Caçador

12 Não existem palavras para isso


Notas iniciais
Esse saiu bem Dark

Nós dois agimos mais rápido do que eu mesmo esperava.

Megan se atira para baixo da mesa sacando o punhal. Eu tiro um Colt .45 da cintura e me jogo na direção do frigobar, tirando um facão com lâmina de prata lá de dentro.

Sim, eu guardo algumas armas dentro do refrigerador. Algum problema? Por algum estranho motivo, a policia sempre procura por último dentro da geladeira.

Nós dois olhamos para a porta, com a respiração acelerada e tensos. Ninguém a vista, só o corredor escuro. Com um susto, noto que esfriou, e minha respiração está se condensando. Também percebo, tardiamente, que devem fazer alguns minutos que não ouço nenhum som. Nem o de passos no andar de cima, do sem alto no quarto ao lado, ou do telefone tocando na recepção no andar de baixo. Como se estivéssemos presos numa bolha de silencio.

Noto que as plantas num vaso decorativo em frente a janela estão mortas.

Me movo cuidadosamente e lentamente até Megan. Ela pergunta, apenas movendo os lábios, sem sair som: “O que é isso?”

“Zumbis, talvez um demônio”, respondo da mesma maneira.

Consigo sentir uma presença do lado de fora. Não com minha capacidade de necromante, que serve como um alarme cada vez que chego perto de um fantasma ou zumbi. Mas com a de ser humano. Uma presença fria, como uma navalha percorrendo minha pele. Os cabelos em minha nuca se eriçam, e a luz pisca.

No momento que ela pisca, noto um movimento na frente da porta. Atiro rapidamente, três vezes, e escuto o satisfatório som de carne sendo perfurada, seguido por um leve gemido surpreso.

Pulo até a porta, ao mesmo tempo que a luz se acende. Na minha frente, está um homem de uns trinta anos. Três buracos de bala decoram seu peito. Ele não respira, e não sai sangue dos ferimentos. Zumbi.

Com um rápido movimento, corto a cabeça fora. Então chuto o corpo em direção à parede atrás de mim. Aproveitando a adrenalina, faço um corte no meu breco e respingo o sangue em sua direção, sibilando palavras o mais rápido que consigo. As palavras possuem um som gutural, e saem arranhando minha garganta. O local parece ficar mais frio e mais escuro.

O sangue brilha levemente em cima do zumbi, impedindo que ele se movimente. Feitiço paralisante.

Megan aparece atrás de mim, e olha por cima do meu ombro. Então olha em volta.

— Ninguém ouviu os tiros? — Ela pergunta.

Olho em volta também. Isso é estranho. As luzes voltaram, e o frio sumiu. Também não sinto mais a presença. Seja o que for, bateu em retirada. Mas ainda não consigo ouvir nada no prédio.

Num impulso inexplicável, vou até o quarto ao lado e abro a porta, com o Colt e o facão em prontidão. Então abaixo as armas e praguejo em voz baixa.

O quarto está coberto de sangue, paredes, teto, janelas, e uma poça se estende do corpo flagelado de um cara de uns 25 anos deitado no centro da sala. Ela está olhando para cima com uma expressão de pavor.

— Verifique os outros quartos. — Falo para Megan, correndo para a recepção.

A primeira coisa que faço ao descer e olhar para as portas de vidro duplas. Estão negras, impedindo a visão de fora. Praguejo de novo ao reconhecer a Cortina de Escuridão, uma magia para ocultar.

Então vejo o resto da recepção e percebo que não sei palavrões que chegue para praguejar o bastante.

As paredes, antes de um tom claro de bege, agora estão vermelhas de sangue. O carpete verde no chão está pegajoso e inundado do liquido vermelho. O teto rachado com mais sangue pingando, como se alguém tivesse explodido uma bomba de sangue do recinto.

O balcão da recepção foi destruído, o computador, o arquivo e a estante onde estavam as chaves dos quartos despareceram. Deixando apenas uma pilha de sucata no lugar.

Mas o pior não é isso.

No centro da sala, um grande pentagrama está desenhado. Velas negras estão posicionadas nas pontas da estrela, ainda queimando com um fogo verde.

No centro do pentagrama, um casal está nu, deitados e pálidos como fantasmas. Todo o sangue foi drenado do corpo por cinco furos feitos com precisão. Um em cada mão, um em cada pé, e um na testa. O resto do corpo está incólume. O sangue que permeia o chão suja os corpos deles. Estão deitados um ao inverso do outro, os pés da mulher virados para a cabeça do homem e vice-versa.

Os olhos foram arrancados, deixando buracos negros e sangrentos no rosto. As bocas foram costuradas, e as orelhas arrancadas. Reconheço o feitiço. Olhos para visão, orelhas para audição, boca para comunicação. Foi isso que impediu que eu visse ou escutasse qualquer coisa do lado de fora do quarto.

Uma onda de raiva percorre meu corpo. Um feitiço profano desses no andar de baixo do prédio onde estou hospedado, e eu nem sequer detectei?

O corpo da recepcionista está largado, semi-nu, num canto. Pelos ferimentos nos seios e no meio das pernas, imagino que foi estrupada. E depois morta e flagelada. As vísceras estão saindo por um corte na barriga, e a cabeça foi arrancada. Não decepada, arrancada mesmo. Em alguns pontos do corpo, os ossos estão saltados, rompendo a pele.

Me pergunto rapidamente se os ferimentos foram infringidos no cadáver ou se ela ainda estava viva.

Megan desce as escadas, e começa a me dizer alguma coisa, então vê a cena. Recua um passo, então se vira e vomita ruidosamente no chão.

Isso me tira do topor. Olho para ela, desviando o olhar da cena mórbida.

— Vem, vamos sair daqui. — Seguro ela pelo ombro e, juntos, saímos pela saída de incêndio.