Cecília
6 A viagem a Rondônia
— Vamos parar com essa conversa! A comida vai esfriar. — Reclamou Elvira nitidamente impaciente.
— Desculpa dona Elvira. — Disse Miguel com voz melodiosa, o que foi suficiente para acalmá-la. — A culpa foi minha.
A própria Elvira começou a servi-lo, fazia isso com muito entusiasmo, e o tempo todo repetindo o quanto fora laborioso a preparação dos pratos.
— Eu faço ideia dona Elvira, eu faço ideia. — Argumentava Miguel com cavalheirismo exagerado.
Apesar da presença lúgubre do marido, o jantar seguiu sem atropelos. É claro que Elvira preferia que só três pessoas estivessem a mesa, mas já que um quarto elemento insistia em estar ali, tinha que suportar.
Houve um momento, porém, quando terminavam a primeira garrafa de vinho, que Alfredo comentou sobre as terras que possuía em Rondônia. Miguel pareceu interessado, o que combaliu Elvira. Ela maneou a cabeça reprimindo o marido com um olhar intimidador. Como sempre acontecia, Alfredo não deu importância a intimidação e seguiu com a conversa.
Não demorou muito, iniciou-se entre marido e mulher, uma discussão interminável, dona Elvira dizia que em Rondônia, só havia mato e índio, o marido prontamente discordava. Em meio ao bate-boca dos dois, Miguel sentiu-se ligeiramente incomodado e constrangido. Constrangeu-se mais, ao ver o esforço inútil de Cecília tentado acalmar os pais. Ele coçou a cabeça e riu forçado para a namorada. Nesse momento, dona Elvira levantou da cadeira, e sem pedir licença ou desculpas, saiu deixando os três emudecidos.
— Sua mãe é uma cabeça dura! — Reclamou o pai pondo fim ao silêncio. Miguel também se levantou, não havia mais clima para permanecer no jantar, Cecília estava visivelmente envergonhada, e o pai parecia nem se incomodar.
“Pobrezinha. Tenho que tirá-la do meio desses mentecaptos.” Pensou vendo-a engolir em seco.
— Eu acho que também tenho que ir. Já está tarde. — Anunciou num riso forçado.
— Mas já, professor?! Ainda temos uma garrafa de vinho! — Disse o Alfredo um tanto animado.
— Deixa pra outro dia, senhor Alfredo. Haverá outras oportunidades.
Cecília se levantou e com tristeza no olhar segurou a mão de Miguel.
— Eu vou acompanhá-lo até a porta. — Ela se ofereceu.
— Obrigado, Cecília. — Disse a acompanhado.
Mesmo com a tristeza aparente, ela mostrou-se afetuosa, abraçou-o ternamente.
— Não se culpe pelo que aconteceu. — Disse ele antes que ela abrisse a porta.
— Eles não se amam mais, Miguel, brigam por qualquer coisa.
— Nós nunca vamos brigar meu amor, eu prometo. — Ele fez uma pausa, para então falar. — Mas convenhamos que sua mãe está com a razão, eu não quis dizer nada para não criar mais problemas, entendo, porém que ela está certa em fazer certas conjecturas. Seu pai jogou dinheiro fora ao investir em terras, ainda mais em um lugar distante, como Rondônia.
— Então você defende minha mãe...
— Não é uma defesa, é uma constatação.
— Meu pai me deu a fazenda, Miguel. — Ela confessou com voz silenciosa. Ele ao ouvir a revelação, entreabriu os lábios.
— Ele... Ele deu a fazenda pra você?
— Sim... Minha mãe disse para eu vender. Ela me aconselhou a colocar o dinheiro da venda em uma poupança.
— E você vai vender?
— Sim, eu vou vender, Miguel. Mas só depois que meu pai... Depois que ele...
— Eu entendo. — Miguel arrumou os óculos. — Bom, as terras devem valer algum dinheiro. O que será muito bem-vindo para você abrir seu escritório de advocacia.
— Foi o que minha mãe disse, acho que vocês têm o mesmo pensamento — Revelou melancólica.
Antes de sair, ele a beijou de leve, a noite não fora de toda perdida, bebericara um pouco de vinho e conhecera mais algumas virtudes da namorada. Ela era perfeita em todos os aspectos, e além de tudo ainda herdara uma fazenda.
“Eu sou mesmo um felizardo” Pensou antes de ligar o carro e sair.
Os meses seguintes foram bastante significativos para Cecília, não demorou muito para perceber, que Miguel tinha certa preferência pela mãe, e que sempre que podia ignorava o pai. Esse detalhe foi substancial para que ela concretizasse a viagem. O que ele refutava com veemência.
— Ainda não somos casados, e não posso impedi-la de ir. Entretanto, você conhece minha opinião! — Dissera certa noite em que namoravam frente ao portão.
— Miguel, é só uma viagem. Meu pai merece esse agrado. Logo eu estarei de volta. — Ela respondera em meio a um riso doce.
— Você gosta muito dele, não é?
— Amo meu pai, Miguel. E nunca vou desapontá-lo.
Ouvi-la falar do pai com tanto carinho o fez confessar algo que a muito ele guardava para si.
— Eu queria ter conhecido meu pai. Minha mãe sempre dizia que ele foi um canalha. Às vezes eu fico curioso em descobrir alguma coisa sobre esse canalha. — Ele fez uma pausa e torceu os lábios. — Sei lá, eu vejo você tratando seu pai com tanto carinho... Fico com inveja.
— Seu bobo. — Ela disse antes de o beijar.
Quando as férias chegaram, a viagem a Rondônia tornou-se um acontecimento, a compra das passagens, as malas para arrumar, Cecília conferia os detalhes da lista, para ver se não faltava nada.
— Não precisa essa preocupação toda. Você não está indo para Nova York! — Brincou o pai ao ver a aflição da filha.
— Eu sei pai, mas não posso viver sem meus perfumes, sem minhas roupas, sem meus sapatos...
— Meu Deus! Para que duas malas de roupas? Você vai passar alguns dias naquele fim de mundo! Não vai para morar! — Reclamou Elvira.
— Acho que a senhora tem razão... Vou desfazer uma das malas. — Prometeu meio contrariada.
O dia de embarcarem finalmente chegou; Alfredo conferia a cada minuto, conferia as horas, Elvira abraçada a filha aguardava a chamada.
Antes do embarque, a mãe solenemente aconselhou a filha, a não andar pelo mato, muito menos conversar com homens do local. Pois em seu imaginário julgava serem todos rudes e desrespeitosos. Cecília concordou com os conselhos, prometeu que não sairia sozinha, mas somente na companhia do pai.
— Fico mais tranquila, filha. Você sabe que não sou preconceituosa, mas temo o que o possa acontecer.
— Fica tranquila, mãe. Não vai acontecer nada comigo.
— Vamos! É a última chamada! — Alertou Alfredo
Enfim, o avião decolou. Acomodada na poltrona ao lado do pai, ambos conversavam animadamente sobre o que fariam ao chegarem na fazenda.
— Você vai gostar, filha. — Prometeu Alfredo.
Depois de um tempo, Cecília dormiu, Alfredo acariciou o delicado ombro da filha, coberto pelo grosso tecido do casaco, ela não sentiu o carinho.
Ao meio dia, o avião sobrevoou Porto Velho, para Cecília, os minutos de espera, pareceram uma eternidade. A curiosidade em conhecer a cidade a deixou eufórica. Logo que pisou em terra firme, estranhou o clima. Como começasse a suar, tirou o casaquinho de lã, e o enfiou na bolsa.
— Aqui é bem quente! — Disse ela para pai, que aguardava pela liberação da mala.
— Um pouco. — Respondeu ele sem dar muita importância ao comentário.
Um tempo a mais, e os dois estavam em um táxi, que o levariam até a rodoviária. O motorista seguiu por uma rua larga, sem muita estrutura. Alfredo informou a filha que aquela era a BR 364. Sem muito entusiasmo, ela apenas levantou as sobrancelhas.
Assim que chegaram à rodoviária, ambos desceram do carro, cada um pegou sua mala, e ali, ficaram à espera do ônibus que os levaria até Ji-Paraná. Foram horas intermináveis, principalmente para Cecília, que nunca vira tanto desconforto. Enojada, ela observou alguns bêbados que perambulavam pelo recinto. Desde a chegada a Porto Velho, perdera o ânimo para conversar.
Enfim, o ônibus que os levaria chegou, poucos minutos depois pai e filha se acomodavam nas confortáveis poltronas.
Após horas de viagem, as palavras continuaram escassas. O pai bem que tentou manter algum diálogo, ela no entanto, o respondia com monossílabos. O que o fez desistir.
Ao chegarem a Ji-Paraná, eles entraram em outro ônibus, que os levaria até Rolim de Moura. A moça engoliu em seco. Tudo era terrivelmente desconfortável, desde o coletivo velho e sem ar refrigerado, ao alarido das pessoas que lotavam o ônibus. Agoniada com o calor descomunal; ela resmungou alguma coisa incompreensível, Alfredo não deu importância aos resmungos, sentado junto a janela, ele passou a mão no queixo e olhou pelo vidro, sorriu ao ver os pastos cheios de gado. Balançou a cabeça pensando na Estrela Dalva.
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