Cave
8 O dia em que ela se tornou seu tesouro
Notas iniciais
Lucy dava passo após passo com grande desgosto pelo caminho de casa. Estava com um mal pressentimento desde que Natsu reagira de maneira tão estranha depois daquele último beijo que deram. Ele parecia em conflito com alguma coisa, mesmo mantendo aquela mesma máscara séria de sempre em seu rosto. Quando se tratava de assuntos pessoas, ele era extremamente fechado, e a loira sabia que ele não a contaria o que havia passado por sua cabeça tão cedo. Tudo com ele deveria ser lento e gradual.
Sentia um pouco de sede, então tateou dentro de sua cesta para tentar ter em mãos o cantil que ainda continha um resto de água, mas ao invés disso, seus dedos esbarraram com algo que ela inicialmente não reconhecera a textura. Ao pegar em mãos e trazer até perto de sua vista, ela percebeu que uma das escamas de Natsu haviam caído ali no meio de suas coisas, e observá-la agora só a fez lembrar da maneira que Natsu pareceu aflito ao ver que uma de suas escamadas tinham caído.
Não conseguia entender se isso era preocupante ou não, sabia que animais costumavam trocar de escamas de vez em quando, mas sequer tinha noção de que tipo de criatura Natsu era, então não tinha como imaginar se aquilo era normal. Colocou a pequena escama de volta na cesta, decidida a perguntar mais tarde sobre isso a ele.
Andando discretamente por entre as casas do vilarejo, escondendo-se nas sombras das mesmas, Lucy chegou até onde sua família vivia e entrou de fininho pela porta dos fundos da casa naquela manhã. Desde que encontrou com Erza na cozinha na outra ocasião, achou que teria chances mais favoráveis de não ser descoberta caso utilizasse a outra entrada. A passos leves, vasculhou todos os cômodos da casa, e ficou satisfeita ao perceber que não havia ninguém, permitindo-se ficar mais a vontade.
Foi diretamente para a cozinha, precisava esquentar um pouco de água para tomar um banho. Este novo hábito de dormir no chão de uma caverna suja e úmida a fazia se sentir imunda a cada manhã, e nada como um bom banho quente para tirar essa sensação de sua pele. Fazendo poucas viagens com uma grande bacia de água que esquentava na cozinha, logo a banheira de madeira, construída por Jellal, que tinham em um dos cômodos da casa estava cheia, desprendendo vapor quente por todo o cômodo em um convite irresistível para que Lucy entrasse e relaxasse. Desfazendo-se de suas vestes e abandonando-as em um canto qualquer, ela apreciou a sensação da água, tão quente que era quase incômoda, desgrudar todas as impurezas de sua pele.
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Gray naquela manhã estava estranhamente inquieto, e Jellal não deixara de perceber isso, apesar de não ter dito nada. Mesmo que ele estivesse fazendo seu trabalho, em cerca de a cada vinte minutos, o moreno deixava seus afazeres para ir até a casa deles, mas sem dar qualquer explicação. Não se demorava em suas viagens, mas parecia voltar sempre com uma cara insatisfeita de cada uma delas, até então.
Em uma das últimas tentativas, Gray fora capaz de ouvir o barulho de água fervendo, apitando em uma panela, vindo da cozinha da casa. Com cuidado, circulou a residência pelo lado de fora e agachou-se abaixo da janela da cozinha. Com toda a cautela que possuía, deu uma breve espiada para dentro do cômodo e encontrou exatamente o que estivera esperando a manhã inteira: Lucy estava de volta, e parecia estar esquentando água para tomar um banho.
Sentindo-se já parcialmente aliviado de apenas vê-la bem, Gray esperou ali, pacientemente, até que a loira terminasse de preparar seu banho e adentrasse no mesmo, para só então ir até a cozinha agora vazia. Havia algo ali que ele queria inspecionar.
Abandonada em cima da grande mesa retangular de madeira pesada, estava a cesta que Lucy sempre carregava consigo para todos os cantos. Gray não sabia o que esperava encontrar ali, mas se tivesse sorte, seria alguma pista para onde ela poderia estar fugindo durante a madrugada.
Vasculhando entre os poucos pertences dela, encontrou dois cantis, abrindo um após do outro e constatando que em seus interiores haviam água e vinho. Alguns pedaços de pano e migalhas de comida forravam o fundo da cesta, mas havia algo bastante peculiar ali que chamara bastante a atenção do moreno.
Entre seu dedo polegar e indicador, ele segurou algo que Gray demorara para identificar bem o que era.
Mas após observar atentamente por uns minutos, não restavam dúvidas, era uma escama. Vermelha e brilhante, maior que seu polegar, com bordas tão finas que chegavam a quase ser afiadas.
Gray ficou bastante confuso, não sabendo o que aquilo poderia significar, ou por que algo assim estaria na cesta de Lucy. Deu-se por vencido pouco tempo depois, não conseguindo encontrar nenhuma pista consistente que o levasse a formular qualquer teoria, mas por precaução, guardou aquela pequena escama em seu bolso.
Devolvendo a cesta para onde a havia pego, Gray novamente deixou a casa e voltou para onde estava trabalhando, decidido a seguir Lucy naquela noite e resolver esse mistério de uma vez por todas.
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Apesar de agoniada para sair de casa de uma vez, Lucy esperou o máximo possível para ter certeza de que todos estavam dormindo antes de levantar e se vestir. Para limitar suas movimentações dentro da casa a um mínimo, já havia deixado suas roupas debaixo do próprio travesseiro, e se trocou em menos de um minuto.
Foi até a cozinha de fininho e pegou tudo o que costumeiramente levava à caverna, e a expectativa de ver Natsu em breve já a fazia sentir borboletas voando em seu estômago, e não conseguia reprimir um pequeno sorriso bobo enquanto imaginava se ele gostaria do sabor do bolo de castanhas que assara para eles naquela tarde.
Deixando para calçar seus sapatos assim que saísse porta a fora, cobriu sua cabeça com o capuz da túnica que a cobria por cima do vestido e ligou seu lampião. Respirou fundo e se preparou para mais uma noite com aquele homem imprevisível. Cada noite com ele se tornava ainda mais especial do que a anterior, e ela tentava manter esse padrão. Desta vez, havia adicionado algumas flores ao seu banho mais cedo naquele dia, esperando que a aproximação crescente entre eles o possibilitasse de sentir o aroma.
Ruborizou com seus próprios pensamentos enquanto adentrava o estreito caminho por entre as árvores da floresta, misturando-se com os vagalumes que flutuavam entre as folhas escuras.
Porém, não encontrou mais calma para divertir-se com seus devaneios até cerca de um terço do caminho, já que desde que adentrara a floresta, passara a ouvir ruídos de movimentação entre arbustos e passos de algo mais pesado do que esquilos atrás de si. Lucy já ouvira várias histórias de lobos e até mesmo ursos se aproximando do vilarejo pelo interior da floresta, e estar ali, sozinha e indefesa durante a noite, com carne dentro de uma cesta que carregava em seu braço, não era uma situação exatamente segura.
Engoliu em seco, tentando manter a calma e respirar compassadamente para que conseguisse pensar em uma solução para que saísse dali viva, mas a cada som de galho se quebrando ou folha seca se esfarelando de baixo de possíveis grandes patas a faziam sentir um arrepio intenso correr por sua espinha.
Decidiu que o mais sensato naquela situação seria pegar o pedaço de carne de dentro de sua cesta e tacar para seja lá qual fosse o animal que estivesse a seguindo, distraindo o bicho, e sair correndo logo em seguida. Com calma e silêncio, abriu os panos que cobriam o que sua cesta guardava e procurou pelo pedaço de carne embrulhado no fundo da mesma, o que não fora difícil com o auxílio do lampião que tinha em mãos.
Tendo então agora a carne pronta para ser arremessada, ela estava prestes a fechar a cesta novamente para que nada dali saísse voando quando ela corresse para longe, mas algo a impedira. Uma intuição, talvez.
Neste meio tempo em que ela pegara a carne, a moça percebera que algo havia sumido de dentro da cesta. A escama de Natsu não estava mais ali.
Pensando melhor sobre isso, Lucy não havia visto mais a escama desde que voltara da caverna naquele mesmo dia de manhã, e a cesta não havia saído da cozinha, então era altamente improvável que ela tivesse caído em algum canto.
“A não ser que... Alguém tenha mexido nas minhas coisas, e a pegou...” – Pensou.
E novamente dando ouvidos a sua intuição, várias imagens de Gray ao longo do dia surgiram em sua mente. A maneira como ele a vigiava com uma expressão estranha, ou como ele a encarara durante o jantar, tentando fazer algumas perguntas esquisitas sobre as amizades dela fora do vilarejo.
E uma pequena suspeita brotou ali, junto com uma sensação intensa de enjoo. Ela havia sido descoberta, e Gray provavelmente estava seguindo-a naquele mesmo instante.
Fechou os olhos e respirou bem fundo um par de vezes. Precisaria de fôlego e coragem para o que estava prestes a fazer, já que não sabia se seria capaz de chegar até o fim daquilo.
Levantou o lampião para perto de seu rosto e, num único sopro, apagou o fogo que queimava dentro da pequena caixa de vidro, deixando o objeto no chão e correndo. Correndo na direção que seu corpo apontava, lembrando-se daquela rota que percorria duas vezes por dia ao longo das últimas semanas, confiando em sua memória muscular, confiando que chegaria até a caverna mesmo de olhos fechados.
Sentiu-se um pouco culpada por ter largado aquele que considerava como um irmão na floresta tomada pela escuridão da noite, mas eles não estavam tão longe de casa, ele conseguiria encontrar o caminho de volta caso desistisse de segui-la, mas infelizmente Gray era tão teimoso quanto ela.
A cada três passos, ela tropeçava em uma pedra, ou os galhos das árvores que a circulavam rasgavam a pele de seu rosto, mas ela continuou mesmo assim, correndo, ouvindo os passos apressados atrás de si ficarem cada vez mais distantes, até que por fim teve sua desconfiança confirmada ao ouvir o som de Gray chamar por seu nome.
Mas ela sequer abriu os olhos, apenas continuou indo em frente, até que de alguma maneira, por trás de suas pálpebras, ela viu a luz alaranjada que saía da entrada da caverna. Ela havia chegado.
Mas não poderia parar. Gray poderia dar a mesma sorte de encontrar a caverna a qualquer momento, e se isso acontecesse... Natsu seria descoberto.
A conclusão aterrorizou a loira, que acelerou ainda mais o passo, adentrando as paredes de pedra daquele tão bem conhecido abrigo, e sem sequer parar para tomar fôlego, parou diretamente em frente à pequena fogueira que havia lá dentro, pisando em cima dela para aniquilar as chamas que iluminavam o local, alardeando Natsu, que apenas observava a aquilo tudo de maneira confusa. Assim que a fogueira havia se reduzido a cinzas, Lucy alcançou o braço de Natsu, que estava sentado na cama de folhas, e puxou-o para obriga-lo a levantar com rapidez.
— Lucy? – Questionou confuso ao sentir seu corpo sendo puxado com brusquidão.
— Natsu, precisamos sair daqui rápido! Não podemos deixar que te descubram! – Falou entre as arfadas causadas pela falta de ar depois de correr até ali. Ele a fitava claramente perdido, e não estava conseguindo reagir rapidamente, pois não entendia o que estava acontecendo, mas parecia começar a se preocupar. — Eu sei que ainda estás te recuperando dos ferimentos, mas precisamos ir!
Sem dizer mais nada, Natsu levantou-se num salto, como se subitamente tivesse entendido tudo o que tivera acontecido com Lucy, e a seguiu.
Com Lucy ainda segurando seu braço, os dois correram para longe da caverna, tão rápido quanto podiam, tão longe quanto foram capazes, sem ter noção da direção que tomavam, apenas fugindo, fugindo da possibilidade de serem descobertos, utilizando como combustível o medo que nutriam de perder um ao outro.
Os pulmões de Lucy chegavam a doer de tanta carência de uma respiração regulada. Ela vez ou outra esquecia de aspirar o ar frio da noite de tão nervosa que estava, só lembrava que tinha que correr, que tinha que fugir, que precisava de um lugar novo para esconder Natsu, mas não conseguia sequer ver para onde estava indo. Para onde quer que olhasse, só havia escuridão ao seu redor, e isso começava a causar-lhe um pânico crescente.
Quando achou que seu corpo estava em seu limite, uma grande pedra se interpôs em seu caminho, e a fez tropeçar novamente, mas daquela vez seu encontro ao chão seria inevitável, não fosse pelos braços ágeis de Natsu agarrando-a pela cintura e a trazendo para perto em um abraço protetor.
O peito de Lucy subia e descia em um ritmo acelerado, e Natsu conseguiu sentir isso contra seu próprio corpo ao abraça-la. Também estava preocupado, e conseguia sentir o pânico de Lucy ao estar cercada pelo escuro, e isso o deixava furioso.
— Sou eu quem vou te proteger, Lucy. – Falou com uma voz grave, e sentiu o pequeno corpo da loira tremer de leve entre seus braços.
Fechou os olhos e aguçou seus sentidos por alguns poucos segundos enquanto esperava ela se acalmar um pouco, sentindo os pequenos músculos tensos de Lucy relaxarem um por um a medida que ela voltava a sentir-se protegida. Assim que a respiração de Lucy deixou de ser ruidosa, Natsu conseguiu captar o som de água corrente, e utilizou este como se fosse a agulha de uma bússola. Segurando a mão da loira com cuidado, guiou-a para a origem daquele som, agora não mais correndo, mas caminhando em um passo regular, porém constante, prevenindo muitos outros prováveis acidentes, já que ali a mata parecia estar cada vez mais fechada.
Após alguns minutos, Lucy começou a enxergar a luz da lua passar por entre os galhos das árvores a medida que o espaço entre uma e outra aumentava, até que poucos metros a frente, havia uma clareira com uma pequena cachoeira que recebia a azulada luz direta do luar. Pequenos vagalumes enfeitavam os limites da clareira, dançando no ar, ao ritmo da água da cachoeira se chocando contra as pedras, como se festejassem o céu sem uma nuvem sequer, dando o total destaque para a lua cheia.
Lucy ficou tão maravilhada com aquela visão que até mesmo fora capaz de esquecer por alguns segundos tudo o que havia acontecido até então, o fato de Gray tê-la seguido, sua fuga desesperada, a dor em seus joelhos por todas as quedas e os cortes em todo o seu corpo.
Natsu adentrou a clareira de maneira tão segura que parecia até mesmo que já conhecia aquele lugar, ainda trazendo Lucy consigo, através de mãos agora entrelaçadas. Sentou-se na beirada da piscina natural que a cachoeira formava, sentindo os efeitos daquela fuga apressada em seu corpo ainda ferido, e puxou Lucy com cuidado para que ela se sentasse ao seu lado.
Os dois se mantiveram em silêncio por alguns bons minutos enquanto absorviam a paz e calmaria que aquele lugar lhes proporcionava, e era tudo o que eles precisavam por enquanto. Foi ainda sem pronunciar uma palavra sequer que Natsu molhou uma de suas mãos na água gelada à frente deles, e em seguida passou seus dedos úmidos com cuidado nos cortes do rosto de Lucy, livrando-se da sujeira e do sangue seco que poluíam aquele belo rosto.
— O que aconteceu, Lucy? – Perguntou por fim, enquanto ainda se atinha à tarefa de cuidar dos machucados de Lucy da maneira que podia.
Lucy estava com seu rosto completamente corado, não esperava um ato de cuidado tão delicado vindo de uma criatura tão bruta, e isso causou-lhe um encanto incalculável, deixando-a um pouco atordoada. Mas voltar a reconhecer a situação em que eles estavam a fez recobrar sua serenidade sem demora.
— Meu irmão me seguiu para dentro da floresta. – Admitiu baixinho. – Ele percebeu que eu tenho passado as noites fora, e como eu não conto sobre ti para ninguém, ele parece ter decidido tentar descobrir sozinho.
Natsu recuou, afastando-se um pouco da outra, que expressou uma careta confusa. Suas sobrancelhas rosadas se torciam de uma maneira que faziam enrugar a porção de pele entre uma e outra, e assim Lucy percebeu que ele definitivamente desaprovava a possibilidade.
— Ninguém pode saber, Lucy... Ninguém pode saber que estou aqui, ou eu terei que fugir novamente...
“Novamente?” Pensou Lucy, tentando imaginar o que poderia já ter acontecido com ele, e sentindo um aperto angustiante no peito. Ao ver a expressão que Natsu fazia naquele momento, tinha certeza absoluta de que ele já havia enfrentado grandes dificuldades, as quais ela só seria capaz de imaginar. O passado dele era um grande mistério para ela, mas aos poucos, ela ia recolhendo os pequenos caquinhos de pistas que ele disponibilizava, e um dia o desvendaria por inteiro.
Insatisfeita com os sentimentos que Natsu estava transmitindo, ela depositou suas duas mãos nas laterais do rosto do outro, obrigando-o a virar sua cabeça o suficiente para que pudessem estabelecer um contato visual direto.
— Ninguém irá saber, e tu não irás a lugar algum. – Ela disse, com toda a segurança que poderia possuir dentro de si. – Eu quero estar ao teu sempre, Natsu, eu não aguentaria uma fuga tua. Eu preciso de ti.
Os olhos de Natsu se arregalaram, e ele parecia um tanto aflito, mas não movia um músculo sequer.
— Eu farei o possível, e se necessário, o impossível para que ninguém te descubra. – Continuou, inclinando sua cabeça para frente e apoiando sua própria testa na dele. – E ficaremos juntos, Natsu.
A expressão no rosto dele pareceu finalmente suavizar. Vagarosamente, Lucy foi para mais perto dele, e Natsu usou duas duas mãos para segurá-la pela cintura, certificando-se que a partir daquele momento, ela só poderia chegar cada vez mais perto, e se afastar não era mais uma opção, pois aquelas duas mãos não permitiram.
— Ficaremos... Juntos...? — Ele sussurrou rouco, pedindo por uma confirmação das últimas palavras dela, e Lucy sentiu o ar remanescente de sua pronúncia acariciar-lhe os lábios, de tão próximos que estavam seus rostos.
— Sim... – Confirmou, fechando seus olhos já quase transbordando lágrimas e sorrindo levemente, absorvendo aquele momento tão intenso.
— Lucy... – Sussurrou num volume quase inaudível antes de abraça-la de vez pela cintura, obrigando-a a sentar-se em seu colo, e Lucy arfou com a sensação de senti-lo embaixo de si assim tão de repente. – Minha Lucy... – Sussurrou mais uma vez enquanto aninhava seu rosto na curva entre o ombro e o pescoço da loira, causando nela um arrepio tão intenso que a mesma tremeu de leve.
Lucy enroscou seus dedos nas mechas rebeldes e rosadas de cabelo de Natsu enquanto ele arrastava seus caninos afiados pela pele pálida da região de suas clavículas, e o ar começou a faltar nos pulmões da loira pela segunda vez naquela noite.
Natsu não fazia ideia do que estava fazendo, estava deixando seu instinto tomar as rédeas de suas ações, e isso estava trazendo resultados positivos para os dois presentes. Levantou seu rosto para procurar a boca de Lucy, e dessa vez não pediu, e sim demandou um beijo quente e úmido, provando dos sabores dela sem hesitações, com intensidade.
O beijo dela era delicado, doce e submisso. Ele ditava o ritmo em que suas línguas se acariciavam, e como naquela noite ele havia deixado de dar ouvidos a qualquer racionalidade, o que começara como um ato puro e inocente de amor, se tornara quase agressivo e sedento em questão de poucos instantes. Quanto mais ele provava daqueles lábios, mas ele os desejava. Não importasse por quanto tempo ficasse ali, invadindo sua boca, ele não se via satisfeito.
Lucy, numa busca desesperada por ar depois de alguns minutos naquele ritmo, separou seus lábios levemente, arfando de maneira quase sôfrega, e aquilo soava como música para os ouvidos de Natsu, fazendo com que aquele arrepio que antes acometia o fundo de seu estômago se alastrasse para toda a extensão de seu corpo. Era como se cada pedaço de sua pele que entrasse em contato com a de Lucy, gerasse sensações de choque, faíscas de um fogo ameaçando a queimá-lo por inteiro, e por mais que ele não entendesse o que era, ele queria mais.
Procurando por mais superfícies de sua pálida pele descoberta, ele escorregou suas mãos pelas coxas de Lucy, que estavam parcialmente desnudas por conta da posição sentada em que estava, levantando as barras de seu vestido, e Natsu tirou proveito disso.
Assim que Lucy sentiu a ponta das garras de Natsu se arrastarem de leve a medida que ele subia a mão por suas coxas cada vez mais expostas, um leve gemido escapou de sua garganta, e o arrepio que sentira fora tão intenso que ela se retorceu em cima dele, fazendo Natsu grunhir agoniado em resposta.
As mãos de Lucy passaram então a percorrer as costas quentes desnudas de Natsu, fechando seus dedos em agonia causada pelos novos arrepios que ele causava nela. Em meio a beijos quentes e carícias ousadas naquela noite, com a lua de testemunha, eles estavam fazendo a magia acontecer naturalmente, como se fosse um velho hábito, porém recheado de sensações novas para ambos.
Quando Natsu já não conseguia mais reprimir tudo o que estava acumulando dentro de si, num movimento brusco, fez com que Lucy ficasse de costas para ele, ajoelhada no chão, e ele também ajoelhou-se logo atrás dela, voltando a colar seus corpos. Qualquer espaço entre os dois era como se fosse um crime punível com morte.
A loira, que reagiu com apenas um gritinho surpreso ao ser girada tão repentinamente, estava praticamente embriagada de expectativa e excitação, permitindo que Natsu explorasse sua nuca com a ponta da língua.
— Lucy, seja meu tesouro... – Sussurrou ele de repente por trás da orelha de Lucy, fazendo-a se contorcer mais uma vez, e ele abraçou-a com força para impedir que ela se afastasse. — Deixe-me fazer de ti meu tesouro, por favor...
Lucy não fazia a mínima ideia do que aquilo poderia significar, e naquele momento, ela não se importava em tentar desvendar qualquer sugestão oculta naquelas palavras. Ela estava delirando de amor e desejo, sentindo o calor de Natsu envolve-la por completo, e nada mais importava.
— Sim, Natsu. – Respondeu, quase que imediatamente, e a reação de Natsu fora instantânea.
Ele inclinou o corpo de Lucy levemente para frente, apenas o suficiente para conseguir invadi-la, senti-la por dentro. E fora a primeira vez que Natsu conseguiu sentir Lucy sendo mais quente do que ele, ouvindo-a chamar pelo seu nome de maneira quase agoniada. A partir dali, a criatura dentro de si tomou conta, e ele perdeu completamente qualquer controle de sua porção racional.
Ainda a abraçando com força e investindo seu quadril contra o dela, ele fechou seus dentes na região do trapézio Lucy, afundando seus caninos na musculatura macia. A princípio, ela não fora capaz de perceber, mas uma fisgada de dor começou a se sobressair naquele misto de sensações que estava experimentando enquanto dois fios finos de sangue escorriam de cada canto da boca de Natsu.
— Natsu, está doendo. – Reclamou baixinho, não querendo arruinar aquele momento. Mas ele não deixou de mordê-la, ou deteve suas investidas. – Natsu, por favor... – Falou, agora mais alto e com certo receio em sua voz.
E isso fez com que Natsu imediatamente despertasse. Recobrou a consciência de seus atos, mas ainda assim não deteve seus movimentos. Em meio a aquilo tudo, era impossível parar. Ele apenas retirou seus dentes de onde estavam enterrados, lambeu-lhe a pele machucada para livrar-se do sangue que havia escorrido e beijou o ferimento, e isso pareceu ter sido o suficiente para Lucy esquecer o que havia acontecido, até que ambos os corpos que se amavam sob a luz do luar alcançassem a plenitude de seus prazeres, permanecendo abraçados como se nada daquilo tivesse acabado.
Alguns minutos após a sensação de dormência proporcionada pelo êxtase ter se apaziguado, Lucy começou a sentir pequenas pontadas de dor onde havia sido mordida. Passou seus dedos de leve na região machucada, e sentiu o relevo da pele levemente deformado por inchaço. Não havia entendido o que havia acontecido, e no meio de tudo o que estava acontecendo, ela não deu muita importância, mas agora isso a preocupava um pouco.
Estava prestes a questioná-lo acerca disso, mas enquanto acariciava o braço de seu amado, percebeu a ausência da habitual textura escamosa que ele possuía na região de seus cotovelos. Inclinando um pouco a cabeça para o lado, percebeu que ao invés de escamas, agora uma fina pele rosada cobria a região.
— Natsu, o que aconteceu com as tuas escamas? – Perguntou simplesmente, apenas por curiosidade, mas percebeu que não era um assunto bem vindo assim que ele parou de abraça-la, começando a se afastar.
— Não é nada. Não me pergunte mais sobre isso. – Falou rudemente, assustando um pouco Lucy, e imediatamente se arrependendo do tom que havia utilizado para tentar fugir do assunto. Tentando disfarçar um pouco, ele alcançou as roupas de Lucy atrás de si e entregou-as a ela.
Natsu permitiu que ela se soltasse definitivamente dele para voltar a se vestir, já que uma brisa mais fria começara a soprar na clareia. Ela parecia incomodada pela maneira que ele havia falado com ela a alguns instantes atrás, mas também demonstrava ter entendido que aquele era um assunto que Natsu não estava disposto a discutir, mesmo que deixar isso bem claro tivesse aniquilado todo o clima romântico que havia se formado ali.
Ainda em silêncio, Lucy voltou a acariciar de leve a área onde Natsu havia a mordido, já que começava a doer cada vez mais.
Ele percebera o que ela estava sentindo, e sentiu-se um pouco culpado, por mais que aquilo tivesse sido feito por conta de algo que ele não era capaz de controlar.
— Desculpe, Lucy eu... Eu agi por instinto e... Eu estava te tomando como meu tesouro... – Explicou-se, olhando-a de forma preocupada, mas não deixando de sentir-se satisfeito com aquilo. Ela havia se tornado seu tesouro, e agora sim, ele sabia que poderiam ficar juntos. Que não precisaria mais se preocupar em ficar longe de sua Lucy.
Lucy arqueou as sobrancelhas. Ela havia relevado aquilo no dado momento, mas estava intrigada com o real significado daquelas palavras. Não era algo comum de se dizer, ainda mais nesses momentos.
— Me tomando como tesouro... O que isso significa afi-
Mas ela fora interrompida antes que pudesse terminar de dizer qualquer coisa.
— LUCY? – Gritou uma voz, por ela bem conhecida, soando por de trás das árvores de circulavam os limites da clareira, e o corpo de Lucy congelou imediatamente. Sua mente gritava para que ela fugisse, mas seu corpo não obedecia. A única coisa que ela foi capaz de fazer naquele pequeno intervalo de tempo antes de Gray aparecer em sua frente foi jogar-se na frente de Natsu, numa tentativa falha de esconder o outro, que era muito maior do que ela, tornando essa uma tarefa impossível.
— G-Gray... – Sussurrou, encarando o irmão nos olhos enquanto ele terminava de surgir com o lampião, que ela havia deixado para trás em sua fuga, aceso em suas mãos. Ele provavelmente havia voltado para casa e o acendido antes de tornar a procura-la pela floresta.
A cabeça de Lucy girava de uma maneira tão frenética que ela chegava a sentir-se tonta e com enjoos. Sabia que não havia maneira de escapar daquela situação que havia tentando evitar desde o dia em que encontrara Natsu desacordado na floresta. Gray esticava o pescoço em diversas direções, procurando enxergar, ou melhor, entender o que estava por trás de Lucy, e a medida que ia identificando os elementos do ser que não sabia como reagir, a expressão do moreno ficava de cada vez mais espanto e horror.
— Quem... Não, o que diabos é isso? – Questionou, apontando para Natsu.- Isso tem... Asas?! E chifres?! – Sem precisar entender mais nenhum outro fato sequer, Gray deu passos rápidos até a loira e agarrou seu punho, tentando puxá-la para perto de si. — Lucy, saia de perto dele, agora!
Mas ela se recusava a sair dali, tentando usar todas as suas forças para manter seu corpo no chão.
— Não Gray, ele não é perigoso, e eu não vou a lugar algum! – Protestou, tentando se segurar nas pedras que cobriam o chão, e machucando seus dedos no processo. – Pare com isso, me solte!
Gray pareceu então ficar furioso, mas não deixou de tentar puxá-la.
— Como não é perigoso, Lucy?! Sequer sabes o que ele é?! – Questionou, e com um último puxão, conseguiu fazê-la se levantar e a abraçou com força.
— SOLTE-ME! Eu não vou a lugar algum! – Insistiu, debatendo-se entre os braços do moreno para tentar desvencilhar-se dos mesmos.
— Não diga besteiras, tu voltarás para casa comigo imediatamente. – Disse, estralando a língua ao sentir os punhos dela socando-o, mas não a soltaria de maneira alguma, não importando o quanto de dor sentisse. Precisava leva-la para longe daquilo, precisava mantê-la segura.
— Solte-a.
Com uma voz grave e assustadoramente autoritária, Natsu pareceu finalmente ter reagido pela primeira vez desde que o outro aparecera na clareira, mas Lucy falhara em perceber o que realmente havia acontecido com ele nos últimos segundos passados em que lutava com Gray para tentar se soltar.
O corpo de Natsu estava agora completamente coberto de escamas vermelhas, as mesmas que haviam sumido de seus braços há poucos minutos atrás. O chão estava banhado de sangue que escorria de onde cada nova escama havia surgido de seu corpo. Os chifres e as garras de Natsu estavam mais compridos, deixando-o cada vez mais similar a um... Monstro. Lucy arregalou os olhos, sento tomada por puro terror e parando de lutar contra o aperto de Gray ao redor de seu corpo. Ela não estava reconhecendo aquele que estava soltando nuvens de fumaça pelas narinas a sua frente.
E sentia medo.
— Na... Natsu? – Chamou baixinho, esperando que ele recobrasse a consciência, ou desse um sinal de que sim, ainda era ele ali, mesmo com aquela aparência estranha.
A criatura deu dois pequenos passos para frente, e a cada um deles, seu tamanho total pareceu aumentar, começando a criar certo desespero tanto em Gray quanto em Lucy, que não fazia ideia do que estava acontecendo, e ficava cada vez mais amedrontada.
— Sa-saia de perto de mim e da Lucy, aberração! – Gritou o moreno, andando para trás e carregando a loira consigo, mas movimentando-se com cautela, afinal, não sabia com que estava lidando.
Ao ouvir a palavra aberração, as pupilas de Natsu se contraíram tão intensamente que pareciam ter virado apenas um pequeno fio vertical, o olhar aterrorizante de um perigoso predador, causando calafrios nos dois que observavam atentamente à cena. Um urro monstruoso saiu de sua garganta, e um vento intenso soprou pela clareira simultaneamente, deixando tudo ainda mais sinistro.
— SOLTE-A! Ninguém vai roubar meu tesouro de mim. – Demandou mais uma vez, e agora sua voz parecia ter se distorcido, deixando mais uma característica conhecida por Lucy para trás. Era uma voz ainda mais grave, do tipo que ecoava no fundo de sua mente e aterrorizava seus sonhos mais assustadores.
— Natsu...? – Chamou uma última vez antes de, aquele que atendia por aquele nome, perder completamente a forma. Seu tamanho tomou proporções grotescas, e sua silhueta se transformou em algo similar a um lagarto vermelho gigante, que num único bater de asas, levantou voo, e com um único movimento de um de seus pés, agarrou a moça, roubando-a de Gray sem dificuldade, e lançou-se para o céu anoitecido.
— LUCY! LUCY!! – Gray gritou desesperado para os céus, tentando inutilmente jogar seus braços em direção à ela, como se tentasse alcança-la, mas a mesma, em poucos segundos, já estava muito além de onde as mãos de Gray pudessem chegar.
— GRAY! – Fora a última coisa que o moreno conseguiu escutar, antes de perder de vista aquele dragão gigante que levou sua amada para longe.
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