Cave
11 O dia em que ele curou seu medo
Notas iniciais
O passado repleto de tragédias e infortúnios era dele, mas as dolorosas lágrimas que escorriam numerosamente eram delas.
Até mesmo sua respiração se calara, emitia sons tão baixos quanto possível, tamanho era o choque de seu corpo diante da exposição de fatos por ela tão esperados. Apesar de procurar aquelas respostas ao longo de tantos dias, ela não havia obtido satisfação alguma ao por fim descobri-las.
Vez ou outra, o silêncio era interrompido por um soluço abafado dentro da garganta de Lucy, que tentava manter-se firme sem muito sucesso. Natsu mantinha a mesma expressão vazia no rosto que mostrava durante todo o relato de seu passado, mas no fundo, Lucy sabia que ele guardava muita dor entre cada palavra.
Naqueles minutos de falta de diálogo a mente da loira trabalhou à milhão, ligando tudo que antes já sabia de Natsu com o que ela havia descoberto agora, unindo todas as pontas soltas, encontrando sentidos e explicações para cada detalhe.
A mulher que havia morrido no vilarejo não muito longe de onde ela vivia, acusada de bruxaria, era ninguém menos do que a mãe de Natsu. Aquele homem tão peculiar, tão misterioso, na verdade, vivera ali ao lado dela por todo esse tempo. Havia até mesmo a possibilidade de já terem cruzado seus caminhos antes. Essa ideia era bastante absurda de se assimilar.
Todas as dificuldades de comunicação de Natsu, toda a desconfiança que ele mostrou nos primeiros dias em que ela cuidava de seus ferimentos... Mesmo que ele vivesse em um vilarejo cercado de casas de outras famílias, ele não tinha contato com elas. Nunca teve amigos, nunca se apaixonou. Ele viveu esse tempo todo sob um véu de proteção da mãe, que procurava evitar acontecer exatamente o que sucedera há poucas semanas atrás. Ele não sabia conviver com pessoas, mas sabia o que era o amor justamente porque foi isso que a mãe dele ensinava a ele diariamente.
Fora por conta do ataque dos moradores do vilarejo e da igreja que ela encontrara Natsu ferido e à beira da morte na floresta. Aquele era o resultado da fuga dele depois aqueles acontecimentos terríveis. Ele havia perdido sua casa e sua mãe há não muito tempo, e sequer teve tempo de sofrer por isso.
E por fim, seu maior questionamento sempre fora, o que era aquela criatura. Não era mais correto chamar de criatura alguém que, em sua essência, sempre fora humano. Um humano com heranças de dragões, mas ainda assim, humano.
Mas havia um detalhe importante que ainda não estava claro para ela, e esse era o momento de tirar todas as suas dúvidas, pois ela jamais iria querer falar sobre algo tão doloroso com ele novamente. Uma vez bastava. Respirou fundo e limpou a garganta, preparando-se.
— Eu posso fazer uma última pergunta? — Ele, que não afastara o olhar dela por um único instante desde que voltaram para dentro da caverna, apenas acenou a cabeça, encorajando-a a prosseguir. – Por que certas vezes adquires uma aparência mais humana, perdendo tuas escamas e asas, mas em outras, te transformas na perfeita figura de um dragão?
Natsu se remexeu um pouco onde estava sentado, demonstrando certo desconforto com aquele assunto.
— Eu não sei bem dizer. Como não existem outros como eu, tudo que sei foi descoberto na base da minha experiência e da observação da minha mãe. – Iniciou calmamente. – Mas pelo que conseguimos observar, é relacionado aos meus instintos. Sabe Lucy, não era à toa que as pessoas do vilarejo de meus pais não chegavam perto das montanhas onde os dragões viviam. Os dragões escondiam todas as coisas que encontravam e consideravam valiosas em suas cavernas entre as montanhas, e formavam lá seus tesouros. São criaturas sábias e na maioria das vezes não agressivas, mas não toleram que transpassem seu território, e não poupam a vida de quem se aproxima de seus tesouros, abandonando completamente qualquer habilidade de raciocinar e deixando o animal dentro deles tomar conta.
Lucy engoliu em seco ao ouvir a palavra “tesouro”. Era uma palavra que se repetia constantemente em suas conversas com Natsu, e a cada nova vez que ela aparecia, obtinha um significado cada vez mais distinto do que ela sempre imaginou que seria. Ele percebera a reação dela, então, pouco antes de continuar seu discurso, ele apoiou uma das mãos no chão, inclinando-se para um pouco mais perto dela, que estava sentada ao seu lado, porém, com uma certa distância entre eles.
— A única coisa que posso concluir é que... Quanto mais perto eu fico de quem eu amo, o que eu tenho de mais valioso, mais humano eu sou... Entretanto... – Pausou mais uma vez para se aproximar um pouco mais, e Lucy começava a arregalar os olhos de nervosismo, mas sem mover um único músculo, até que seu corpo tremeu por completo em um arrepio ao sentir as garras de Natsu escorregarem de leve pelo seu pescoço, afastando as mechas de cabelo que cobriam a sua nuca. – Quando meu tesouro é tirado de perto de mim por alguma razão, o dragão que mora dentro de mim desperta. – Concluiu, passando com cuidado a ponta de seus dedos por cima da marca de mordida que havia deixado em Lucy na noite anterior, sentindo a textura pontilhada da pele arrepiada dela sob seu toque.
Lucy instintivamente girou o rosto para fita-lo, e deparou-se com aquela inabalável expressão de serenidade. Sentiu seu estômago se retorcer intensamente dentro de sua barriga ao observar o verde oliva daqueles olhos, que agora pareciam não esconder mais nada dela, ali tão perto, encarando-a. Ele estava ali, completamente vulnerável, completamente aberto e desvendado para ela. Ela sabia quem era ele agora. Bastava decidir o que fazer com aquelas informações, mas a mão que agora passeava pelas suas costas e o ar quente que saía dele e batia diretamente na pele dela a impedia de pensar.
O olhar de Natsu caiu então diretamente nos lábios de Lucy. Ele ansiava por sentir a magia do beijo dela constantemente, e era doloroso ter que conter-se, mas talvez naquele momento, enquanto eles estivessem tão próximos, ele pudesse ousar resgatar um pouco do que haviam sido seus últimos dias junto daquela mulher. Vacilante, porém decidido, ele inclinou seu corpo mais ainda em direção ao dela, mirando nos lábios macios e rosados da loira, que estavam levemente entreabertos num convite irrecusável.
Ao perceber o que ele estava prestes a fazer, Lucy sentiu o rosto esquentar intensamente, ao mesmo tempo que tomava conhecimento da mão de Natsu a puxando pelas costas, acelerando um pouco mais aquela aproximação entre os dois, e por pouco ela não se deixou levar por aquele clima, conseguindo de alguma maneira virar seu rosto, fazendo com que ele encontrasse com a testa na bochecha dela de última hora. Depois disso, ela apenas o ouviu suspirar pesadamente, como se algo que ele antecipava e temia tivesse acontecido.
— Eu... Desculpa Natsu, preciso de um tempo para pensar nisso tudo... – Pediu e não afastou-se dele, mas sentiu o quão tenso ele havia passado a ficar naquele momento. – Além disso estou com fome, estou com sede, estou suja...
Lucy ficou um pouco angustiada ao não saber como ele reagiria a aquilo, então preferiu ficar quieta e parada, mantendo aquela pose por mais alguns instantes até que Natsu, em um único impulso, jogou seu próprio corpo para trás, afastando-se dela de uma única só vez para então poder levantar. Lucy ficou preocupada com a possibilidade de tê-lo magoado e ele preferir ficar longe dela por enquanto, mas descartou a chance assim que viu que ele a oferecia sua mão para ajuda-la a levantar. Lucy pestanejou por alguns segundos, observando aquela mão estendida, em seguida levantando o olhar para fita-lo de maneira interrogativa.
— Vamos buscar algo para comer, beber, e um lugar onde possas tomar banho. — Murmurou em resposta, e depois disso, a loira não tardou mais para aceitar a ajuda e pôs-se de pé ao lado dele.
Natsu poderia ter soltado a mão dela no momento em que ela sustentou seu corpo, mas ele não quis, e Lucy desta vez não protestou. Os dois andaram até a saída da caverna, voltando a encontrar a luz do sol naquele pequeno pedaço de terra que havia antes do barranco. E o horizonte não mostrava nada além de árvores. Nenhum vilarejo, nenhum sinal de povoados ou qualquer outra coisa além de outras montanhas e floresta.
Lucy começava a encontrar cada vez mais sentido na teoria de que dragões precisam esconder seus tesouros, afinal, ela havia sio levada justamente para um lugar longe de qualquer ameaça, em uma caverna.
— Por acaso tens alguma ideia de onde estamos? – Questionou, espremendo os olhos pra tentar enxergar algo mais além.
— Não. – Respondeu simplesmente, fazendo Lucy suspirar e dar de ombros.
— Como faremos para encontrar alguma coisa então? – Perguntou não necessariamente para Natsu, e sim mais para si mesma, enquanto coçava a própria cabeça.
E então aconteceu algo que ela jamais poderia prever.
Em um único movimento rápido e preciso, Natsu colocou uma mão na parte de trás dos joelhos de Lucy, e outra ao redor de suas costas, em seguida a levantando, segurando-a junto a seu tronco. No processo, Lucy soltara um gritinho surpreso, e por reflexo abraçou o pescoço de Natsu, com medo de cair.
— O que é isso?! O que estás fazendo?!
— Por acaso esperas explorar essa floresta caminhando? – Disse, e Lucy se surpreendeu ao descobrir que ele conhecia o sarcasmo. – Vamos olhar por cima. Segure-se firme.
— EI, ESPER-
Antes que pudesse terminar de protestar, com uma única dobrada de joelhos, Natsu tomou impulso logo depois de abrir suas grandes e vermelhas asas para poder levantar voo. Iniciando com um mergulho vertical para poder planar, Lucy sentiu os horrores das sensações de uma queda livre e testou a força de seus pulmões em um grito escandaloso. Mesmo depois que Natsu havia se estabilizado no ar, balançando agora somente quando agitava suas asas, o coração dela não parava de bater aceleradamente por conta da adrenalina, as unhas dela se enfiavam nas costas de Natsu e seu corpo trêmulo se encolhia dentro dos braços dele.
Ela nunca tinha experimentado uma sensação como aquelas e estava apavorada. Enquanto caíam, ela viu brevemente as árvores e pedras se aproximando dela em uma velocidade absurda, e naquele momento decidiu fechar os olhos para diminuir um tantinho seu medo, deixando apenas algumas lágrimas de puro pânico passar por entre suas pálpebras, permanecendo daquela maneira até então.
Natsu fazia o possível para voar devagar e de maneira estável, mas nada parecia mudar, então decidiu que seria melhor encontrar logo um lugar para aterrissar. Vasculhando rapidamente o grande terreno verde que se estendia abaixo deles, ele procurou por algum sinal de água, e ao encontrar um pequeno rio seccionando o relevo, voltou a mergulhar em direção ao chão, mas dessa vez com mais cuidado.
Assim que Lucy voltara a colocar seus pés nos chão, experimentou um alívio instantâneo, inconscientemente saltando pra longe de Natsu e abraçando o tronco de uma árvore, como se temesse voltar para os céus, tratando de regularizar sua respiração. A testa de Natsu se enrugou em uma careta com aquilo, mas não disse uma palavra sequer, virando as costas para ela e dando alguns passos enquanto abria suas enormes asas novamente, preparando-se para levantar voo.
— E-ei, aonde vais?! – Perguntou de maneira quase desesperada.
— Eu vou buscar algo para comer. – Respondeu sem fita-la, e com poucas batidas de suas asas ele estava fora do chão. – Tome um banho enquanto isso.
Foi só no momento em que Natsu começou a desaparecer da vista de loira que ela por fim percebeu que estava ao lado de um pequeno rio, que mesmo sendo estreito, era preenchido por águas transparentes e profundas. O barulho da água corrente escorregando por entre algumas pedras e chocando-se contra outras pareceu finalmente acalmá-la. O ar dali era fresco e úmido, e algumas libélulas voavam ao longo da superfície do rio como se dançassem de uma maneira descontraída. Naquele pequeno pedacinho de lugar, Lucy finalmente encontrara a paz depois de tantas horas pedindo por ela.
Despindo-se e abandonando suas vestes na margem do rio, ela apreciou o alívio que era poder sentir as águas carregarem para longe toda a sujeira, todos os medos, tudo que pesava em seus ombros para longe, para onde ela não poderia mais enxergar e sentir. Fechando os olhos, ela mergulhou diversas vezes, e a cada vez que emergia, ela se sentia melhor.
Aquele era o momento perfeito para refletir, para encontrar conclusões sobre o que fazer com Natsu dali em diante, mas por algum motivo ela não conseguia. Sua mente estava curiosamente dormente, como se o que seu corpo desejava era somente ficar ali, boiando naquelas águas, e não precisar tomar decisão alguma. Mas ela sabia que isso não poderia durar por muito tempo.
Alarmou-se ao detectar o som de grandes asas batendo no ar, e assim apressou-se em sair da água, livrar-se o máximo que podia das gotas que ainda mantinham seu corpo úmido e voltar para as suas vestes antes que ele retornasse.
Poucos instantes depois, lá estava ele, com um porção de frutas em um braço, e uma ave depenada no outro. Assim que voltou ao solo, ele soltou tudo o que segurava e partiu em busca de folhas secas e gravetos, fazendo Lucy rapidamente concluir que ele pretendia acender uma fogueira, e assim decidindo buscar algumas pedras pequenas para criar um círculo onde o fogo ficaria. Tudo isso feito da maneira mais silenciosa possível.
Com um único encher de seus pulmões e um soprar de Natsu, a fogueira estava acesa diante deles. Quando Lucy presenciou a cena de Natsu limpando a ave para poder cozinha-la, decidiu que se contentaria apenas com as frutas naquele dia.
Deixando a ave próxima ao fogo, Natsu aproveitou o tempo de espera para também tomar um banho, sem se importar com a presença de Lucy, porém a loira ruborizou-se por completo ao ver de relance ele jogando sua única veste surrada para longe. Tentando prestar atenção unicamente no fruto que tinha em mãos e falhando, ela não conseguia deixar de prestar atenção nos sons que a água fazia enquanto ele se banhava. Aquilo a deixava tão tensa que até sua garganta parecia querer se fechar e não deixa-la engolir mais nada.
Sem pensar sequer por um segundo no que estava fazendo, Lucy girou sua cabeça lentamente, procurando fazer seu movimento o mais imperceptível possível enquanto tentava capturar a visão periférica de Natsu no rio. E assim que conseguiu, deparou-se com uma visão tão bonita que não pôde deixar de ficar boquiaberta.
Natsu estava apenas com seu tronco para fora da água, e fechando suas mãos em formato de concha, pegava uma porção de água para então jogar em cima de si mesmo logo em seguida, porém, ao invés da água escorrer livremente pelo seu corpo como aconteceria com qualquer um, antes que ela pudesse retornar ao rio de onde veio, ela evaporava, levando toda sujeira junto com ela. Os cabelos rosados dele ficavam meramente úmidos e aderidos à sua face por poucos segundos, e aos poucos, a medida que ele ia repetindo aquele procedimento, uma nuvem de vapor começava a se formar ao redor dele.
Lucy jamais havia visto nada assim, onde mesmo que ele mergulhasse, seu corpo ficava molhado por não mais do que alguns poucos segundos.
Quando a loira se deu conta de que o outro havia percebido que estava sendo observado, ela imediatamente voltou sua atenção para o fruto que tinha em mãos, comendo de maneira desajeitada enquanto seu rosto queimava de vergonha por ter sido flagrada. Mas ele, como de costume, não disse nada. Apenas voltou para dentro de sua única veste e aproximou-se da fogueira, concluindo através do cheiro que desprendia da ave que sua refeição estava pronta.
— Tens certeza de que não queres? – Perguntou ele pela terceira vez entre uma mordida e outra.
— Tenho, já estou satisfeita, obrigada. – Respondeu da mesma maneira educada, como nas outras vezes. Esta havia sido a única forma de diálogo deles desde haviam se sentado para comer, e o clima estava bastante tenso na concepção de Lucy.
Vez ou outra ela se pegava segurando o questionamento de quando ela poderia ir pra casa atrás de seus dentes. Sequer sabia se poderia ter qualquer esperança de poder voltar, e a dúvida não conseguia deixa-la em paz. Apesar disso, não conseguia encontrar maneira de pergunta-lo. Ela queria ficar ao lado dele, mas não ali, no meio do nada, deixando toda sua família preocupada. Especialmente Gray, que havia presenciado toda aquela cena na noite anterior, ela nem era capaz de imaginar o que ele poderia estar sentindo naquele momento, ou se ele já tinha contado para o resto de sua família. Sinceramente, se ele tivesse contado, ela não sabia se isso seria algo bom ou ruim. Naquele momento, ela não tinha mais certeza de nada.
— O sol está começando a se pôr, é melhor voltarmos.
A voz de Natsu fez com que Lucy despertasse de seus devaneios, e só então ela percebeu que ele já tinha terminado de comer e a fogueira na frente deles já havia sido apagada. Ela se perdera na passagem do tempo enquanto refletia sobre seus próprios conflitos, e sabe-se lá o que Natsu ficou fazendo neste intervalo de tempo.
Ele levantou-se e esticou seu corpo, mais uma vez oferecendo uma mão para ajuda-la a levantar.
Lucy hesitou, ela estava sem a menor vontade de repetir aquela viajem aterrorizante que fora a vinda até ali. Se pudesse, ela cavaria um buraco ali mesmo e chamaria de casa, apenas para não precisar voar de novo, mas sabia que não havia outra opção. A floresta era perigosa durante a noite, e por mais que as circunstâncias não fossem as melhores, ela queria ficar ao lado de Natsu.
— Tu não irás cair, Lucy. Eu já disse que nunca vou te soltar. – Prometeu, percebendo que Lucy hesitava em aceitar sua mão.
— Eu sei, mas tenho medo... – Admitiu baixinho, encolhendo seu corpo.
Natsu suspirou e agachou-se em frente a ela, segurando seu pequeno queixo com dois dedos e a obrigando a olha-lo nos olhos.
— Eu vou curar o teu medo.
— Como?
— Eu só peço que confie em mim por um minuto.
Lucy hesitou por mais um momento, mas por fim decidiu finalmente pegar em sua mão quente, sendo ajudada a colocar-se de pé juntamente com Natsu que estava logo à sua frente, tão perto que ela chegava a sentir o calor do peito dele. Antes que ele precisasse pedir, ela abraçou seu pescoço e permitiu que ele a pegasse no colo da mesma maneira que havia feito anteriormente. Ele não deixou de encará-la profundamente nos olhos no manejar de cada movimento, e o rosto dela queimava em rubor por conta disso, a proximidade de seus rostos só potencializava tudo isso.
Natsu mais uma vez se viu tentado a beijá-la, mas deteve-se logo de início, lembrando-se de sua última tentativa.
— Feche os olhos. – Pediu enquanto abria suas asas, e Lucy não discutiu, apenas espremeu suas pálpebas apertou-se mais ainda contra ele, já sentindo o pavor voltar a acelerar seu coração.
O impulso fora forte, mas não tão traumático quanto o da última vez, não a deixando com vontade de gritar, apenas com um habitual medo. Dessa vez ela conseguia repara a maneira protetora como os braços dele a envolviam, e isso a ajudou a ficar mais tranquila. Depois de um tempo de subida e um bater de asas intensos, o voo finalmente pareceu estabilizar, e Natsu planava suavemente pelo céu.
— Agora abra seus olhos devagar e veja o horizonte.
Lucy engoliu em seco, lembrando-se da visão que teve do chão se aproximando dela em uma velocidade alucinante, mas sabia que aquela situação era completamente diferente da atual. Tentando tragar seu medo garganta abaixo, ela abriu um olho de cada vez de maneira lenta, acostumando-se com a sensação de não possuir um chão sub seus pés.
Mas a vista dali era linda demais para ela se lembrar de continuar com medo.
Tons de laranja, rosa e amarelo se misturavam para criar um espetáculo no céu. A luz dos últimos raios de sol que batiam contra o corpo de Lucy eram quentes e acolhedoras, e a brisa fresca que balançava seus cabelos lhe proporcionava a sensação de maior liberdade que já havia sentido em toda sua vida. Um bando de aves juntou-se a eles naquela experiência única, voando em rodopios ao redor deles enquanto tinham reflexos laranjas pintados em suas penas claras, cantando algo que parecia uma canção alegre, agradecendo pelo show que o astro rei lhes proporcionava diariamente.
Quando ela imaginou que não poderia ficar mais maravilhada, Natsu bateu suas asas com mais força para ir mais alto, até alcançar o cume da montanha onde estava a caverna que haviam encontrado. Agachando-se em cima de uma pedra, ele fez com que Lucy se sentasse em cima de uma das suas coxas, utilizando seu outro joelho para apoiar no chão e manter-se firmemente ali.
— Olha para além de onde se estende a floresta. – Disse.
E Lucy prontamente obedeceu, e foi então que ela viu de que jeito Natsu conseguira curar seu medo.
Lá na linha do horizonte, tão distante que ela tinha que espremer seus olhos para enxergar de início, havia uma superfície formada de água ao invés de folhas ou terra. Uma superfície ondulante e colorida por refletir as cores do céu alaranjado. O mar.
Lucy já ouvira falar diversas vezes sobre o mar. O lugar para onde os rios corriam, onde animais gigantescos chamavam de lar, perigoso, misterioso, porém imensamente belo, e ela finalmente conseguira ter uma pequena visão de tudo isso que ela só conhecia por histórias. Seu medo fora curado a partir do momento em que ela sentira a vontade de criar suas próprias asas, abri-las e voar em direção a aquela massa de água mística.
Ela estava encantada, apaixonada, completamente extasiada por toda aquela experiência, e disfrutou de cada pequeno segundo dela, até que o sol se rendesse e finalmente se escondesse além do horizonte, deixando uma fina linha de tons de azul escuro e roxo pra trás como o rastro de sua passagem, entregando o palco do céu para uma enorme lua branca e cheia que começava a se destacar entre as estrelas da noite que vinha chegando.
Foi só então que Lucy teve coragem de mudar seu foco de visão, partindo para olhar para o responsável por toda aquela experiência. E ele, ao contrário dela, parecia não ter ficado admirando o pôr do sol ou sequer o mar durante todo esse tempo, e sim parecia ter ficado olhando única e exclusivamente para ela. A resposta para a razão daquilo estava escrita explicitamente em seus olhos, numa declaração mais clara e sincera que qualquer um poderia dar. Aproveitando os resquícios de luminosidade que o céu ainda possuía, ela mostrou um sorriso honesto a ele. Um sorriso de confiança, de redenção, de amor.
Não tinha como as coisas ficarem mais claras para ela naquele momento. Apesar dos apesares, havia algo que reinava além de todos os contratempos.
Delicadamente encaixando seus dedos ao redor das bochechas dele, acariciando-o de leve, ela puxou-o para mas perto, e sem aviso, sem pedir permissão, ela simplesmente o beijou. Carregou naquele selar de lábios tudo o que havia sentido desde que ela havia aberto os olhos no meio do céu, e todo o amor que aprendera a sentir por ele ao longo de todo esse tempo.
Afastando-se um pouco, ela voltou a fita-lo ainda sorrindo, e surpreendeu-se ao perceber que os olhos dele lacrimejavam timidamente. Antes que pudesse reagir de qualquer maneira, Natsu enlaçou a cintura dela com seus dois braços de uma maneira tão firme que parecia segurar até mesmo sua alma com aquilo, fazendo Lucy arfar de surpresa.
— Lucy, por favor, eu te imploro... Nunca mais me negue um beijo teu. – Disse com a voz um pouco mais grave do que o normal e um pouco vacilante, mas tentando disfarçar. – Eu não consigo suportar ficar sem ele, é doloroso...
Depois do espanto inicial, ela soltou um risinho. Levou uma de suas mãos até os cabelos rosados e bagunçados de Natsu para fazer-lhe carinho, e a outra usou para abraçar as costas dele.
— Vamos voltar para a caverna? – Ela sussurrou, sem deixar de acaricia-lo. Sentia-se insana e egoísta por estar tão feliz naquele momento, mas não era algo que ela pudesse controlar, e antes que pudesse pensar mais a respeito, já estava sendo carregada mais uma vez por ele, dessa vez com destino à caverna.
Não tinha certeza se o que estava fazendo era certo, mas tinha certeza de que o amava. Não sabia o que faria da manhã seguinte em diante, mas sabia que, por aquela noite, pelo menos mais uma vez, ela ficaria aninhada entre o calor dos braços do homem que também a amava, pois afinal, ele não apenas havia curado seu medo de voar, mas também havia conseguido desfazer qualquer medo que ela já poderia ter sentido dele até então.
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