Caçador

33 Negociamos a sentença final


Notas iniciais
E o Lian, como sempre, consegue se meter em briga de família. Normal.

— Então... O que acontece agora? — Jene pergunta.

Megan e eu nos entreolhamos. Estamos sentados na sala de estar de John, com Jene na poltrona segurando um copo d’água.

— Bom... Isso depende. Sempre que terminamos um caso, saímos da cidade. Hoje de madrugada, ou o mais tardar de manhã, Megan e eu já vamos estar fora de Forks.

— A procura de outro caso. — Ela acrescenta. Nenhum de nós a contraria. Ficamos em silêncio por um tempo. Normalmente eu já teria saído da cidade a essa altura, mas estou curioso para saber como Jene vai lidar com isso. — Qual o significado da tatuagem?

— Hã? Ah, a tatuagem... — Passo a mão no braço esquerdo, que está a mostra. A tatuagem negra, idêntica a de Jene, percorre o braço desde as costas da mão até o ombro. — Fiquei surpreso quando descobri que você tem. John sabe o significado, mas nunca pensei que usaria, ainda mais se quisesse escapar do sobrenatural. Ela... É uma medida de proteção, por assim se dizer. É a marca do Mestre dos Caçadores. Cada uma é feita de um material diferente, e existem algumas um pouco diferente. Poucas pessoas sobrevivem a ela. A minha foi feita com Sangue de Ceifeiro.

Megan me olha surpresa. Eu nunca contei isso para ninguém, com exceção de John. Jene franze o cenho e se vira para John.

— Por que fez uma dessas em mim se não queria me contar sobre os Caçadores?

John suspira e deixa os ombros caírem.

— Pura paranóia. Eu queria protegê-la. Sempre temi que algo como Jéssica acontecesse. Lian me avisou mais de uma vez que é impossível escapar disso. Essa profissão é para a vida toda. Então me preparei para poder lhe proteger se o meu passado decidisse me procurar, como de fato aconteceu.

Jene olha com um novo interesse para a tatuagem.

— De que material é feita?

— Sangue de Demônio. — John responde.

Ergo uma sobrancelha.

— Onde achou Sangue de Demônio?

Ele parece envergonhado.

— Um pouco antes de você partir eu roubei um pouco do seu estoque. Só uma ampola.

Fecho a cara. Parece que ele sabia mais sobre mim do que eu imaginava.

— Bom, eu acho que vamos indo. Desculpe por quase matar sua filha John. Até qualquer hora Jene.

Faço sinal para Megan e nós nos dirigimos para a porta. Mas antes que pudéssemos dar mais do que alguns passos, Jene fala:

— Eu quero ir junto.

Não vou dizer que fiquei surpreso. Eu já previa isso. Mas John ficou realmente surpreso, e nem um pouco feliz.

— Você não vai.

Jene fita ele.

— Me impeça.

John fica vermelho e começa a responder, provavelmente prestes a dar um ataque. Corto isso antes que o pior aconteça.

— Eu acho uma boa ideia.

John me olha, como se quisesse me matar. Está bem, perdi uma ótima oportunidade para ficar calado.

— Não quero saber o que você acha sobre isso. — Ele se vira para Jene. — E quanto a você... Não vai a lugar nenhum, entendeu?

Olho para o lado, preparado para pedir ajuda para Megan, mas ela não está ao meu lado. Olho por sobre o ombro e a vejo encostada no Dodge. Ela levanta as mãos se desculpando. Puxa, valeu pelo apoio.

— E por que não vou? Jene pergunta, calmamente.

— Por que eu estou mandando. E de qualquer modo, não pode simplesmente largar o colégio.

— Na verdade, pode sim. Não é muito difícil eu conseguir o diploma para ela. E ninguém precisa de um doutorado para ser Caçador. — Intercedo. John me fita novamente. Lá se vai outra oportunidade para ficar calado. Mas dessa vez vou ajudar Jene. — Que foi? Já disse que eu concordo com a ideia dela. E, sinceramente John, você acha que ela simplesmente vai ficar de boa se você proibir? Provavelmente vai simplesmente pular a janela na primeira oportunidade possível.

— Oi, eu ainda estou aqui. — Jene comenta, acenando com o braço. Pela cara dela, parece que era exatamente isso que estava planejando. Sabe, pular da janela e coisa do tipo. — Se ele pode cuidar do meu diploma, não vejo nenhum motivo para ficar.

— Eu mandar você ficar não é motivo? — John pergunta irritado.

— Não. Você não está falando coisa com coisa, só isso. Com o que está preocupado? Não é como se eu fosse sair para virar dançarina em Vegas. Vou sair para Caçar com meu meio irmão.

Vou admitir, gostei do papo de meio irmão. E foi interessante a escolha de palavras de Jene, já que eu vou bastante para Vegas, e John sabe disso.

— Pois é ainda pior. Você disse Caçar. Isso é perigoso. Muito perigoso. — John volta a andar de um lado para o outro na sala. Pegou isso comigo. Só que eu faço por ser hiperativo, não consigo parar quieto. Ele faz quando está nervoso mesmo. — Em cada um dos casos, você pode ser morta. Viu a garota no carro? Ela já matou três garotos, e um era seu namorado. E vai enfrentar coisas piores. Demônios, espectros, lobisomens, vampiros, bruxas e sabe-se lá o que mais. Não, eu repito, você não vai. No dia em que eu me casei com a sua mãe, decidi largar a Caça.

— Então por que treinou o Lian? — Jene pergunta. Ótima jogada.

Os ombros de John caem.

— Eu não sei. Talvez tenha ficado com pena, talvez quisesse colocar um Caçador para me substituir. Só sei que o fiz. Mas não quero que minha filha siga o mesmo caminho.

— Exatamente. Você não quer. Mas essa escolha é minha. Minha. Eu decido se vou Caçar ou não, eu decido o que vou fazer da minha vida.

— Você ainda não vai. — John responde.

Jene cruza os braços e fita a janela, e John olha para outro lado de cara fechada. Solto um longo suspiro. Detesto drama de família, mas vou ter que me meter nesse aí.

— Olhe John, eu já disse que concordo com ela. Pare de ser tão paternalista, isso não vai fazer bem. Você só está agindo assim por medo de ela se machucar, e sabe que está bancando o idiota. Se não deixar ela sair por bem, eu ajudo ela a fugir por mal. — John me fuzila com o olhar, mas continuo antes que ele possa me interromper. — Ela tem talento, consigo ver isso facilmente. Se não acredita em mim, vamos fazer o seguinte. Ela vem comigo por um tempo, sempre podendo voltar a hora que quiser. Durante esse tempo eu vou treiná-la e observar seu desempenho. Se não tiver capacidade de ser uma boa Caçadora, eu trago ela de volta. Se tiver, você vai ter que se conformar que foi isso que sua filha escolheu.

John recomeça a andar de um lado para o outro, dessa vez pensativo. Jene abre a boca para falar algo, mas eu sacudo a cabeça urgente. É melhor deixar John pensar e se conformar sozinho.

Depois do que parece ser uma eternidade, ainda mais por serem três e meia da madruga e eu estou com sono, John para de caminhar e olha para nós.

— Está bem, está bem. Ainda não concordo, mas parece que você vai ir igual, então... — Ele parece estar sem jeito. Tomo isso como minha deixa para dar no pé.

— Bom, passo aqui ao meio dia. Noite.

Dizendo isso, saio da casa. Imagino que não vão conseguir arruinar tudo o que fiz para convencer John, e eu realmente preciso de umas horas de sono.

Megan ainda está encostada no Dodge. Do um rápido beijo nela antes de entrar no carro.

— Como foi? — Megan pergunto depois de dar a volta e entrar. Dou a partida.

— Bem... Ela vai conosco. E falando nisso, valeu pela ajuda. Fiquei emocionado.

Megan dá os ombros.

— Você é melhor que eu nisso, e conhece ele melhor.

Resmungo qualquer coisa e me concentro na estrada. O sono está começando a bater. Também, são quase quatro. Como vou ter que levantar lá pelas 11:30 vou ter poucas horas de sono. Bom, sempre durmo pouco. Acho que é o excesso de cafeína no sangue. Não consigo dormir muito nem querendo. Se for dormir cedo, acordo cedo.

De meio dia eu pego a Jene, e vou sair daqui. Me distanciar o máximo possível de Washington, talvez algum caso em Manhattan ou coisa parecida. Estou com saudade do trafego pesado, prédios altos e multidões que você encontra em grandes cidades. E definitivamente não vou para Seattle. Nada de costa oeste por algum tempo.