Caçada

26 Na Sala dos Deuses.


Revirei os olhos e depois fiquei séria.

- Senhor, venho fazer-te uma proposta. Na verdade, uma proposta a todos vós aqui, presentes. – comecei, olhando todos os deuses que estavam sentados em seus tronos.

- Que tipo de proposta, Caçadora? – perguntou alguém que presumi ser Hermes.

- Uma forma de acabar com essa guerra estupida. – respondi.

- Está dizendo que a guerra a qual estamos prestes a guerrear é estupida? – perguntou Ares, furioso.

- Ah, claro que sim, caro Deus da Guerra. Embora a vossa causa seja de suma importância, presumo eu que vós estais esquecendo-se de chamar reforços. –falei, como se aquilo fosse sem importância.

- Acha que não chamamos reforços, Penélope? – perguntou Hera, sombriamente.

- Está a chamar os reforços errados, minha Deusa.

- Como assim reforços errados? – perguntou uma Atena, furiosa.

- Vós não estais a pensar o quão errado pode ser chamar feras contra os primordiais.

- Eles são nossa ultima esperança. – murmurou um Dionísio que aparentava tédio.

- Não, não são. Ainda há outros.

- E quem seria esses outros, Penélope? – perguntou Zeus, que agora pude ver, parecia mais furioso do que Ares e Atena. Tentei parecer firme em meu lugar, respirando fundo para acalmar meus joelhos, que só tremiam.

- Os Titãs. – respondia séria, dando um minúsculo sorriso.

- Fu...- começou Apolo mas, antes que eu pudesse olhar para ele, senti uma coisa estranha vindo em minha direção.

Como explicar? Era como se todo o meu corpo estivesse sido molhado pela água mais gelada de todo o mundo. E aquilo entrava em meus ossos e até mesmo dentro dos fios de meus cabelos. Senti quando tudo em mim começou a arrepiar, de frio e de medo, mas nada realmente me machucou.

- Como você conseguiu?!- gritou Zeus para mim.

A sensação tinha ido embora, mas meus pelos e meus cabelos continuavam arrepiados. Penso até que eu estava parecendo James, que tinha pulado do colo de Thalia.

Olhei para Zeus sem qualquer expressão de medo, ou de qualquer outro tipo de reação.

Ergui a mão direita e deixei com que o minúsculo raio saísse de minhas mãos, brilhasse, e depois voltasse para o lugar.

- Maldita benção. – resmungou Zeus.

- Percebeu a blasfêmia que você acabou de dizer, não? – perguntei, fazendo uma careta.

- Penélope, não venha com suas gracinhas. – alertou Apolo. Quando me virei para encarar aquele ser, vi que ele tinha um sorriso nos lábios. Aquilo me fez querer, sei lá, cair no chão e começar a implorar para ele dirigir mais sorrisos daquele jeito para mim. Foi quando senti uma mão em meu ombro e vi que Sebastian sorria para o pai, mas de um jeito meio demoníaco.

Cara... Eu to sendo disputada por pai e filho? Que tipo de putaria é essa?

- Sebastian, meu querido filho. – cumprimentou Apolo, com aquele sorriso caloroso.

- Papai. – respondeu o filho simplesmente, sem se dar uma de bom filho de papai, correr nos braços do Deus e começar a gritar o quanto ele sentia sua falta. Realmente...

Realmente, preciso parar com esse meu cinismo, sarcasmo e com a minha ironia.

- De qualquer modo. – falei, tentando mostrar que tinha ignorado o que havia acabado de acontecer. – Podemos tentar, ao menos.

- Por que acha que essa sua ideia de homicida é boa, Penny? – perguntou Ártemis.

- Porque, Lady Ártemis, é o único jeito. Até mesmo vocês percebem que é uma batalha com a causa perdida.

- Mas podemos acabar com os primordiais e continuar com os mortais.

- E por que acha que isso possa acontecer, Deus Hermes? Muitos não acreditam mais em vocês. Muitos de vocês foram esquecidos.

- Eles são nossa fonte de energia.

- Não são só eles.

- Então quem mais é nossa fonte de energia, minha cara?

Fiquei calada por um momento, observando e meditando sobre a pergunta de Ares. Olhei então para o deus da guerra e dei um enorme suspiro.

- Não sei. – respondi, por fim.

- Então queria uma reunião com todos nós, sendo que você própria não sabe a resposta? – perguntou Afrodite, incrédula. O que era estranho, já que desde que eu havia chegado ali, ela estava quieta.

- Não é exatamente assim... –comecei, mas fui interrompida por Hefesto.

- Então é como, Penélope Summers? Acha que, só porque você é a única filha de Despina e que tem a alma de Zoe, significa que você pode ser mais do que qualquer outro semideus?

- Não é assim, senhor Hefesto. Não estou tentando ser mais do que ninguém. Só estou tentando ver uma maneira.

- Que maldita maneira? – perguntou Hades.

- Uma maneira de continuar viva. Uma maneira de até mesmo salvar vocês. Caso não tenham percebido, estão colocando todos nós em perigo. Isso vai matar não só aos mortais, mas também aos imortais e aos quase imortais.

- Você está nos insultando, Penélope?

- Não, meu querido Zeus. Eu estou lhes dizendo que há uma maneira sim de tentarmos arrumar tudo isso.

- E como? Você própria disse que não podemos salvar os mortais.

- E não podemos. Mas isso já aconteceu antes, não?

- O que você está insinuando?

- Que podemos criar uma nova raça de humanos, ora essa!

Todos ficaram calados e pude sentir a raiva, tensão de todos presentes. E também, medo. Medo do desconhecido. Medo de tentar criar esperanças falsas que uma menina feita de gelo está lhes propondo.

- Escutem, sei que todos vocês não querem acreditar em mim, só porque minha mãe é um ser abominável que fez coisas erradas com muitas pessoas. Sei disso, ok? Mas não podemos julgar as pessoas pelos seus parentescos. Muitos presentes aqui são prova disso, não?

Olhei atentamente para os Três Grandes.

- Penny, cara... Você tá se metendo em encrenca. – ouvi Sebastian dizer. Dei de ombros.

- Podemos arrumar um jeito. Mas se quiserem se matar em uma guerra já perdida, nada posso fazer a não ser me retirar de vosso caminho. – dito isso, peguei James no colo e sai da grande Sala.

Na verdade, eu estava com muito medo. E se eles tentassem me matar, naquele exato momento? Droga. Por que eu tenho que ser tão... tão... Afê.

Ouvi passos me seguindo e caminhei mais rápido, com medo de que, caso eu virasse, alguém me mataria.

- Penélope, espere!- ouvi alguém dizer. Por fim, virei e dei de cara com uma pessoa que eu realmente pensei que nunca iria me seguir. Na verdade, três pessoas. Olhei para cada uma delas.

- O que vocês querem? – perguntei, ainda sem entender.

- Você não tem uma solução? – perguntou Atena, me olhando atentamente.

- Talvez... – comecei, mas fui novamente interrompida.

- Nós sabemos que você tem. Deixou isso bem claro. Pudemos perceber que você mentiu para Ares. – disse Hera.

- Nos ajude, Penélope. – pediu Afrodite, com aqueles olhos azuis que cintilavam tanto que quase me deixaram cega.