Cave
2 O dia em que ela cuidou de suas feridas
Notas iniciais
Lucy acordara cedo, no período de transição entre a madrugada e a manhã, assim como havia feito ao longo dos últimos dias. Sabia que todas as outras pessoas do vilarejo não despertariam antes de algumas horas, e tiraria proveito desse fato para ir ao encontro da criatura misteriosa da caverna.
Vestiu-se com sua velha túnica verde sem mangas, com um comprimento que ia até a altura pouco acima de seus joelhos e calçou suas curtas botas de couro em silêncio, tomando cuidado para não perturbar o sono de ninguém que dormia na casa. Foi até o banheiro a passos leves, jogou um pouco de água no rosto para desinchar os olhos e passou os dedos ainda úmidos pelas mechas loiras de seu cabelo, procurando ordená-las um pouco.
Pegou seu cesto de palha costumeiro e usou-o para carregar consigo trapos limpos que utilizaria como curativos, algumas folhas e ervas seletas para tratar machucados, um cantil com vinho recém-fervido e outro com água. Para comer, estava levando um pedaço mais generoso do que deveria de carne salgada e um pão grande assado no dia anterior. Não gostava de imaginar o que aconteceria a ela caso soubessem que estava roubando estas comidas sem ser para consumo próprio, e sua consciência pesava um pouco por conta daquilo.
O cheiro do pão que colocou na cesta alcançou seu nariz e seu estômago roncou com força em resposta. Ela estava deixando de comer direito nos últimos dias para ceder sua porção a ele.
Não era justo comer mais do que os outros que viviam naquela casa, e por isso ela não tinha escolha alguma além do jejum. Mas ela considerava-se uma mulher saudável e forte, e tinha certeza que aguentaria alguns dias de estômago roncando até que ele se recuperasse e pudesse buscar comida por si próprio.
Fechando a porta de entrada da pequena casa atrás de si, apurou seus passos e adentrou a floresta que a levaria até o pé da montanha mais próxima, onde ficava a caverna que ela visitava diariamente.
Em poucos minutos, já fora capaz de enxergar a entrada escura que se escondia entre grandes e velhas pedras que formavam a montanha. Parou por alguns segundos em frente a ela antes de entrar para poder respirar fundo e reunir coragem e confiança. Precisaria manter-se otimista e segura caso este fosse o dia em que ele finalmente a deixaria cuidar de seus ferimentos, os quais ela pôde perceber no dia anterior que já começavam a desprender um odor de inflamação, e se não fossem tratados imediatamente, ele estaria em sérios problemas.
— Sou eu. – Repetiu sua saudação diária. Ela não tinha certeza o quanto do que ela dizia ele era realmente capaz de entender, mas sentia que ao menos reconhecer sua voz ele conseguia, e isso garantiria que ele permitisse sua entrada na caverna.
Sem mais demora, foi em direção à escuridão com os olhos semicerrados, forçando-os a enxergar as coisas que haviam lá dentro mais rapidamente.
E mais uma vez, depois de deparar-se com cantos escuros vazios por alguns instantes, lá estava ele. Exatamente no mesmo lugar, com o mesmo semblante ameaçador que fizera Lucy deter seus passos no local onde se situava, ainda um tanto afastada.
Desta vez ele não estava encasulado entre suas asas. Ele estava sentado e apoiava suas costas nas paredes úmidas da caverna, e encarava a Lucy com olhos receosos e intrigados, mas desta vez não ferozes.
A loira viu isso como um bom sinal, como progresso, mas não conseguiu não se sentir inquieta perante aquele olhar incisivo, e abaixou a cabeça, fitando os próprios pés com insegurança.
Foi então que percebeu pequenos pedaços de ossos estraçalhados e caroços de frutas ao redor da área onde estava, e seus olhos arregalaram em surpresa, junto com seu sorriso. Ela levantou o rosto junto com o pequeno saldo de alegria que seu corpo dera e o olhou nos olhos.
— Ah! Fico feliz de vez que estás finalmente comendo tudo o que eu trago! – Comentou entusiasmadamente, um pouco alto de mais, fazendo o outro rosnar baixo. Com aquela resposta agressiva, Lucy tapou a própria boca com força enquanto sentia um calafrio percorrer sua espinha. Estava bem claro que ele não gostava de movimentos bruscos ou espalhafatosos, ou sons muito altos.
Ela tinha que controlar-se o tempo todo perto dele, não poderia demonstrar intensidade nenhuma, em nenhum momento. Isto era algo particularmente difícil para ela, que sempre gostou de ser alegre e empolgada.
Engoliu em seco e vagarosamente foi abaixando-se até sentar-se no chão sujo que tinha sob seus pés, a todo momento vigiando as reações dele, e ele fazendo o mesmo.
Pigarreou, limpando sua garganta com cuidado e preparando um tom suave de voz.
— Eu trouxe mais comida. – Pausou, certificando-se de que tinha a completa atenção do outro e levantou um dedo indicador em frente ao próprio rosto. — Mas desta vez só vou te dar se permitires que eu cuide de teus ferimentos. – Concluiu, tentando transmitir a maior calmaria que era capaz de reunir dentro de si. Ele arqueou as sobrancelhas numa careta desconfiada, e Lucy então percebeu que ele havia entendido o que dissera, sentindo-se satisfeita por ao menos conseguir se comunicar. – Estas feridas estão bastante feias e irão te matar caso não me deixes trata-las.
A criatura permaneceu inerte, apenas estudando os olhos decididos e ao mesmo tempo suplicantes de Lucy. Sentindo o cheiro de seu medo, mas interpretando a firmeza em seu olhar, até que finalmente decidiu desviar o rosto para o lado e assentir positivamente com a cabeça. Um movimento quase imperceptível, mas que tivera um significado gigante para Lucy, que abriu um sorriso de orelha a orelha e sentiu vontade de saltitar, mas sabia que não seria prudente, então se conteve.
Não se atreveu a levantar e andar até ele, com medo de que qualquer movimento brusco o faria mudar de ideia, então ao invés disso colocou a alça de sua cesta em um ombro e lentamente engatinhou para mais perto, sentindo o chão gelado e úmido sob as palmas de suas mãos e joelhos esquentarem cada vez mais à medida que ia se aproximando.
Os lábios dele se apertavam em insegurança, o desconforto que ele sentia era tamanho que chegava a ser palpável, e isso deixava a loira de coração partido. Queria convencê-lo de que poderia confiar nela, mas sabia que isso era algo que levaria tempo, e por isso deveria focar em mantê-lo vivo por enquanto.
Começou a esvaziar sua cesta, colocando os alimentos mais para perto dele e deixando o resto, tudo que utilizaria para trata-lo, perto de si própria.
Respirou fundo, contou mentalmente até cinco e voltou a estender sua mão em busca do corpo dele. A medida que seus dedos se aproximavam daquele braço forte e danificado, podia presenciar o crescente receio se externando nas expressões que o mesmo fazia. Mas ele não rosnou desta vez, e isto foi interpretado como carta branca pela loira, que ficava aliviada com aquele silêncio que poderia ser traduzido como uma permissão.
Apesar de tentar parecer confiante, estava enjoada de tão nervosa, e as palmas de suas mãos e testa estavam suadas. Mesmo com o vento fresco que adentrava a caverna, fazia um calor intenso ali dentro, e parecia que o ar ficava cada vez mais e mais quente na atmosfera mais próxima das extremidades do corpo daquela criatura.
Lucy pode finalmente ter a certeza que o responsável por aquele calor todo era aquele de quem estava tomando conta. Quando seus dedos alcançaram a pele áspera do ombro dele, sentiu como se ele estivesse fervendo. Ele estremeceu sob o toque dela e seus olhos imediatamente se fecharam com força, fazendo Lucy ponderar se quem realmente estivesse apavorado ali fosse em realidade ele, e não ela.
Não saberia definir se aquele era um calor saudável em sua pele, ou um calor febril. Possivelmente os dois, já que mesmo uma febre grave jamais alcançaria aquele grau tão elevado de temperatura.
Alarmando-se com aquele sintoma, discretamente começou a trabalhar um pouco mais rápido. Já que a barreira do primeiro toque fora quebrada, ela sentiu-se mais segura para proceder, e calmamente foi desenrolando os trapos sujos de terra e sangue que ainda circulavam o braço dele. Trataria de um ferimento de cada vez, já que ele tinha um grande no braço esquerdo, que era o que ela estava tratando no momento, outro maior ainda em sua perna também esquerda, outro em seu peitoral que se estendia até o abdome e por último dois em cada uma de suas asas. Isso tudo sem contar os inúmeros arranhões e hematomas que se espalhavam por toda a extensão de seu corpo.
Após se livrar dos primeiros trapos, deixou-os de lado e fechou suas mãos ao redor do cantil em que continha o vinho, podendo sentir que ainda estava bastante quente como deveria estar.
— Isto vai arder bastante, mas vai ser rápido. É para limpar e esterilizar o ferimento. – Advertiu com um tom de voz calmo, procurando lhe oferecer algum conforto através de suas palavras.
Dito isto, ela lentamente inclinou o cantil e fez escorrer o vinho fervente em cima do ferimento do braço do outro, e como esperado, o corpo dele estremeceu de leve e seus dentes se cerraram com força enquanto o líquido escorria pela ferida, mas para a surpresa da moça, ele não fizera um som sequer.
Lucy não perdeu tempo e mastigou um bocado de pedaços de folhas e galhinhos que trouxera para poder formar uma espécie de pasta verde e úmida, usando-a para cobrir a ferida completamente, voltando a enrolar o braço dele com novos trampos limpos por cima daquilo.
E assim foi trabalhando no resto dos ferimentos, procurando deixar o pior de todos por último: o do peitoral e abdome. O único que ela não havia tratado mesmo quando ele estava desacordado, já que ela não tinha recursos para tratar de todos eles naquele momento de dias atrás, sendo obrigada a rasgar pedaços da própria roupa para enfaixar os que pudera.
Este seria o machucado em que ela precisaria ficar mais próxima dele, e não sabia como ele iria reagir, e sinceramente isto a deixava também bastante desconfortável. Até então ele estivera se comportando de maneira exemplar. Ela sequer conseguia acreditar em no quanto fora capaz de conquistar sua confiança, mas aquela era uma nova barreira a se atravessar.
Debatia consigo mesma mentalmente como faria para tomar coragem de chegar tão perto dele a ponto de encostar em seu peito, e involuntariamente suas bochechas coraram, e ela só percebera isto por conta do calor que aumentou na região de seu rosto. Se já estava quente ali antes, o pensamento de chegar tão perto dele a deixou quase suando.
Deixando um pouco esse pensamento de lado, ela pegou o cantil de vinho nas mãos para checar a temperatura antes de começar a trabalhar novamente na troca de curativos. Fez uma careta insatisfeita ao perceber que a bebida já estava morna. Aquele ferimento, por não ter sido tratado, era o pior de todos e provavelmente o que havia infeccionado e estava causando a febre.
Procurou dentro de sua cesta por uma pequena vasilha metálica que poderia usar de panela, mas infelizmente ela havia se esquecido do detalhe de que não sabia como acender uma fogueira sozinha. Bateu com a palma da mão na própria testa, condenando-se mentalmente.
— Droga, eu não trouxe nada para fazer fogo. – Sussurrou para si mesma e estalou a língua logo em seguida. Não havia outra maneira, teria que voltar ao vilarejo e pegar algo para auxiliá-la naquela tarefa. – Eu já vol-
Antes que pudesse terminar de falar, sentiu uma bola de fogo passar por perto dela, tão quente que quase queimou a superfície de sua pele apenas por estar próxima à sua reta de passagem. Olhou para trás e percebeu que aquelas chamas foram lançadas diretamente em pequenos gravetos secos que estavam espalhados pelo chão da caverna. Voltou a olhar para a criatura e observou que pequenos fios de uma fumaça escura saíam dos cantos de sua boca e nariz.
Seus olhos estavam arregalados em surpresa, e ela gaguejou silenciosamente, não sabendo o que dizer. Imaginava que ele tinha encontrado alguma maneira de fazer fogo já que encontrara dias atrás a comida que havia trazido para ele toda queimada, mas não imaginava que era desta maneira que ele havia feito.
Antes que ela pudesse se recompor e pronunciar-se de alguma maneira, ele deitou-se no chão de barriga para cima, como se estivesse se preparando para que Lucy tratasse de seu último ferimento.
E, mesmo sem entender direito o motivo por ficar tão feliz com aquele gesto, a loira sorriu satisfeita para ele.
Seus olhos verdes analisaram aquele singelo sorriso com curiosidade, mas ele não esboçou reação nenhuma em seu próprio rosto, permanecendo inexpressivo até que deixou de fita-la, fechando seus olhos e esperando pelo vinho fervendo que receberia no peito, preparando-se para a dor.
Lucy teve que reprimir uma risadinha contente no fundo de sua boca, mas não perdeu tempo, depositando o restante do vinho dentro da vasilha e pegando um galho que não estivesse em brasa para reunir todos os outros em uma pequena fogueira, acrescentando mais alguns pedaços de lenha que havia ali perto e podendo assim esquentar a bebida.
Assim que a temperatura do vinho ficou no ponto, Lucy pegou a vasilha com cuidado com o auxílio de alguns trapos restantes que não utilizaria para curativos e virou-se para ele, que ainda estava ali deitado, de olhos fechados. Ele parecia tão tranquilo que ela poderia até imaginar por alguns segundos que estivesse dormindo, e viu isso como um elogio. Aparentemente ele aprendeu a ficar confortável na presença dela, mesmo em um momento de dor.
— Eu vou colocar o vinho agora, ok? – Avisou, sentindo que ele gostava de saber bem de tudo o que estava prestes a acontecer. Quanto menos surpresas, menores as chances de ele se assustar.
Lentamente banhou aquela terrível ferida em vinho fervente, e dessa vez ele não conseguiu reprimir uma careta dolorosa, e o rosto de Lucy o acompanhou. Toda dor que ele se esforçava para omitir, por alguma razão, ela também sentia. Mas sabia que era para o bem dele, então mantinha-se firme no que estava fazendo.
Pegou o cantil de água e jogou logo em seguida, procurando tirar o excesso de vinho e dando leve batidinhas com pedaços de pano, livrando a pele dele do sangue seco e acúmulo de sujeira que havia se formado ali e dificultavam a cicatrização. Rosnados abafados ameaçavam escapar por entre os dentes dele, claramente desaprovando a dor que sentia ao ter seu peitoral esfregado por aqueles panos, e Lucy sentiu todos os pelos de seu corpo se arrepiarem com aquele som. Mas aquilo precisava ser feito, e poderia apenas torcer para que ele tivesse consciência disso.
Mastigou mais ervas para criar novamente aquela pasta verde até cobrir completamente o corte profundo que atravessava grande parte de seu tronco. Ela poderia jurar que sentiu junto com ele o alívio ao finalmente poder em seguida começar a enrolar os trapos ao redor do corpo dele e dar o trabalho como concluído.
Ele sentou-se devagar, hesitante pela dor que sentia ao dobrar seu abdome machucado, e levantou suas asas para que ela pudesse circular o tronco dele em trapos.
Vê-lo colaborar tanto era algo que Lucy ainda estava se acostumando a lidar, mas não poderia estar sentindo-se melhor em relação àquilo. Com os panos já em mãos, iniciou seu serviço mais arriscado até então.
Lucy realizou esta tarefa lenta silenciosamente com uma crescente tensão em seus ombros, sentindo seus batimentos cardíacos em seus tímpanos e algo quente querendo subir pela sua garganta de tão nervosa. Ela estava no alcance perfeito das garras afiadas da criatura, bem como de seus caninos proeminentes. Engoliu em seco, procurando se livrar daquela sensação incômoda e procurou focar em outra coisa enquanto estivesse assim tão perto.
Então, pela primeira vez desde que o encontrara desmaiado na floresta, ela não reparou em seus ferimentos, e sim em seu corpo em si, que era coberto por apenas calças de couro marrom-escuras velhas e com as barras rasgadas. Ele tinha um corpo comprido e bem estruturado, com músculos firmes cobertos por uma bela pele bronzeada, que em algumas regiões era coberta por escamas de um rosa profundo que beirava o avermelhado.
O abdome dele, parte do corpo onde Lucy estava particularmente perto naquele momento parecia uma escultura feita por antigos artistas gregos. Músculos precisamente delineados criavam um desenho perfeito para se agradar os olhos de qualquer mortal pecador, e a camada de suor febril que cobria sua pele capturava as luzes alaranjadas da fogueira, deixando-os quase hipnotizantes.
Tão hipnotizantes que Lucy não estava conseguindo lutar contra a vontade que sentia de passar seus dedos por eles, tentada a descobrir que textura eles poderiam ter, mas teve seu estado de transe interrompido pelo súbito afastamento dele, que assim que percebeu que seus novos curativos estavam feitos, jogou-se para longe da loira e voltou a encostar-se na parede da caverna, onde costumeiramente ficava descansando.
Lucy sentiu um rubor intenso nas maçãs de seu rosto ao se dar conta do que estava prestes a fazer, e torceu mentalmente para que ele não tivesse percebido que ela estava encarando o corpo seminu dele.
Decidiu deixar isto para lá e começou a ajeitar seus pertences dentro da cesta e espairecer seus pequenos pensamentos indecentes, deixando apenas os alimentos de fora, que ficariam para ele comer.
— O meu nome é Lucy. – Disse assim que terminou de se organizar, colocando-se de pé na frente dele. – Amanhã, quando eu voltar para trazer mais comida, eu espero poder descobrir o teu.
E sem mais nada dizer, ela virou-se para a saída da caverna e começou a retirar-se, tendo cada um de seus passos vigiados por aquele par de olhos verdes selvagens.
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Assim que Lucy regressara ao vilarejo, tentou passar por caminhos não tão utilizados para evitar ser avistada por alguém de sua família.
Lucy vivia em uma pequena casa com outras cinco pessoas de aproximadamente a mesma idade que a dela. Nenhum deles tinha ligação de sangue entre si, mas constituíam uma família tão unida que seu parentesco significava algo além de meras similaridades genéticas.
Mesmo sendo um grupo humilde, cada um procurava cumprir um papel dentro de seu lar.
Erza era uma jovem de cabelos tão vermelhos quanto sangue vivo e tinha a maior postura de liderança naquela casa, sendo frequentemente julgada erroneamente como a mais velha dentre todos. Levy tinha baixa estatura e cabelos azulados, mas contava com uma grande capacidade intelectual, sendo a responsável pelas finanças e administração em geral dos serviços. Jellal, um homem forte, calado e gentil de cabelos também azulados tomava conta do território onde viviam e onde plantavam, uma pequena área de cultivo voltado principalmente para consumo próprio e, muito esporadicamente, para comércio através de trocas. Cana, a mais velha do grupo era bela e entusiasmada, vivia arranjando confusão quando não estava trabalhando na plantação, mas era ela quem tomava a frente nas negociações com outros pequenos produtores. E por fim, Gray, um jovem alto de cabelos tão negros quanto seus olhos que ajudava Jellal na tarefa de proteger as propriedades da família, já que as tentativas invasões eram constantes, bem como o pouco de animais que criavam ali como gado, ovelhas e galinhas.
Todos trabalhavam na plantação ao menos algumas horas por dia, revezando-se entre si para que todos contribuíssem igualmente.
Cada um destes indivíduos fora vitima da crueldade do destino de perder seus pais quando ainda novos. Alguns para guerras, outros para pestes, mas o fato é que todos os que moravam naquela casa tinham apenas uns aos outros, e não contavam com mordomias ou luxos. Eles trabalhavam o dobro do que usufruíam, e demoraram para conquistar o pouco de conforto que possuíam atualmente.
Lucy imaginou que a aquele horário de quase meio dia ninguém estaria em casa ainda, já que costumavam almoçar tarde. Entrou em sua casa de fininho, procurando não fazer ruídos para garantir não ser descoberta caso alguém estivesse lá dentro, mas para seu azar, uma certa ruiva a aguardava na porta do quarto onde as mulheres da casa dormiam.
— Eu posso saber para onde tu tens escapado todos esses dias, Lucy? – Perguntou Erza, indo direto ao ponto. Ela estava com um ombro apoiado numa das laterais da porta e de braços cruzados, lançando um olhar de reprovação à loira. – Tu és a única que não está seguindo a programação dos trabalhos na plantação. O inverno está para chegar, precisamos garantir nossa colheita, Lucy.
A loira encolheu-se entre seus ombros, sentindo a culpa pesar em sua consciência enquanto fitava os próprios pés.
— E então? O que é tão mais importante do que termos o que comer? – Insistiu Erza.
Lucy ainda não conseguia encará-la enquanto descaradamente procurava por uma mentira qualquer. Ela jamais poderia contar nada a respeito da criatura que encontrara na floresta, não podia arriscar. Não fazia muito tempo desde que uma mulher do vilarejo próximo fora queimada numa fogueira enorme, acusada de estar entrando em contato com demônios. Não seria muito diferente com ela caso descobrissem que ela está tomando conta de uma criatura que ela sequer sabe o que é.
— E-Eu... Estou me encontrando com alguém... – Admitiu temerosa, ainda sem encarar os olhos achocolatados da ruiva. Não estava realmente mentindo, mas sentia que se caísse na profundidade do olhar dominante de Erza, iria fraquejar e acabar contando tudo.
Erza piscou um par de vezes, atônita, como se custasse a entender o que lhe fora dito.
— Alguém? – Repetiu, desencostando-se do batente da porta e suavizando sua expressão severa para uma intrigada. – Po-Por acaso é um... Um homem? – Perguntou, com as bochechas levemente coradas.
E foi nessa deixa que Lucy encontrou espaço para uma desculpa convincente.
— Si-sim! Isso mesmo! – Respondeu o mais firme que pôde, finalmente ousando olhar a outra nos olhos.
— Oh, e por que não me contou? E... Por que estão se escondendo? – Questionou baixinho, corando mais ainda ao pensar nas possibilidades.
— Er, ele é de um outro vilarejo não muito longe daqui, então sempre nos encontramos na floresta, no meio do caminho entre os dois vilarejos, assim nenhum dos dois precisa andar muito.
Erza assentiu com a cabeça, demonstrando que compreendera.
— Bem, tome cuidado, a floresta é um local perigoso para nós mulheres, não fique sozinha lá de maneira alguma. – Advertiu, não podendo deixar de lado a postura de líder da família. – E organize melhor teus horários, sabes que precisamos da tua ajuda com a plantação. Se quiser, fale com a Levy para trocar o teu horário pelo de alguém e assim terás as manhãs livres.
Erza pôs uma mão no ombro da amiga que considerava como irmã e sorriu docemente. Lucy retribuiu na hora e abraçou a ruiva com carinho, prometendo que conversaria com Levy assim que a encontrasse.
Teria que definitivamente organizar seus horários de trabalho, já que, mesmo não entendendo os motivos para tal, ela não pretendia deixar de ir a aquela caverna até que ele estivesse completamente curado.
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