Cave

5 O dia em que perceberam sua ausência


Notas iniciais
Oiii gente linda, por pouco eu não posto o capítulo hoje, já que eu não tinha conseguido finalizá-lo! Mas uma leitora veio cobrar o capítulo no twitter e eu dei uma corrida pra terminá-lo, e consegui! Uhul! Então, muito obrigada leitora! hehe ♥ Quem quiser me seguir no twitter pra me xingar caso eu demore a postar, eu sou a @thewhitefoxie lá, ok?! Espero que gostem, boa leitura!

Lucy levara suas duas mãos às próprias bochechas quentes e rubras incontáveis vezes ao longo do caminho de volta para casa. Era um gesto inconsciente que demonstrava o quanto ficava encabulada toda vez que revivia em sua mente as cenas de quando despertara naquela manhã.

A manhã em que ao invés de seu velho colchão de palha, ela tinha seu corpo deitado sobre uma pilha de folhas secas e quebradiças. A manhã em que ao invés de se manter aquecida por seu velho cobertor gasto, um corpo forte e musculoso cumpria esta função. A manhã em que ao invés de estar com a cabeça apoiada em seu surrado travesseiro de penas já moles e abarrotadas, tinha como apoio um braço firme e protetor.

Ela lembrava-se perfeitamente de ter dormido ao lado dele, mas não fazia nem ideia de qual havia sido o momento em que ela havia se aconchegado daquela maneira em Natsu. Ele apesar de adormecido, a abraçava com delicadeza pela cintura e tinha seu rosto afundado em seus loiros cabelos, e Lucy não fora capaz de se mover por quase meia hora mesmo depois de ter despertado, procurando alguma maneira estratégica de sair dali sem acordá-lo e, ao mesmo tempo, tentando entender como aquilo tudo acontecera.

E em mais nada além disso ela era capaz de pensar sobre.

O calor instigante do corpo dele, o cheiro selvagem que desprendia daquela pele levemente bronzeada, a respiração morna que fazia os fios loiros da franja de Lucy balançar num ritmo contínuo que parecia acariciar-lhe a testa.

Ela teve que reunir muita coragem até ousar largar aquilo tudo para ir trabalhar na plantação da família, já que sua vontade era ficar lá por tempo indefinido. Ela particularmente gostaria de ver a reação dele ao acordar daquela maneira com ela. Não conseguia deixar de divertir-se com o pensamento de que ele ficaria tão encabulado quanto ela, mas no fundo também estaria imensamente satisfeito com o conforto daquele abraço que durara toda uma noite.

A maior possibilidade seria de ele acordar assombrado com aquele acontecimento, lançando-se para longe dela assim que se desse conta da proximidade deles, mas ela preferia fantasiar sobre a primeira possibilidade.

A julgar pela altura do sol, Lucy percebeu que ainda era cedo, mas provavelmente todos da casa já teriam acordado e saído para fazer seus afazeres diários, ou ao menos assim ela esperava. Como costumava sair de casa antes de todos acordarem para ir até a caverna de Natsu, imaginou que eles não estranhariam sua ausência.

Passou por entre as casas de seu vilarejo como se nada de incomum estivesse acontecendo em sua vida, dando bom dia para seus vizinhos e distribuindo pequenos cafunés nas crianças que brincavam na rua e vinham cumprimenta-la enquanto passava.

Ao finalmente chegar em sua própria casa, arrastou a pesada porta de entrada de madeira que estava entreaberta e foi direto à cozinha procurar algo para comer, já que seu estômago roncava cobrando pelo café da manhã. Natsu provavelmente também acordaria faminto, e como ela agora trabalhava apenas de tarde, ela juntaria algumas coisas para levar a ele ainda pela manhã, por mais encabulada que estivesse ao pensar em reencontrá-lo após os últimos acontecimentos.

Deteve-se logo após seu primeiro passo para dentro da cozinha ao deparar-se com Gray, sentado na grande mesa retangular onde faziam todas as refeições, porém sozinho, molhando pedaços de pão seco em uma vasilha com um patê de ervas.

Ele lhe dirigiu o olhar por não mais do que dois segundos, e Lucy sentiu certa hostilidade no breve contato visual que teve com ele, e a loira permaneceu parada enquanto observava ele voltar a prestar atenção em sua atual refeição.

Ela não entendera qual fora o sentido daquele olhar estranho, então sem perceber, ficou encarando-o, confusa.

— Eu também moro aqui, Lucy. – Murmurou Gray entre as mastigadas.

Lucy pestanejou, esperando por uma explicação que não veio.

— O que?

Ele girou os olhos e bufou, largando o resto do pão que tratava de comer em cima da mesa, parecendo ter perdido o apetite de repente.

— Estás parecendo tão surpresa ao me ver tomando café da manhã que parece ter esquecido que eu moro com vocês há anos... – Explicou sem vontade, e sem voltar a fita-la.

— Ah. Desculpa, eu imaginei que não teria ninguém em casa, só isso. – Respondeu baixinho, um tanto encabulada. Gray era geralmente gentil e brincalhão com ela o tempo todo, então a reação atual dele a estava deixando cada vez mais confusa.

Deixando isso de lado e torcendo para que não passasse de um mau-humor matinal, Lucy foi até o outro lado da cozinha e pegou algumas frutas para seu desjejum. Hesitou um pouco antes de sentar ao lado de Gray na mesa, ponderando se não seria melhor dar-lhe um pouco de espaço naquela manhã, mas decidiu que se sentaria do outro lado da mesa e apenas ficaria em silêncio enquanto se alimentava.

A falta de diálogo pesava no ambiente, e Lucy se sentia desconfortável. Algo estava errado, mas ela não ousava perguntar o que era. Gray parecia claramente tenso e voltava a esmagar os pedaços de pão dentro do pote de patê com agressividade, e os engolia sem sequer mastigar. E foi por isso que ele inevitavelmente engasgou depois de algum tempo fazendo isto.

— Gray! — Lucy imediatamente levantou-se e foi até ele, dando tapas firmes no meio das costas do moreno que tossia copiosamente, tentando ajuda-lo. Após alguns instantes de agonia e muita tosse, ele parecia finalmente ter se livrado do pedaço de pão que entalara em sua garganta, e Lucy pôde suspirar aliviada. – Que susto! Mastigue melhor antes de engolir, tu estás comendo feito um animal!

Ele franziu o cenho em uma careta irritada, fazendo Lucy recuar um pouco dando um par de passos para trás. Os olhos dele estavam úmidos por conta do engasgo, mas seu olhar era firme e incisivo enquanto a encarava com ferocidade.

— Onde é que tu estavas nesta noite, Lucy?

O corpo de Lucy congelou na posição em que estava no momento ao ser confrontada assim tão diretamente e seu queixo caiu, deixando-a boquiaberta e incerta de como reagir. Como foi que ele soube que ela havia passado a noite fora?

Lucy procurava por uma mentira plausível que pudesse dizer a ele, mas não conseguia pensar direito enquanto ele a encarava daquela maneira. Engoliu em seco e sentiu suas bochechas esquentarem ao lembrar-se novamente de como tinha sido sua experiência de despertar naquela manhã.

Mas não poderia contar isso ao Gray de maneira alguma, tinha que pensar em alguma outra coisa, e não permitir que seu próprio corpo a denunciasse. Abaixou o rosto para que seu cabelo escondesse o rubor de suas maçãs e procurou recompor sua compostura.

— Como é que...

— Não me enrole, Lucy. – Cortou a pergunta da outra, bufando logo em seguida em deboche. – Eu estava preocupado contigo ontem depois de te encontrar desmaiada no meio da horta. – Pausou, abaixando seu tom de voz, um tanto encabulado e desviando o olhar para o chão. – Acordei no meio da noite para tomar um copo d’agua e decidi ir ver se estava passando frio já que estava ventando tanto durante a madrugada... Pense no meu desespero ao perceber que não estavas lá.

Lucy arregalou os olhos surpresa. Ele havia visto sua cama vazia! Suas mãos e pés ficaram dormentes e gelados de repente com a apreensão. Sua pequena fuga havia sido descoberta e ela não fazia nem ideia do que poderia dizer para justificar sua ausência.

— Gray...

— Eu te procurei por horas, incomodei os nossos vizinhos do vilarejo perguntando se alguém havia te visto, e nada. Não contei a mais ninguém sobre isso pois não queria preocupar aos outros, mas não consegui dormir de preocupação, e decidi voltar para casa e torcer para que retornarias agora pela manhã.

Lucy sentiu a garganta arder com a vontade de chorar. Se sentia uma criança que havia sido flagrada fazendo alguma travessura, e sentiu-se culpada por ter feito Gray passar a noite em claro a procurando enquanto ela estava perfeitamente segura, dormindo nos braços de uma criatura desconhecida. Ele certamente não concordaria em chamar isso algo “seguro” de se fazer.

O moreno levantou em um único impulso e se pôs em frente a ela. A ira em seu olhar havia se dissipado, e outra coisa havia tomado o seu lugar, mas Lucy não conseguia decifrar o que era. Ele deu dois passos para frente, ficando mais perto dela, mas longe o suficiente para não a encurralar contra a mesa.

— Onde tu estavas? – Repetiu a pergunta, fazendo uma pausa dramática entre cada uma das palavras num tom de voz ameno, mas firme.

— Gray, e-eu...

— Lucy foi até a aldeia vizinha negociar sementes de cevada para nosso novo cultivo, Gray. – Disse Erza, quebrando todo aquele clima pesado da cozinha de repente.

Ao ouvir a voz de Erza atrás de si, Lucy sentiu seu corpo ficar ainda mais tenso, mas após perceber que ela parecia estar ajudando-a a encobrir seus encontros secretos, procurou manter-se calma e firme.

Gray dirigiu seu olhar desconfiado à ruiva que acabara de entrar no aposento, claramente não convencido com a explicação, torcendo seu nariz para a mesma.

— Jantamos tarde ontem à noite, por que diabos ela iria até a aldeia vizinha a aquelas horas?

— Todos nós bebemos um pouco além da conta ontem, sabes disso. Eu pedi para que ela fizesse isso por mim, claramente eu não esta apta a tomar decisões sábias. Como era tarde, Bacchus provavelmente insistiu que ela dormisse por lá. – Rebateu Erza firmemente. – Se quer culpar a alguém, culpe a mim que pedi para que ela fosse.

Gray trocava o foco de seu olhar de Erza para Lucy durante alguns instantes, decidindo se iria acreditar naquilo ou não. Ele conseguia sentir o cheiro de mentira ali, algo não se encaixava. Erza mesmo bêbada jamais pediria algo assim, ela era sempre prudente de mais, mas não parecia valer a pena insistir naquele momento. Ele estava decidido, iria descobrir o que realmente teria acontecido, só não imediatamente.

— Aquele bêbado imbecil não tentou fazer alguma gracinha contigo, tentou? – Perguntou Gray para a loira que estremeceu com o tom grave e sério de voz dele. As emoções dele eram facilmente transmitidas por suas palavras. Gray sempre fora um homem bastante transparente.

— Não. Eu só passei a noite lá, nada aconteceu. – Respondeu prontamente, e não obteve mais nenhuma resposta depois daquilo.

Gray lançou um último olhar duvidoso para ela, e um outro um tanto feroz para Erza antes de sair de dentro de casa, pronto para cuidar de seus afazeres.

Assim que ouviram o barulho da porta de entrada se fechando, as duas que ainda estavam dentro da cozinha suspiraram pesadamente em uníssono e relaxaram seus ombros. Erza veio a passos ligeiros até a loira e a segurou pelos braços.

— Conte-me a verdade agora, me deves essa. O que diabos aconteceu? Por que saiu sozinha no meio da noite?

— Eu... Eu fui me encontrar com ele. — Respondeu baixinho enquanto fitava os próprios pés, envergonhada. Erza havia acabado de ajuda-la a mentir, mesmo sabendo que a ruiva abominava este tipo de atitude, então não esconderia ao menos essa parte da verdade dela. – Já estava tarde e começou a chover, então decidi dormir na casa dele para não acabar ficando doente na volta para casa, é tudo.

Lucy se sentiu meio estranha ao chamar a caverna de “casa dele”, mas não era realmente uma mentira.

Erza examinou minuciosamente a expressão da loira, procurando por sinais de que ela pudesse estar encobrindo alguma coisa, mas por fim soltou um risinho sapeca e sentou-se em uma das cadeiras que circulavam a mesa com as bochechas levemente coradas e pernas cruzadas.

— Então... Vo-vocês dois...

A ruiva fechou as duas mãos ao redor da própria boca num gesto infantil de espanto, mas a loira pareceu não entender o que ela estava insinuando.

— O-O que foi?

Erza girou os olhos e levantou uma única sobrancelha.

— Lucy, vamos, vocês passaram a noite inteira sozinhos. Não sou boba. Agora conte-me os detalhes.

— AH! – Exclamou, corando violentamente ao finalmente entender do que a outra estava falando. – N-Não Erza, céus! Nós não... Na-Não fizemos nada!

— Está tudo bem, Lucy, converse comigo! Eu gostaria de tirar algumas dúvidas já que... Eu, bem...

— Erza! Finalmente te encontrei! – Interrompeu Levy, entrando na cozinha, fazendo as outras duas que já estavam lar saltarem em surpresa. – Eu fiz as contas e preparei todo um planejamento caso decidas seguir em frente com os negócios de cerveja. Eu anotei tudo aqui, se não estiveres ocupada agora seria interessante dar uma lida.

— Le-Levy! Eu não a ouvi entrando em casa! – Gaguejou Lucy, escondendo o rosto com uma das mãos, tentando camuflar seu rubor.

— Isso é porque eu não estava fora de casa, eu estava no escritório. – Falou, sorrindo docemente, mas assim que percebeu o quão estranhamente as outras duas estavam reagindo, terminou arqueando uma das sobrancelhas. – Oh? Por que vocês estão assim vermelhinhas? Do que estavam falando antes de eu entrar aqui, hein?

— Na-Nada! Me dê os papéis, vou dar uma olhada agora mesmo. – Disse, estendendo uma mão para alcançar os papéis. – Lucy, conversaremos melhor mais tarde, ok?!

E sem precisar ser dispensada duas vezes, a loira rapidamente saiu da cozinha, fugindo de um possível novo confronto, desta vez bastante mais constrangedor.

Ela estava morrendo de vergonha com a insinuação de Erza. Como ela era capaz de pensar que ela e Natsu teriam feito algo assim?

Bem, para quem não sabia inteiramente da história que realmente se passava entre eles, certamente não era algo tão absurdo de se pensar. Mas o choque fora causado pelo fato de Lucy não ter pensado a respeito disso até então.

Era inegável a atração que sentia por Natsu. Ela sequer conseguia mais disfarçar os olhares que lançava à figura esbelta que ele possuía, era como se ele tivesse sido criado para ser um objeto de tentação para qualquer indivíduo pecador. Enquanto pensava a respeito disso, sua mente brincava de relembrar diversas partes particularmente atrativas do corpo dele, e isso a fez sentir uma onda de calor passar por seu corpo de repente, e sem sequer perceber, estava levemente se abanando com as próprias mãos para espantar aquela queimação que tomara conta de sua pele.

Pare de pensar em besteiras, Lucy! Vá juntar comida para levar a ele de uma vez e volte para trabalhar!

Com isso em mente, perambulou um pouco pelos corredores da casa até que Erza e Levy voltassem ao escritório, onde poderiam conversar melhor sobre seus planejamentos. Assim que o cômodo fora liberado, foi até a cozinha e juntou alguns alimentos rapidamente, pegando um pouco além do necessário por conta do nervosismo que estava sentindo, jogou-os todo dentro de sua cesta de qualquer jeito e saiu de casa mais uma vez.

Olhou em volta, certificando-se de que ninguém a observava, especialmente Gray, e voltou para dentro da floresta.

Fazia pouco mais de duas horas desde que havia saído da caverna naquela manhã, e lá estava ela indo mais uma vez ao encontro de Natsu, com o coração aos saltos.

Não sabia ainda que tipo de expressão faria ao encará-lo novamente depois daquele despertar... Inusitado. O nervosismo causado por essa incerteza a fazia sentir seus batimentos cardíacos na saída de sua garganta, e ela só poderia torcer para que ele não tivesse tomado conhecimento do que havia acontecido.

Trataria de agir normalmente, na medida do possível, já que sempre que estava perto dele, ela se sentia um pouco desconcertada. Especialmente depois de Erza ter colocado aqueles tipos de pensamentos na cabeça dela.

— Sou eu! – Exclamou para o espaço dentro da caverna, mas sem parar na frente dela desta vez, apenas anunciando enquanto já entrava na mesma. Julgava não ser mais necessário pedir por autorização antes de entrar. Foi diretamente até a cama de folhas secas em que eles haviam dormido juntos na noite anterior, onde ele geralmente ficava grande parte de seus dias, mas não o encontrou ali. – Natsu? – Chamou-o.

— Sim. – Respondeu uma voz no fundo da caverna, e ela sentiu aquele costumeiro alívio na pressão que se fazia em seu peito ao perceber que ele mais uma vez não havia ido embora dali.

Teve a impressão de ouvir barulho de água logo após o som da resposta dele, e também dos passos dele se aproximando de onde ela estava, então decidiu sentar-se perto do monte de folhas e esvaziar sua cesta de palha, distribuindo os alimentos que havia trazido em cima de um pequeno pano velho que havia pego em casa para que elas não ficassem diretamente no chão.

— Natsu, eu não vou poder ficar muito tempo hoje. – Disse, enquanto ainda se encarregava de pegar as pequenas frutas que rolavam no fundo de sua cesta. — Mas como troquei seus curativos ontem à noite, não tem problema. Eu vim apenas para trazer algo para com... – Deteve-se ao olhar para cima e deparar-se com a silhueta de Natsu surgindo na penumbra. Os tímidos raios de sol que alcançavam a profundidade da caverna onde eles estavam faziam brilhar as pequenas gotículas de água que escorriam do corpo de Natsu. Seu cabelo estava molhado e desajeitadamente jogado para cima, e Lucy se engasgou com as próprias palavras que ainda pretendia pronunciar. – Co-Como... Ba-banho?

Lucy ofendeu-se mentalmente por sua incapacidade de soar entendível, mas o outro pareceu entende-la e não percebeu a maneira como ela o encarava, terminando de caminhar até onde ela estava e sentando-se ao seu lado.

— Há um pequeno lago mais ao fundo da caverna. – Respondeu-a, sem esboçar emoções, concentrando-se na variedade de alimentos dispostos à sua frente.

Lucy assentiu positivamente num gesto de cabeça, encabulada demais para conseguir responder. Ela tentava desesperadamente acalmar seus batimentos cardíacos, com medo de que ele fosse capaz de ouvi-los e perceber o quanto ela estava alterada.

A loira percebeu então como uma pequena sugestão de uma conversa não discutida podia influenciar tanto em seus pensamentos e reações.

Maldita Erza!

— Tem... Muita comida hoje. – Murmurou Natsu, baixinho, fazendo Lucy acordar para a realidade do momento.

— Ah, tudo bem, não precisa comer tudo agora, podes deixar para mais tarde. – Disse, sorrindo docemente para ele.

Mas sem ela perceber, Natsu havia pego um pequeno morango entre seus dedos e levou-o até a frente do rosto dela. Lucy arregalou os olhos imediatamente, surpresa com a ação. O que ele pretendia com aquilo?

Desviava seu olhar do morango para o rosto de Natsu repetidas vezes, incerta do que fazer. Ele tinha em seu rosto uma expressão tranquila e ingênua, claramente não tendo nenhuma intensão oculta que não fosse dividir sua comida com ela.

Seu rosto inteiro corou bruscamente, e ela encarou o fruto vermelho e brilhante que ele lhe oferecia. Não havia tido a chance de tomar café da manhã em casa por conta de seu confronto com Gray, então estaria mentindo se dissesse que não estava com fome.

Decidiu interpretar aquilo como um convite para que eles comessem juntos, e não pôde deixar de sentir um calor gostoso que amoleceu seu interior com aquela conclusão. Era algo bastante inesperado dele, mas ela se sentia quase que presenteada com aquele gesto de cumplicidade.

Abrindo a boca timidamente, ela sinalizou dessa maneira que aceitava partilhar daquele café da manhã.

Natsu com muito cuidado, encaixou o morango entre os pequenos dentes de Lucy, que afundaram na fruta logo em seguida. Natsu conseguiu por um breve segundo sentir a textura dos lábios macios dela se fechando ao redor de seu dedo indicador e polegar, bem como a fraca respiração quentinha que saía de sua boca, e mais uma vez seu coração pulou ferozmente em seu peito, obrigando-o a afastar seu braço dela bruscamente.

Ele desviou o rosto para além do alcance dos olhos dela ao sentir suas bochechas esquentarem. Estava desconfortável com o que acabara de acontecer, então decidiu concentrar-se apenas em sua própria refeição, deixando que ela se encarregasse de comer sozinha dali pra frente. Sequer entendera o porquê de ter feito aquilo, mas certamente não queria pensar a respeito enquanto ela ainda estivesse por perto.

Lucy se assustou um pouco com os movimentos bruscos do outro, mas logo percebeu que não havia motivo para se alarmar ali, então acalmou-se e timidamente comeram em silêncio, um na companhia do outro, com a loira se esforçando para esconder os sorrisos que seu rosto procurava tentar moldar de tempos em tempos.

— Bem, devo ir. A julgar pelo sol, deve estar perto do meio dia e em breve terei que trabalhar. – Anunciou, levantando-se e batendo um pouco sua roupa para livrar-se de qualquer sujeira daquele chão. Decidiu que definitivamente trataria de encontrar alguns panos ou cobertas velhas para trazer a ele em sua próxima vinda. – Amanhã cedinho estarei de volta, como de costume. Espere por mim, por favor. – Falou com um sorriso, e com a sua cesta já apoiada em um de seus ombros, ela estava prestes a dar seu primeiro passo, mas fora interrompida.

Relembrando-se da maneira que fora impedida de ir embora na noite anterior, suas bochechas coraram. Ele segurava sua mão dessa vez, com firmeza o suficiente para não a deixar sair dali, mas também com delicadeza para não a machucar. Respirou fundo antes de olhar para trás e encontrar com o olhar de Natsu. Aquele olhar profundo e hipnotizante que a deixava com as pernas bambas, mas apesar de já ter admirado tanto aqueles olhos, naquela ocasião Lucy percebera que havia algo novo ali.

— Amanhã? – Murmurou ele, ainda segurando-a firmemente. Por mais que ele não entendesse os motivos, ele não queria aceitar que teria de esperar mais um dia inteiro até vê-la novamente, até sentir o cheiro de seus cabelos mais uma vez.

As últimas horas foram como torturas psicológicas para ele. Dormir abraçado a aquela humana tão terna e delicada, porém acordar sozinho. Ele não queria mais sentir aquilo, não queria mais ficar sem ela por perto, já que seu corpo inteiro parecia por algum motivo doer quando ela estava longe.

— Si-Sim... Amanhã cedinho. – Repetiu.

— Por que... Por que não virás à noite... Como ontem? – Perguntou tão baixo que soou quase como um sussurro. Lucy não tinha certeza por conta da iluminação fraca do local, mas se seus olhos não estivessem a enganando, Natsu tinha seu rosto levemente corado, fazendo o coração dela acelerar num ritmo desenfreado. Seria ele capaz de corar de verdade? E seria pelos mesmos motivos que causavam o rubor dela própria?

Mais importante, ele queria passar a noite com ela novamente?

Seu peito parecia ter ficado pequeno demais de repente, esmagando seus pulmões e pesando sua respiração. O resto de seu corpo inteiro parecia formigar, invejando o calor de Natsu que apenas sua mão recebia naquele momento.

— Porque ontem eu não tinha conseguido vir de manhã e... E eu só vim te trazer comida... – Respondeu tão baixo quanto ele, tentando soar razoável, não querendo admitir que o principal motivo de ela ter vindo era simplesmente porque ela queria vê-lo, queria estar com ele.

Ele torceu o nariz logo antes de abaixar a cabeça com aquela resposta, e sem discutir mais, largou o braço de Lucy.

— Certo. – Pronunciou-se uma última vez, em seguida virando-se de costas para ela e afofando a pilha de folhas secas para poder deitar em cima delas.

Por algum motivo, aquilo fez o coração de Lucy partir-se em dois. Tinha a impressão de que havia dito algo que o magoou, mas não estava certa disso. Ele era uma criatura tão complexa que ela daria qualquer coisa para ser capaz de ler seus pensamentos.

Mas mesmo confusa, ela decidiu que era melhor ir embora. Ela tinha seus deveres para com sua própria família, e estes deveriam ser cumpridos. Mesmo com isso em mente, a inquietude dentro de seu peito não a deixou em paz ao longo do dia inteiro.

••

Revirava-se de um lado para o outro em sua cama, preocupando-se com a possibilidade de que sua inquietude despertasse Levy. Para a sua sorte, a baixinha tinha um sono bastante pesado, e não parecia incomodar-se com Lucy se debatendo na cama.

A loira alternava entre suspiros e soquinhos na própria testa, como se aqueles pequenos golpes fossem ajuda-la a desvendar o que deveria fazer em seguida.

Ela sabia que não deveria sair dali, que o certo seria deitar-se numa posição confortável e dormir até a manhã chegar. Sabia que qualquer coisa além disso poderia causar-lhe problemas. Sabia que havia causado preocupação a Gray por ter saído na noite anterior, e por isso havia obrigado Erza a mentir por ela. Mas nada disso a fazia conseguir sossegar, se conformar.

Nada a fazia mudar de ideia, nada apaziguava aquela crescente vontade de estar ao lado de Natsu.

Sua mente era inteiramente tomada pela imagem daqueles olhos esverdeados a encarando com profundidade enquanto ele perguntava o porquê de ela não estar lá naquele momento.

E ela mesma se perguntava essa mesma coisa repetidamente, e estava prestes a dar-se por vencida.

Ela queria estar lá. Seu corpo inteiro pedia por isso, e sua mente gritava desesperadamente, procurando uma maneira de convencê-la a ir.

Apesar da plena consciência que tinha de que estava fazendo algo errado, não fora necessário um grande período de insistência para que enfim ela fosse convencida a ouvir seus desejos mais desesperados, e assim, Lucy atravessou mais uma vez a floresta naquela noite, dessa vez levando um cobertor consigo ao redor de seu corpo, esperando não precisar usá-lo.

Notas finais
Agora a Lucy vai começar a ter alguns problemas :'D ai ai ai, o que vocês acham que vai acontecer? O Gray parece não ter gostado nadinha de descobrir que a Lucy tá passeando por aí. E o Natsu dividindo as frutinhas com a Lucy? Fiquei toda bobinha escrevendo essa cena, espero que tenham gostado! Me contem o que acharam nos comentários! Até semana que vem, beijinhos ♥