Cave
3 O dia em que ela descobriu seu nome
Notas iniciais
Lucy acordou no horário de sempre, vestiu as roupas de sempre, encheu sua cesta de sempre com as coisas de sempre, e pôs-se a tomar o caminho de sempre até a caverna de sempre. Essa sua nova rotina já estava durando agora pouco mais de uma semana, e a cada dia que passava ela ficava mais e mais satisfeita com o avanço que estava tendo ao se aproximar dele.
Já havia conseguido tocá-lo, já havia conseguido trocar seus curativos, e agora, na sua própria sequencia lógica de acontecimentos, ela queria e iria descobrir seu nome. Não gostava de não ter do que chamá-lo, já que não conseguia definir bem o que ele era.
Ele era um homem, mas possuía chifres saídos do meio de seus cabelos rosados, um par de asas em suas costas, uma longa cauda escamosa que iniciava em sua lombar e parecia ir até o chão caso ele ficasse de pé, garras escuras e pontiagudas, caninos brancos e proeminentes e escamas que cobriam parte de seu corpo. Além de tudo isso, que já era estranho o suficiente, ele ainda era capaz de lançar chamas pela sua boca e nariz.
Trataria-se mesmo de um demônio? Trataria-se de um dragão, como era descrito em fábulas antigas?
Não sabia no momento, mas estava decidida a descobrir com o tempo.
Estava particularmente confiante e alegre naquela manhã, cantarolando junto com os passarinhos que se escondiam entre as árvores que circulavam o caminho em que ela passava na floresta.
— Hoje eu vou descobrir o nome dele! – Disse para si mesma, torcendo para que dizer aquilo em voz alta trouxesse mais sorte a ela.
Uma brisa mais gelada soprou por entre os grossos troncos das árvores, balançando seus galhos e folhas e criando um arrepio em Lucy, que tinha suas pernas desnudas, já que vestia apenas aquela sua mesma túnica verde. O inverno ameaçava chegar em breve, e ela já começava a sentir os sinais dele querendo vir trazer a infertilidade da terra em que eles plantavam.
Ao lembrar-se das montanhas de neve que se acumulavam no chão do vilarejo durante o inverno, não pôde deixar de sentir-se bastante desanimada. Cobertores não eram algo que tinham de sobra em casa, e eles sempre acabavam passando bastante frio ao longo desta rigorosa estação. Pegou-se imaginando se aquela criatura, tão quente quanto brasas, sentia frio. Ou se ele era capaz de esquentar algo apenas com sua temperatura corpórea... Ou alguém.
Lucy balançou a cabeça, tentando manualmente expulsar aqueles tipos de pensamentos de dentro de sua mente. Decidiu que precisava arranjar roupas para ele o quanto antes, já que a visão de seu corpo seminu já estava a afetando demais.
Em poucos minutos, estava na entrada da caverna.
— Sou eu! – Anunciou, dessa vez de uma maneira mais alegre. Todas as outras vezes anteriores ela anunciara sua chegada de uma maneira receosa, apenas para ter certeza de que ele saberia quem estava adentrando a caverna e por isso não sairia atacando. Mas desta vez, ela estava genuinamente feliz por estar de volta ali, e sua voz transmitia essa mudança de maneira precisa.
Mas infelizmente, quem estava ali para ouvir a saudação não conseguiu captar isso, já que estava perto de perder a consciência para uma febre violenta.
Quando Lucy percebeu que a criatura não estava encostava naquela mesma parede de sempre, franziu o cenho em uma expressão confusa.
Olhou em volta, não o encontrando de imediato, sentindo uma profunda decepção ao cogitar a possibilidade de ele ter ido embora, mas essa possibilidade foi descartada no segundo em que ela o encontrou mais no fundo da caverna, onde o breu quase tomava conta do ambiente, e ela só conseguiu visualizá-lo depois de alguns minutos quando seus olhos começaram a se acostumar com a escuridão.
Ela aproximou-se devagar como sempre, sentindo um alívio em seu peito por descobrir que ele ainda estava ali, mas essa sensação durara pouco. Mesmo sem estar ainda tão perto dele sabia que algo ali estava errado, então foi capaz de ouvir sua respiração sôfrega e falha, e seu coração deu um salto dentro de suas costelas.
Ignorando completamente o bom senso, ela correu em direção a ele e jogou-se de joelhos no chão bem ao seu lado.
— O que houve?! Tu estás bem?! – Perguntou apreensiva, e só foi capaz de ouvi-lo bufar com força, não tendo forças para se mexer. Por puro instinto, Lucy levou carinhosamente uma de suas mãos até a testa dele, tocando em seu rosto pela primeira vez, mesmo que não se dando conta deste fato, e sentiu a pele dele completamente molhada de suor queimar sob sua palma. – Céus, tua febre está piorando!
Lucy buscou pelo seu cantil de água dentro de sua cesta e um pequeno pedaço de pano que havia sobrado do dia anterior, umedecendo-o com a água e em seguida utilizando-o para passar no rosto dele com cuidado, procurando livrar-se daquele suor excessivo e também refrescá-lo um pouco.
Amaldiçoou-se por não ter previsto que aquilo aconteceria. Seus ferimentos eram graves demais, e ela não fora capaz de tratar todos no dia em que o encontrou, era quase certo que iriam infeccionar e, consequentemente, causar febres.
Ele respirava com a boca e parecia sentir tanta dor que Lucy tinha vontade de chorar por ele, mas não poderia dar-se este luxo. Tinha que encontrar alguma maneira de ajudá-lo. Ela já tinha chegado tão longe para mantê-lo vivo, não poderia colocar tudo a perder agora por conta de uma febre que ela tinha certeza que possuía a capacidade de tratar.
Diversas vezes ela fora a responsável por cuidar de sua família quando eles adoeciam, especialmente no inverno. Não era a primeira vez que ela lidava com algo assim, então respirou fundo e procurou acalmar-se para poder raciocinar.
— Eu vou buscar algumas ervas para fazer um chá que vai te ajudar, por favor não tente se mover. – Pediu, prontamente levantando-se e correndo de volta para a floresta, sabendo exatamente o que procurar. Sabia que ele não iria se mexer, mas gostava de pensar que conversar com ele ajudaria a acalmá-lo.
Por sorte, no vilarejo em que vivia, perto de sua casa morava uma velha senhora chamada Grandine que era grande conhecedora da arte da cura e ervas medicinais, e Lucy aprendera muito com ela em suas tardes livres. Era a maneira que aquela senhora havia encontrado para pagar por todas as vezes em que Lucy tinha se encarregado de tomar conta de sua filha Wendy quando a velha precisava ir a algum lugar fora do vilarejo.
Ao longo de suas vindas até a caverna ela já havia vasculhado diversas vezes todos os tipos de árvores e plantas que circulavam seu caminho, e isso fora de grande importância para que ela pudesse agir rápido.
Ao encontrar o arbusto da planta que procurava, pegou algumas folhas de tamanho mediano que não estivessem danificadas e rapidamente correu de volta para a caverna. Estava preocupada com a possibilidade daquela febre mata-lo, e culpou-se imensamente mais uma vez por não ter tentado tratar daquela grande ferida em seu peito no dia em que o havia encontrado na floresta de alguma maneira.
Por sorte, a fogueira feita no dia anterior pela criatura ainda deixara algumas brasas remanescentes, e juntando mais alguns gravetos e folhas secas ela foi capaz de acender o fogo novamente, transferindo-o mais para perto de onde ele estava.
Quando o fogo se estabeleceu no novo local e já era utilizado para aquecer água dentro da vasilha de Lucy, ela pôde finalmente observar o mau estado em que aquela criatura estava. Seus braços e pernas tremiam de leve, mas ele não deixava de suar pelo corpo inteiro. Suas pálpebras estavam franzidas e ele tinha uma expressão sôfrega e dolorosa em seu rosto. Lucy sentia uma pressão incômoda no peito ao presenciar tudo aquilo. Alguém, ou algo, que transmitia tanto medo a ela até poucas horas atrás agora estava naquela situação deplorável. Ela não conseguia pensar em mais nada além de que precisava ajuda-lo de todas as maneiras que fosse capaz.
Quando a água estava prestes a ferver, Lucy retirou a vasilha do fogo, colocando-a no chão e introduzindo as ervas dentro desta, tapando a vasilha com uma tampa improvisada de grandes folhas verdes, e deixou o chá descansar até que estivesse pronto para beber.
Umedeceu mais algumas vezes o pano com água fresca do cantil para refrescar um pouco o corpo dele, tomando cuidado para não se deixar levar pelas formas artísticas de seus belos músculos. Ela tinha que permanecer focada, então ateve-se mais a área do rosto, pescoço e clavícula, o que já era bastante tentador aos seus olhos.
A respiração quente e pesada dele vez ou outra batia contra o braço que Lucy utilizava para passar o pano úmido contra sua pele, e isso causava arrepios intensos ao longo de toda sua coluna. Alguns minutos disso e ela quase esquecera do chá.
Deixou o pano úmido de lado para poder aninhar a pequena vasilha, que estava bastante quente, entre suas mãos.
— Beba este chá, tenho certeza que irá fazer com que te sintas melhor daqui algumas horas. – Pediu com a voz mansa, levando o recipiente para perto do rosto dele, mas ele sequer de mexera.
Lucy franziu o cenho, preocupada com a falta de resposta.
— Por favor, beba... Pelo menos um pouco. – Insistiu, aproximando mais ainda o chá até a boca dele.
Quando percebeu que ele estava delirando tanto em febre que sequer era capaz de entender o que ela estava tentando fazer por ele, decidiu agir mais ativamente. Com cuidado, encostou a beirada da vasilha nos lábios rachados dele, inclinando um pouco a mesma para que o chá se derramasse para dentro de sua boca.
Infelizmente isso não dera certo, já que o pouco que fora despejado fora imediatamente tossido e expulsado de maneira involuntária, já que ele estava deitado no chão, numa posição que não o permitia engolir propriamente. Lucy concluiu que precisava dar um jeito de manter a cabeça dele inclinada para poder fazê-lo beber aquele chá.
Engoliu em seco, fechou os olhos e respirou fundo, tentando reunir o máximo de coragem que ela sequer sabia se possuía. Espiou o rosto amargurado em dor dele uma última vez para ter certeza de que estava disposta a correr o risco de ser atacada num súbito despertar de consciência dele.
Sim, estava.
Como se soubesse que ela estava hesitante, ele soltou um gemido de dor entre seus dentes apertados, fazendo o coração de Lucy partir-se em pedaços.
— Por favor, não me ataque... – Sussurrou suplicante, mesmo sabendo que ele não estava ouvindo.
Engatinhou lentamente até atrás de onde estava a cabeça dele e sentou-se ali, com as pernas juntas para um lado e apoiando as costas em uma estalagmite. Respirou fundo uma vez mais, calculando seus movimentos e tentando realiza-los o mais vagarosamente possível.
Fechou suas mãos ao redor da cabeça da criatura e levantou-a, guiando-a até seu colo e ajeitando-a ali de uma maneira que ele pudesse ficar confortável, e que também pudesse ser capaz de beber o chá que a esta hora já deveria estar perfeito para beber.
Segurou-o delicadamente pelo queixo enquanto voltava a encaixar a borda da vasilha em seus lábios, inclinando-a e fazendo-o beber o chá. Quando ouviu o barulho que sua garganta fazia ao tomar os goles da bebida, pôde finalmente suspirar aliviada. Sabia que em algumas horas aquela febre iria baixar e tentaria ficar ali com ele o máximo de tempo possível para se assegurar de que ficaria bem.
Não soube dizer em que momento depois de fazê-lo beber o chá, Lucy adormeceu ali, sentada. Pode ter sido por segundos, minutos ou até mesmo horas. Estavam tão fundo naquela caverna que ela não conseguia enxergar o sol, e por isso não era capaz de dizer em que parte do dia estavam.
Lembrou-se de sua conversa com Erza no dia anterior, e sabia que caso já tivesse passado do meio dia, seria repreendida de novo, e provavelmente teria que passar um dia ou dois sem vir até a caverna visita-lo para poder compensar pelas horas que não tinha trabalhado na plantação. Apesar de fazer questão de vir todos os dias vê-lo, também não queria faltar com suas obrigações da família. Era uma época crítica em que eles deveriam se esforçar para não passar dificuldades no inverno.
Espreguiçou-se com cuidado para não se mexer muito, esticando apenas seus braços para os lados e coçou seus olhos ainda um tanto sonolentos. Sentia que aquele que estava deitado em seu colo não ardia mais tanto de febre, mas quando voltou a abrir os olhos para averiguar, deparou-se com aquele olhar esverdeado penetrante encarando-a.
Seu corpo inteiro congelara naquele momento, deixando-a completamente inapta a reagir. Ele parecia finalmente estar consciente do que estava acontecendo ali, e Lucy temia a maneira como ele pretendia lidar com isso. Enquanto a fitava profundamente, ela não ousou sequer respirar de tão tensa que estava, mas a reação dele fora uma da qual ela jamais esperaria.
As pálpebras da criatura pesaram e ele lentamente voltou a fechar seus olhos, deixando de ficar de barriga para cima para agora deitar-se de lado, voltando a aconchegar sua cabeça no colo da loira com cuidado para não a machucar com os chifres castanhos que saíam das laterais de sua cabeça, e abraçou as macias coxas dela com o braço que ficou por cima.
Lucy voltou a respirar, mas num ritmo completamente descompassado. Suas bochechas estavam rubras como o sangue que corria por debaixo delas e seu coração batia numa velocidade tão intensa que ela era capaz de ouvir seus batimentos, e tinha certeza de que ele também conseguia fazer o mesmo. Ela ainda estava na mesma posição desde que se deparara com aqueles olhos indecifráveis, e não sabia quando pretendia voltar a se mexer depois daquele choque. A última coisa que ela esperava que fosse acontecer era que ele fosse se aninhar em seu colo por conta própria, muito menos abraçar suas coxas daquela maneira.
Ela estava tão surpresa que não era capaz de definir o que sentia, mas a sensação quentinha dentro de seu peito parecia querer responder por ela, dizendo que estava feliz. Pegou-se imaginando se ele ainda não estava um tanto delirante da febre, e por isso estava agindo diferente, ou se realmente havia alcançado num novo nível de confiança com o tal.
Mas havia mais uma surpresa reservada para aquele momento que a deixaria ainda mais desconcertada.
— Natsu. – Proferiu a voz grave e rouca daquele que ocupava o lugar em seu colo.
Lucy pestanejou, ainda meio perdida em seus próprios pensamentos e não conseguindo compreender o que ele estava querendo dizer, mas temia perguntar. A voz dele estava falha pela falta de uso, mas soara tão intensa que a palavra dita por ele ecoou em todos os cantos do corpo de Lucy, tendo um efeito curioso nela mesmo sem entender seu significado.
Ainda confusa, Lucy estava prestes a questionar do que se tratava, mas os olhos dele voltaram a se abrir, e ele espiou a expressão de pura confusão da loira por poucos segundos.
— Meu nome é Natsu. – Explicou, voltando a fechar os olhos e a adormecer mais uma vez naquele colo aconchegante.
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