Caçador
13 Outras revelações, e ainda mais copos de café
Notas iniciais
— Você está melhor? — Pergunto, ainda preocupado.
Megan acena que sim, segurando com mais força o copo de café com as duas mãos.
Depois que tirei Megan do prédio, subi o mais rápido que pude, sem prestar muita atenção nos quartos com porta aberta ou na recepção. Peguei nossas coisas e desci. Saímos dali o mais rápido possível.
Depois de circular metade da cidade (e ficar o mais longe possível dos prédios abandonados), parei num café. E agora estamos sentados numa mesinha na calçada, tendo como paisagem o transito de Seattle.
Tomo um gole do café. Bem forte, muita cafeína. Mas não consegue tirar o gosto amargo da minha boca. O sabor da frustração.
— Como você consegue? — Megan me pergunta, depois de um tempo. Ela não está mais pálida, e em geral o olhar voltou ao normal. — Como consegue ficar... Calmo, não reagir ao que viu lá? Eu não me impressiono fácil, longe disso, mas aquilo...
Ela termina de falar com um tom numa mistura de horror e nojo. Suspiro e tomo o último gole do café antes de responder. Acho que vou precisar de outro. Se bem que esse já é o quinto...
— Eu fiquei tão horrorizado como você. Não fiquei calmo, ninguém pode ficar calmo depois daquilo. Mas... — Faço uma pausa procurando as palavras certas. — É difícil de explicar. Acho que depois de tanto tempo lutando contra monstros e vendo as trevas desse mundo, ganhei um distanciamento de tudo. Vejo as coisas com a parte prática. Me foquei só na parte do encantamento que foi realizado com eles. Embora não deixe de ficar amargurado. Aquilo foi culpa minha. Minha por estar ali. Minha por não ter notado. Minha por não ser capaz de proteger nem quem está por perto. Ele fez aquilo para me atingir. Se eu não tivesse puxado a briga...
Deixo a frase morrer em desgosto, virando o rosto. Então sinto Megan segurando minha mão. Ergo os olhos, e vejo que ela está me observando. Com uma pontada de preocupação e uma de ternura no rosto.
— Vamos lá. Não foi culpa sua. E agora o melhor que podemos fazer é chutar alguém.
Aceno com a cabeça.
— O que viu nos outros quartos?
— Tudo igual ao primeiro. E o mais estranho: Todos destrancados. Se bem que devem ter entrado de algum jeito.
Mas nem ouço realmente ela. Minha mente está a mil, assimilando o que acabei de notar. Falei quase sem querer, mas só agora percebi que eu sempre soube quem é o responsável por isso tudo.
— Que foi? — Megan pergunta, me olhando. – Conheço essa expressão. O que foi que acabou de pensar?
— Que eu já sei quem é nosso inimigo. Ele cometeu um erro. — Megan me olha sem entender, então começo a explicar: — O truque lá no hotel foi para nos assustar. Me assustar, na verdade. Para me dizer que não posso proteger ninguém, que ninguém está seguro se ele resolver atacar. Mas cometeu um grande erro. Nós estávamos protegidos, então ele resolveu atacar o resto do hotel. Mas automaticamente deixou uma pista: Aquele feitiço. Muito antigo e complicado para que um novo necromante possa fazer. Foi descuidado, e eu planejo usar isso. Tentou nos despistar, não deixar ver quem é o verdadeiro inimigo.
— Então, você sabe quem é? — Megan se inclina sobra a mesa, chegando mais perto.
Concordo com a cabeça, frenético.
— Sim. Na verdade, foi você que me disse quem é, mesmo que nenhum de nós tenha notado. — Ela me olha confusa. — Olhe isso. — Eu peço, mostrando uma foto no meu celular. A foto é de uma pintura antiga, feita em tinta preta. Retrata um homem com um grande manto preto, pendurado numa forca.
— Há! — Megan reconhece a figura. — É o mesmo que aparece naquele desenho que fiz no chão.
— Exatamente. Contemple um dos últimos necromantes que viveram neste mundo. Harren, o Negro. Foi um dos maiores da sua época, e um dos últimos. Não era do tipo que dava consultas de brinde. Foi caçado e queimado por humanos em 1567. Depois, desceu ao Inferno e se tornou um dos Torturadores rapidinho, pelo menos, é isso que meus contatos dizem.
— Você tem contatos no Inferno?
— Isso explica a sensação estranha que venho tendo a dias. — Continuo, sem dar sinal de que ouvi. — Deve ser ele. Voltou como demônio, e de quebra possui um dos Novos Necromantes. O que permitiu que ele pudesse usar seus poderes, que foram perdidos ao se tornar demônio. Que pena que não perdeu as memórias também.
— Mas o que ele quer?
— Hein? — Pergunto, saindo por um momento do meu estado frenético.
— O que ele quer? Qual o propósito disso? — Megan pergunta, acenando com a mão.
— Criar um exército. — Respondo, me acalmando e me recostando na cadeira. Olho em volta, mas ninguém parece ter prestado atenção em nós. — Alguns dos necromantes antigos eram capazes de criar um exército de mortos-vivos. Convocar hordas de guerreiros mortos. Mas parece que o novo não tem esse poder. Então ele vai apelar para usar vampiros e Lobisomens.
— Tá, mas para que ele precisa de um exército?
— Sei lá. – Dou os ombros. — Só espero que não seja nada do tipo “trazer Lúcifer de volta”.
E com essas animadas palavras, levanto para pagar a conta.
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