Cave
4 O dia em que ela sentiu falta dele
Notas iniciais
Lá estava Lucy, como esperado e combinado, passando o dia inteiro trabalhando na plantação.
Para compensar sua falta no dia anterior, bem como todos os seus atrasos da última semana, ela concordara em trabalhar ao longo de um dia inteiro para depois voltar a programação normal, que agora seria durante as tardes para poder ter as manhãs livres, ainda que o motivo disso fosse oculto de todos menos Erza, que ainda assim sabia apenas parte da verdade.
Já era de tarde, e como Lucy não fora até a caverna naquela manhã por estar trabalhando, ela se pegava pensando em Natsu de minuto em minuto. Quando ela saíra de lá no dia anterior, a febre dele havia baixado consideravelmente, mas isso não mudava o fato de que ele continuava bastante ferido e provavelmente incapaz de sair em busca de alimento por si próprio, e isso deixava Lucy bastante preocupada.
A vontade que ela tinha era de escapar dali apenas por uma horinha, ir lá ver como ele estava, certificar-se de que ficaria bem e se alimentaria para poder combater à doença e voltar antes que alguém pudesse perceber sua ausência, mas ela tinha responsabilidades ali, e não deixaria jamais sua família na mão, aqueles que sempre estiveram ali por ela e pra sempre estariam.
Mas apesar da plena consciência que tinha de suas responsabilidades, a angústia de não estar ao lado dele era inevitável.
Era impossível pensar em Natsu e não lembrar daquele acontecimento inusitado do dia anterior. Seu coração dava um salto em seu peito todas as vezes que repassava os acontecimentos em sua mente. Cada detalhe ela procurava guardar para reviver dentro de sua própria memória quantas vezes ela quisesse, como a maneira como ele a olhou sem desconfiança pela primeira vez desde que se conheceram. O calor de seu braço forte envolvendo suas coxas enquanto ele aninhava sua cabeça ali, como se fosse uma criança.
Aquela voz grave se fazendo ouvir pela primeira vez depois de uma semana, e a descoberta de seu nome. O nome que ficara gravado na cabeça de Lucy de maneira permanente desde então, e que apenas a pronúncia mental deste fazia seu coração acelerar subitamente e suas bochechas ruborizarem.
Era estranho, porém agradável, finalmente poder chama-lo por um nome. Isso a fazia sentir-se mais próxima e íntima dele, como se finalmente tivesse uma ponte ligando os dois. Era como se, depois de descobrir que ele tinha um nome, ele agora parecesse mais humano aos olhos do coração de Lucy.
Ela não entendia o que era aquela intensa força de atração que a puxava para ele. Desde o início, o perigo que Natsu oferecia a ela era como um convite tentador e proibido, que ela não ousava aceitar, mas seu corpo não permitia que ela recusasse. A cada dia que passava ela sentia mais e mais vontade de estar perto dele, de descobrir mais coisas sobre ele, de desvendar todos os seus mistérios e complexidades. Descobrir se aquele bicho arisco possuía algum medo, descobrir o que tinha acontecido com ele para aparecer tão ferido no meio da floresta daquele jeito.
Seus gostos, desgostos, seguranças e inseguranças. Ela queria saber de tudo, descobrir cada detalhe através de palavras pronunciadas com aquele tom de voz grave e sotaque mal-humorado.
Era uma vontade tão intensa que chegava a parecer uma necessidade vital, e ela chegava a sentir-se tonta ao se ver obrigada a ficar tanto tempo longe dele.
Tão tonta que sem sequer se dar conta, seu corpo estava indo de encontro ao chão e, poucos milésimos antes do impacto contra o mesmo, ela perdera sua consciência.
••
“Abra espaço para ela respirar!”
“Lucy! Acorde! O que aconteceu?!”
“Rápido, alguém vá buscar água fresca!”
Várias vozes eram ouvidas ao longe, mas todas estas eram abafadas pelo som agudo do silêncio que a ensurdecia. Sentia que seus olhos estavam abertos, mas ela só conseguia enxergar uma nuvem escura através deles, a qual demorou até se dissipar e começar a revelar finalmente a figura de sua família ao seu redor, todos com uma expressão de pura preocupação.
— Lucy! Graças a deus! – Suspirou Erza aliviada ao ver que Lucy recobrara a consciência e sua pele começava a retornar a sua cor normal apessegada.
— O que... O que aconteceu? – Questionou baixinho com a voz falha, tentando sentar-se para ver onde estava.
— Não se levante ainda! Jellal foi buscar um pouco de água fresca. – Impediu-a a ruiva, forçando Lucy a voltar a se deitar no que parecia ser a cama da loira. – Tu desmaiaste no meio da plantação, o Gray te encontrou caída e te carregou até aqui.
— Eu desmaiei? – Questionou-se, tentando relembrar dos seus últimos pensamentos antes de apagar, mas ainda estava tudo nublado e confuso dentro de sua mente.
— É o que parece. Como estás te sentindo?
— Por que será que isto aconteceu? – Perguntou Levy, que estava sentada na beirada da cama. – Tens te alimentado direito, Lucy?
— Estou um pouco tonta ainda, mas já estou melhorando. Estou me alimentando como sempre, Levy. – Sorriu o mais natural que pôde depois de mentir. Nos últimos dias a loira praticamente não tinha comido nada já que estava repassando sua parte do alimento quase que inteiramente para Natsu, e não achava justo pegar da porção de seus irmãos para si sendo que eles não tinham nada a ver com aquilo.
— Pode ser que tenha sido o sol. O dia está particularmente quente hoje, deve ter esquentado a tua cabeça e te fez desmaiar. – Respondeu Cana, inconscientemente salvando-a daquela situação que colocaria seu grande segredo em risco caso perdurasse sem uma explicação plausível.
— Ah, sim! Só pode ser isso! Eu lembro que estava com muito calor enquanto trabalhava na plantação. – Alimentou a possibilidade, tentando dar credibilidade àquela mentira.
— Faz sentido. – Concordou Erza, conformada com a explicação. – Já basta de trabalho por hoje, tu já compensaste tudo o que estava pendente da tua parte. Desculpe-me fazê-la trabalhar além da conta, Lucy. Jamais tive a intenção de te fazer algum mal.
Erza parecia realmente arrependida aos olhos da loira, que apenas sorriu docemente e abriu seus braços num convite de um abraço acolhedor.
— Não há porque se desculpar, Erza. Todos temos que cumprir nossa parte nessa família e eu não sou exceção. Quem deve pedir desculpas sou eu pelas minhas faltas e atrasos, mas tudo ficará em ordem agora e estas coisas não acontecerão mais, eu prometo.
Ela suspirou pesadamente, mas por fim aceitou o abraço de sua irmã, fechando seus braços com força ao redor da mesma.
••
Pelo resto do dia, não lhe fora mais permitido trabalhar, ou sequer sair de casa.
Cana foi a responsável por ficar de olho na loira, que teve que passar o resto da tarde ouvindo as histórias de taverna da morena. A maioria delas era tão inacreditável que ela tinha vontade de chamar a mais velha de mentirosa enquanto ela ainda as contava, mas se tratando de Cana, Lucy não poderia duvidar tanto assim desses seus grandes feitos.
Infelizmente, Lucy não conseguia focar em nada que não fosse sua vontade de sair dali. A imagem de Natsu caído no chão da caverna do dia anterior ainda assombrava cada canto de sua cabeça, e vira e mexe ela se pegava questionando se ele estava melhor mesmo ou calculando o quanto de comida iria levar para ele no dia seguinte, já que não tinha conseguido ir lá neste dia, também fazendo uma lista mental das ervas que deveria levar desta vez.
Cana percebera que Lucy estava bastante alheia às conversas, mas decidiu relevar já que provavelmente ela ainda estava se recuperando, e isso não a impediu em nenhum momento de continuar tagarelando.
Quando a noite finalmente tomou conta do céu daquele dia, Erza decidira que eles fariam um jantar especial. Ela insistia que Lucy estava mais pálida do que o normal e havia perdido peso, e que isso provavelmente contribuíra para seu desmaio. Lucy não se conformara em no quanto a ruiva estava assustadoramente certa, então decidiu não protestar para não levantar suspeitas.
Com o nascimento de um novo filhote de gado há poucos meses atrás, eles se permitiram abater um dos mais velhos que possuíam. O processo de corte da carne para então salga-la e conservá-la era bastante trabalhoso, então permitiram que Lucy também os ajudasse nisso, apesar de ficar com a parte mais leve do processo, que era simplesmente encher os bifes com quantidades abusivas de sal que conservariam os mesmos.
Paralelamente, Levy e Jellal separaram outras porções de carne para condimentarem com o pouco de especiarias que possuíam, preparando também uma panela generosa de arroz para acompanhar. Cana fora até a dispensa da casa e pegou um barril de cerveja que havia sido feito por ela com a última safra de cevada que colhera.
Os olhos de Lucy brilharam quando ela finalmente sentou-se à mesa e pôde contemplar aquela incomum fartura em cima da mesma. Sua família sentada ao redor da madeira retangular também parecia já ter começado a devorar a comida com os olhos de tão cheirosa que estava, então sem mais delongas, Erza ordenou que todos se dessem as mãos e agradecessem por aquela refeição e, sem esperar nem mais um segundo depois daquilo, atacaram avidamente a comida.
O barril de cerveja fora bebido mais da metade naquela noite, e todos riam e conversavam animadamente de maneira embriagada. Erza fora bastante relutante à ideia de deixar que Lucy bebesse no início, mas depois de seu segundo copo já estava ela mesma oferecendo a bebida à loira, que a aceitou de bom grado já que a fama da cerveja de Cana espalhava-se por todos os vilarejos vizinhos como a melhor cerveja de todos os tempos. E com bons motivos para tal, já que era de fato excelente.
— Sabe de uma coisa, Levy? Deveríamos plantar mais cevada para aumentar a produção de cerveja. Assim poderíamos lucrar mais! E comer mais! E beber mais!– Sugeriu Erza de maneira entusiasmada, e apesar de estar claramente embriagada, a ideia era excelente.
— Eu vou fazer as contas certinho amanhã, no momento meu intelecto está incapacitado. – Admitiu, arrancando gargalhada de todos na mesa.
E o jantar seguiu animado, tendo direito até mesmo a suculentas uvas de sobremesa, até todos decidirem que já estava tarde e era hora de descansar para mais um longo dia de trabalho ao amanhecer.
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Seu sono estava leve naquela noite, e os uivos que o vento vazia ao soprar por entre as casas do vilarejo acabaram por despertar a loira que se encolhia entre as finas cobertas que dividia com Levy.
Seu corpo tremia de leve por conta dos sopros gelados que atravessavam as frestas da parede de madeira da casa, e por mais que Lucy tentasse se encolher, o frio não lhe dava trégua. Temia pela chegada do inverno já que o frio parecia estar chegando a cada ano mais cedo, e cada vez mais rigoroso.
Mas apesar do desconforto físico, era sua mente que não conseguia descansar e deixa-la dormir em paz. Sua mente estava ainda naquela caverna, imaginando se, mesmo com aquele corpo quente, ele era capaz de sentir frio. Ou se ele ainda estivesse doente, e se fosse o caso, aquele vento o faria piorar mais ainda.
Lentamente sentou-se no colchão de palha que dividia com a irmã, tomando todo o cuidado necessário para não a acordar e olhou em volta, certificando-se de que todos os outros também estavam dormindo. Ela não aguentava mais ficar naquela situação, e faria algo a respeito.
Desfez-se de seus pijamas e vestiu o vestido preto mais comprido que possuía, para assim não ter de passar tanto frio nas pernas. Calçou sapatilhas de couro que se prendiam aos pés com um fino cadarço e pôs-se a abastecer sua cesta.
Para sua sorte, ela ainda tinha bastante coisa no armário onde a família deixava seu estoque de ervas, e não precisaria sair na noite procurando por elas. Pegou um pedaço moderado de carne temperada que restara do jantar, encheu um cantil com vinho quente e outro com água e foi.
Teve que tomar cuidado para não deixar a porta de entrada da casa bater atrás de si, já que os ventos estavam violentos naquela noite. Violentos e frios, frios ao ponto de fazer Lucy sentir doer até seus ossos. Suas pernas ainda estavam um tanto fracas pela queda de pressão daquela tarde, mas ela arrancou forças do fundo de seu espírito e lutou contra as rajadas de vento que tentavam empurrá-la para fora do caminho da floresta.
O pequeno lampião que carregava consigo tinha uma luz oscilante por conta do vento, e ela temia que o mesmo apagasse e a deixasse no escuro, então andou o mais rápido que pôde até a caverna de Natsu, e sentiu-se tão aliviada ao finalmente avistar sua entrada que chegou a sorrir para a escuridão.
— Sou eu! – Gritou mais alto do que costumava fazer, temendo que o barulho do vento abafasse o som de sua voz. Não hesitou em logo entrar, procurando livrar-se daquele vento que embaraçava suas mechas loiras.
As paredes úmidas da caverna conferiam certo abrigo, protegendo-a das rajadas uivantes que cantavam na noite, e ela sentiu-se bastante agradecida por isto, mas não perdeu sequer um segundo pensando em qualquer outra coisa que não fosse encontrar Natsu. Explorou os cantos onde ele costumeiramente ficava e o encontrou lá, naquela mesma parede, sentado de maneira largada. Assim que a luz do lampião alcançou seu rosto, Lucy pôde perceber que suas orbes esverdeadas a encaravam sem expressar qualquer emoção.
Ela interpretou isso como um bom sinal, considerando a ira e desconfiança que seu olhar transmitia até pouco tempo atrás.
— Me perdoe por não poder ter vindo mais cedo, mas eu trouxe comida e coisas para tratar de seus ferimentos. – Disse calma e doce, se aproximando devagar dele.
A expressão dele não mudou, ele apenas desviou seu olhar para o lado enquanto ela se sentava ao seu lado e começava a retirar as coisas da cesta de palha que sempre trazia consigo.
Lucy estendeu o pedaço de carne e o cantil de vinho a ele, que não aceitou imediatamente, permanecendo sem fita-la. Apesar da momentânea indiferença do outro, ela esperou pacientemente até que ele tomasse a iniciativa de aceitar o alimento, sabendo que ele precisava de seu próprio tempo para aceitar investidas e muito mais para fazer suas próprias.
Assim que ele finalmente começou a mover-se para alcançar a comida, Lucy observava suas ações fascinadas, como se estivesse tendo a chance única de contemplar um belo animal raro realizando feitos extraordinários à sua frente. Quando ele por fim pegou a carne e o vinho em mãos, seus dedos encostaram levemente contra os de Lucy, e ela pôde sentir o calor que eles emitiam. Não era mais um calor febril, e sim um calor reconfortante e convidativo, como uma chama que permanecia inabalável mesmo com os furiosos ventos da noite.
Quando Natsu sentiu que seus dedos roçaram contra os dela, afastou-se num movimento rápido, trazendo consigo as coisas que agora segurava.
Lucy não entendeu seu súbito afastar, mas corou imediatamente ao perceber que estivera encarando-o este tempo todo, e seu corpo ansiava por sentir mais daquele calor que ele emitia, mesmo não sabendo o que ou quem ele realmente era, mesmo sabendo que ele seria capaz de fazê-la em pedaços em um milésimo de segundo caso ele decidisse que lhe convinha. Estar ao lado dele era como constantemente querer abraçar o sol sem se importar com o risco de se queimar a qualquer momento.
Ela sorriu timidamente para ele, sabendo que o mesmo era capaz de enxerga-la com sua visão periférica, mas logo ateve-se aos seus próprios afazeres, separando as ervas medicinais, a água e os panos para novos curativos.
E dessa vez, assim que ela estava com tudo pronto, sem sequer precisar que a loira pedisse permissão Natsu espontaneamente ofereceu seu braço livre para que ela novamente realizasse os cuidados necessários em seus ferimentos. Ele continuava a comer calmamente e não ousava fita-la, mas os olhos de Lucy brilharam com aquele gesto.
Ela fechou os olhos e sorriu agradecida, imensamente feliz por finalmente ter conseguido conquistar a confiança daquela fera, optando por não dizer mais nada e apenas começar a trabalhar. Aquele momento não parecia necessitar de qualquer palavra, apenas gestos.
Ele agora não ficava vigiando cada um dos movimentos de Lucy meticulosamente, com receio de cada um deles. Ele simplesmente permitia que ela o tocasse, permitia que ela permanecesse ao seu lado, aceitava comida e bebida que ela lhe oferecia. A razão de Natsu entrava em conflito com seu coração a todo momento em que aquela mulher estava por perto. Sua mente mandando ele se afastar, mas todo o resto implorando para ficar.
Depois de mais de uma semana ele decidiu seguir o caminho que seu corpo inteiro pedia para seguir. Além de ela estar tomando conta de suas feridas exteriores, de alguma maneira, aquelas carinhosas mãos mornas conseguiam alcançar até dentro de sua alma e curar seus traumas que lhe doíam em suas profundezas também. Geralmente ele não se permitia ser vulnerável perto de ninguém, mas quando ele estava ao lado de Lucy, baixar a guarda era confortável, acolhedor.
Não fora capaz de entender até então de onde saiu a audácia para deitar-se em seu colo no dia anterior. Ele definitivamente estava com a mente sem a sua funcionalidade total por conta da febre, caso contrário não teria feito isso. Entretanto, ele não se arrependia do que tinha feito. Lembrar-se do fato fazia o coração dele subitamente acelerar, e isso sim o incomodava um pouco já que não entendia o motivo daquilo.
— Oh não! – Exclamou Lucy, roubando a atenção de Natsu de repente. Ele imediatamente voltou-se para encará-la, mas percebeu que ela olhava fixamente para a entrada da caverna, e ele então seguiu seu olhar castanho para tentar entender o que estava acontecendo.
Grossas gotas de chuva começaram a cair dos céus de repente, acompanhando a intensidade dos ventos gelados, e isso fez a loira bufar em frustração.
— Não acredito... Eu estava quase terminando... – Resmungou, ainda olhando aborrecidamente para a chuva que encharcava o chão fora da caverna. Deu-se por vencida logo em seguida, dando de ombros e voltando a enfaixar o último machucado de Natsu em que estava trabalhando. – Não tem outro jeito, vou ter que esperar essa chuva baixar, ou vou acabar ficando doente. – Resmungou mais um pouco para si mesma.
Natsu ficou em silêncio, apenas observando as expressões de Lucy. O rosto dela transparecia perfeitamente tudo o que ela sentia, no momento em que sentia. Era algo muito interessante para Natsu poder saber o que ela estava sentindo através daquele rosto delicado e gentil, e sem perceber ele acabara ficando a encará-la até que a mesma terminasse com sua tarefa, já que ele já havia terminado de comer.
— Prontinho. – Anunciou assim que terminou. – Já pode voltar a descansar. – E sorriu docemente, fazendo o coração de Natsu dar mais um irritante salto dentro de seu peito quente.
Ele assentiu com a cabeça e se afastou dela, indo até seu canto perto da parede de sempre e se aninhando ali. Ele havia juntado uma pilha de folhas secas naquele canto, improvisando um colchão em busca de um mínimo de conforto já que o chão daquela caverna era sempre úmido e bastante duro, o que era bastante inconveniente já que ele passava a maior parte do tempo deitado.
Lucy suspirou resignada, já previa esta ação dele, então não se surpreendeu. Ele sempre escolhia afastar-se dela no final das contas, e isso lhe doía o peito de amargura, mas sabia que não tinha como forçar para que fosse diferente. Era a natureza dele, e mesmo que ela quisesse ficar perto, teria que aprender a respeitar seus limites para poder cuidar daquele arisco indivíduo.
Ainda sentada no chão, trouxe os joelhos para perto do corpo, apoiando seu queixo nestes e abraçando suas coxas e pernas. Ficaria ali, esperando a chuva passar, ou ao menos diminuir um pouco para poder voltar para casa.
Porém, depois de uma ou duas horas, ela percebeu que isso não aconteceria tão cedo.
Suas costas já doíam por não conseguir encontrar uma posição confortável para ficar, e seu corpo inteiro tremia por conta do frio.
Com a vinda da chuva os ventos da noite ficaram ainda mais gelados, e ela sentira isso precisamente. Já estava passando frio antes disso, e agora ela tentava evitar permitir que seus dentes batessem para não incomodar Natsu, que dormia a pouco mais de um metro de onde ela estava.
Nem mesmo a fogueira que ainda estava lá acesa era capaz de aquecê-la o suficiente para suportar aquela situação.
Virou-se para o lado, procurando pelo rosto de Natsu e encontrou-o com um semblante pacífico.
E isso a fez sorrir inconscientemente, após horas de uma sôfrega espera pela melhora do tempo.
Poderia estar passando por um pouco de dificuldade no momento, mas mesmo assim estava convencida de que havia valido a pena ter vindo, pois assim ela sabia que ele estava bem. Olhou uma última vez para a entrada da caverna, numa última esperança de que aquela maldita chuva diminuísse nos próximos minutos.
Mas não aconteceu.
Convencida de que era inútil permanecer ali, levantou-se daquele chão que já fazia sentir-se com o traseiro achatado, bateu as vestes para livrar-se de qualquer sujeira ou terra que tenha ficado em suas roupas e reuniu coragem e fôlego para correr em meio àquele tempo caótico. Da próxima vez que saísse à noite, tomaria o cuidado de vestir algo com capuz, ao menos.
Em silêncio, e tomando cuidado para não fazer qualquer ruído, reuniu suas coisas e as guardou dentro de sua cesta, porém não conseguindo encontrar seu cantil.
Olhou ao seu redor procurando o objeto, mas não obteve sucesso, e se foram alguns instantes até ela perceber que estava com Natsu, já que ele estava bebendo vinho de dentro dele. E ele ainda o segurava em suas mãos.
Lucy torceu o nariz para aquilo. Temia acordá-lo, mas precisava levar o cantil para poder enchê-lo e trazê-lo cheio novamente no dia seguinte.
Vagarosamente aproximou-se de onde ele estava e com o maior cuidado que era capaz de ter, começou a delicadamente retirar o objeto das mãos de Natsu, que por sua sorte não o segurava com tanta força.
Discretamente suspirou aliviada quando guardou o cantil dentro de sua cesta, apoiando a alça da mesma em seu ombro para poder virar-se e ir embora, mas antes que fosse capaz de dar seu primeiro passo, sentiu uma mão quente agarrar um de seus calcanhares e teve que conter um grito de susto no fundo de sua garganta.
Olhou para baixo, para seus pés, e deparou-se com a visão de uma mão grande e forte enlaçando seu calcanhar. Ele não apertava tanto ao ponto de machucar, apenas ao ponto de fazer os tendões das costas de sua mão saltarem, novamente formando aquele perfeito desenho que o corpo dele possuía, e que Lucy tanto amava contemplar. O calor que aquela mão transferia à pele da loira parecia irradiar para o restante de seu corpo inteiro, e ela esquecera do frio que sentia até então por uns instantes.
Seguiu a linha do braço que a mantinha no lugar com um olhar incerto até encontrar-se com aquele rosto, até há pouco em paz adormecido, agora franzido em uma aparente frustração. Engoliu em seco ao se sentir perfurada por aquele verde de seus olhos, mas não falou nada.
Após um torturante minuto encarando-a, Natsu desviou o olhar rapidamente, apenas para observar como estava o tempo fora daquela caverna, e então voltou para aquele contato visual que fazia os pulmões de Lucy diminuírem ao ponto de quase a deixar ofegante.
— Ainda está chovendo. – Disse, e Lucy sentiu um arrepio ao ouvi-lo usar sua voz mais uma vez. Era algo tão raro, mas que ela não se incomodaria nem um pouco em acostumar-se com aquele timbre de voz invadindo seus ouvidos com mais frequência.
Deu-se um tempo para respirar antes de responde-lo para reunir um tanto de firmeza, o que era bastante difícil naquele momento já que suas pernas ameaçavam falhar.
— Sim. – Respondeu, dando de ombros. – Mas não acho que vá passar tão cedo, e tenho que ir para casa.
Ele não pareceu aceitar sua explicação, por mais incontestável que fosse, por isso continuou segurando seu calcanhar com firmeza.
Natsu ajeitou seu corpo em cima do monte de folhas secas, indo mais para o lado e abrindo um espaço livre nelas.
Lucy apenas olhou para o espaço vazio confusa enquanto esperava uma explicação.
— Fique.
Lucy arregalou os olhos, surpresa com aquele pedido, que em realidade mais parecia uma ordem.
Estaria ouvindo direito?
Piscou algumas vezes com força, tentando certificar-se de que não estava imaginando coisas, mas aquela visão dele esperando que ela se deitasse ao seu lado não sumia. Só de pensar em deitar ao lado dele já a deixava com borboletas no estômago.
— Ma-Mas...
— Fique, Lucy. – “Pediu” mais uma vez, agora com mais afinco.
E então todos os músculos da loira, antes tensos, pareceram relaxar de repente.
Lucy sentiu sua cabeça ficar leve ao ouvi-lo pronunciar seu nome pela primeira vez, e temeu estar prestes a desmaiar mais uma vez, mas definitivamente não era o caso. Seu corpo não estava desfalecendo, e sim funcionando em potencia máxima. Suas bochechas tomaram um tom rubro profundo, e o frio que sentia há poucos minutos agora já virara calor. Seu coração parecia querer escapar pela garganta, e ela sequer conseguia falar direito naquela ocasião.
— Tu-Tudo bem... – Assentiu passivamente, não conseguindo mais negar seu pedido/ordem depois de ouvi-lo chamá-la pelo nome, e sentiu-se fraca por isso. Apesar disso, sabia que aquela era a oportunidade perfeita para passar mais tempo perto dele.
Não sabia ao certo o que estava fazendo. Aquilo provavelmente não era uma boa ideia, mas ela não estava conseguindo lutar contra a própria vontade de ficar ali com ele.
Ainda um tanto receosa, deu um passo para mais perto e abaixou-se, sentando em cima do monte de folhas secas que cobriam o chão e estavam ainda com o calor que o corpo do Natsu desprendera enquanto estivera deitado ali.
“O calor do corpo dele...”
Não era confortável como seu colchão vazio que lhe esperava em casa, mas por algum motivo ela se sentia muito melhor ali, apesar de estar tão atônita com toda aquela situação que sequer era capaz de assimilar os fatos apropriadamente. Mas ela não precisava de fatos ou explicações enquanto pudesse sentir aquele calor reconfortante, mesmo que fosse indiretamente através daquelas folhas secas e mortas.
Estava deitada de barriga para cima e mantinha seu corpo perfeitamente esticado e rijo. Estava tão tensa que não ousava se mexer, já que não sabia o quão confortável seria permitido a ela ficar enquanto estivesse assim deitada ao lado dele. Girou seus olhos castanhos para o lado onde Natsu estava para que pudesse espiá-lo e o encontrou novamente de olhos fechados, deitado de lado e sem transparecer qualquer incômodo perante aquela situação.
Mesmo depois de ver que ele parecia tranquilo, ela não conseguiu ficar totalmente em paz, e foi só depois de ouvir a pesada respiração adormecida dele que Lucy se permitiu ajeitar-se de uma maneira mais cômoda para tentar dormir. O amanhecer ainda parecia distante e a chuva continuava forte, então não valia a pena esperar acordada.
••
Acordou em algum momento da madrugada de maneira inexplicável. Sentia metade da lateral do seu corpo um tanto desconfortável, já que estava parte em cima do empilhado de folhas que havia juntado na tarde anterior, e parte no chão úmido e frio da caverna.
Sem abrir os olhos, jogou seu corpo para frente em busca do resto do espaço em que as folhas cobriam o chão, mas assustou-se ao sentir seu corpo chocar-se com algo.
Abriu os olhos de imediato, sentindo a descarga de adrenalina repentina proporcionando um estado de alerta para lutar contra uma possível ameaça a ele.
Mas ao ver o que estava à sua frente, aquele seu estado ofensivo simplesmente desmoronou.
A adrenalina em seu sangue desintegrou no exato segundo em que ele se deparou com a visão do rosto adormecido de Lucy bem à sua frente.
Uma expressão pacífica que demonstrava perfeito conforto apesar das circunstâncias desfavoráveis para qualquer ser humano, suas pálpebras enfeitadas com longos e curvados cílios loiros lhe concediam uma aparência encantadora de fada a ela, combinando com todo o resto de seu semblante angelical. Seus lábios entreabertos deixavam escapar uma respiração quentinha e silenciosa, num ritmo tão perfeito que soava até mesmo como música.
E foi encarando aqueles lábios que Natsu sentiu seu coração saltar novamente, dessa vez ainda mais forte.
Estralou a língua, irritado. Já bastava daquela sensação desconhecida! Ele já estava farto daquilo.
Em realidade, farto de não entender o que era. Não estava nem perto de farto de sentir aquilo. Apesar de frustrante, era uma sensação gostosa que ele só conseguia sentir perto dela. Algo que ele nunca tinha conhecido até então. Aquela mulher teimosa, imprudente e desconhecida, mas que de alguma maneira o cativara, cativara ao ponto de fazê-lo não querer deixa-la ir embora.
Lucy moveu um pouco sua cabeça, tentando aninhar-se em cima de seu próprio braço que utilizava como travesseiro e algumas mechas de seus cabelos loiros caíram em frente ao seu rosto adormecido.
Por puro reflexo e instinto, Natsu levantou sua mão devagar, hesitante, mas ao mesmo tempo decidido, levando-a até aquele rosto angelical que era coberto por aquelas madeixas brilhantes como o sol. A cada centímetro a menos que sua mão se aproximava do rosto de Lucy, seu coração parecia bater mais forte, e ele estava embriagado com aquela sensação de torpor e nervosismo que sentia.
Com cuidado para não a arranhar, afastou os fios amarelos do rosto de Lucy, jogando-os para trás de sua pequena orelha para que não voltassem a cair. Jamais em toda sua vida havia feito um movimento tão delicado quanto aquele. Jamais em toda a sua vida ele havia tido vontade ou necessidade de ser qualquer coisa além de bruto e animalesco.
Mas perto dela ele não ousava realizar movimentos bruscos. Não mais.
Ficou a admirar as belas feições que ela possuía por mais uns minutos, preocupado em admirar cada detalhe como se temesse perde-la de vista a qualquer momento.
Ela era tão bela, tão pura, tão distante do que ele merecia ter por perto que permitir-se ficar ao seu lado era como um pecado. Um pecado que ele estava apreciando cada vez mais cometer.
Seus pensamentos foram cortados por uma brisa fria que adentrou a caverna de repente, fazendo o corpo da loira à sua frente tremer de leve.
A fogueira estava apagada, e aquela pobre e delicada mulher tentava encolher-se dentro da fina roupa que vestia, mas isso não parecia realmente protege-la do frio.
Mais uma vez não lutou contra seu instinto que o fez, delicadamente, e com muito cuidado para não a acordar, pegar a pequena cintura dela e puxá-la para perto de si em um abraço, oferecendo-a o aconchego do calor de seu corpo. Mesmo adormecida, Lucy aceitou aninhar-se naquele peito quentinho sem sequer hesitar, escondendo seu rosto na curva entre o pescoço e o ombro de Natsu, agindo como se estivesse em casa, como se aquilo fosse natural e familiar para ela.
Ao perceber a aceitação do gesto por parte da loira, Natsu envolveu-a mais ainda, criando uma barreira contra o frio para abriga-la com seu próprio corpo. Afundou seu rosto nas mechas loiras bagunçadas que estavam agora logo abaixo de seu queixo, procurando pelo cheiro dela que havia se tornado um vício para ele ao longo dos últimos dias, e ele sentiu-se pleno ao poder apreciar aquele aroma assim tão de perto.
Suspirou fortemente uma última vez antes de fechar os olhos e dormir ali, abraçando a ela e ao seu pecado simultaneamente.
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