Caçada

27 Três Deusas.


Meio hesitante, contei-lhes meu plano. As três ficaram cada vez mais sérias e emburradas enquanto eu lhes contava meus pensamentos. Na verdade, eu não tinha nem ideia de que receberia ajuda das três. Hera? Ela parecia ser apenas a esposa vingativa de Zeus. Atena? Até poderia pensar em alguma coisa como aquela, mas mesmo assim... E Afrodite? Não querendo julgar ninguém, mas eu não conseguia imagina-la num plano daqueles. Com toda certeza poderia quebrar uma unha.

- Você tem a noção do que esta falando a nós, Penélope? – perguntou uma Atena muito séria.

Mordisquei um pouco os lábios, meditando.

- Tenho absoluta certeza. É a única maneira de conseguir. – respondi.

- Não há mesmo um jeito de ganharmos, não é? – Afrodite parecia angustiada.

- Não. Não podemos salvar aqueles com o sangue puramente mortal.

- Mas você realmente acredita que a outra parte do plano seja verdadeira?

- Absoluta, minha senhora.

Hera deu um longo suspiro.

- Isso vai ser difícil, mas não impossível. O problema é como podemos persuadi-lo a ficar do nosso lado. – murmurou ela.

Os olhos de Afrodite estavam abaixados, como se ela tentasse esconder alguma coisa. Parecia que eu não fui a única a perceber.

- Tem alguma ideia do que possamos fazer, minha cara Afrodite? – perguntou Atena, olhando para a mais bela das três.

- Talvez... – resmungou Vênus, mordendo os lábios.

- Conte-nos sua ideia, então.

- Eu não sei se pode dar certo, é só que... Bom, há uma maneira. Podemos prendê-lo a um objeto do qual alguma de nós tenha absoluto poder.

“Ele seria obrigado a servir esse alguém e não poderia, de jeito nenhum, desobedecer.”

Assim que ela disse aquelas palavras, todas estavam com um olhar de compreensão. Enquanto eu olhava incrédula. Como alguém que só se preocupa com o cabelo, com as unhas e com as roupas poderia ter uma ideia como aquela?

- Mas para quem ele deveria servir? – perguntei.

Todas me olhavam como se eu fosse de outro mundo ou muito idiota para ver a razão.

- Sério isso? – perguntei, com sarcasmo na voz.

Ah tá. Então as três deusas que mais aparecem nas historias, as três deusas que causaram a Guerra de Troia queriam que eu, uma escultura de gelo que andava, falava e tinha a alma de Zoe, iria ser a dona de um dos seres mais cruéis que já haviam habitado a terra?

- Mas por que deveria ser eu? – resmunguei.

- Porque você não aparenta ser alguém que iria abusar do poder.

- Claro que não. Você tem a alma de Zoe, a Grande Caçadora que foi muito sabia, como Artemis muitas vezes nos havia dito.

Ergui as sobrancelhas e olhei para o horizonte, enquanto pensava.

Ora essa, por que deveria ser eu? Por que justo eu?

Droga, minha mãe não podia ter feito como uma deusa normal? Ido até a casa de um mortal, seduzi-lo, leva-lo para cama e dali nove meses mandar um berço de ouro para o mortal onde tinha um pequeno bilhete dizendo “Parabens, você é papai! Conheça sua criança, ela é uma linda menina!!!!!”

Mas claro que ela não fez isso. Ah não. A senhorita-não-me-misturo-com-essa-gentalha tinha que fazer um ritual macabro, onde esculpia uma criança feita de gelo, prendia a alma de alguém na escultura e ainda por cima usava o sangue de um mortal, para que o bebê não viesse a ser completamente imortal.

Ainda não entendo esses merdinhas de deuses.

Senti uma mão em meu ombro e me deparei com Atena, me olhando.

- Penélope Summers, você não é obrigada a fazer isso. Só pensamos que deveria ser você, já que o começo de tudo isso é por sua causa e porque a Profecia se refere a você e não a Deusa do Amor, ou a da Sabedoria ou até mesmo a do Casamento. Podemos ajuda-la, tal como seus amigos estão ajudando.

“Mas não podemos tirar das suas costas a escolha de salvar a humanidade”.

Ela realmente estava fazendo eu me sentir melhor. Nem sei porque eu não me matava logo de uma vez. Ah sim, eu ainda era imortal por culpa de ser uma caçadora. Que mierda. Por que eu tive que me comprometer a Caçada? Melhor ainda, por que eu tive que viver?

Vida cruel.

- Está em suas mãos a escolha, minha querida. – disse Afrodite, delicadamente.

E, para piorar a situação.

- Você escolhe se quer ou não salvar os mortais. – falou Hera.

Dei um suspiro ainda meditando.

Nunca havia dito uma amiga mortal. Na verdade, parecia que todos os mortais me odiavam com todo o fervor. Talvez seja por eu ser filha de Despina, e a maioria dos mortais odeia o frio. Ou talvez por eu for filha da deusa mais anti-mortais que existe no mundo. Ou porque sou estranha.

Olhei para as três figuras ali. Uma mostrava o lado da fidelidade da mulher, sua fertilidade e o amor pela casa, pelos filhos e pelo marido. Era estranho Hera sempre perdoar Zeus por suas traições. Apesar de dizerem ser vingativa, ainda sim era muito fiel ao marido.

Do outro lado, mostrava a forma guerreira da mulher. Me surpreendia ver que Atena era mesmo uma grande guerreira, batalhando e fazendo estratégias para sobrevivência. Tenho certeza que muitas mulheres eram assim.

E do outro, o lado delicado de uma mulher. Sua beleza, sua feminilidade. Mas até mesmo o lado delicado tinha que pensar como uma guerreira. Afrodite parecia ser tão frágil ali, perto das duas deusas, mas continuava sendo importante e sua beleza a tornava forte, de uma maneira estranha.

Suspirei e olhei para o lado.

- Você aceita os termos, Summers? – perguntou Hera.

Mordi os lábios enquanto pensava sobre o assunto. Logo, assenti com a cabeça.

- É necessário fazer um juramento. – aconselhou-me Atena.

Ergui uma mão e as olhei atentamente.

- Juro que irei até o lado mais obscuro do Tártaro procurar por ele. Procurarei cada canto, se for o que tiver que ser. Irei aprisionar Cronos e torna-lo meu servo para me ajudar a reconstruir a humanidade.

“E se eu não cumprir esse juramento, irei virar pó e serei aprisionada nos Campos da Punição”