Cecília
13 Um reencontro inesperado
— Eu entendo, Venâncio... Agora, diga-me uma coisa... Onde vou contratar “peões” para derrubar essa mata?
— Amanhã, o Genaro vai a cidade. Ele é um dos poucos vizinhos, que tem carro. E não vai lhe negar uma carona. Chegando a cidade, você contrata os peões.
— Isso mesmo! E aproveita para fazer a compra do mês. — Interferiu Rosália, que do fogão ouvia a conversa.
— Acho melhor você me acompanhar, Venâncio. Eu não conheço esse vizinho, ir de carona com um estranho, pode ser perigoso.
— O Genaro é de confiança, Cecília. Eu vou pedir a ele para lhe ajudar a encontrar alguns trabalhadores. Ele conhece muita gente.
— Tudo bem, Venâncio. A que horas ele vai pra Rolim de Moura?
— Deve ir bem cedinho, mas não se preocupe, a noitinha, eu vou avisá-lo de que você vai com ele.
— Obrigada, Venâncio.
Na manhã seguinte, Cecília acordou cedo, arrumou-se rapidamente, e foi para cozinha tomar café. Venâncio a aguardava na porta. Depois que fez o desjejum, acompanhou o caseiro até o sítio vizinho. Enquanto seguia pela estrada empoeirada, ela olhou a sua esquerda, diferentemente da Estrela Dalva, ali quase toda mata já havia sido derrubada, restava somente um aglomerado de árvores em um ponto distante.
— De quem é essa fazenda, Venâncio?
— É de um fazendeiro rico, Cecília. O nome dele é Antero. Ele tem outras fazendas por aqui.
— Vou ser tão ou mais rica que ele, Venâncio! — Ela disse num misto de riso.
— Ele já mandou semear o capim, logo o pasto começa a brotar, não demora muito, ele manda trazer as carretas cheias de gado.
Adiante, ela avistou um bar de madeira pintado de azul, alguns homens bebiam sentados em cadeiras de ferro, desgastadas. Andaram mais um pouco e encontraram um homem bêbado caído à beira da estrada, ela balançou a cabeça desdenhando, olhou para Venâncio, que riu da cena.
Um pouco mais, e chegaram a uma casa simples, apesar da simplicidade, era um pouco melhor que o casebre da fazenda.
Um cachorro começou a latir denunciando a chegada dos visitantes, Venâncio pegou um pedaço de pau para espantar o animal, que amedrontado refugiou-se atrás da casa. Como demorassem a atendê-los, o caseiro deixou Cecília esperando, e voltou para Estrela Dalva. Não sem antes convencê-la de que podia ficar tranquila, pois os vizinhos eram amigos confiáveis.
Impaciente, ela decidiu bater palmas para ver se alguém aparecia. Não demorou muito, um senhor alto e magro abriu abriu a porta. Ele tinha uma expressão alegre no rosto, antes de descer o batente e vir saudá-la, acenou-lhe.
— Você deve ser a Cecília, a moça que o Venâncio falou! A filha do seu Alfredo! — Alardeou o homem após se cumprimentarem.
— Sim, sou eu mesma! — Disse num riso tímido. — O Venâncio disse que o senhor vai à cidade... Eu preciso de uma carona.
— Claro, claro! O Venâncio já me explicou.
— Pois é. — Ela levantou as sobrancelhas, momentaneamente. — Eu tenho que contratar uns peões, para iniciar a derrubada. Sei que esta é a época certa, daqui alguns meses começam as chuvas... E então...
— O Venâncio me disse que você veio assumir a fazenda. Isso é verdade? — Perguntou a interrompendo.
― Sim, é verdade. Minha casa agora é na Estrela Dalva.
― Você veio se enfiar nesse mato! — O homem arregalou um pouco os olhos claros. — Isso aqui é só sofrimento, filha. Não sei se você vai suportar.
— Eu suporto senhor... Senhor...? — Ela franziu a testa, pois esquecera o nome do homem.
— Genaro. — Ele disse num meio riso.
— Isso. É que estou um pouco ansiosa... — Ela pôs uma das mãos sobre o peito. — Desculpa, mas o senhor vai demorar a sair? — Perguntou-lhe.
— Ah! Perdoe-me! Eu esqueci de lhe falar. Não sou eu quem vou a cidade. Eu amanheci com uma terrível dor nas costas, e pedi ao meu filho para ir em meu lugar. Ele não deve demorar a chegar, foi até a represa lavar o rosto!
— Oh, sim, seu Genaro! Então eu espero pelo seu filho!
— Quer tomar um café, ou uma água? — O homem ofereceu.
— Não precisa, eu já tomei café antes de sair de casa. Mas obrigada.
— Olha lá! — Disse o sitiante apontando para o rumo da represa. ― O Robério está vindo!
Cecília levantou os olhos, e viu o rapaz que se aproximava. Ele tinha traços fortes, e a pele queimada pelo sol, era alto, esbelto e muito bonito.
Quando a viu, o coração dele deu um salto, no momento em que os olhares se encontraram... As bocas ficaram secas, e as mãos trêmulas. ”Ela voltou!” Pensou sentindo o pulsar cada vez mais forte do coração.
Cecília o olhou sorrindo, uma felicidade estranha envolveu-a totalmente. O que estava acontecendo com ela? Vira aquele rapaz tantas vezes, e nunca sentira nada. Se bem, que só agora percebera o quanto ele era atraente, os olhos claros, o rosto assimétrico, e não usava chapéu, agora os cabelos fartos e cacheados, lhe caiam sobre a fronte, a camisa xadrez moldava-se ao peito largo e forte. Quando suas mãos se tocaram, um sentimento diferente apossou-se de ambos.
— Como vai moça. — Ele disse com voz grave. — Eu sinto muito pela morte do seu pai. Ele era um bom amigo. — Disse enquanto lhe apertava a mão.
— Eu... Eu estou bem... Obrigada. — Ela afastou a mão, estava meio nervosa com o toque, demorou um pouco para falar. A voz saiu relutante, contida — Obrigada pela carona. Já nos vimos tantas vezes... E nunca conversamos. Eu... Eu nem sabia que o seu nome era Robério!
— E o seu é Cecília, não é?
Ele sabia que esse era o nome dela, a pergunta desnecessária foi para continuar com a conversa.
— Sim, esse é meu nome. Eu espero que sejamos amigos, e sempre que você quiser...
Ela emudeceu ao ver uma figura feminina surgir na porta. A mulher a olhou com severidade incontestável. — Nós já podemos ir? Não quero voltar muito tarde. — Ela pediu ansiosa. Queria sair dali, pois a mulher parada na porta, lhe causava aversão.
— Claro! Me acompanhe. O carro está no galpão. — Disse Robério sem perceber a expressão atemorizante no rosto de Cecília.
Enquanto caminhavam em direção a lateral da casa, a mulher os seguiu com o olhar, um arrepio subiu por suas vértebras, ela fez o sinal da cruz e chamou pelo marido, que parado frente à casa, mantinha as costas curvadas.
— Essa moça vai sozinha com o Robério, Genaro?
— E o que tem demais, Eulália? Não podemos negar uma carona a um vizinho. A mulher maneou a cabeça, e torceu os lábios. Não estava feliz com a situação.
— Isso não me agrada, Genaro! Essa moça sozinha com o Robério...
— É só uma carona, Eulália! — Interpelou o marido. — Deixa de pensar besteira! Nosso filho é ajuizado!
— Nosso filho está noivo, Genaro! Se a Joana descobre que ele está andando sozinho com outra moça... Não quero nem pensar!
— Ele não está noivo, Eulália. Para de criar fantasias. E para de pensar que nosso filho é um irresponsável! — Bradou o marido antes de sair e deixar a mulher reclamando sozinha.
Enquanto isso, a caminhonete vermelha lentamente saía do galpão, e em poucos minutos ganhava a estrada.
Por algum tempo, os dois mantiveram silêncio, ele temeroso por falar errado, pois pouco estudara, ela preocupada em não diminuí-lo, ou deixá-lo pouco a vontade; pois sabia que se o quisesse como amigo, teria que vencer algumas barreiras.
— Faz tempo que você mora aqui? — Ela iniciou um tímido diálogo.
— Faz, sim! — Ele a olhou de soslaio. — Eu era um piá quando cheguei em Rondônia. Primeiro moramos em Cacoal, depois viemos pra cá.
— Eu não sei onde é Cacoal. É muito longe de Rolim de Moura? — Ela perguntou desinteressada.
— Não, não é muito longe. — Disse desviando de mais um buraco. — O que você vai fazer em Rolim? — Perguntou virando-se para ela.
— Eu... Eu vou contratar alguns trabalhadores... — Falou meio insegura. — Você poderia me ajudar com isso, eu não tenho muita experiência. — Confessou apreensiva.
Ele coçou a cabeça, o coração batia num ritmo quente, apaixonado. Ela precisava dele, e ele faria qualquer coisa para deixá-la feliz. É claro que perderia um tempo precioso para ajudá-la; porém não podia negar-lhe ajuda.
— Eu ajudo você, Cecília.
— Obrigada, Robério. Eu estava realmente preocupada com essa contratação... Sou mulher, e os homens podem não me respeitar! Você sabe como são os homens.
— É, eu sei. — Ele concordou com a cabeça. — Não se preocupe, Cecília, não vou deixar ninguém desrespeitá-la. — Ele puxou o carro para um lado e desviou-se de mais um buraco, então perguntou. — De quantos peões você precisa?
—Eu acho... Que oito ou dez! O Venâncio disse que muita gente dá trabalho e muita despesa!
— O Venâncio está certo! A fazenda é grande, mas se levarmos peões bons de motosserra, é rápido que a mata vem abaixo.
— Tomara! — Ela comemorou.
Ao chegarem a cidade, ela foi ao mercado, e Robério em busca de trabalhadores, após o almoço, encontraram-se no lugar combinado.
— Estão todos aqui, Cecília!
— Parecem que são fortes... E bons de trabalho.
— São acostumados com derrubada, e muito respeitosos. — Ele garantiu.
— Então já podemos ir, Robério, a não ser que você tenha alguma pendência a resolver.
Robério pensou em Joana, lembrou que prometera a mãe que a visitaria, olhou para a moça em sua frente, e esqueceu da promessa.
— Não, eu já fiz tudo que tinha que fazer.
— Está certo, vamos passar no mercado para pegar as compras que fiz.
Enquanto retornavam, os dois conversavam alegremente, a timidez inicial, dissipara-se totalmente, em um dado momento ela arriscou uma pergunta ousada.
— Robério... O que você acha de trabalhar pra mim? — Ele franziu a testa, a proposta o deixara intrigado e ao mesmo tempo eufórico.
―Trabalhar pra você? Eu não entendo de derrubada, Cecília.
― Bom... Eu preciso de alguém de confiança, alguém que dê ordens aos trabalhadores... Eu sou mulher, e ficar no meio desses homens... — Ela recostou a cabeça no banco suspirando. — Você sabe; pode ser perigoso.
— É verdade. Por mais que sejam confiáveis, sempre há algum perigo.
— Então... Você aceita?
— Eu só trabalhei para o Senhor Antero, Cecília. Nunca fui capataz.
— Por favor, Robério. Eu preciso de alguém de confiança para me ajudar. — Ela implorou com voz melodiosa.
— Você confia em mim, Cecília?
— Sim, Robério. Confio totalmente! É como se eu já o conhecesse há muito tempo. Não sei se você sente a mesma coisa.
Ele passou a mão pelo cabelo, não podia lhe negar ajuda, não, não podia.
— Obrigada por confiar em mim, Cecília. — Ele fez uma pausa e apertou o volante antes de falar. — Eu aceito o trabalho.
Robério mal conseguia concentrar-se na estrada, dissera sim quando deveria dizer, não. Mas o que temia? Desde que, vira-a pela primeira vez, o coração pulsou mais forte, não era hora para medos, muito menos esconder o que sentia. A oportunidade de ficar ao lado dela não podia ser desperdiçada. A oferta de trabalho não podia ser recusada.
Quando parou a caminhonete frente ao casebre, ajudou-a a retirar as compras da carroceria. Enquanto Venâncio levava os trabalhadores para dentro da casa, os dois olharam para o sol, que se escondia atrás da mata. Ambos sabiam que algo muito forte aflorara entre eles. Ele engoliu e seco, e cheio de receio buscou as mãos dela.
— Amanhã bem cedo, eu venho trabalhar, Cecília. — Disse com voz baixa.
— Eu vou esperar por você, Robério.
— Você trouxe as compras, Cecília? — Gritou Rosália da porta. Os dois afastaram-se bruscamente. A moça revirou os olhos e voltou-se para a cozinheira, que de olhos cerrados, encarava-os. Com certa raiva, ela respondeu.
— Sim Rosália. Peça a um dos homens para levar para cozinha. Disse maneando a cabeça, depois voltou-se para o rapaz, que envergonhado, baixara a cabeça. — Vai para casa, Robério, amanhã conversamos sobre seu salário e sobre seu trabalho. — Disse o despedindo.
Logo que chegou ao sítio, Robério estacionou a caminhonete no galpão, demorou alguns minutos para descer, pensou nos momentos descontraídos ao lado de Cecília. “Ela vai ser minha” Murmurou silencioso.
Quando entrou na cozinha, a mãe o esperava, sem pressa, ele tirou a botina e jogou-a, em um canto, sentada em uma cadeira próximo a mesa, a mãe observava cada movimento que ele fazia. Estava inquieta, balançava as pernas, batia os dedos sobre a mesa e vez em quando torcia os lábios.
― E a Joana? Você falou com ela? — Ela perguntou apreensiva.
Robério não respondeu, fez-se de cansado, recostou-se na cadeira e fingiu tranquilidade.
— Responda, Robério! Você visitou sua noiva? — Insistiu intimidando-o.
— Não deu tempo para visitar a Joana, mãe; eu tinha muita coisa pra resolver.
— Muita coisa pra resolver? — A mãe maneou a cabeça. — O que seria mais importante que visitar sua futura mulher? Por um acaso seria outra mulher? — Ela perguntou o encarando seriamente. — Eu vi o jeito que você a olhava, Robério! Só espero que a Joana não tenha visto vocês!
Ele fez-se de inocente, com voz vitimizada argumentou.
— Eu não sei porque a senhora está falando comigo nesse tom, como se desconfiasse de mim. O que eu fiz de errado, mãe?
(Piá= modo de falar dos sulistas, é uma variação de menino, guri, moleque)
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