Caçador
6 Nunca subestime a TV Aberta. Ela pode ser muito útil
A noite está estrelada.
Com as janelas abertas, a brisa gelada da noite percorre o Dodge. A estrada de asfalto está vazia, o que agradeço, pois assim posso andar mais rápido.
O som está desligado, e a noite está calma e silenciosa, com apenas o ronco do motor. Megan está dormindo no banco ao meu lado, com a boca ligeiramente aberta.
Ela trocou de roupa para a viagem. Ainda usa jeans, mas em vez de da camiseta verde agora usa uma de manga curta de um tecido bem leve, estampada. O ombro esquerdo fica desnudo, com uma alça apenas no direito, deixando aparecer a alça preta do sutiã. Tento manter os olhos na estrada para evitar um acidente, mesmo com a pista vazia.
Olho para fora, para os campos vazios em volta de estrada, pensando quanto tempo deve faltar...
O sol começa a nascer, banhando o mundo com uma claridade avermelhada. Começo a ver alguns carros por aí, e reduzo a velocidade para o limite permitido. Droga, detesto dirigir devagar.
Megan se remexe, então abre os olhos. Ressona e se espreguiça, batendo as mãos no teto num lapso de esquecimento do espaço apertado.
— Onde estamos? — Megan pergunta.
— Uns 15km ao sul de Portland.
— Já? — Megan se surpreende. — Você foi rápido.
Sorrio presunçoso.
— Esse carro anda bem, quando não tenho que cuidar do limite de velocidade.
— Desde que não nos mate... — Megan replica, num murmúrio.
Duas horas depois, chegamos em Seattle. Megan pode achar rápido o quanto quiser, dois dias e meio de viagem não é rápido para mim.
Desvio da rua principal, e passo por algumas secundárias, procurando um hotel que não seja muito caro.
Passo reto por um hotel pequeno de beira de estrada, então dou marcha ré e pero na frente. Por que não? Estaciono o carro e nós dois vamos para a recepção.
— Bom dia. — A recepcionista cumprimenta.
— Bom dia. Um quarto. — Falo, indo direto ao ponto. A recepcionista nos avalia por um momento, o sorriso diminuindo um pouco.
— Identidade, por favor. — Ela pede. Eu suspiro.
— Sim, nós somos maiores de idade. Mas se você insiste... — Procuro no bolso da calça, e entrego uma identidade para ela. É claro que é uma falsa. Megan faz o mesmo.
A recepcionista as olha por um momento, então devolve.
— Duas de solteiro, presumo?
Ela nos olha com uma expressão estranha. Megan revira os olhos.
— Somos irmãos, caso não tenha visto os sobrenomes. Sim, duas de solteiro.
A recepcionista assente.
— Pagamento agora ou na saída?
— Agora. — Respondo. — Aceita cartão?
Ela acena, e eu entrego um cartão de crédito. Coisa mais fácil que existe usar o “truque do cartão”. As agências continuam mandando, mesmo que eu peça trinta vezes. Tendo identidade falsa, não é difícil. Pode não ser muito correto, mas esse trabalho paga muito mal. Tipo, não paga.
— Quantos dias? — A recepcionista pergunto, com o sorriso de vendedora voltando.
— Três, por enquanto. — Respondo, alheio.
A recepcionista passa o cartão, então mostra o monitor para mim digitar a senha. Digito rapidamente, e pego o cartão de volta. Ela me entrega a chave do quarto. Reprimo um sorriso com o número do quarto: 666.
O quarto é relativamente simples. Duas camas de solteiro, uma mesinha com TV e DVD, o banheiro, e uma janela. Pequeno, mas com um espaço com uma mesa. O bastante para nós.
Largo minha mochila em cima da cama em baixo da janela, e tiro um pote da mochila. Atiro ele para Megan, que pega no ar.
— Lacre as janelas e portas. Não esqueça o banheiro. — Falo, deixando Megan fazer linhas de sal na frente das entradas. O sal impede que demônios ou fantasmas entrem.
Pego meu notebook e ligo em cima de mesa, usando uma das tomadas para poupar a bateria. Me conecto à rede de wi-fi do prédio, quebrando facilmente a senha de segurança.
Começo a acessar os sites de noticias de Seattle e de todo o estado. São muitos sites e informações, mas vou conseguindo montar uma tabela com as informações principais. O quanto mais leio, mais praguejo. Isso vai ser complicado.
— Terminei. — Megan fala, puxando uma cadeira e se sentando ao meu lado. — O que é isso?
— Tudo que reuni sobre os desaparecimentos. — Começo a ler em voz alta algumas coisas. — Veja isso: Todos desaparecidos, nenhum corpo encontrado. Todos os desaparecimentos foram à noite. Nenhum padrão para as vitimas, idade, cor, altura, sexo, profissão, orientação sexual, nada. Os lugares também variam. Um homem que morava sozinho numa fazenda afastada, um cara no último andar de um apartamento, uma mulher no cinema, parques de diversões, praças, hospitais, dormitórios de escolas, até um agente funerário. Nenhum padrão. Só o aumento.
— E o que a policia diz sobre isso? — Megan pergunta.
— Bom, não muito. — Respondo, com uma careta. — Acham que pode ser uma gangue, ou um novo tipo de seita satânica. Eles sempre dão a culpa a seitas satânicas quando não entendem algo, e infelizmente as vezes acertam. A policia está atônita.
— E algum chute de onde está o ninho? — Megan pergunta, olhando a lista de nomes.
— Na verdade... — Respondo, pegando um folder enrolado ao meu lado. Estico ele, revelando um mapa de Washington, com pontos vermelhos assinalando o local do desaparecimento das vitimas, e pontos azuis com a casa das vitimas. — Veja esse aglomerado aqui, nessa parte de Seattle. Acho que pode estar por aqui. É onde está a maior parte das vitimas, e as mais antigas.
Megan avalia a posição, com uma expressão cética.
— Existe algum lugar onde possam se esconder? — Ela pergunta, lendo o nome das ruas.
— Só dois armazéns e várias casas abandonadas. É a parte vazia da cidade. Devem existir algumas centenas de lugares para se esconderem.
Megan faz uma careta.
— E onde você conseguiu achar esse mapa, afinal? — Ela pergunta.
— Lojinha na esquina. Aproveitei e descobri algumas coisas com o vendedor. Ele é bem tagarela.
— E o que descobriu?
— Pouca coisa que não soubesse, mas descobri alguns fatos que podem ajudar na hora de interrogar a família das vitimas.
— E que tipo de desculpa vai usar para falar com eles?
— De tudo. — Respondo pensativo. — Estudantes em um trabalho, FBI, CIA, Divisão de Desaparecimentos, Divisão de Homicídios, jornalistas, psicólogos, terapeutas, o que tiver.
Megan dá os ombros e liga a TV.
Continuo fuçando na internet, tentando descobrir tudo que posso. Acho que o próximo passo vai ser achar um Vampiro. Com as técnicas certas, posso fazer falar, contar onde é o ninho. O ruim vai ser pegar o Vampiro. Vou ter um trabalhão para rastrear. E ainda me manter escondido dos outros.
— Lian — Megan chama. — Veja isso aqui.
Ela aumenta o volume da TV. Olho para o noticiário, onde a repórter está dando a noticia:
“A policia suspeita que é um dos membros da gangue que vêm assolando Washington. Ele foi encontrado junto à um cadáver, na rua onde estão concentrados a maior parte dos desaparecimentos. A policia diz ter achado ele bebendo do sangue da vitima. Isso mesmo América, bebendo o sangue. O que pode ser? Uma seita de Vampiros? Algo satânico? Os policiais dizem que o suspeito estava zonzo, como se estivesse drogado ou bêbado, mas será apenas isso?”
Ela continua falando sobre psicólogos criminais e o blá blá blá de sempre com especulações.
— Bom, esse vai ser o primeiro entrevistado. — Digo, olhando para Megan.
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