Cecília
5 O jantar
― Tudo bem, eu prometo conter minha curiosidade. Agora me ajude a levar os livros para o meu quarto.
O sábado amanheceu agitado, dona Elvira e Cecília passaram a manhã limpando e organizando a casa. A tarde, foram ao mercado comprar carnes ervas finas e vinho. A mãe queria que o convidado tivesse uma boa impressão. Ao retornarem, ambas entraram casa adentro eufóricas, estavam felizes com o tinham comprado, Elvira ao encontrar o marido estirado sobre o sofá, maneou a cabeça desaprovando. Alfredo fingiu não ver o olhar repreensivo da esposa e continuou imóvel. Ele não queria dar vazão para mais uma discussão.
Carregadas de sacolas, ela e a filha seguiram para cozinha. Ambas tinham muito trabalho para fazer. O jantar tinha que ser preparado e a toalha da mesa criteriosamente escolhida.
— Ufa! Finalmente terminei de rechear a carne! — Exclamou a mãe a certa altura da preparação da comida. A filha riu, e seguiu cortando os morangos para fazer a sobremesa.
— Surpresa de morangos. Espero que o Miguel goste! — Disse Cecília antes de enfiar mais um morango na boca e o mastigar sofregamente. A mãe a recriminou com o olhar, e num tom meio aborrecido falou.
— Desse jeito não vai ter surpresa nessa sobremesa! Cecília riu e comeu mais uma fruta.
ÀS 19:h, Miguel estacionou em frente à casa 344, desligou o farol e permaneceu dentro do carro por longos minutos, estava um pouco nervoso, o coração fora do ritmo normal e as mãos suavam. Tinha motivos para estar assim, nunca fora a casa de uma moça para ser apresentado, como namorado.
Vestindo uma camisa branca e calça de linho azul-marinho, ele finalmente saiu do carro, antes de fechar a porta, pegou a garrafa de vinho do porto no banco do passageiro. O vinho fora ideia de um amigo, que dissera a Miguel, ser esta uma boa estratégia, para impressionar a família da futura esposa.
Antes de apertar a campainha, ele suspirou profundamente, precisava controlar a ansiedade, não queria demonstrar qualquer sinal de fraqueza, muito menos parecer um adolescente que vai ao primeiro encontro. Fechou os olhos momentaneamente.
“E se os pais dela o rejeitassem?”
Olhou para a garrafa de vinho e franziu a testa.
“E se eles não gostassem de vinho?”
Por fim, tocou a campainha.
Cecília veio recebê-lo, um pouco desconcertado, Miguel olhou para a moça que lhe estendia a mão lhe dando boas-vindas, nunca a viu tão bonita. O vestido vermelho, colava-se ao corpo revelando a assimetria das curvas perfeitas. Deus! Ela parecia uma deusa ou uma ninfa? A suprema beleza estava ali, parada em sua frente. Lábios carnudos e olhar doce.
― O que foi Miguel? ― Ela perguntou depois de o beijar no rosto.
― Eu sempre a vejo de jeans e camiseta… Vê-la de vestido…
― Você não gostou? ― Ela perguntou girando graciosamente o corpo.
― Eu… Eu… Nossa! Você está linda! Uma princesa.
― Não é para tanto. É só um vestido, Miguel. Agora vamos entrar, a mamãe já está nos esperando. ― Ela comunicou.
Juntos adentravam a casa, de mãos dadas atravessaram a sala principal, antes porém de chegarem a cozinha, de súbito, ela o enlaçou pelo pescoço e o envolveu num beijo quente e doce. De início ele ficou espantado com o gesto ousado de Cecília, todavia deixou que as mãos suaves acariciassem suas costas e depois repousassem no pescoço. Ao senti-la tão permissiva, aprofundou o beijo. Os braços, antes pendidos ao longo do corpo, criaram vida e enlaçaram-na pela cintura puxando-a para mais perto. Ao sentir que o deixara excitado, ela suavemente o afastou.
— Sou louco por você, Cecília! — Ele murmurou com voz rouca.
— Oh! Eu sujei você de batom. Deixe-me limpá-lo. — Ela passou os dedos próximo e sobre os lábios de Miguel, ele quis beijá-la novamente, ela o refutou com doçura.
— O jantar vai esfriar, Miguel.
— Dane-se o jantar! — Ele a abraçou novamente, entretanto, quando foi beija-la novamente, ouviu uma voz chamando.
— É a minha mãe. Vamos! — Ela o intimou com certa languidez na voz.
Miguel a acompanhou, por um momento ele parou em meio ao corredor, para admirar o andar da namorada.
“Oh, Deus! Era como o farfalhar das asas de um anjo.”
Ele sentiu a boca enchendo de saliva, desejava-a mais que tudo. Ela virou-se para o apressar, riu ao ver que a saliva lhe escorria pelo canto dos lábios.
— Venha, Miguel! O que está esperando? A mamãe vai reclamar. — Ela fingiu-se zangada.
Enquanto a seguia, ele ria por dentro, realmente tirara a sorte grande, Cecília além de bonita era como uma fruta tenra, pronta para ser devorada. Assim que adentraram a sala de jantar, Miguel foi recebido por Elvira que o encheu de elogios. Enquanto a mãe de Cecília tagarelava sobre a penosa preparação do jantar; Miguel olhou para um belo lustre dependurado no teto; do qual cascatas luminosas caiam como cristais e correntes douradas cintilavam.
— “Deve ter custado uma pequena fortuna” — Ele pensou torcendo os lábios.
O tal lustre que Miguel admirara, o senhor Alfredo ganhou de um amigo, por nome Maciel Silveira. Um morador da cidade de Rolim de Moura, no estado de Rondônia. Dono de uma casa de produtos agropecuários, Maciel recebera o lustre como pagamento de uma conta, como não era dado a luxos, deu-o de presente ao senhor Alfredo.
— Sentem-se! — Pediu Elvira um tanto eufórica. Logo que os viu puxando cadeiras para se acomodarem, ela saiu em direção a cozinha, ainda do corredor, alardeou. — Eu vou buscar a carne, fique à vontade, Miguel.
Elvira estava de fato feliz, Miguel parecia ser um bom rapaz, e ainda tinha a vantagem de ser funcionário público federal. Era o homem certo, para que a filha tivesse um futuro garantido.
— Se você de fato existe! Obrigada, Deus! — Ela disse juntando as duas mãos ao peito.
Quando retornou com a travessa de carne, engoliu em seco, viu a filha ajudando o pai a se acomodar junto a mesa, o que a irritou profundamente. Porque ela o trouxera para a mesa? Devia ter dito para não trazê-lo, agora já era tarde, teria que suportar a presença desagradável do marido moribundo. Desapontada, colocou a travessa de carne sobre a mesa e sentou-se no lugar de costume.
— Minha filha disse que você é professor. — Falou Alfredo com voz fraca.
— É, eu leciono na faculdade, senhor Alfredo. Há algum tempo que sou professor. E o senhor? Já se aposentou?
— Eu me aposentei tem alguns anos. — Cof, cof, cof... Tossiu por algumas vezes depois prosseguiu. — Fiquei doente, sabe. Coisa séria.
— É, eu sei, a Cecília me contou.
Miguel demonstrou interesse pela conversa, pois queria agradar Cecília, ele sabia o quanto ela admirava o pai. Irritada Elvira olhou para o marido, que não parava de falar da doença, que o estava matando.
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