Cecília
14 A primeira vez
Eulália fechou momentaneamente os olhos, antes de falar, colocou as palmas das mãos sobre a mesa. Estava de fato preocupada com o filho, e achou por bem, alerta-lo do perigo que corria.
— Você acha correto ter levado essa moça? Acha certo ter ido sozinho com ela até a cidade? — A mãe o indagou. Robério fez-se triste, olhou de soslaio para a mãe, e argumentou.
— A Cecília precisava de ajuda, mãe. Ela quer tocar a fazenda, mas não tem nenhuma experiência. Eu fiquei com pena. — Ele levantou os olhos e fungou. — Coitadinha, mãe. A moça acabou de perder o pai.
Eulália levantou-se da cadeira, e veio até o filho, que mantinha a expressão tristonha. Ela mordeu o lábio inferior, não queria ser dura, inflexível, sentiu, no entanto que o mal tinha que ser cortado pela raiz.
― Nós não temos nada com isso, Robério! Eu sei que essa moça pode estar sofrendo. — Ela fez uma pausa e moderou o tom da voz. — Mas entenda uma coisa meu filho. Moças decentes não andam sozinhas com um rapaz que mal conhecem. — Ele engoliu em seco e reagiu.
― Mãe! A senhora está enganada, a Cecília é uma moça muito séria, e muito boa também. — Por um momento pensou se devia ou não falar sobre o novo emprego. Não gostava de desobedecer a mãe, sempre ouvia seus conselhos e procurava segui-los. Sabia entretanto, que há situações, que são traçadas pelo destino, e não tem como esquivar-se delas. Inseguro, ele estalou o dedo médio. Só então, deu a notícia.
— Ela me ofereceu trabalho... E eu aceitei, mãe.
Eulália maneou a cabeça, não podia crer no que ouvira, talvez fosse essa, a pior notícia de sua vida. Pressentindo uma desgraça, cobriu a boca com ambas as mãos. desde que vira Cecília, sentiu que algo muito ruim aconteceria, em seu íntimo criou uma espécie de bloqueio para com a nova vizinha.
— Eu ouvi direito, meu filho? Você vai trabalhar com aquela moça?
— Sim, mãe. É isso mesmo. — Ele umedeceu os lábios, estava um pouco nervoso, sentiu, porém, que podia virar o jogo a seu favor. Levantou os olhos para Eulália e muito convincente falou. — Mas convenhamos que é uma ótima oportunidade para eu ganhar um bom dinheiro, e apressar meu casamento com a Joana.
A mulher retirou a mão da boca e entreabriu os lábios. Ela não tinha visto a situação por este ângulo, e lhe pareceu uma ideia bastante sensata.
— É... Você tem razão, filho. — Agora tinha uma das mãos sobre o peito. Antes de falar, riu demonstrando tranquilidade. — Me perdoe, meu filho. Sou uma boba. Fiquei pensando bobagens a seu respeito, e você preocupado em ganhar dinheiro pra casar. — Ele também riu, só que forçado. E para que não houvesse desconfianças, seguiu com a ideia.
— Vai dar tudo certo, mãe. Não tem com que se preocupar, eu trabalho pra Cecília, junto algum dinheiro e me caso com a Joana. — Prometeu com voz segura. Em seu íntimo no entanto, os sentimentos diziam o contrário.
Enquanto isso, na Estrela Dalva, o primeiro empecilho surgiu. Atônita, Rosália lia compassadamente as etiquetas nos vidros, e não acreditava no que lia e via.
— Cre-me pa-ra ca-be-lo, cre-me hi-dra-tan-te pa-ra o cor-po, pro-te-tor so-lar fa-tor 60... Ela jogou os vidros na caixa e maneou a cabeça; com voz intrigada, perguntou. — Cadê as compras que você fez para casa, Cecília?
— Estão naquela caixa, Rosália. — Ela apontou para uma pequena caixa próximo a mesa.
Rosália foi até a caixa e abriu-a. A expressão no rosto agora estava desconsolada. Ela fechou os olhos momentaneamente e em seguida alardeou.
— Só isso? Você comprou só isso? — Repetiu com voz alterada.
— Rosália... Você não me disse o quanto eu teria que comprar... Eu não sabia.
— É verdade, Rosália. Você não disse a ela a quantidade. — Interviu Venâncio. A esposa o olhou furiosa, e com ironia na voz retrucou.
— Está certo! Agora eu vou dar creme e shampoo pra esses homens comerem. Cecília aproximou-se da empregada, com voz doce a acalmou.
— Não fique com raiva, Rosália, amanhã eu vou a cidade e faço as compras, o Venâncio vai comigo, assim não há como errar.
— Só que teremos que ir de ônibus, visto que o Genaro só vai a cidade uma vez por semana.
— Não tem problema, Venâncio. Nós vamos de ônibus.
— Desculpa, Cecília. Eu fiquei nervosa. — Disse a cozinheira reconhecendo que fora áspera.
— Tudo bem, Rosália. Eu só quero que se lembrem, que eu ainda não estou acostumada com essa nova situação, vocês terão que me ajudar a adaptar.
— Ai meu Deus! Me perdoe, Cecília! Você é a patroa, eu não tenho o direito de lhe falar como falei. — Ela segurou a mão da cozinheira, não queria que houvesse divisões hierárquicas entre eles.
— Não, não, não, Rosália! Vocês não são meus empregados, são meus amigos. Amigos são melhores que empregados, não é Venâncio?
— Claro que sim, Cecília. Seremos mais que seus empregados, seremos seus amigos.
Riram-se juntos, de fato ela os via como pessoas muito próximas, mesmo que não demonstrara, desde que vira Rosália pela primeira vez, sentiu uma empatia imediata.
Assim que os deixou sozinhos, Venâncio falou com a mulher.
— Seja paciente, Rosália. A menina é muito nova, e precisa dos nossos conselhos. — Ele fez um hiato rápido, levantou um pouco o pescoço expressou o que sentia a respeito da jovem patroa. — É, ela é nova. Sinto no entanto, que tem garra e obstinação.
— Eu sei que tenho que ter paciência, sei também que ela tem pouco mais de vinte anos... Quanto a obstinação, eu concordo plenamente, e confesso que tenho um pouco de medo.
— No caso dela, isso é uma virtude, Rosália. — Ponderou o homem.
Na manhã seguinte, Cecília e Venâncio foram para a cidade, os trabalhadores começaram a derrubada, Robério quando chegou, estranhou não ver Cecília. Rosália ao vê-lo parado em frente a porta, não entendeu o que o vizinho fazia ali. Quando ele explicou que era pelo trabalho, ela entendeu menos ainda. Duvidosa, perguntou.
— Você vai trabalhar com a Cecília? Ela não me disse nada!
— Combinamos ontem à tarde, talvez ela tenha esquecido de lhe contar.
— Os homens já foram. Disseram que vão iniciar a derrubada pelo lado esquerdo, lá perto da serra baixa. Você sabe onde é?
— É claro que sei, Rosália. Eu conheço essa fazenda como a palma da minha mão. — Ele fez uma pausa, coçou a cabeça antes de perguntar. — O que a Cecília foi fazer na cidade?
Rosália franziu a testa. “O que esse baldoso pensa que é?” Pensou consigo mesma.
— Eu não sei Robério. Ela não me disse nada, assim como não me disse que você viria trabalhar.
O rapaz ao ouvir a resposta áspera, levantou as sobrancelhas e rapidamente saiu rumo a mata, percebera que Rosália não gostou de tê-lo visto.
A tardinha, quando chegou da cidade, Cecília estava cansada e empoeirada, Sua fisionomia entretanto, expressava alegria, comprara tudo que Rosália pedira, além da botina que comprara para si, trouxe um sabonete para Rosália, pois queria lhe fazer um agrado.
— Não precisava, Cecília. — Disse a cozinheira sentindo o cheiro de lavanda em suas narinas.
— É claro que precisava. Você tem que ficar cheirosa para o Venâncio. — Respondeu num tom brincalhão. Rosália esperou um pouco para depois comentar.
— Eu não sabia que você tinha contratado o Robério para trabalhar na derrubada.
— É... Eu... Eu Preciso de alguém de confiança. — Respondeu com voz entrecortada. A empregada franziu a testa e reclamou.
— O Venâncio é de confiança!
— Rosália! O Venâncio não tem idade pra derrubar mato e monitorar os trabalhadores. E além do mais, esse sol faz mal pra ele. Prefiro que vocês façam o trabalho caseiro, que é menos pesado.
Apesar da fala convincente, a cozinheira continuou cismada, decidiu entretanto, não questionar mais a patroa. Sentia porém, que os reais motivos da contratação não foram revelados.
Seguiram-se dias de muito trabalho, e pouco descanso. Por vezes, Cecília filmava os homens trabalhando. O som das árvores caindo, soava como uma melodia aos seus ouvidos. Ela e Robério tornaram-se muito amigos, tão amigos que ela pedia que ele a filmasse.
Completamente envolvido, ele a captava em vários momentos, ora sentada ao pé de uma árvore, ora andando pelo descampado, ora entregando as marmitas aos trabalhadores...
— Por que você está filmando a derrubada? — Ele indagou certa manhã.
— É para guardar para posteridade, Robério! É importante manter a história viva!
— Guardar pra quem? — Ele perguntou franzindo a testa, pois não conhecia o significado da palavra, posteridade.
— Vou guardar para o futuro, Robério, daqui há alguns anos, quando esta fazenda estiver cheia de gado, vamos nos lembrar de como começamos.
— De como começamos? — Reagiu o rapaz com voz baixa. Ela entreabriu os lábios, percebera que o que acabara de falar era muito significativo, não podia retroceder, aquela era a hora de expor o que sentia. Antes de falar, umedeceu o lábio inferior.
— Robério... Vamos ali, atrás daquela árvore... Eu quero conversar com você.
Ele a seguiu por entre as árvores derrubadas, até chegarem a uma grossa e alta castanheira, ofegante, ela encostou-se junto ao tronco, ele permaneceu a certa distância, estava eufórico, pois sabia porque o trouxera ali, apesar da certeza, não ousou tocá-la.
— Então... O que tem para me dizer, Cecília?
— Eu queria te pedir para... para...
Ele se aproximou, os corpos quase se tocando, ela respirava com dificuldade, ele segurando-se para não beijá-la.
— O que você quer pedir. Cecília? — Perguntou com os lábios muito próximos aos dela.
— Há necessidade que eu fale, Robério?
— Não, não há. — Respondeu a envolvendo em seus braços e beijando-a apaixonadamente. Ele a puxou para mais perto, sentiu o calor do corpo feminino vibrando, o coração dele acelerou e o desejo cresceu. Ele a tinha em seus braços. Ela era quente e tinha pele muito macia. Envolveram-se em um sôfrego e ardente beijo, ambos se desejando, se tocando, não havia necessidade de palavras, seus corpos falavam por si. Por fim, ofegante, ela afastou os lábios e falou ao seu ouvido.
— Hoje à noite, eu vou deixar minha janela aberta.
— Cecília... — Ele a puxou para si, e a beijou novamente.
A tarde, após o dia cansativo, Robério foi para casa. O convite o deixou apreensivo. A mãe não podia nem imaginar o estava por acontecer. Quando foi tomar banho, gastou mais tempo que o habitual, conseguiu com isso, camuflar a ansiedade aparente. Ao sair do quarto, e passar pela sala, a mãe estava sentada no sofá dobrando algumas roupas, ao ver o filho indo em direção a porta, questionou.
— Aonde você vai, Robério? — Ele virou-se para responder, passou a mão pelo cabelo antes de falar.
— Eu vou ao boteco do seu Antônio, jogar uma partida de sinuca.
— Mas você ainda não jantou, filho!
— Estou sem fome, na volta eu janto, mãe.
A fome dele era outra, e tinha pressa em saciá-la, nunca desejou tanto uma mulher, como desejava Cecília, sentia-se preso a ela, e não queria sair dessa prisão. A passos largos caminhou em direção a estrada, logo escureceria e ele estaria junto a ela.
No silencio da noite, ouvia-se somente o barulhos de animais noturnos, na Estrela Dalva a luz foi apagada, e a janela do quarto se abriu. Debruçada no parapeito, Cecília fechou momentaneamente os olhos, sabia que ele viria, tinha certeza disso, o coração estava acelerado, quase aflito. Imaginando que alguém pudesse ouvi-los, ela pulou a janela e o esperou do lado de fora. O coração batia loucamente, as pernas estavam meio trêmulas. Ansiosa, ela se encostou junto a parede para esperar.
Passaram-se alguns minutos e um vulto surgiu na escuridão, era Robério quem se aproximava. Louca de desejo, ela foi ao encontro dele e se envolveu em seus braços. Sem receios, ofereceu-lhe os lábios, para que a beijasse. Quando ele tocou em seus seios, ela gemeu baixinho. Então, ele tomou conta da situação, prendeu-a contra a parede e moldou-se a ela, que preocupada com o barulho, afastou-o.
— Vamos para represa, Robério... Lá é mais seguro! — Disse com voz abafada.
Antes de saírem rumo à represa, beijaram-se novamente, uma paixão desmedida apossou-se dos dois. Ela sentiu a ereção rígida procurando espaço entre suas coxas, teve no entanto, domínio para o afastar e pedir que a seguisse.
O fino vestido de algodão, agitava-se com brisa noturna, ambos estavam sedentos de desejo, e logo que chegaram a represa, beijaram-se novamente.
— Tira meu vestido Robério! — Ela pediu num suplício.
Trêmulo, ele afastou a fina alça do ombro esquerdo, depois a do ombro direito, deixou que o tecido escorregasse mansamente até a grama. A pálida luz da lua iluminava a pele branca. "Deus! Ela é perfeita!" Pensou contemplando a beleza sublime. Embriagado pela cálida nudez em sua frente, ele engoliu a saliva acumulada na boca. Arrancou rapidamente a camisa e a abraçou. Para ela, o mundo deixou de existir, a única coisa que importava era aquele momento. Quando ele a deitou na grama, ela afastou-se um pouco, virou-se, e olhou-o com ternura. Então deixou que sua voz revelasse o que sentia no coração.
— Amo você Robério! Amo como nunca amei ninguém.
— Eu também te amo. Amo-a desde a primeira vez que a vi. Quando você saiu dessas águas e andou pela grama. Eu me apaixonei, Cecília.
Ele se deitou sobre ela, beijou-a avidamente, a calça foi tirada e jogada sobre a grama. Ofegante, ela deixou que ele a tocasse, que invadisse sua intimidade. Queria-o tanto, desejava ser dele. Ele um tanto afoito, abriu-lhe as pernas e rasgou-a penetrando fundo. Ela gemeu alto, a dor da penetração a fez querer fugir dele. Como uma cobra ela deslizou pela grama, e rolou para longe. Percebendo que fora indelicado, ele a buscou e a puxou para si novamente. Beijou-a com doçura e a acariciou por longos minutos, esperou que ela se sentisses segura, só então, prendeu-a na grama com o peso do corpo. Depois, lenta e delicadamente, penetrou-a. Ouviu-se apenas os gemidos e sussurros dos dois, que sem barreiras, entregaram-se mutuamente. Depois do ato, completamente relaxados, eles contemplaram o brilho da lua.
— Por que você não me disse que era virgem, Cecília? Eu fui um animal! — Ele falou ainda deitado.
Ela apoiou-se em um dos cotovelos, o rosto estava bem próximo ao dele. Podia beija-lo, preferiu no entanto, acariciá-lo nos cabelos.
— Não machucou tanto. — Ela garantiu com voz serena.
— Claro que machuquei! Se você tivesse me falado, eu teria sido mais cuidadoso.
— Você não me machucou, Robério. Eu juro. Eu só fiquei um pouco assustada. — Ele a abraçou e a colocou sobre si, deslizou as mãos pelas costas macias, repousando-as nas nádegas firmes e redondas, apertando-as suavemente.
— Me perdoe meu amor, eu prometo que a próxima vez vai ser melhor.
— A próxima vez... Pode ser agora? — Ela sussurrou ao seu ouvido.
Baldoso = variação de manhoso, mimado. Pessoa ou cavalo que não quer trabalhar. Em algumas cidades do interior de Rondônia troca-se o L pelo R e dizem: Bardoso.
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