Caçador
47 Jene faz seu trabalho
Notas iniciais
Nós sorteamos, e eu fico com a garota, Suzzie, que ainda está desaparecida. A família dela mora perto do fim da cidade. Deixo Megan e Jene cada uma na rua da casa de cada família, e vou com o Dodge até o meu “alvo”.
Tenho de aguentar a choradeira padrão. Faço meu papel perfeitamente, demonstro muito tato e coisas do tipo. Sinceramente, não gosto de lidar com as famílias. Ainda mais quando tenho que dar esperanças mesmo sabendo que provavelmente não existem esperanças. É o que mais me tira do sério. Nós, os Caçadores, somos muito poucos. Não conseguimos evitar que humanos morram por causa do sobrenatural. O máximo que conseguimos fazer é impedir que os monstros continuem atacando. Mas é apenas um remendo.
O mais desconsolado é o namorado da vitima. Ele estava com ela no cinema, e fica se culpando por tê-la deixado sozinha. Fico em silencio, sem falar nada sobre isso. Acho que lembrá-lo de que do mesmo não poderia entrar no banheiro feminino não vai ajudar em nada.
Por fim, peço para ver o quarto de Suzzie, para ver se consigo achar mais indicações. A mãe dela concorda em imediato. Mas ao ver o quarto da família, explode num pranto desesperado. Mando ela para o andar de baixo tomar um chazinho, mantendo o suspiro e a irritação muito bem escondidos.
Passo um pente fino na casa, mas não acho nada. Nenhuma indicação de um demônio, fantasma, Daeva, ou qualquer outra criatura que seja capaz de deixar um sinal na casa. Frustrado, me despeço da família e volto para o hotel. Megan chega vinte minutos depois, parecendo desanimada.
— E aí, como foi? — Pergunto. Ela balança a cabeça.
— Nada. Nem um sinal de enxofre, ou seja, sem demônios. Usei o leitor térmico e o eletromagnético. Nada. Fantasma não é. Sem marcas de apodrecimento que indiquem Sthriga, ou o Z dos Daevas. Ou seja, sabemos o que não é, mas não temos ideia do que é. — Megan atira os braços para cima frustrada e se joga na cama. — E você?
— A mesma coisa. — Respondo sem vontade. — Talvez Jene consiga algo.
Mas ela não consegue. Jene aparece meia hora depois, e o resultado é o mesmo do nosso. A conversa com a família não serviu para nada. E toda a minha pesquisa também não. Seja lá quem for, não faço ideia por que escolheu logo a turma cento e sete.
Nossas últimas esperanças são o cemitério. Se não achar nada lá, então vou ter que apelar. Então decido que vamos achar alguma pista.
Chegamos no cemitério um pouco após às onze horas. O lugar está vazio, o que facilita. Então começamos a cavar as covas.
Como sempre, o trabalho é relativamente agradável. Um dos corpos está ali á um mês, e o outro a dois e meio. Então podem imaginar o estado de decomposição dos meus queridos amiguinhos azarados.
Uso um simples feitiço de detecção nos corpos. Mas não acho nada. Isso me assusta. O feitiço deveria dizer se eles tiveram contato com alguma coisa do sobrenatural, mas não aponta nada. Seja do que morreram, foram causas humanas.
— E agora? — Megan pergunta se apoiando na pá.
— Não sei. Não esperava por essa. — Eu falo olhando desconsolado para dentro da cova.
Em meio a resmungos, nós fechamos as covas novamente. Eu tenho que descobrir algum feitiço para cuidar dessas covas. É, definitivamente, a parte mais chata do emprego. Ficar cavando buracos.
Voltamos para o Dodge, e acelero em direção ao hotel, pensativo.
Destranco a porta e entro no quarto, acendendo a luz e jogando as coisas em um canto.
— Humanos. — Murmuro, me jogando na cama. — Que droga.
— Tem certeza, tipo, absoluta? — Megan pergunta se jogando ao meu lado.
— 100%. — Respondo cansado. — Agora eu não sei mais o que fazer.
Olho para Jene. Ela está sentada numa cadeira com a expressão vaga e o rosto meio pálido. Levo alguns segundos para entender.
— Nunca viu um cadáver, certo? — Pergunto para ela.
Jene leva alguns minutos para responder.
— Já, já vi. Especialmente em acidentes, sabe, pistas molhadas e tals. Os motoqueiros costumavam cair muito. Mas nunca vi um naquele estado. — Ela ri fraco. — Acho que não sirvo para legista. Fico imaginando alguém ter que estudar os cadáveres e descobrir como morreu. Deve precisar muito sangue frio.
— Nem tanto. Eu tive de fazer, para me tornar necromante. Você se acostuma depois de um tempo. E o legista... — Eu paro, a ficha caindo com tanta força que vou ficar com um galo. — Ah, merda. Já sei o que é. Pelo menos, tenho um palpite.
Megan me olha, estranhando o quanto fiquei frenético.
— E o que é?
— Preciso confirmar primeiro. — Eu respondo, já me levantando. — Vou convocar Chuck, para ver se meu palpite chega perto. Já volto.
Pesco a minha mochila e saio do quarto, indo para o estacionamento deserto. Pego os ingredientes que faltam no Dodge e vou até uma encruzilhada ali perto, ignorando a hora.
Cavo um pequeno buraco e coloco uma foto minha junto com terra de cemitério e outras coisinhas. Então enterro e fico esperando.
Alguns segundos depois noto uma presença atrás de mim.
— E aí cara? Você me convocando? Caiu e bateu com a cabeça ou o que? — Chuck pergunta.
Me viro para observá-lo. Está usando o antigo corpo, o seu favorito. Um adolescente de uns quinze anos, estatura mediana e cabelos pretos arrepiados. Usa uma jaqueta de basebol, com as mãos nos bolsos, e calças jeans. Um boné de basebol está em sua cabeça virado para trás.
— Preciso de uma informação. — Chuck fica interessado e o sorriso some. Qualquer um poderia confundi-lo com um humano comum, com o rosto inocente, se não fosse os olhos preto puro vítreos. — Duas pessoas morreram e uma está desaparecida, nessa mesma cidade. Os nomes são Eddie Fuster, Eric Lennier e Suzzie Conner.
Chuck fica pensativo por um momento, então balança a cabeça.
— Desculpe cara, nunca ouvi falar. Deve ser caso de humanos, nada da sua área. Eu só consigo descobrir coisas ligadas ao sobrenatural. — Chuck dá os ombros sem se importar. — É só isso?
— Não. Preciso que verifique se uma pessoa já matou alguém. O nome é Frank Albert. Ele é o legista da cidade. Descubra se ele tem algo a ver com a morte desses dois. Quando descobrir me mande um sinal.
Chuck parece curioso sobre o caso. Ele assente uma vez, concordando. Me viro para ir embora. Quando já estou a vários metros, viro a cabeça por cima do ombro e grito:
— E nem tente usar essa invocação para fazer um pacto! Eu coloquei sal dentro da caixa.
Ouço Chuck praguejar, mas noto o bom humor por trás das pragas. Ele não ia fazer do mesmo, mas eu gosto de estar precavido. Volto para o hotel, torcendo para que Chuck descubra logo, e que a resposta seja positiva. Vai me ajudar bastante.
— Não vai contar qual a suspeita? — Megan pergunta quando me vê entrar.
— Hã, não. Não vou. Só depois que eu tiver certeza.
Megan sorri maliciosa e se aproxima, me beijando lentamente. Quando recua a cabeça, morde de leve no canto dos meus lábios.
— E agora? — Ela pergunta, num murmúrio sedutor. Engulo em seco.
— Ah, não. Ainda não. Vai ter que fazer melhor que isso.
O sorriso de Megan aumenta. Ela se aproxima de novo e permanece por alguns segundos respirando em meu rosto, com os olhos focados nos meus. Então em beija novamente, mais demoradamente. Então recua e dá mais dois beijos rápidos.
— E agora?
— Sabe, ainda estou convicto de que você não precisa saber. — Eu falo com um tremor na voz. Frustração lampeja por seus olhos, mas some quase imediatamente.
— Hummm... — Ela ronrona no meu ouvido, então me beija novamente, passando os braços por meu pescoço.
No começo o beijo é lento como antes, mas logo começa a ficar mais intenso a medida que nós dois vamos perdendo um pouco do controle. Coloco uma mão em seus cabelos e a outra nas costas, o beijo se tornando cada vez mais intenso e urgente, atingindo um nível quase selvagem.
Depois do que pareceu muito tempo, mas ainda sim foi muito curto, nos afastamos um do outro, ofegantes. Ignoro os sons de ânsia de vomito que Jene está fazendo. Se ela insiste em fazer comigo, vou me garantir de ficar segurando vela quando nos encontrarmos com Joe de novo.
Me sento na cama, escorado na guarda da cama, ainda ofegante. Megan se senta ao meu lado e se escora em mim. Alguém anda carente ultimamente.
— Não vai contar mesmo? — Megan pergunta um pouco decepcionada, mas não muito.
Solto uma risada rouca.
— Nah... Ainda mais se você vai continuar tentando me convencer usando aqueles métodos. — Sorrio malicioso. Megan franze levemente a testa e se estica para me dar um beijo rápido. — E de qualquer jeito, estou decepcionado. Achou realmente que isso ia funcionar? Você sabe que eu não sou do tipo que enlouquece ao ver um rabo de saia.
Megan dá os ombros, sem querer me acertando uma cotovelada nas costelas.
— Não custava nada tentar. E... — Agora é ela que sorri maliciosa. — Era uma boa desculpa.
Jene bufa alto.
— Eu vou dormir, antes que vocês me façam vomitar. — Ela se levanta e vai até o banheiro. Então enfia de novo a cabeça para fora. — Não esqueçam a camisinha!
Ela fecha a porta imediatamente, fazendo com que o travesseiro que eu atirei apenas atinja a porta, e não ela. Humpf! Vê se eu tenho de aturar, essa fedelha me dando lição de moral.
Ops, estou ficando velho. Ela tem a mesma idade que eu, mas não deixo de considerá-la mais jovem. Estou precisando de umas férias. Er... Minha definição de férias é um pouco diferente da de vocês. É do tipo uma temporada com várias caçadas simples uma atrás da outra.
Bom, mesmo com as piadinhas de Jene, Megan e eu acabamos pegando no sono e dormindo na mesma cama. Embora não tenhamos “dormido” juntos. Ainda.
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