguntou.

— Por quê?

— Vamos entrar dona Eulália. Eu lhe conto o que está acontecendo. É vergonhoso... Não sei se a senhora vai me perdoar.

― Vergonhoso?

— Venha. Acompanhe-me. — Convidou Joana mais uma vez. — Lá dentro eu conto tudo pra senhora.

— É tão grave assim? — Argumentou Eulália a seguindo.

— Sim dona Eulália. É uma situação bem complicada.

Logo que entraram na sala, Joana apontou o sofá para que a visitante sentasse, em seguida sentou-se também, ficaram ambas em silêncio, Eulália olhava admirada para os detalhes do tapete e as belas almofadas bordadas.

— Acho tão bonita essa mesinha de centro... E as cortinas? Onde sua mãe comprou? — Perguntou aparentando descontração.

— Em Cacoal. A mesinha de centro ela comprou aqui mesmo.

Respondeu a moça sem muito interesse. Eulália esticou o pescoço para frente, fez isso para ficar mais próxima de Joana.

— Bom... Mas o que você tinha para me contar? — Perguntou-lhe.

A moça ensaiou um riso, parecia nervosa.

— A senhora quer um copo de água? — Perguntou num riso forçado.

A pergunta feita de sobressalto, instigou Eulália, que percebeu a dificuldade de Joana em contar o que estava acontecendo. Chegou mais perto da moça e com voz doce, falou.

— Obrigada minha filha. Depois eu bebo a água. Agora eu prefiro que você me conte o que está acontecendo.

— Eu... Eu estou grávida dona Eulália! O Robério me engravidou! — Confessou com voz relutante.

A visitante arregalou os olhos, e recostou-se no encosto do sofá.

— Grávida? — Perguntou entre um riso e um espanto.

— Sim. Eu estou grávida. Isso é horrível, não é?

— Não, não. Não é horrível. É maravilhoso! — Jubilou emocionada.

— Maravilhoso? A senhora sabe o que está falando? Eu estou grávida dona Eulália! E meu pai disse que vai matar o Robério!

— Mata nada! Isso é raiva passageira. Quando ele ver o neto, a mágoa passa.

— A senhora pode estar certa, só que há outro problema.

— Outro problema?

— Eu não sei o que está acontecendo com o Robério. Há um bom tempo que ele não vem me visitar. A senhora pode me dizer se ele está bem? Eulália pôs a mão no queixo, e franziu a testa, depois levantou o dedo indicador apontando para o alto.

—Tem alguém aqui com você, Joana? — Perguntou sem responder o questionamento a respeito do filho.

— Não.

A visitante recostou-se no sofá, suspirou antes de falar.

― Realmente sua situação é difícil. Você está grávida e seu pai está com raiva. Tisc, tisc. — Fez ela maneando a cabeça.

— Ainda há pouco a senhora disse que era maravilhoso, agora diz que é difícil? Eu não entendo.

— É maravilhoso e difícil. É simples e complicado. Tudo depende da maneira que encaramos ou como decidimos o que fazer. E você deve escolher o melhor para o seu filho. — Aconselhou-a.

— Continuo sem entender.

Em resposta a dúvida, Eulália fez-lhe um pedido, inesperado.

― Se não for muito incômodo, agora eu quero aquele copo de água.

Joana coçou a cabeça, levantou-se e dirigiu-se para cozinha. Enquanto isso, Eulália riu satisfeita. Tudo estava saindo melhor do que planejara.

Quando voltou com a água, Joana encontrou Eulália em pé frente a mesinha de centro, após beber a água devolveu-lhe o copo, colocou a mão no queixo, encarou a moça demoradamente, para depois falar.

— Sabe o que eu estive pensando... Você é uma moça de sorte. O Robério te ama e ficará feliz em saber que será pai.

— A senhora acha?

— Eu tenho certeza. — Ela riu confiante. — E penso que você deveria ir comigo.

Joana afastou-se um pouco. A proposta inesperada a deixou momentaneamente confusa.

— Ir com a senhora? Ass... Assim? Sem... Sem planejar?

— Você não planejou esse filho, e ele está aí na sua barriga. Há coisas e situações que não planejamos, elas acontecem, Joana. E o que temos que fazer é tomar as decisões mais coerentes; e nesse momento, você devia pensar no seu filho.

— Mas é loucura ir com a senhora! Ainda mais sem o Robério saber!

— Loucura é esperar a barriga crescer e ficar falada na cidade! Não duvide, Joana, o Robério vai assumir o filho.

— Eu não sei... Eu... Tenho medo de...

Eulália se aproximou e segurou-lhe a mão.

— Eu vou estar ao seu lado, Joana. Meu filho vai assumir o que fez. Eu prometo.

Diante dessa afirmativa, Joana riu satisfeita, não havia muito o que pensar ou o que discutir, a sogra tinha razão; e a proposta feita, não podia ser recusada.

Em pouco menos de meia hora, as duas deixaram a casa, visto que o ônibus só sairia depois do almoço, elas foram para o centro da cidade, pois Eulália precisava comprar linha para bordar.

Como um prenúncio de um futuro terrível, a viagem foi desastrosa, o ônibus quebrou e ambas tiveram que dormir em uma fazenda à beira da estrada. Somente pela manhã, seguiriam para o sítio.

Na Estrela Dalva, Robério acordou ao lado da mulher amada, era a primeira vez que passavam a noite juntos, apoiado em um dos cotovelos, ele a viu tão linda escondida entre os lençóis, a cabeleira desalinhada caía sobre o rosto, camuflando as poucas sardas sobre a pele branca. Num gesto meigo e carinhoso, ele abaixou a cabeça e a beijou na testa.

— Você dormiu comigo, meu amor? — Ela perguntou abrindo os olhos preguiçosamente.

Ele deitou-se novamente e a puxou para si.

— De hoje em diante vamos passar todas as noites assim, Juntos, abraçadinhos.

— Vamos ser felizes Robério! Eu sinto. Você também sente? — Perguntou aninhada a ele; que com um gesto de cabeça, respondeu afirmativamente.

Naquela manhã, os dois se amaram tão intensamente que o universo prolongou os minutos do gozo quase eterno que os envolveu, os lábios se encontravam harmonicamente e os corpos se moldavam com tanta lenidade que mais parecia uma dança clássica. Ouvia-se apenas sussurros, gemidos e “eu te amo.”

Um tempo depois, eles saíram do quarto e foram para cozinha tomar café. Rosália ao ver a expressão de satisfação em seus rostos, torceu os lábios. “Isso não vai acabar bem!” Pensou a cozinheira enquanto lhes servia o desjejum.

Enquanto tomavam café, beijavam-se e faziam carinhos um no outro. Vez em quando, Rosália os olhava de soslaio, sem no entanto, esconder, o quanto estava descontente.

— Eu vou terminar de tomar o café, e depois vou lá no sítio buscar minhas coisas. — Anunciou Robério após comer mais uma fatia de pão. — Cecília e riu satisfeita; virou-se para ele, e o beijou mais uma vez.

— Vai meu amor, e por favor, não demore. — Ela pediu com voz dengosa.

— Eu volto em menos de meia hora, é só o tempo de arrumar minhas roupas. — Disse antes de levantar da cadeira.

Quando o rapaz saiu porta afora, Rosália veio até a mesa, estava intrigada com o que acabara de ouvir, perguntou.

— O Robério vai morar aqui?

— Sim, Rosália. O Robério vai morar aqui. — A moça respondeu em meio a um riso leve.

A cozinheira veio para mais perto, não estava surpresa somente com a resposta da patroa, como também com a veemente afirmativa. Como uma tentativa de reverter a situação, argumentou.

— Cecília; o que eu tenho que fazer pra você entender que esse rapaz é comprometido! E que isso não tem como dar certo!

A moça revirou os olhos e levantou as duas mãos para o alto, para então contra argumentar.

— Rosália; o que eu tenho que fazer pra você entender que o compromisso desse rapaz é comigo? — Ela fez uma pausa, já estava indignada com o comentário repetitivo. — Meu Deus! Para com isso, Rosália! — Ela bufou antes de prosseguir. — Quando o Robério voltar, diga-lhe que já fui pra derrubada, e que o espero lá. E, por favor, arrume as coisas dele no meu guarda-roupas.

— Está certo, Cecília.

— Rosália? Cadê o Venâncio? — Perguntou antes de sair.

— Ele foi ao bar do senhor Antônio, disse que ia beber um trago, não deve demorar.

— Quando ele chegar, diga-lhe para amolar aquelas foices. — Ela apontou para as três ferramentas encostada a parede. — Estão muito cegas, o Robério reclamou.

A cozinheira balançou a cabeça concordando, no fundo estava preocupada com os acontecimentos atuais. Pensativa, arregalou um pouco os olhos. Que papel Robério teria na fazenda?

“Será que aquele baldoso vai ser meu patrão?” Pensou consigo mesma.

“Deus me livre!” Refutou imediatamente o pensamento.

Enquanto isso, Robério caminhava em direção ao sítio dos pais, uma felicidade imensurável transbordava dentro de si, ele riu lembrando do amor que fizeram pela manhã e apressou os passos.

Na estrada, encontrou-se com o velho Gil, o mesmo bebum que certa vez, Cecília vira dormindo a beira da estrada, o homem sujo e maltrapilho, cantava uma música não muito ouvida naquela região. Uma canção que dizia:

“Vem vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer...”

Ao ver Robério, parou de cantar, e sorriu-lhe. Apesar do caos mental, em sua cabeça, de alguma forma, o bêbado compreendeu a expressão de felicidade do rapaz, e congratulou-se com ele. Antes de seguir para casa, Robério acenou para o homem e o deixou parado em meio ao caminho; o ébrio balbuciou algumas palavras desconexas, cambaleou e caiu em meio ao capim da beira da estrada, e ali ficou.

Feliz com as possibilidades que lhe sobrevinham, os olhos e o rosto do rapaz refletiam o seu interior. O sorriso iluminava-o por completo, no entanto, o fulgor morreu quando ele adentrou a sala.

Neste capítulo tem um trecho de uma música do cantor Geraldo Vandré.

Pra não dizer que não falei das flores

Música linda! Um poema maravilhoso.

Foice: ferramenta usada no âmbito rural.