Caçador

16 Na toca do Inimigo


Notas iniciais
Uma pequena mudança de narrador e de estilo. Vamos ver o que acham. É só esse capítulo, no próximo volta ao normal (ou tão normal quanto possa ser a vida de um Caçador).

Jim sempre foi um fracassado.

Quando era humano, nunca foi nem mediano. Notas ruins no colégio, mal conseguia evitar que reprovasse. Era perseguido pelos colegas, e nunca conseguiu chegar perto de uma garota e falar com ela. Nunca passou da fase do gaguejar e corar.

Ele já tinha desistido de tudo, de tentar mudar, então ele Mudou.

Estava andando por uma rua potencialmente perigosa, pensando em comprar alguma heroína com as gorjetas do emprego de entregar de Pizza, quando foi atacado. Tão rápido que sequer viu. Sentiu uma ardência na garganta, e então desmaiou.

Quando acordou novamente, estava tudo diferente.

A luz o incomodava, os sons estavam tão altos que faziam seus tímpanos doerem, o faro de aguçou. Ficou mais forte e mais rápido. E, acima de tudo, sentia Sede.

Agora, sentado no canto mais afastado do galpão que os vampiros escolheram para montar o ninho, ficou pensando se a troca valeu a pena. Claro, ser vampiro foi uma melhoria inquestionável. Mas continuava sendo o mais fraco. De todos os vampiros, era menosprezado.

Jim ficou meditando, se realmente vale a pena ter a eternidade se terá de passar toda ela sendo parte da escória, como sempre foi, quando escutou o barulho.

Em um galpão onde estão peças de automóveis, um barulho ou outro é normal. As carcaças e peças penduradas por ganchos ou empilhadas desordenadamente criam um verdadeiro labirinto, e sempre estão rangendo por causa da umidade.

Acalme-se, pensou. Deve ser um dos outros. Provavelmente Clark ou Harry brigando de novo por uma presa. Jim sorri brevemente ao se lembrar dos dois vampiros que pegaram a mania de estrupar prostitutas ou que quer que achassem na rua e depois sugar todo o sangue. Isso era quase normal para a raça, os súcubos, mas Jim nunca conseguiu. Não conseguia lidar com uma garota quando era humano, conseguirá agora, quando o coração batendo e o sangue pulsando são músicas para seus ouvidos? Quando o cheiro quente de sangue, cheiro de vida clama por atacar e estraçalhar? E de qualquer modo, pode ser apenas algum barulho na rua. Jim ainda estava se acostumando, não consegue distinguir a distancia exata dos ruídos com a nova audição perfeita. Podia ser um rato passando aos seus pés, ou alguém espirrando à 150 metros.

Seus pensamentos são interrompidos pelo ruído de risadas. Jim volta o olhar para a direção do barulho, e cuidadosamente se esconde um pouco mais nas sombras, meio que por trás de um carro.

Por falar no diabo... pensou, vendo Clark e Harry entrar no galpão com Kat e Jene, duas humanas que eles preferiram transformar. Jim começa a sair, pensando em caçar, quando ouve o que eles estão falando e para pra escutar.

—...será que se meteram os lobinhos?

— E o que quer com os cachorros? — Jene pergunta. — É bom escapar um pouco do cheiro de cachorro molhado. E o cheiro deles me faz espirrar.

Kat ri.

Tudo te faz espirrar Jene. Até seu próprio perfume.

Jene sibila para ela. Jim concorda que o perfume é realmente o bastante para fazer espirrar. Jene era um prostituta antes de ser transformada. E ainda usa as roupas da profissão. Mini-saia justa e corpete mais justo ainda, mostrando muito dos seios fartos. O cabelo ruivo natural cai em ondas pelas costas.

Harry passa o braço por cima de Jene. Foi ele que decidiu transformar. Dois metros e 100 quilos de músculos em forma de vampiro. Não a muito que se possa fazer para contrariar.

Clark é mais esguio, mas quase tão forte como Harry. E muito mais rápido. Nas brigas, é quase impossível acertar Clark. Ele se esquiva de todos os golpes. Foi ele que transformou Kat.

Kat é uma coisa miúda. Magra, um metro e sessenta de altura, cabelos pretos e longos. Não é nada que chame muita atenção. Apenas uma garota que andava no lugar errado, na hora errada.

— Bom, é lua cheia. — Clark comenta calmamente. — Espero pelo menos que eles não criem confusão. Esse trabalho é do Harry.

Harry responde com um soco em direção ao ombro de Clark, que desvia como se estivesse acostumado. O que, é claro, está mesmo.

Jim fica pensando no que Clark disse. Segundo os outros vampiros, Lobisomens e vampiros sempre foram inimigos. É algo realmente estranho trabalharem juntos. Mas o Mestre ordenou que fizessem, e eles fazem.

Jim nunca viu o Mestre. Apenas ouviu falar dele. Todas as ordens vêm por emissários. Alguns até questionam se ele existe mesmo. Mas Jim apenas obedece. Nunca criou confusão, não vai ser agora que vai se rebelar. Cabeça abaixada e boca fechada. São os seus motes.

Jim está olhando para cima, tentando ver a luz pela pequena janela no topo de uma das paredes, que permite ver um pedaço do céu, quando outro barulho soa.

Um baque seco, como de uma pedra batendo em uma chapa de metal. Ele ergue rapidamente a cabeça e se agacha, prestando atenção em tudo e assumindo a posição de caçador. Os outros 4 fazem o mesmo, sem nem notar que Jim também está no galpão.

— O que foi isso? — Harry pergunta rispidamente.

—Não sei. — Clark responde entre dentes. — É melhor alguém ir verificar.

Harry concorda, tenso. Jim entende o porquê de ele está tenso. Nenhum cheiro chega até eles.

— Fiquem aqui, já volto. — Cuidadosamente, e muito lentamente, Harry se movimenta em direção às sombras do outro lado do galpão, andando por entre as pilhas de automóveis até desaparecer se vista.

— Não gosto disso. — Jene se manifesta após alguns minutos. — Ele está demorando muito. Por que está demorando tanto?

Clark se levanta, com a expressão resignada, e pega um pé-de-cabra que está jogado no chão. Então se movimenta, sem emitir o menor ruído, na mesma direção que Harry foi. Quando chega no limiar da visão, onde só é possível notar sua silhueta, ele estaca. Então um ruído molhado soa, e Clark caí no chão sem cabeça.

Jim se esconde o melhor possível atrás de uma pilha de peças usadas, e fica observando.

Kat e Jene soltam um grito em uníssono, assustado. Começam a correr na direção de Clark, mas uma sombra sai de trás de outra pilha de carros e pula na direção delas. Kat ainda está se virando quando um relampejo prateado brilha no ar, decepando fora a cabeça. O corpo cai no chão como um saco de areia, e a cabeça rola para longe, com os dentes ainda expostos.

A sombra se vira em direção à Jene, que teve tempo de se preparar. Jene expõe os dentes, a fileira de dentes extras, como a de tubarões, e ataca. Por questão de centímetros não consegue abocanhar o ombro. Outro relampejo prateado, e outra cabeça rolando. O vulto abaixa a mão e um facão de prata se torna visível, cintilando no luar.

Agora que está parada, Jim consegue vê-la melhor. É uma garota, com talvez uns 18 anos. Porte atlético, cabelos negros como breu lisos até a quase a cintura. Roupas totalmente pretas, parecidas com aquelas roupas de combate que os espiões usam nos filmes de ação.

Jim sente os dentes se exporem involuntariamente. O cheiro que vem da garota é delicioso, e Jim se embebeda na sensação de ter aquele sangue em suas veias. E o melhor, a garota está de costas, ainda examinando o cadáver de Jene!

Sem fazer barulho, com um breve movimento, Jim se posiciona e salta, indo diretamente na direção da garota. Ela pressente o movimento e começa a se virar, mas não vai ter tempo de evitar a mordida.

Então Jim escuta um estampido muito alto, e não escuta mais nada.