Caçador

48 Quase botamos fogo no quarto


Já passa e muito da hora do almoço quando Chuck finalmente manda a resposta. Estamos no quarto, tentando nos ocupar. Megan está afiando um facão de prata, sentada no chão e encostada na porta. Jene está tentando montar um castelo de cartas em cima da mesa, e eu estou de pernas cruzadas em baixo da janela enquanto limpo o Colt. Tenho todas as balas que sobraram, de Aço de Dragão, no estojo na minha frente. Ao todo, eu tenho agora exatamente quinze balas. Depois disso... Foi um saco conseguir o Aço de Dragão da primeira vez. Nem quero pensar no trabalho que vou ter para conseguir de novo.

Bom, voltando ao assunto...

Uma pequena chama aparece de repente no meio do quarto. Nós três damos um pulo, mas antes que possamos fazer qualquer coisa ela se apaga. Tendo um bom palpite do que é, me aproximo com cuidado. Não dá outra. É a mensagem de Chuck. Apenas quatro palavras:

Ele matou os três.

Me ergo, parando ereto. Um sorriso satisfeito se espalha por meu rosto. Venci.

— Acho que descobriu quem estamos caçando. — Megan comenta casualmente depois de olhar por cima do meu ombro para as queimaduras. — E então, quem é?

Volto a me sentar na cama, ainda com o sorriso. Minha mente está a mil, já começando a planejar tudo. Eu peguei ele, e agora não me escapa.

— O legista. — Eu respondo distraído.

— O legista? — As duas perguntam sem entender. Megan continua: — O legista matou as três vitimas? E se mandou Chuck pesquisar isso... Como sabia que foi ele?

Eu hesito por um momento, procurando as palavras certas.

— Eu não sabia. Foi apenas um palpite. Me perguntei se a autopsia não estaria errada, daí lembrei que ele também estudava naquela turma. Então foi meio que um chute. E Chuck me confirmou.

Megan e Jene se entreolham, com a expressão irônica.

— O que foi? — Pergunto, sendo arrancado dos meus pensamentos e prestando atenção nelas.

— Nada. — Jene responde com um sorriso. — É que, normalmente, os seus palpites...

Ela não termina a frase. E nem precisa, na verdade. Está totalmente certa.

No geral, decidimos visitar o legista nessa mesma noite. Ligo para ele e consigo marcar um encontro no laboratório forense, depois da hora do expediente. Se o lugar estiver vazio, melhor pra mim.

Chego ao laboratório quinze minutos antes do horário combinado. Deixo o Dodge estacionado em frente ao prédio, e nós entramos, levemente armados. Vamos lidar com um humano.

O laboratório fica atrás do hospital, e até que é pequeno. São apenas duas salas, sendo que em uma estão os refrigeradores para os corpos e no outro estão os equipamentos para análise. Eu tenho alguns conhecimentos de química. Era um hobbie antes de eu ser Caçador, e depois se tornou útil. E pelo que posso ver por cima, ela não se interessa apenas em medicina. Mas nada de errado, pelo menos até agora.

O legista está de costas para nós, curvado por sobre a bancada onde um pedaço de carne muito parecida com a traseira de uma vaca está repousada. Ele nota a nossa presença, mas não se vira. Pinga algumas gotas cuidadosamente por sobre a carne. Depois de alguns segundos, ela muda de cor, indo para um tom azulado.

— Exagerou um pouco na mistura. Da próxima, contrabalance melhor. — Eu comento, procurando chamar a atenção dele.

Dá certo. O legista se vira para nós, com uma expressão divertidamente curiosa. Cabelos castanhos e rosto comum, roupas simples por baixo do jaleco branco manchado. Nada de surpreendente.

— Entende de reações químicas? — Ele me pergunta espantado.

— Um pouco. — Respondo sem jeito. — É mais busca pessoal do que estudo normal.

O legista assente lentamente, perdido em pensamentos. Então parece notar Jene e Megan pela primeira vez.

— Prazer, sou Frank Albert, mas podem me chamar de Frank. Sou o legista da cidade.

Megan e Jene respondem o cumprimento, tendo o cuidado de dar os nomes falsos. Fico satisfeito ao notar que Jene lida com tudo muito tranquilamente. Beleza. Sem problema de se enrolar.

— Então, Frank — eu começo, me escorando num canto limpo da bancada e observando-o cuidadosamente. — Foi você que fez a autópsia dos dois garotos da turma cento e sete, não foi?

Frank assente tranquilamente.

— Bem, eu preciso perguntar, por ossos do oficio. Não achou nada estranho na autópsia deles? Nada que queira acrescentar no relatório? Extra-oficialmente?

Frank pensa por um momento, então hesita olhando para a porta. Por fim, solta um suspiro resignado.

— A autópsia inteira foi estranha. As marcas nas costas... Não consegui nem detectar o que perfurou. Diria até que foi deito de dentro para fora. Eu sei que parece loucura, mas... — Ele solta uma risada seca. — Esqueça. Devo estar trabalhando demais.

Sua atitude é calma, mas noto uma leve cintilação de desconfiança no olhos. Me aproveito da oportunidade. Olho de relance para Megan. Ela entende e discretamente se para em frente a porta, bloqueando a saída. Jene vai até a janela e olha por um momento para fora, para logo em seguida ficar de costas para ela, bloqueando-a também.

— Não foi estranho autopsiar os corpos de antigos colegas seus? Eles eram seus colegas, certo?

Frank olha em volta rapidamente, com um pouco de suor se formando acima dos lábios, tenso como um animal encurralado.

— Sim, eram da minha turma de medicina. — Ele olha por sobre o ombro, para onde estão os bisturis e tesouras na mesa. Para o azar dele, ficaram do outro lado da mesa, ao lado de Jene. — Não, não foi tão ruim. Pode parecer estranho, mas na minha profissão, depois de um tempo, ganha-se um certo distanciamento. Eu nem sequer noto realmente quem são as vitimas.

Fico brincando com uma caneta, girando-a nas mãos, enquanto penso. Em partes é para pensar mesmo, mas a maior parte é apenas para mantê-lo nervoso. Decido jogar limpo, sem mais introdução.

— Bom, isso eu posso imaginar. Mas e matá-los, isso também não foi muito estranho.

Frank abre um sorriso nervoso.

— Você está brincando, não é? O que quer dizer sobre “matá-los”?

Observo-o por um momento, com a expressão neutra. Frank parece refletir por um momento, então solta uma gargalhada. Ele se dobra de tanto rir, levando alguns minutos para se endireitar. Espero pacientemente, sem me abalar.

— Então você já descobriu? Foi mais rápido do que pensei. — Frank comenta, limpando lágrimas de riso dos olhos. — Não vai perguntar por que fiz isso?

Permaneço em silêncio, esperando. Acerto em cheio, pois logo Frank começa a falar de novo.

— É, acho que vou dizer assim mesmo. Era uma vingança particular, sabe? Nunca me levaram a sério na faculdade, então resolvi mostrar a eles. Eu...

Antes que ele possa continuar, ergo a mão e disparo em direção ao seu braço. Ele reage, tentando se desviar ao ouvir o som abafado. Então fica olhando desconsolado para o braço esquerdo, onde um dardo está preso.

— Ah, merda. — Ela pragueja em voz baixa antes dos olhos revirarem e ele desfalecer. Cai pesadamente no chão.

— Sonífero. Sempre funciona. — Comento, sem me dirigir a ninguém em especifico.

Megan corre para verificar Frank. Ela levanta a pálpebra do olho direito, e testa a pulsação. Então ergue o olhar para mim.

— Esse aí não acorda tão cedo. O que planeja fazer?

— Ah, eu tenho uma ideia. — Falo perversamente. Tenho mesmo uma ideia. E ele não vai gostar nem um pouco.

Algumas horas depois largo ele na lateral de uma estrada deserta, apenas de cuecas, ainda desacordado. Deixei provas o suficiente no sistema da policia para ele ser incriminado, e também gravei a confissão dele. Agora o único problema vai ser achá-lo.

Dou a partida e fico vendo pelo retrovisor Frank deitado na beira do asfalto, com a boca ligeiramente aberta e babando. Me pergunto brevemente quanto tempo vai levar para acordar, e como vai reagir quando acordar.

— Que milagre — Megan comenta —, você não ficar curioso para saber os motivos por completo e como ele fez. O que deu em você para acabar com ele de primeira?

Dou os ombros.

— Tava ficando chato. Já é a segunda vez só esse mês que lidamos com algum maluco que não suportava sofrer bullying na escola, e então enlouqueceu. — Eu reclamo. — Eu sofria bullying na escola, mas não saí por aí fazendo pactos com demônios ou aprendendo a atirar para poder me vingar. Gente mais sem noção.

Megan reprime um sorriso e olha pela janela. O sol está começando a nascer. Em breve teremos de parar para dormir, mas por enquanto vou aproveitar e pisar fundo. Aumento o som do rádio, que está no meio de uma música do AC/DC.

We salute you, c'mon
For those about to rock, we salute you
For those about to rock, we salute you
For those about to rock, we salute you
For those about to rock, we salute you
Shoot, shoot!
Shoot, shoot!

Depois de algumas horas rodando, paramos em um hotel do estilo beira de estrada. O lugar é até meio decrépito, mas pelo menos temos um teto em cima da cabeça. E a água que tinha na recepção... Bom, parece cuspe de lobisomem. E não queiram saber como eu sei o gosto de cuspe de lobisomem.

Mesmo sendo cerca de quatro horas da tarde, decidimos tirar um cochilo. Passamos a noite em claro. Mas antes tenho o cuidado de lacrar o quarto. Chaves de Salomão em frente a porta e as janelas, e linhas de sal nas mesmas. Deve dar pro gasto.

Curiosamente eu fico sem sono, me mantendo acordado. Logo Megan e Jene adormecem, mas eu fico acordado escutando a respiração delas. Um pequeno arrepio passa por minha espinha.

O que diabos está acontecendo comigo?

Estou prestes a me levantar e pegar uma Coca, para ver se a cafeína me acalma (sim, cafeína me acalma, em vez de me deixar mais elétrico), quando a porta se abre num rompante. Me sento na cama e vejo o dono do hotel entrando. Ao abrir a porta, acabou desfazendo a linha de sal.

— Mas o quê? — Eu começo a perguntar, sem entender. O dono do hotel me ignora e se abaixa, raspando a linha da Chave de Salomão no chão. — Ei! Pare com isso!

Tento me levantar, mas então caio na cama, zonzo. Minha visão começa a embaçar e rodar. Tento me levantar de novo, mas os braços e pernas não respondem. Noto com alguma parte da minha mente que é estranho Megan e Jene não terem acordado com o barulho da porta. Jene até vá lá, mas Megan tem o sono mais leve que eu.

O dono do hotel sorri e se afasta para o lado dizendo:

— O sonífero funcionou, Mestre.

— Eu sei que funcionou, seu idiota. — Uma voz rouca responde, e alguém entra no quarto.

Tento focar seu rosto. Não consigo ver direito, minha visão ficando cada vez mais embaçada. Por fim, desmaio. Mas ainda consigo ver uma última coisa antes de perder os sentidos.

O homem se curvou na minha direção com um sorriso, os olhos cintilando.

Olhos amarelos.

Notas finais
Suspense... O que será que vai acontecer agora? PS: Escrevi metade desse capitulo quinze minutos atrás, ou seja, está quentinho para vocês.