Caçador
35 Pesquisas e papo furado
Washington D.C. pode ser a verdadeira capital dos Estados Unidos, mas o verdadeiro centro do país é New York. E, mais especificamente, Manhattan.
O legal de lá é que sou o único Caçador nas proximidades, por assim se dizer. Por ser meu lugar favorito, quase nunca sobram casos para outros Caçadores lá, então posso Caçar sem me preocupar com intromissão de outros Caçadores.
Ficamos num apartamento com três quartos ao lado do Central Park. O lugar é bom, e fica perto do hospital onde ocorreu o “milagre”.
Nos dividimos em grupo, ou mais ou menos isso. Tenho que dar algum treinamento para Jene, mas o treinamento sério só vai começar depois do caso. Por enquanto, vou improvisando. E para o que pedi, ela não terá problemas em fazer. Ficar no apartamento e assistir as temporadas de Sobrenatural que tenho no meu note. Copiei o arquivo pro dela.
Bom, mas voltando para o caso, deixei Megan cuidando de conseguir a fixa dos quatro milagres no hospital enquanto passo na delegacia para conferir se não houveram realmente mortes estranhas.
O chefe de policia riu na minha cara e me mandou ir brincar no parque. Daí mostrei meu bom e velho distintivo do FBI. Ele foi bem simpático, até ofereceu um cafezinho. Mas não, sem mortes estranhas.
Volto para o apartamento, torcendo para que Megan já tenha achado as fixas. Para minha sorte, sim. Elas estão em cima da mesa com um bilhete “fui entrevistar os dois primeiros, beijo!” em cima. Olho quais são os dois primeiros. Um infarto e um tumor no cérebro que desapareceu. Balanço a cabeça. Ela deixou o Mister Ressuscitado para mim.
Espio a sala. Jene está concentrada no episódio Bloody Mary. Gostei daquele episódio, um dos melhores da primeira temporada. Se bem que Asilo, Alguma Coisa Maligna e Procedência também são ótimos. Os quatro melhores da temporada, na minha humilde opinião.
Pego mais duas identidades falsas e vou para a casa do mais perto. De metrô, que o trafego em Manhattan é um pesadelo. No caminho, vou lendo o prontuário dele. Infecção grave nos pulmões, pouca esperança de sobreviver. A família já tinha sido avisada, e ele contava com as últimas horas de vida. Então saiu o resultado do exame mais recente, feito apenas algumas horas antes. O exame era só para constar no atestado de óbito, mas... Pelo exame, ele estava curado. Causou um rebuliço dos bons, pelo que imagino. Depois do resultado desse exame, estão os resultados dos próximos exames. Totalmente curado, sem resquícios de nenhuma doença. Agora o cara virou devoto e vai na igreja todo fim de semana. Pobre coitado, como seu o carinha lá de cima se importasse com ele.
Vou a passos rápidos até a casa dele, me preparando psicologicamente para a conversa. Vou tentar evitar tentar matar ele quando ficar dizendo “graças a Deus”, e “pela vontade de Deus” e coisas do tipo durante a conversa inteira.
É fácil entrar no prédio dele. Ninguém me barra. Subo até o andar correto e bato na porta dele. Alguns segundos depois, ela é aberta.
— Que Deus lhe abençoe! O que deseja?
Te matar.
— Oi, como vai? Gostaria de falar com você por alguns minutos, se não for encomodar.
Forço um sorriso simpático. Ele hesita.
— Sobre o que seria?
Merda, vou ter que apelar. Ia usar o truque do policial ou do estudante, mas ele vai falar mais se eu...
— Sou do Seminário daqui de Manhattan, e gostaria de falar com você sobre seu última milagre. O Padre... Josep me mandou.
Tento manter o sorriso enquanto ele me estuda. Camiseta do Iron Maiden, jeans pretos e tatuagem no braço esquerdo. Sim, ele deve ter me achado tremendamente religioso. Sem falar que só me falta ele conhecer o padre que fica no seminário de Manhattan, e eu estou ferrado.
— Pois não, entre, entre. Não sabia que havia um seminário aqui em Manhattan.
— Claro que há. — Falo ao entrar, fingindo surpresa. — Somos novos e poucos, talvez por isso não nos conheça.
O apartamento até que é bom, pequeno, mas dá para se viver confortavelmente. Só o único problema na minha opinião são as cruzes, imagens de Jesus e de santos e crucifixos que decoram o ambiente. Me pergunto o que ele acharia se soubesse que eu Caço demônios nas horas vagas. E nas não vagas também.
Clark (que é o nome dele, segundo a fixa médica e é o nome que ele me deu ao me convidar a entrar) aponta o sofá para mim sentar. Oferece uma bebida, que eu recuso, e se senta na minha frente com uma cadeira.
— Bom, do que trata exatamente? O que podemos fazer pelo bom Padre Josep?
Primeiro, tirar o tom piedoso dessa fala.
— Me contar tudo sobre o milagre. Sei sobre o fato que estava com a doença e vários detalhes médicos, mas o Padre Josep quer saber sobre o que você sentiu, se sentiu alguma coisa estranha ou viu alguém diferente. Podemos estar na presença de Cristo novamente! — E também podemos estar na presença do coelhinho da Páscoa.
— Bom, não sei como explicar direito. Apenas dizer que foi a vontade de Deus eu estar vivo. O próprio Criador assim decidiu. — Acho que vou vomitar, socorro. — Não vi ou senti nada estranho, se é que a própria vida não é estranha. Mas posso afirmar uma coisa, Deus intercedeu pelas mãos do médico que me tratou.
Me interesso por isso. Pode ser do que estou atrás.
— Por que acha isso?
Clark me olha como se fosse óbvio.
— Que outro motivo haveria? Eu sobrevivi. E... Antes do exame o médico me deu forças, e senti naquele momento uma paz interior...
Deixo o resto do discurso passar por mim sem prestar atenção. Preciso investigar esse médico.
— Qual o nome do doutor? — Pergunto de súbito, interrompendo o que ele estava falando.
— É Harlam. Robert Harlam, mas...
— desculpe, mas tenho de ir. Muito obrigado por tudo. — Olho pro relógio fingindo pressa, e saio dali antes que ele possa fazer mais do que me olhar aparvalhado.
— Robert Harlam. — Murmuro já na rua. — Vamos ver o que tem a dizer sobre isso.
Olho nos prontuários que Megan me conseguiu, e vejo que todos eles foram atendidos por esse médico. Fico batendo com eles na mão enquanto reflito sobre o que fazer em seguida. Por fim me decido.
Volto para o apartamento. Jene está na cozinha pegando uma lata de Pepsi, e no quarto dela vejo a tela do computador pausada numa cena de Homem-Gancho. Cara, aquele ali foi um bem chato. Notei na hora que vi eles abrindo a cova que não tinha o gancho, e na época nem sabia que era mais que uma simples série.
— Me alcance uma Coca? — Peço para ela. Jene atira uma lata para mim.
— Se divirta com os ratinhos. — Ela fala, tomando um gole da Pepsi.
Dou os ombros, tomando metade da lata de uma vez.
— Pelo menos esses não estão tentando me matar. — Faço uma pausa. — Como mato um Wendigo?
— Fogo. — Jene responde imediatamente. — Prova teórica não, por favor. Já chega as da escola.
Dou os ombros de novo.
— Só saber lutar não adianta. Temos que saber como matar, e como lutar.
Aceno um tchau e vou até o meu quarto. Pego o notebook e conecto a internet do prédio. Procuro o que consigo sobre o Dr. Robert Harlem. Primeiro, nos registros do hospital. Com isso, descubro onde ele se formou e quebro a segurança do banco de dados da universidade.
Caracas, esse cara é um enigma. Tirou notas péssimas em teórica, embora fosse bom nas práticas. Mal conseguiu o diploma. Mas depois que entrou para o hospital, é o melhor cirurgião que eles têm. Não posso acreditar.
Enquanto pesquiso isso, Megan chega e vai direto pro meu quarto. Ela me dá um beijo então parece notar a tela do computador.
— Já liguei para alguns amigos dele e para professores... Não confiaria nele para curar nem um resfriado.
— Mas ele é o melhor cirurgião do hospital. — Eu comento, sabendo que ela tem o mesmo palpite que eu. — Contrato com demônio de encruzilhada?
— Talvez. Mas acho que não. Isso só explicaria o talento. A não ser que o trato seja o demônio salvar todos os pacientes dele.
Balanço a cabeça.
— Não, isso é improvável. Uma das vítimas... Bom, ele tinha sido atropelado. O coração tinha parado, e ficado assim por vários minutos, tempo demais para ter chances de salvação. Já estavam encaminhando para o necrotério quando o Dr. Robert foi ver o cadáver. De algum jeito, o “cadáver” ganhou alta três dias depois. — Hesito antes de continuar. — Ele ressuscitou. Não posso deixar de imaginar que possa ser um necromante.
Megan se assusta.
— É possível? Os necromantes podem reviver as pessoas?
— Sim, mas não sem uma grande dificuldade. É tremendamente difícil de se fazer. Mesmo quando os necromantes estavam em seu auge, haviam muito poucos que podiam fazer isso. E os necromantes foram dizimados por causa desses poucos. Sabe, os necromante verdadeiros, só sobraram aqueles idiotas nazistas que também foram dizimados, mas não pelos ceifeiros. Aqueles caras mal sabiam usar bruxaria, não mereciam o titulo de necromante. — Megan ergue uma sobrancelha, surpresa com minha súbita explosão. Respiro fundo. — Não, não acho que são necromantes. É uma possibilidade, mas ele não é. Tenho quase certeza disso. Mas posso 100% depois de falar com ele.
— E o que está esperando? — Megan pergunta.
— Saber que a criatura no outro cômodo não vai fazer besteira querendo se meter na Caçada.
— Eu ouvi isso! — Jene grita.
Megan ri, e eu a sigo.
— Vamos lá seu palhaço. Vamos falar com o Dr. Frankenstein!
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