Cave
10 O dia em que ele lhe revelou sua história
Notas iniciais
“Zeref, por favor tome cuidado!” Gritou a mãe da beirada do riacho ao observar seu filho pulando por cima das pedras parcialmente submersas. “Essas pedras são escorregadias, por favor fique aqui do meu lado!”
O rapaz não deu muita atenção ao pedido de sua mãe, que sempre o trazia a aquele mesmo local quando precisava lavar as roupas todas as semanas. Ele se divertia sozinho pulando de pedra em pedra como se fosse um jogo, e se ele se molhasse, perdia. Caçar girinos e libélulas que sobrevoavam a superfície da água também faziam parte de sua rotina de diversão naquelas ocasiões.
“Se eu parar, eu vou perder, mamãe!” Respondeu emburrado, ele já havia dito isso a ela inúmeras vezes, mas sua mãe nunca aceitava aquela brincadeira de bom grado.
Ur suspirou pesadamente, sabendo que não adiantava ficar insistindo. Seu filho sempre fora daquela maneira, aventureiro e teimoso, mas seus instintos maternos jamais permitiriam que ela deixasse de temer um escorregão nos limos que se aderiam às superfícies daquelas pedras. Porém, apesar daquilo, Zeref jamais havia caído uma única vez.
Dando de ombros, voltou a concentrar-se em sua tarefa de limpar as roupas, esfregando-as com suas mãos para tirar os encardidos e enxaguando na água corrente do riacho que levava toda a sujeira para longe.
Já fazia algumas semanas desde que sua mente não conseguia mais desligar-se e ficar em paz. Sempre havia alguma coisa que a preocupava. E ver as mangas chamuscadas das roupas de seu marido só reforçavam aquela sensação.
O pequeno vilarejo solitário situado no vale entre altas formações montanhosas servira de lar para a família Dragneel desde antes de eles terem conhecimento do fato. Sequer sabiam de que maneira aquela pequena civilização havia se formado ali, em meio àquele vasto gramado que se estendia por quilômetros, recortado por rios que supriam as necessidades de quem vivia ali.
Não havia nada além daquilo nas redondezas, não se sabia da existência de outros povoados, pois além da barreira de montanhas altas com cume nevado, uma outra coisa os impedia de sair dali, e outras pessoas de entrar.
Em meio a aquelas montanhas, em cavernas profundas e escuras viviam dragões. Criaturas grandes e misteriosas que causavam uma boa parcela de medo nos moradores daquela geografia. Apesar disso, com a exceção de eventuais perdas de gado e ovelhas, humanos e dragões coexistiam em uma paz silenciosa. A chave para essa total relevância com que tentavam tratar um a existência do outro era a prudência humana de não ousar cruzar os territórios das criaturas. Enquanto não fossem provocados, os dragões jamais se mostravam uma ameaça.
Igneel sempre fora um homem que gostava de justamente ir contra tudo o que as regras ditavam. Era amado por muitos, porém odiado pela maioria. Era um homem ousado que era capaz de fazer qualquer coisa pela própria família, sem necessariamente pensar a respeito das consequências que causaria a terceiros que não tivessem alguma relação direta com ele. E foi por conta de essa sua natureza que, a partir de dado momento, a cada dia que passava, ele adentrava mais profundamente no bosque que cobria os pés das montanhas do perímetro do vale. Vestindo descaradamente a desculpa de precisar caçar por cima de sua pura curiosidade, ele procurava saber mais sobre aqueles bichos escamosos que sobrevoavam o vilarejo durante a noite.
Escondendo isso de todos os outros, inclusive de sua própria esposa, ele finalmente começou a, aos poucos, escalar as montanhas. Era difícil justificar todos os ferimentos resultantes de suas quedas quando chegava a noite em casa, mas desistir não era uma opção para ele. Uma vez decidido e alguma coisa, o Dragneel jamais conseguia voltar atrás.
Meses após dias sucessivos de esforços sobre-humanos e fracassos, ele teve o prazer de contar à sua esposa que ele havia sido o primeiro homem a encarar a besta de fogo nos olhos. No dia seguinte, ao invés de voltar à sua rotineira exploração diária, ele foi à taverna, relatar aos outros homens suas aventuras entre goles de uma cerveja espessa e forte. É claro, ninguém fora insano o suficiente para acreditar nele além de sua esposa, a única que sabia o quão imprudente seu marido realmente era capaz de ser.
As brigas eram constantes, as súplicas para que ele desistisse daquela loucura toda eram sucessivas. Mas nada realmente adiantava. Dia após dia, Igneel continuava a sumir entre as árvores dos pés da montanha, reaparecendo na luz do sol apenas pouco depois ao iniciar sua escalada. Apesar daquilo, até então, o homem jamais negligenciara seu papel como chefe de família. Todas as noites botava comida na mesa, dormia com sua esposa, ensinava seu filho a caçar, pescar e lutar pela manhã, porém, se retirava pelas tardes.
Poucos meses depois, aquilo também começara a mudar.
Apesar da constante insistência de Igneel em tentar convencer o povo de que os dragões não eram criaturas a ser temidas, ninguém compartilhava de seu impulso. Ninguém era louco o suficiente para querer chegar perto de algo que poderia te engolir sem sequer precisar mastigar, e que, como se isso não fosse perigoso o suficiente, possuíam chamas queimando em suas gargantas.
E dessa maneira, ele começara a se afastar cada vez mais.
Seus períodos fora de casa ficavam cada vez mais extensos, até chegar ao ponto em que Ur se via solitária numa cama fria em suas madrugadas. Ela não tinha o corpo forte como o do marido para poder segui-lo até as montanhas, mas nem por isso deixou de tentar, porém nunca obtivera sucesso, sendo até mesma surpreendida com um ataque de animais do bosque em uma de suas tentativas quando o sol há havia se posto. Portanto, a única coisa que ela podia fazer era tomar conta de seu filho, e rezar todas as noites para que seu amado retornasse.
Em uma noite fria e chuvosa, Igneel atravessara a porta de entrada da própria casa, esperando encontrar braços calorosos e janta na mesa, porém enfrentando a realidade de sua mulher aos prantos desesperados na beirada de uma cama que aninhava seu filho.
O filho cujo coração não batia mais.
A casa que uma vez já fora iluminada e cheia de alegrias, agora era escura e fria. Marido e mulher não encontravam mais espaço para se amar, apenas para compartilhar luto e dor. Mas mesmo essa tragédia não foi capaz de segurar Igneel por muito tempo. Em alguns meses, ele voltou a frequentar as cavernas no meio das montanhas, mas dessa vez com uma sombra de ganância em seu olhar, não mais um brilho de descoberta.
“Os dragões conhecem sobre magia. Eu vou aprender com eles e trazer nosso filho de volta.” Dizia ele, voltando a criar angústias no coração da esposa. Ninguém poderia jamais saber o que ele estava fazendo. Magia era um tabu, um pecado, que jamais deveria sequer ser discutido. Mas mais uma vez, ela falhou em impedir seu marido de fazer o que ele pretendia, dessa vez por também ter sido parcialmente levada pelo próprio luto a quase concordar.
Assim começou a nova jornada de Igneel pelas montanhas. E a cada vez que o homem voltava para casa, Ur reconhecia menos ainda seu marido. Não apenas sua personalidade, mas até mesmo sua fisionomia parecia se alterar a cada nova visita. Sua pele ficava cada vez mais áspera, suas pupilas cada vez mais estreitas, seu corpo cada vez mais quente. Em uma noite de discussões, durante um lapso de ira, Ur estava certa de que ouviu seu marido rugir.
Ur temia, sentia um pavor apossar-se de seu corpo inteiro ao observar o que seu marido poderia estar se tornando. Aprendera a odiar seus próprios pensamentos a partir do dia em que ela referiu-se mentalmente a Igneel como “monstro”, mas era o que seus olhos começaram a enxergar a partir do momento em que pontas de um chifre escuro começaram a crescer entre seus cabelos róseos. Daquele ponto em diante, ele não saía mais de casa enquanto o sol ainda reinava sobre o céu diurno, e o amor que a mulher ainda nutria pelo homem era mais do que suficiente para mantê-la calada. Mas esse segredo não duraria tanto quanto eles gostariam.
Naquela noite fatídica, Ur sentia-se particularmente indisposta. Não conseguia manter nada dentro de seu estômago há dias e sentia-se fraca e com tonturas com facilidade, impossibilitando-a de cuidar da casa e trabalhar. Procurando por cuidados, Ur pediu para que vizinho mais próximo chamasse o curandeiro do vilarejo e o mandasse até a sua casa, e o mesmo não se demorou nesta tarefa. Já havia escurecido, mas Igneel não voltava para casa há mais de uma semana, então a esposa não o esperava. Mas havia uma coisa que ela esperava menos ainda naquela noite, que era a notícia de estar grávida mais mais uma vez.
E por mais inesperado que fosse aquilo, foi como se ela conseguisse respirar ar fresco novamente depois de meses confinada em uma cela escura de sofrimento e luto. Ela voltou a sentir seu peito aquecido com o calor da vida. Infelizmente, isso não durara muito tempo.
O destino era cruel, e agira e maneira particularmente sádica naquela noite, fazendo com que Igneel retornasse das montanhas, deparando-se com a figura de um homem dentro de sua casa tarde da noite, segurando as mãos de sua esposa. O curandeiro apenas tentava a congratular pela gravidez, mas não houve tempo para qualquer explicação.
As mudanças pelas quais o corpo de Igneel havia passado nos últimos meses o impediam de agir racionalmente, o impediam de ouvir ou conversar, apenas respondiam a um instinto. O instinto de lutar ao ver uma posse sua estar sendo tomada de si, e em uma questão de poucos instantes, o homem abandonou completamente a forma humana e sua sapiência, destruindo tudo ao seu redor com suas proporções gigantescas e o fogo de sua garganta. Os gritos de pânico e desespero acordaram todo o vilarejo, pessoas que não sabiam se fugiam ou tentavam lutar corriam em círculos ao redor das casas. Afinal, para onde iriam? Eles faziam parte de um pequeno povoado isolado de tudo, não havia escapatória.
Muitos morreram naquela noite, poucos fugiram.
Dentro dos que morreram, estava o próprio Igneel, que fora detido pela fúria dos dragões das montanhas, que fizeram questão de aniquilar o próprio erro que haviam cometido ao transmitir a magia deles a um humano que não possuía a sabedoria para isso.
E dentro dos que fugiram, estava Ur, que carregava apenas o filho dentro de seu ventre consigo enquanto se jogou para dentro de qualquer caminho que os tirasse dali.
Após semanas correndo para longe, usando de combustível apenas sua vontade de viver para dar a luz a aquele filho, seguindo sempre o curso do rio que atravessava as montanhas de seu antigo lar, ela encontrou um vilarejo. Um vilarejo pequeno, mas muito maior do que ela habitava antes. Ela nunca imaginou que veria tantas pessoas reunidas em um único lugar, e que possuíam ferramentas peculiares que ela jamais imaginaria para que serviriam, com exceção de uma: corações.
Cada uma daquelas pessoas do recém descoberto povoado possuía um coração repleto de vontade de ajudar, e por isso, Ur fora acolhida e alimentada. Devido a sua desnutrição, ela temia pela vida de seu filho, mas o curandeiro local, que a visitava regularmente, a assegurava de que estava tudo bem. Porém, todas as vezes em que a examinava, ele não deixava de impressionar-se e sempre repetir que jamais havia visto uma barriga tão quente.
Apenas a região de pele que cobria o ventre de Ur fervia como se uma febre mortal adoecesse seu organismo, porém todo o resto de seu corpo possuía uma temperatura normal.
E esse foi o primeiro sinal de alerta daquela mulher.
Com a chegada do verão mais quente que os homens já haviam experimentado, depois de meses de uma vida pacata, veio ao mundo o segundo filho de Ur, sendo chamado de Natsu para homenagear a estação.
Por precaução, a mulher decidiu não contar a ninguém que estava dando à luz, e recusaria a possibilidade de receber qualquer ajuda. Por mais que ela amasse a ideia de ser mãe de novo, ela não sabia que tipo de filho estava por abandonar seu ventre. Fora um parto infinitamente mais doloroso, demorado e agoniante do que seu primeiro, e ela passou por ele sozinha, o que dificultou em tudo. Durante as doloridas contrações, lágrimas de uma dor saudosa escorriam por seu rosto ao lembrar-se do marido atencioso que uma vez já tivera, recordando com amargura o fim que ele teve, sofrendo por saber que ele jamais poderia ver o rosto de seu segundo filho.
O segundo filho que saíra perfeitamente igual a ele.
Chifres. Escamas. Asas. Olhos reptilianos.
Tudo estava ali. Todas as evidências da blasfêmia de seu falecido marido. Ur deu então adeus a sua efêmera vida pacata naquele exato momento, sabendo que não conseguiria mais viver tranquilamente. Mas apesar de todos os apesares, tinha ganho o direito de ser mãe novamente, e a alegria que isso lhe proporcionava superava qualquer dificuldade.
Demorou alguns dias até que ela por fim saísse de casa depois de seu parto, e quando apareceu no centro do vilarejo em busca de comida, todos repararam a ausência daquela redonda proeminência em sua barriga. E ela, pela segurança de seu filho, mentiu. Mentiu a todos ao dizer que havia perdido seu filho, que o mesmo havia nascido morto, e por isso não queria estar perto de ninguém, precisava de espaço para remoer seu luto.
Não era uma tarefa fácil esconder um filho, muito menos agradável. Natsu nunca havia sequer sentido a luz do sol em sua pele desde que havia nascido, pois a mulher não ousava sequer abrir as janelas de sua casa durante todo o primeiro ano de sua vida.
A medida que Natsu ia começando a desenvolver suas habilidades de fala, o destino procurou surpreender Ur mais uma vez.
A partir de certo ponto, que a mulher não conseguiu determinar, os elementos draconicos de seu filho começaram a gradualmente desaparecer. Suas escamas começaram a cair, bem como seus chifres. E a mãe enxergou ali uma oportunidade de dar uma vida normal a seu filho.
E sem qualquer aviso prévio, ela apareceu no centro do vilarejo com mais uma surpresa poucos anos depois. Uma criança de aparentemente cinco anos de idade agarrada à barra de seu vestido enquanto ela escolhia grãos no mercado. Ela relatou uma única vez o acontecido de ter encontrado uma criança abandonada na floresta, culpando algum vilarejo vizinho, e para sua satisfação, mesmo os que não estavam muito convencidos daquela história decidiram não questioná-la.
Aqueles anos de tranquilidade de espírito valiam mais do ouro para aquela mulher que até então tanto sofrera. Ela sabia das origens do filho, e por isso jamais havia deixado de ser cuidadosa, mantendo-o sempre por perto, debaixo de seu nariz, não permitindo que ele se afastasse. Lhe partia o coração vê-lo admirar outras crianças brincarem juntas no bosque, desacompanhados de seus pais, mas ela temia ter que privar seu filho da luz do sol novamente caso algo acontecesse. Era um risco ao qual ela não estava disposta a correr.
Durante as noites, quando via que Natsu sofria por não poder ser igual às outras crianças, ela o abraçava em sua cama e contava histórias sobre seu falecido pai. Histórias de aventura e de amor.
“Um dia, Natsu, talvez tu conheças alguém que aceite todas as partes de ti. Alguém que aprenda a amar até mesmo teus defeitos. E quando tu sentires que tudo deixa de ser colorido quando esta pessoa não está ao teu lado, é porque o amor chegou em tua vida. No momento em que encontrares essa pessoa, proteja-a como a um tesouro. Jamais a abandone.” Dizia ela baixinho, relembrando-se de todas as suas dores causadas pelos abandonos de Igneel, mas tentando não transparecer isso em sua voz.
E assim sucedeu a vida da família Dragneel até Natsu alcançar a idade adulta. Ur imaginou que, como ela havia recentemente aprendido na igreja daquele vilarejo, Deus havia deixado de castiga-la por algo que havia feito naquela vida, mesmo sem ela conseguir imaginar que tão grande pecado ela teria cometido pra merecer tudo que já havia passado em sua vida. Mas estava enganada.
No meio da noite, um endividado que havia sido expulso do vilarejo entrou de madrugada na casa daquela família em busca de comida ou itens de valor que pudesse vender. Para o infortúnio de todos os presentes ali, Ur acordou com o barulho da porta sendo forçada e correu para ver o que estava acontecendo, mas a única coisa que encontrou antes mesmo de identificar o homem que havia invadido sua casa, foi uma faca atravessando suas roupas de dormir e cortando profundamente uma de suas coxas.
E imediatamente sentindo o cheiro do sangue da própria mãe, Natsu despertou. O verdadeiro Natsu.
O Natsu criatura. O Natsu monstro adormecido por tantos anos, confinado dentro daquele corpo aparentemente humano.
O infeliz homem que havia invadido aquela casa, saiu da mesma aos tropeços, com as roupas em chamas, gritando aos homens e aos céus do fundo de sua garganta “É UMA ABERRAÇÃO! UMA ABERRAÇÃO!”
Não precisou de muito além disso para que todos os moradores ao redor deixassem o interior de suas casas para averiguar o que estava acontecendo ali. E a visão era chocante e clara. Uma criatura meio humana, com chifres, asas, escamas e uma longa cauda que cuspia fogo. Algo que jamais haviam visto antes. E assim os cidadãos dali juntaram-se ao coro “DEMONIO! BRUXA! DEMONIO!”
O ataque aos Dragneels fora imediato. Os homens eram fortes e numerosos, e Natsu não sabia lutar. Se recusava a voar para longe e abandonar sua mãe ali, e já estava severamente ferido pelas constantes investidas dos homens que investiram contra ele, portanto, fora uma mera questão de pouco tempo até que ambos fossem capturados e amarrados no topo de uma pilha de palhas e gravetos.
Natsu apenas pôde sentir as mãos de sua mãe, que estava amarrada de costas para si, envolver delicadamente as suas, mas com firmeza. E em sua mente, ele conseguiu apenas ouvir um último "Eu te amo" antes da voz do padre do vilarejo preencher o céu da noite.
“A igreja declara aqui Ur Dragneel como uma bruxa, e a condena à uma sentença de morte por heresia e envolvimento com criaturas demoníacas do submundo.” Dizia o padre enquanto aproximava-se da palha com uma tocha acesa em suas mãos.
Mas apenas um corpo queimou naquela noite. O outro, de alguma maneira, em meio a soluços de dor desesperados até que as cortas que o envolviam se desfizessem com as chamas, abriu as asas e mergulho no céu noturno em uma fuga dolorosa, que não durara por muito tempo por conta de seus ferimentos, deixando-se cair dentro das árvores da floresta que cobria todo o horizonte.
Fale com o autor