Caçada
21 Mar e Sol da Manhã
Notas iniciais
Quantas sensações diferentes uma pessoa pode sentir em poucos segundos?
Naquele belo pôr-do-sol, eu sentia tudo o que um beijo poderia causar a uma pessoa, e descargas elétricas faziam com que minha pele se torna-se mais sensível aos toques do corpo de Kishan em mim.
Nada mais importava para mim naquele momento, nem nossas roupas molhadas e coladas, nem o fato de ainda estarmos dentro daquele rio de águas claras e muito menos a dor que latejava por todo o meu corpo, pelas ferroadas de abelhas que eu havia recebido.
Minha mente e meu coração só conseguiam captar um único movimento, e era os dos lábios de Kishan sobre os meus, das nossas línguas travando uma batalha apaixonante, do gosto único e forte que sua boca tinha e dos nossos corpos em completa harmonia.
Seus braços agarravam meu corpo de modo forte e protetor, como por precaução para que eu não saísse de perto dele tão fácil. Não que eu pretendesse fazer aquilo tão cedo. Minhas mãos dançavam em seus cabelos negros e molhados, puxando-o para mais perto de mim ao mesmo tempo que eu tentava ao máximo ficar da altura de Kishan, apenas para intensificar ainda mais nosso beijo.
A respiração quente e o perfume forte de madeira de Kishan, me faziam praticamente derreter em seus braços, enquanto nossos corpos roçavam seguindo o movimento de nossos lábios.
Tudo era perfeito, e nada podia estragar aquele momento, que eu acabei descobrindo estar imaginando ele a mais tempo do que eu pensava.
Eu simplesmente amava o homem que me embalava nos braços naquele momento, que transformou minha vida no momento em que coloquei meus olhos nos seus olhos de pirata, e que estava me fazendo sentir coisas que eu nunca senti com ninguém, sensações novas de deliciosas.
Acima de tudo, Kishan me fazia completa, de um jeito que eu não estava desde a morte de meus pais.
Passei minhas mãos pelos seus ombros largos, descendo-as até seu peito musculoso marcado pela camisa preta colada, e um pequeno gemido escapou de meus lábios, fazendo com que Kishan apertasse com mais força minha cintura e sorrisse em meio ao nosso beijo.
Meu pulmão já gritava por ar, e eu já não conseguia sentir meus lábios, além do fato de Kishan não ter muito tempo como humano, portanto, contra a minha vontade separei nossos corpos alguns milímetros, apenas para encerrar nosso beijo.
Percebi que minha respiração estava arfante, e meu peito subia e descia com uma velocidade incrível, enquanto um sorriso enorme se formava no rosto de Kishan.
− Bilauta... – Sua voz mais rouca que o normal me fez perder a cabeça, e senti minhas bochechas corarem ao mesmo tempo em que Kishan acariciava meu rosto com o nariz, deixando alguns beijos em minha bochecha, queixo e indo até o ouvido, mordendo meu lóbulo. – Você tem um cheiro maravilhoso de mar e sol da manhã.
− Isso é bom, tigre? – Perguntei, soltando uma pequena risada nasal, acariciando seu rosto forte e marcado.
− É só mais uma coisa que eu amo eu você. – Sua resposta me faz sorrir largamente, abaixando o rosto para minha própria camisa molhada, envergonhada por ouvir aquelas palavras, mas se alguém perguntasse como eu estaria, eu diria que me sentia em um safari, pois milhares de elefantes pisoteavam meu estômago.
− Vou querer saber das outras coisas depois. – Disse, deixando um soquinho fraco em seu ombro, fazendo com que ambos soltassem uma risada baixa.
Um pequeno silêncio caiu sobre nós, onde cada um se perdeu em seus próprios pensamento, e tudo o que eu conseguia fazer era encarar aqueles belos olhos dourados que me observavam com carinho, fazendo com que a vontade de gritar, o que se acumulava em meu coração, aumentasse.
− Eu sempre soube que você era especial, Mia. – Kishan murmurou para mim, segurando meu rosto com uma das mãos e fazendo nossas testas se encontrarem, e acariciando minha cintura com a outra. – No momento em que você foi até minha tenta e se abriu comigo, eu soube. E eu só queria dizer que eu...
Meu coração martelava no peito esperando por aquelas palavras, apenas para que eu pudesse corresponde-las da maneira que Kishan merecia, mas no momento em que senti a mão dele escorregando até minha coxa, uma dor aguda tomou conta do meu corpo, fazendo com que um grito de dor escapasse de meus lábios, calando-o por completo.
Minha visão se tornou turva pela dor, e alguns círculos pretos começaram a tomar meu campo de visão, enquanto todo o meu corpo ficava entorpecido pela dor que eu havia esquecido pelos longos minutos que nosso beijo durou, mas eu podia sentir os ferrões das abelhas em minha carne.
− Kishan, minha perna... – Tentei falar de forma normal, mas a dor apenas fazia com que eu soltasse grunhidos. – As picadas das abelhas, estão doendo!
Tudo o que vi depois, foram os braços fortes de Kishan me pegando no colo e colocando os meus em volta de seu pescoço, seus lábios foram até minha testa em um beijo terno enquanto eu me revirava contra seu peito.
− Tudo vai fica bem, bilauta. – Ele sussurrava milhares de vezes, intercaladas com algumas frases em híndi que eu não entendia, ao mesmo tempo que nos tirava da água e corria em direção ao nosso pequeno acampamento na campina.
Outro grito saiu de meus lábios, quando Kishan colocou-me deitada em cima de um saco de dormir dentro da grande barraca e minhas mãos voaram para a minha coxa, onde a dor era mais intensa. Meu corpo estava extremamente quente, mesmo todo ele molhado com a água do rio e o vento gelado que já começava a soprar para dentro da barraca, e eu podia sentir minha testa suando.
Virei o rosto para Kishan, e meus olhos azuis elétricos encontraram com os seus dourados, e eu podia ver uma nota de desespero neles, enquanto o mesmo buscava em minha mochila a bolsa com algumas coisas que senhor Kadam havia colocado para primeiros socorros.
− Você vai ficar bem, Mia. – Ele repetiu mais para si mesmo do que para mim, enquanto voltava para meu lado, afastando minhas mãos da região machucada. – Eu era ótimo em fazer curativos antes da maldição, quando meu pai nos mandava para alguma batalha, eu sempre cuidava dos soldados feridos, com as mais diferentes ervas da Índia.
Sabia que ele falava aquilo apenas para me distrair da dor de minha perna, enquanto ele pegava um pequeno rolo de gaze, álcool e uma pomada que eu nunca tinha visto antes, limpando a região com um pequeno paninho, olhando em volta como se procurasse por algo, antes de desferir algumas palavras em híndi, que eu tinha certeza serem xingamentos, e retirar a camisa preta ensopada de seu corpo.
− Mia, segure isso e caso você sinta muita dor, morda-a, certo? – Ele olhou fundo nos meus olhos, e eu poderia ter me perdido neles ou até na visão de seu peito moreno descoberto e molhado, mas a dor da ferida não me fazia pensar com clareza, mas tudo que fiz foi acenar com a cabeça, sentindo minha respiração entrecortada. – Eu vou retirar o ferrão e fazer um curativo.
Uma pequena sensação de alívio tomou conta de meu corpo, quando os dedos ágeis de Kishan retiraram o ferrão que havia deixado uma grande região vermelha em minha perna, mas logo ela foi tomada por uma dor horrível que me fez gritar e agarrar a camisa preta com as unhas, quando o álcool escorreu pelo pequeno machucado.
− Kishan... – Meus pensamentos desconexos não me deixavam formar alguma frase correta, mas meu tigre apenas balançava a cabeça, em um pedido para que eu ficasse em silêncio.
A pomada que veio logo em seguida, deixou o machucado latejando de uma forma incômoda, mas a dor já começava a diminuir constantemente naquela região, e quando percebi, Kishan já amarrava com força a gaze em minha perna, acabando com o curativo.
− Precisamos tirar os outros ferrões do seu corpo. – Ele murmurou, ainda impaciente e agitado, deixando um beijo quente em minha bochecha, mas assim que ele segurou meu braço para examinar os machucados ali, um ofego escapou de seus lábios, e eu soube que seu tempo havia acabo. – Droga! Agora não, agora...
− Kishan. – Seu rosto virou para mim, enquanto se contorcia em uma careta. – Eu já posso fazer os outros curativos, a dor já diminuiu.
− Você é forte, Mia, sei que consegue. – Ele abriu um pequeno sorriso para mim, enquanto seu corpo sofria pequenos espasmos. – Tire o ferrão rápido, e jogue o álcool imediatamente para não infeccionar, limpe-o e passe a pomada, depois coloque a gaze.
− Obrigada, meu tigre. – Murmurei, puxando-o rapidamente para que nossos lábios nos encontrassem uma última vez, em um beijo rápido, e assim que nos separamos, o homem deu lugar ao grandioso tigre negro, que me encarava tristemente com os olhos dourados.
Passei a mãos pelos seus pelos macios da cabeça, apenas para passar alguma confiança para ele, apoiando-me pelos braços e mordendo o lábio inferior com força, quando tentei ao máximo ficar sentada ereta, para terminar de tirar aqueles malditos ferrões das abelhas mau humoradas.
A dor ainda se espalhava por meu corpo, mas não queria fazer caretas para que Kishan, que parecia impaciente ao meu lado, balançando a calda e rugindo a cada ferrão que eu tirava, ficasse mais nervoso do que já demonstrava.
− Que dia complicado o de hoje. – Murmurei, balançando a cabeça enquanto amarrava o último pedaço de gaze ao redor de meu pulso esquerdo, acabando com todos os curativos de meu corpo. – Me lembre de nunca mais pisar em uma colmeia.
Meu corpo todo agora doía de cansaço, e eu mal conseguia manter meus olhos abertos por muito tempo, sendo tomada pelo sono. A noite já havia chego, e agora um frio irritante invadia a nossa barraca, fazendo-me tremer devido às roupas molhadas, mas muito cansada para trocá-las.
Estiquei o braço apenas para fechar a porta da barraca, pois alguns minutos antes, Kishan havia se encarregado de apagar a fogueira, para não chamar atenção de nenhum animal noturno. Amarrei meus cabelos em um coque frouxo, e me espremi para dentro do saco de dormir, rezando para que ele esquentasse rapidamente.
Assim que minha cabeça se aconchegou no travesseiro ralo do saco de dormir, um gemido de prazer me escapou, por finalmente conseguir algum descanso depois do dia maluco que enfrentamos.
E tudo porque ainda era o primeiro dia de caminhada em busca do velho mago excêntrico, que fazia questão de morar no coração da floresta indiana.
Procurei os olhos dourados de Kishan, e os encontrei alertas, olhando-me com cuidado e estudando cada parte do meu corpo, por dentro do saco de dormir, atentamente, como se o mínimo movimento pudesse desencadear algo terrível. Eu podia ver o quão preocupado ele estava comigo, e apenas sorri de forma carinhosa, estendendo a mão para ele se aproximasse.
− Eu já estou bem melhor, Kishan. – Murmurei, em meio à um bocejo. – Só preciso de umas boas horas de sono para ficar nova em folha.
Kishan arrastou o corpo até que estivesse deitado ao meu lado, estudando-me de perto, enquanto eu sentia o calor emanando do tigre para o meu corpo gelado. Sorri timidamente, passando a mão por suas orelhas felpudas enquanto sentia seu focinho tocando meu nariz rapidamente, como ele sempre fazia antes de eu dormir.
− Não sei o que faria sem você, Kishan. – Sussurrei, como se fosse um segredo. – Você é o melhor, obrigada.
Um pequeno ronrono começou a ser emitido pelo tigre em minha frente, antes de eu acaricia-lo mas uma vez, para finalmente ajeitar-me no saco de dormir e sentindo minhas pálpebras se fechando pesadamente.
E eu não tinha certeza se eu estava sonhando, ou realmente aconteceu, mas depois de um tempo, quando e já estava em estado entorpecida de sono, sem ter muita certeza de que horas da madrugada já eram, eu podia jurar que senti dedos quentes tocando minhas bochechas coradas, e lábios cheios beijando minha testa antes de sussurrarem em meu ouvido.
“Eu amo você, bilauta. ”
Continua...
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