Cavalos Selvagens
8 8 "Beijo mágico, beijo milagroso e... Beijo ruim"
Notas iniciais

Capítulo 8 — Beijo mágico, beijo milagroso e... Beijo ruim
Quando Victor chegou ao escritório, ao abrir a porta, ele se deparou com uma mulher de vestido xadrez e rodado que limpava a sala. Bem, ela deveria estar limpando, mas havia um chiado irritante que interrompia o silêncio e o loiro percebeu que o som vinha dos fones de ouvido, e isso explicava o porquê do balançar nada tímido do corpo ou da voz que acompanhava a canção. Não era nada mal. E não teve como não pensar que, de costas, eles jamais seriam confundidos.
Para se mostrar presente e chamar a atenção da mulher, ele a tocou no ombro, mas a coitada quase se desmanchou pelo susto.
— Ai, meu Deus! — Ela exclamou, retirando os fones e levando a mão ao peito de maneira dramática. — Faz muito tempo que tá aí? — Deu um sorrisinho amarelo, subitamente constrangida por fazer turnê na sala do chefe.
— Eu acabei de chegar. — Victor olhou ao redor. O cômodo estava limpo, mas as coisas estavam um pouco fora do lugar para sua mania de arrumação. — Ouvi um pouquinho do show.
— Desculpa por isso. Eu sempre me empolgo quando 'tô limpando. — Ela ajeitou os produtos de limpeza, pronta para sair da sala com o rabinho entre as pernas.
— Espera. Evangeline, não é?
— Isso, mas pode me chamar de Eva, é mais fácil e eu não gosto do meu nome. — Ela deu um sorriso simpático e ajeitou os cabelos escuros e repicados que alcançavam os ombros.
— Certo, Eva, pode se sentar. — Victor contornou a mesa e puxou a cadeira. — Eu quero conversar uma coisa com você.
— Vai me dispensar? — Ela mudou o tom para algo mais desesperado. — Olha, eu prometo que eu não vou dançar mais! Sério, sem dancinha da próxima vez e sem voz de papagaio fanho. — Cruzou os dedos e beijou, reforçando a promessa. Precisava daquele emprego, pois era o que a ajudava a pagar o curso de secretária. Afinal, não limparia o chão para sempre, queria servir o café e atender os telefonemas, passar recado, simples e chic.
Victor acabou deixando uma suave risada escapar. O povo de Santa Luz era mesmo uma figura. Ele apoiou os cotovelos na mesa e fez um gesto para que ela se sentasse.
— O senhor é filho do patrão, não é? — Eva se sentou, ainda que receosa, não pôde deixar de reparar nos traços femininos daquele rosto enquanto ele confirmava. Não fosse a voz, completamente masculina e grossa, ela teria certeza de que era uma moça ali. Que cabelo era aquele, meu senhor? — E não vai me dispensar?
— Não. É um assunto sobre trabalho. — Victor reiterou. — O Jackie—
— Ah! Claro, o cowboy! — Eva interrompeu, balançando a cabeça e sorrindo. — Ele não fez fofoca de mim, fez? — Ah, se aquele abusado tivesse comentado coisas constrangedoras e falsas a seu respeito...
— Não, ele—
— Espera, que trabalho? — Voltou a interromper, dessa vez prestando a devida atenção na conversa.
— Eu tenho três sobrinhos, trigêmeos. — Victor suspirou para todo o entusiasmo da mulher. — Eles estão aqui na fazenda, passando as férias. Jackie me disse que você poderia cuidar deles, que se dá bem com crianças.
— Eu amo crianças! — Ela exclamou, derrubando a vassoura ao erguer as mãos, estabanada. — E três anjinhos de uma vez?
Victor não concordava muito com a parte dos anjinhos, mas sorriu e se sentiu um tanto aliviado pelo entusiasmo dela. Cuidar daqueles três, não seria algo fácil.
— Nós vamos combinar o valor e os horários, claro, se você aceitar. — E se ela não aceitasse, teria que se desdobrar para achar alguém que topasse ser a cobaia de várias das experências dos sobrinhos.
— Já aceitei! — Ela era uma pessoa muito entusiamada. Com ela não tinha tempo ruim. — Criança e dinheiro extra são muito bem-vindos. Isso vai me salvar, você nem imagina.
Antes que Victor pudesse dizer mais alguma coisa, a porta se abriu e Jackie entrou. O cowboy não estava sozinho, Bartholomew estava com ele.
— Cowboy! — Eva se levantou, ignorando solenemente a presença do homem mais velho e dependurando-se no pescoço de Jackie. — Obrigada por recomendar meus serviços como babá. — E como se fosse a coisa mais natural do mundo, estalou um beijo nos lábios dele.
Victor arqueou as sobrancelhas e abriu levemente a boca com a cena. Amigos, ele dizia. Claro, amigos beijavam na boca o tempo todo. Mas não que ele tivesse algo a ver com isso. E Jackie sequer se importou, mas novamente, ele não tinha nada a ver com isso. Nem estava reparando.
— Ah, oi, Bartô. — Ela lançou um sorrisinho misterioso ao homem de cabelos grisalhos, como se apenas agora se desse conta de sua presença. O que pareceu irritar o outro.
— Bom dia pra você também, Evangeline. — Bartholomew reprovou a demonstração de afeto entre aqueles dois. Havia ido ali para conversar sobre as mudaças que seriam, pouco a pouco, implantadas na fazenda.
— Você vai ver os anjinhos que vai tomar conta. — Jackie sutilmente se separou, coçando a nuca ao perceber que estava na sala do chefe e com uma mulher se apertando contra ele.
— Bom, então, eu vou indo. — Evangeline novamente juntou a vassoura, o resto dos utensílios e deixou outro beijo, dessa vez, na bochecha de Jackie. — Obrigada senhor Victor e, tchauzinho, Bartô. — Falou ao passar pelo mais velho.
— Eu disse que ela ia aceitar. — Jackie puxou uma cadeira e Bart fez o mesmo.
— Essa mania de me chamar de Bartô. É uma abusada. — Ele não conteve a vontade de expressar o quanto os encontros com aquela moça eram recheados de inconveniência.
— Então, eu... Fiz umas pesquisas sobre o que há de mais moderno no mercado em relação as colhedeiras. — Victor mostrou os papéis aos dois. Era melhor começar a reunião e decidir logo de uma vez naquilo que iam investir. O pai, o dono da fazenda, havia deixado em suas mãos, e qualquer decisão que tomasse, seria por ele considerada a melhor. Mas não somente isso. Ivan estava com os netos e parecia ter voltado a ser criança ao lado do trio.
— Parece complicado... — Jackie coçou a cabeça ao retirar o chapéu, observando a máquina revolucionária impressa na primeira folha.
— Na verdade, é bem simples. Uma única pessoa pode operá-la. — Victor apontou para as descrições.
— E os colhedores? Uma máquina roubando o trabalho deles, não acho que vão aceitar assim. — Bartholomew comentou com um pé atrás. — São gente simples, acostumados ao trabalho manual. Tirar isso deles, vai ser uma tarefa complicada.
— Faremos uma reunião com eles também, vamos deixar tudo explicado e as novas funções de cada um. — Victor se endireitou na cadeira. — Não vai mudar muito no final, os colhedores serão operadores. Fiz um projeto para aumentar o galpão e abrigar todos eles. O armazém tem um bom tamanho. É tudo dentro do possível. — Franziu o cenho ao ver Jackie com um sorrisinho estranho no rosto, mas não teve tempo de perguntar o porquês, pois no minuto seguinte, Eva retornou, dessa vez, com uma bandeja de café.
E Victor acabava de se lembrar que precisava de uma secretária.
— Olha o cafezinho. — Ela anunciou, sorrindo ao depositar a bandeja sobre a mesa. — Sabe, senhor Victor, não é por nada não, mas eu faço de tudo. Inclusive eu 'tô estudando pra ser secretária e sei tudo de escritório. — Vender o peixe, era de graça.
Bartholomew deixou um risinho desdenhoso escapar ao ouvi-la falar como se fosse a secretária do século. Pobre de Victor se a deixasse perambulando por ali. O que ele não esperava, é que no exato instante após cessar o deboche, o líquido quente e escuro fosse parar sobre suas pernas.
— Sua doida! — Bradou, afastando a cadeira e chacoalhando a perna. Aquilo queimava como o inferno. — Você queimou o meu—
— Desculpa, Bartô. — Ela pediu, mas queria rir. — Eu posso ajudar.
— Nem pensar! Fica aí! — Bartholomew saiu da sala, caminhando em direção ao banheiro e praguejando todos os nomes conhecidos.
— Eu... Licença. — Eva ignorou os xingamentos do homem mais velho e o seguiu.
— Coitado! Ela é sempre assim? — Victor agradeceu mentalmente por não ter sido ele a vítima.
— Você não viu nada. — Jackie garantiu, servindo-se do café. — Mas as crianças vão adorar.
— Hm. Do que estava rindo? — Victor decidiu perguntar, curioso.
— Do jeito que você fica sério quando 'tá falando de assuntos do trabalho.
— E isso é engraçado? — A sobrancelha loira se arqueou e ele também se serviu do café.
— Não era um sorriso de troça, senhorita.
E como se explicasse muita coisa, voltou a ler as folhas e a questionar sobre a qualidade do robô que tomaria o lugar dos trabalhadores.
* * *
Três. Havia três coisas nanicas e falantes pulando feito macacos albinos ao seu redor.
Sebastian tinha certeza de que estava no lugar errado. Aquele não poderia ser o estábulo onde, todos os dias, ele cuidava dos cavalos, mas então, onde diabos estava?
— Você sabe fazer a dança da chuva? — Uma das pestes nanicas perguntou, encarando-o de maneira impressionada.
— É claro que ele sabe. Todos eles sabem. — A cópia respondeu, rolando os olhos ao final da fala.
— Índios lutam contra cowboys. Eu vi num filme. — A outra cópia retorquiu, parecendo muito certa sobre o que dizia.
— Você atira flechas nos inimigos?
— Faz aquele som engraçado com a boca?
— E aquelas pinturas no corpo?
— Pelo amor de Deus! — Sebastian levou as mãos aos cabelos, quase arrancando os fios. — De onde foi que vocês saíram? — Nossa, ele adorava crianças. Tinha vontade de chutar cada um daqueles projetos de 'atentado a paz'.
— Você 'tá brabo?
— Quem são vocês e... — Foi aí que se lembrou. Victor tinha três sobrinhos e havia ido para a capital. Não havia tido tempo para falar com o loiro ainda, afinal, precisava perguntar certas coisas a ele. — Vocês são sobrinhos do Simon? — Se abaixou para tornar mais fácil a comunicação. E nem precisava reparar muito para encontrar as semelhanças entre as crias loiras e o idiota do Simon Green.
— É! Eu sou o Daniel, e meus irmãos, Denver e Dilan. — Daniel era o mais espontâneo e sociável. — Você conhece o tio Simon?
— Ah, é, eu conheço o tio de vocês. — E conhecia muito bem, por sinal. — Mas e aí, pirralhada? 'Tão fazendo o quê aqui?
— O vô vai ensinar a gente a andar nos cavalos. — Denver estufou o peito, achando-se maduro o suficiente para sair cavalgando por toda a fazenda.
— Coitado do patrãzinho. — Sebastian suspirou e ia enxotar as crianças, mas o celular vibrou no bolso da calça e ele foi conferir. Era uma mensagem. Outra.
— É do tio Simon? — Daniel xeretou o visor do celular, fazendo alarde para os irmãos.
— Quê? — Sebastian afastou o aparelho do trio. — 'Cêis não têm idade pra saber ler!
— Eu vi, é do tio Simon, sim. — Dilan cruzou os braços. Quem é que disse que ele não sabia ler?
— Não é de ninguém! — Sebastian se ergueu. Ele realmente queria chutar aquelas coisinhas curiosas. — Vocês não têm nada pra fazer não? Sumam daqui!
— Você não manda na gente! — Denver se irritou, e sempre que se irritava, chutava a canela alheia. E foi o que fez.
— Peste! — Sebastian tentou puxá-lo pela camiseta, mas a criatura correu para longe. — Eu vou escalpelar vocês! — Gritou, fazendo os três correrem de volta para o casarão aos risos e tropeços.
E com a raiva que subiu no momento, devolveu uma mensagem bem carinhosa ao tio idiota daquelas pestes antes de ir cuidar dos cavalos.
* * *
Simon encarava a mensagem no visor do celular pelo que seria a vigésima vez naquela manhã. Quase podia ouvi-lo dizer aquelas palavras com a típica indiferença na voz e os lábios torcidos enquanto olhava para as próprias unhas.
Não me importo. Não temos nada pra conversar. Vou fingir que nem te conheço. FODA-SE.
Aquele garoto era tão sutil quanto um coice de mula.
Era óbvio que ele estaria com raiva, tinha todas as razões do mundo para tal sentimento, mas sentia que poderia sim convencê-lo caso conseguisse lhe falar em particular. Precisavam resolver aquela situação de uma vez por todas e, se não pudesse ser perdoado, desistiria de vez daquele sentimento, mesmo que levasse a vida toda para que conseguisse esquecê-lo.
Talvez estivesse sendo um pouquinho dramático.
— Você deveria ter aprovado o orçamento para a compra dos novos materiais, mas está aí há uma meia hora sorrindo feito um idiota.
A voz aveludada de Verônika o atraiu de volta para a sala ampla e branca com ar-condicionado. Ultimamente ele preferia o verde de uma paisagem e o negro de uns certos olhos puxados. Pensar em certo alguém o tirava de eixo. Só então, direcionou o olhar a assistente e, depois a tela do computador com a planilha aberta. Suspirou. Ainda era o diretor por ali e isso implicava nas mais inúmeras obrigações, infelizmente...
A DLG (De Léon & Green Construction) era a empresa de construção cívil de mais conceito em todo o estado, Simon arriscava dizer que, na verdade, era o que havia de melhor no ramo de engenharia de todo o país. É, ele não era nem um pouco modesto.
— Eu devia ter especificado que queria uma assistente menos sincera... — Rolou os olhos, começando a ler o orçamento, mas sem dispensar o celular. O celular era precioso.
— Sinceridade é uma dádiva, meu caro. — Verônika caminhou pela sala, fazendo barulho com os saltos. Pegou um café e assoprou a fumacinha antes de levar o copo descartável aos lábios pintados de vermelho. — Parece até que viu o passarinho verde, mal sabe disfarçar o que quer que esteja acontecendo. — Ela estreitou os olhos castanhos de cílios falsos, analisando o chefe. Chefe e amigo de longa data, por isso se permitia a certas liberdades com o loiro.
— Não é nada certo ainda, mas, quem sabe, meu humor pode melhorar consideravelmente nos próximos dias. — A voz até mesmo estava mais animada, nem parecia que estava lendo uma planilha cheia de valores e materiais para construção. Verônika diria que ele estava lendo uma revista Playboy.
— Isso seria um milagre. — Ela ergueu as mãos para o alto, dramática. — A visita do seu irmão foi abençoada. Falando nisso, quem era aquele homem gostoso que veio com ele?
Simon direcionou os olhos a assistente, o humor de segundos antes se perdendo em algum lugar entre a frase da mulher e o sorrisinho sugestivo que ela lhe direcionava. Dar confiança aos funcionários não podia acarretar em coisa boa.
— Eu não me lembro de ter mencionado que ele veio acompanhado. — Ergueu a sobrancelha, apoiando os cotovelos na mesa.
— É porque você não mencionou. — Verônika contonou a mesa cinza-claro e se jogou na cadeira de couro. — Eu esqueci de dizer que os vi no centro ontem. Ah, os seus sobrinhos são umas coisas apertáveis. — Fez uma voz irritante ao mencionar os meninos. Os havia visto de longe, mas conhecia bem Victor e, o garoto estava mais bonito do que ela quando se maquiava. — Mas aquele homem... Deus! Seu irmão não é nada bobo.
— Aquele homem é o capataz da fazenda e só isso. — Fez questão de deixar claro. Odiava insinuações daquele tipo. Pronto, seu bom humor havia sido assassinado.
— Hm. Claro. — Ela fingiu acreditar. Irritar o chefe não estava nos planos. Sabia o quanto o loiro era ciumento e superprotetor em relação ao irmão por alguns acontecimentos do passado. — E quando vai para a fazenda? Uns dias no campo vai te fazer bem, longe dessa poluição e do estresse do trabalho.
— Nesse fim de semana. — Respondeu mais relaxado. — Já adiei demais a conversa com o meu pai. E pretendo convidar a todos para a festa de inauguração.
A festa em questão, seria a comemoração a abertura de uma nova filial. Seria também uma ótima oportunidade para tentar uma outra forma de aproximação com certo moreno, claro, caso a primeira falhasse. O que provavelmente ia acontecer.
— Vai ser ótimo, chefinho. Nada melhor que fazer as pazes com a família. — Verônika dava todo o apoio do mundo para que o chefe e amigo ajeitasse aquela parte da vida. Só faltava isso e, ah, dar um pé na noiva grudenta.
O telefone tocou e ela prontamente atendeu, sentando-se de maneira elegante na cadeira de estofado vermelho. Um ponto de cor naquela sala branca.
— O novo gerente de obras. — Anunciou, recebendo um aceno positivo por parte do diretor. — Ele pode entrar.
Logo, um homem alto e devidamente trajado em roupas sociais, adentrou a sala espaçosa. Ele usava óculos de armação negra e carregava uma pasta com os projetos de uma obra recém-iniciada. Caminhou de maneira displicente até a mesa do diretor e exibiu um sorriso simpático, evidenciando as covinhas sutis nas bochechas.
Simon estudou as feições do novo funcionário e pareceiro, já que trabalhariam diretamente juntos. Não conseguiu evitar o pensamento de que o homem era bonito. Nada muito fora do comum, mas chamava atenção, ainda mais com um sorriso daqueles. Não precisou olhar para saber que Verônika estava babando.
— Bom dia, senhor Green. — O rapaz estendeu a mão. — Meu nome é Ryan Clark.
* * *
A noite caiu e Victor se viu sozinho no escritório. Havia decidido ficar para resolver assuntos pendentes e nem viu a hora passar. O bom é que não estava longe de casa, podia ir a pé ou à cavalo, mas Bartholomew havia deixado a caminhote caso ele precisasse. Juntou as planilhas em uma pasta de cor preta e a etiquetou, guardando-a na gaveta da escrivaninha. Estava trabalhando a moda antiga, mas esperava que aquilo logo mudasse e Flor de Ouro entrasse para o mundo tecnológico. Facilitaria e muito as coisas por ali. Só tinha que enfiar na cabeça daqueles “velhos” que máquinas e computadores não eram bichos de sete cabeças.
Enquanto terminava de arrumar a mesa; guardando papéis, ajeitando as canetas em um pote de plástico e jogando fora metade do lanche da tarde, ouviu um barulho suspeito.
A única luz acesa era a da sala em que estava. Lá fora a fraca luz dos postes iluminava o caminho solitário e a luz de uma lua pálida tentava contribuir. Esperou que alguém entrasse, mas nada aconteceu. Certo, deveria se preocupar?
Sorrateiro, pegou a vassoura que descansava ao lado da porta – Santa, Eva! – e a segurou como a mais perigosa das armas. Bem, era o que tinha no momento e teria que servir.
Com a cara e a coragem – a coragem, ele havia deixado em casa, era só a cara mesmo –, caminhou para fora da sala, sondando o território.
— Tem alguém aí? — Perguntou, a voz firme, porém, por dentro tremia feito vara verde. — Eu estou armado e... E cuidado. — Ótimo, Victor, peça ao senhor ladrão para ter cuidado!
Conforme caminhava, não se deu conta da aproximação de três sombras pequenas. Ele só teve noção do que acontecia, quando sentiu que as pernas foram agarradas e uma sombra maior surgiu na porta. A primeira e óbvia reação, foi descer o cabo da vassoura no gigante infeliz que trancava a saída. A madeira se partiu com um estalo e a figura foi ao chão, atordoada. As pernas foram soltas e ele bateu os dedos no interruptor, ligando a luz e encontrando um trio que ele conhecia muito bem, e um cowboy com uma expressão dolorida caído no chão.
— Ah, meu Deus! — Ele levou a mão aos lábios e se ajoelhou em frente a Jackie. — Que ideia estúpida foi essa a de vocês? — Brigou, sem saber o que fazer. Aquilo parecia estar doendo.
— Nossa, que galo enorme! — Denver exclamou ao ver o estrago na testa do tio Jackie. — A gente queria fazer surpresa.
— Isso foi bem feito! — Victor levou as mãos ao rosto do cowboy, examinando a elevação avermelhada que se formava no local atingido. — Surpresa... Eu quase morri do coração.
— E quase me matou no processo. — Jackie murmurou, atordoado. Quando foi que pensou que levaria uma vassourada nas fuças? Era a terceira vez que apanhava da senhorita loira. Preferia os tapas...
— É só colocar gelo, eu acho. — Tocou o local e afastou os dedos ao ouvir um resmungo de dor. — Jackie. — Segurou o rosto dele com ambas as mãos em um ato dramático. — Jackie, não vá para a luz. — O tom era sério, mas era óbvio que estava brincando.
— Além de ser agressor de jovens cowboys indefesos, também é piadista? — Perguntou sem humor. O galo, ele sentiu, estava lindo, grande e latejando. Que belo jeito de iniciar a semana.
— Desculpe, mas a culpa foi sua. Eu pensei que fosse um ladrão, só me defendi. Teria sido realmente eficaz se você e seus comparsas fossem mesmo ladrões. — Deu de ombros. Estava aliviado por ser apenas aqueles quatro.
— Vai ter que me ajudar. — Jackie resmungou, apoiando um braço em volta dos ombros de Victor e quase o puxando para baixo no processo desajeitado de tentar se levantar. — Eu 'tô debilitado.
— Só por causa de um galo na testa? — Victor rolou os olhos. Um homem daquele tamanho, mais mole do que seus sobrinhos. — Certo, cuidado pra não cair. — Falou ao se erguer, mas teve a ajuda dos sobrinhos que seguraram o cowboy pelo braço livre. Os pestinhas, que orgulho. — Dói muito?
— Eu tô zonzo. — Jackie suspirou ao sentar na cadeira e esticar as pernas. Que péssima ideia ter ido até ali. E pensar que ficou preocupado por saber que o loiro ainda estava no escritório até tarde da noite.
— Eu vou pegar um pouco de água e—
— Dá beijinho pra sarar! — Daniel interrompeu, sendo prestativo ao lembrar do melhor remédio do mundo.
— O quê? — Victor olhou para o sobrinho com os olhos arregalados. Não faltava mais nada mesmo.
— É, a mamãe sempre beija quando a gente tem um machucado. — E foi novamente Daniel quem falou, mas teve a concordância dos dois irmãos.
Victor franziu o cenho. Não sabia se ficava surpreso com o fato de Cecília fazer algo tão materno e carinhoso ou preocupado com o rumo daquela conversa. E pensando nisso, olhou para Jackie, pedindo ajuda a ele com o olhar aflito.
Jackie deu de ombros. Era como se dissesse: Se quiser beijar, beija.
E como ele podia dizer algo assim? Victor fez uma expressão que significava: Sem essa, eu não vou beijar você. Isso aí nem é um machucado de verdade!
E Jackie devolveu: Mas 'tá doendo e a culpa é sua por me agredir. Vai beijar sim!
Os dois pareceram se dar conta do quanto pareciam um casal conversando por gestos e expressões e subitamente se sentiram idiotas.
— A Eva pode beijar. Vai que ela fica com ciúmes. — Era uma ótima maneira de escapar daquela situação.
— A Eva não beijaria a minha testa. — Jackie soltou, de uma maneira bem sugestiva.
— Ah, claro, porque ela beijaria outros lugares. — E sabia bem quais lugares aquela “babá” sairia metendo a boca. E quis se bater por pensar algo assim. Ela podia meter a boca onde quisesse. Podia mesmo. Contanto que não fosse em si...
— Beija, tio Victor! — Daniel incentivou, com peninha do novo tio. — A dor vai passar.
Victor mordeu o lábio e suspirou. Era só um beijo na testa. Nada demais. Na testa se beijava um filho, um pai, um irmão e até um amigo. Tudo bem, era algo fraterno.
Com esse pensamento, ele se aproximou do cowboy e o tocou gentilmente nos ombros, pedindo licença ao tocá-lo. Era só um beijinho para sarar... Afastou os fios do cabelo castanho e se debruçou um pouco, colando os lábios na testa de Jackie, fazendo as mechas loiras dançarem próximas ao rosto dele. Foi um contato rápido, quente e carinhoso.
Era tão singelo que Jackie sorriu, mas o perfume dos fios loiros o deixou levemente desconcertado. E não falaria nada sobre a sensação dos lábios mornos em sua pele. E nem do pensamento nada coerente que despertou a partir daquele contato.
— Pronto. — Victor anunciou, constrangido até a décima geração.
O trio se animou, embora de longe, o mais animado fosse o doador da ideia. Daniel havia achado a cena fofa.
— Será que funcionou? — Dilan perguntou curioso, duvidando da magia, afinal, Victor não era a mãe de Jackie.
— Eu vou ver isso no espelho lá dentro. — Jackie se levantou, sumindo pela porta em direção ao pequeno banheiro.
Victor suspirou e se escorou na mesa. Daniel era um doce de menino, mas as vezes vinha com uma ideia absurda ou outra e acabava o envolvendo.
Imagine só, beijar o cowboy. Nada a ver e, Jackie tinha a babá, mesmo que não fosse um relacionamento sério, ele, com certeza, preferia o beijo dela.
E por que estava dando importância a esse fato? Até parecia que estava com ciúmes, o que era ilógico, afinal, nem conhecia aquele homem direito e nada nele lhe chamava a atenção. Ele era só um cowboy grosseirão, debochado e que adorava irritá-lo. Ele era legal, não negaria, mas era somente isso. E ele nem ao menos gostava de homens. Jackie serviria, no futuro, como um amigo. Isso! Amigo. Amigos eram sempre bem vindos.
E jamais entraria em um relacionamento tão cedo, nem sequer havia superado o último. O que tinha era carência. Pura e simplesmente. Fazia tempos que não saía com alguém e sentia falta de beijar, tocar e...
— Seu beijo é milagroso, senhorita.
Suspirou ao ouvi-lo tão perto. Sentiu que as orelhas queimaram com aquela frase ridícula e se virou para encontrar o sorrisinho cheio de deboche daquele cowboy metido.
— É, você vai sobreviver. — Analisou o local que se arroxeava, claro, de uma distância segura. Mas Jackie não contribuiu, pois invadiu seu espaço pessoal, fazendo-o ir para trás e derrubar o grampeador que estava sobre a mesa.
— E se fosse uma assombração? — O cowboy perguntou de repente, com ares sérios, vendo a confusão no rosto do loiro. — Você não vê filmes, não?
— O-O quê? — Santo nervosismo! Victor sentiu as palavras sumirem e quase pulou por sobre a mesa para escapar daquele ataque. Tinha três crianças curiosas na sala!
— Você perguntou: Quem está aí? — Jackie fez uma péssima imitação da voz de Victor. — É uma regra. Geralmente depois que perguntam isso, as pessoas morrem nos filmes. — Todo mundo sabia disso.
Com as falas absurdas do cowboy, Victor perdeu o nervosismo e acabou rindo. Ele era pior que seus sobrinhos, por isso se davam bem.
— É uma regra pra levar pra vida. — Ironizou e quase bateu palmas para aquela filosofia toda.
— Eu fui atingido na cabeça, não espere que eu vá recitar Shakespeare em alemão. — Fez careta. Nem recitar poema infantil ele sabia. Batatinha quando nasce, e depois vinha o quê?
— Achei que meu beijo fosse milagroso. — Comentou casual, desviando os olhos.
— Talvez o efeito não dure muito. — Jackie deu de ombros e ajeitou os cabelos para cima. Se ele quisesse beijar de novo e... E que diabos estava pensando?
— Esquece. — Victor deu as costas. Era uma ótima maneira de fugir e tentar acalmar a vermelhidão que alcançou até as orelhas. Porcaria de timidez! — Eu não vou te beijar de novo. — Oh, céus, o que estava dizendo?
— Não lembro de ter pedido pra me beijar antes. — Jackie não deixaria ele ficar se achando. Oras, e por que raios pediria um beijo? Se quisesse era só ir e beijar. Pronto. — Beijou porque quis.
— As crianças pediram. E você não pareceu se importar. — Era verdade. O cowboy ficou bem quietinho esperando o beijo.
— Pelo mesmo motivo, pelas crianças. E de qualquer forma, ele não tem nada demais. Não é mágico coisa nenhuma. — E quantos anos ele tinha mesmo? Anos demais e ainda não havia superado o fato de a fada do dente levar seu molar e não deixar uma moeda.
— Ah, é? — Victor se indignou. Estava vermelho sim, mas agora era de raiva. — Está dizendo que o meu beijo é normal e sem graça? — Ele não podia dizer aquilo.
— E eu sei lá! — Jackie fez um gesto de desdém com a mão. — Eu não beijei a sua boca pra saber. — Eis o ponto. E nem ia beijar! Não ia mesmo.
— Mas pareceu que tinha beijado, pra falar assim. — Victor cruzou os braços. Devia ter batido com mais força. E aquele assunto, não tinha nexo algum.
— Mas se ele for tão mágico quanto—
— Você não vai saber como é. — Cortou e deu o ultimato e o assunto por encerrado. O papo era estranho e constrangedor.
— Nem que você fosse mulher de verdade. — Jackie retorquiu, deixando as palavras soarem de maneira ofensiva e quase mordendo a língua ao ver a expressão de Victor passar da raiva para algo que lembrou decepção. — Eu não quis—
— Tenho certeza que não. — Victor sorriu sem humor e passou feito uma raposa por ele, levando os sobrinhos pela mão. Já havia ouvido aquela frase antes e ouvi-la novamente não fazia bem algum. E ainda, por um momento, acreditou que aquele cowboy fosse diferente. Ah, claro, eram todos iguais: Mas você não é mulher? Me enganou! Ou ainda pior: Foi só por curiosidade. E porque ele tem cara de mulher.
Era como se os dramas da adolescência voltassem todos de uma vez.
Antes que pudesse entrar na caminhonete estacionada próxima ao escritório, teve o braço puxado e foi impedido de abrir a porta do veículo.
— Você não sabe dirigir. — Jackie pegou as chaves da mão dele, contornando a caminhonete e entrando ao lado do motorista. O trio subiu na carroceria e prestou atenção na briga. — Vai me fazer ir aí e te jogar aqui dentro? — O cowboy perguntou, colocando a chave na ingnição.
— Diz que eu beijo mal, joga na minha cara que eu não sou mulher e agora me ameaça? — Victor quase riu, mas a despeito da mágoa, adentrou o veículo e colocou o cinto. Se fosse um pouquinho mais infantil, teria saído correndo depois de mandá-lo à merda. Faltou bem pouco pra isso.
— Eu falei sem pensar. — Admitiu, envergonhado por ter dito aquilo. — Não tem nada a ver você não ser mulher, se eu quisesse te beijar, eu beijaria. Eu só fiquei sem saber o que dizer com todo aquele papo de beijo.
E novamente as orelhas coraram. Eles tinham umas dicussões bem estúpidas e faziam uma tempestade no copo d'água.
— Eu também não facilitei, dizendo que não te beijaria e... Ah, não que eu... Quer dizer, entre a gente... E... — Olhou pela janela. Era sempre assim quando ficava nervoso, as palavras sumiam.
— Até eu me beijaria. — Porque modéstia, não existia em seu vocabulário. — Mas como eu não faço o seu tipo... — Jogou. Porque sim, ainda estava remoendo aquela informação.
Victor se recostou no banco e fingiu interesse pela paisagem noturna. Nem se lembrava de ter dito aquilo a ele, mas o cowboy pareceu se importar. Pois bem.
— É. Não dá pra agradar a todos. — Alfinetou de leve.
Jackie resolveu não dizer nada. Até porque, não tinha nada pra dizer. A noite já havia sido estranha o suficiente para ficar falando bobagens das quais se arrependeria depois.
Quando enfim a caminhote estacionou frente ao casarão, as crianças desceram, correndo para espalhar que os tios haviam se beijado e Victor, nem sequer sabia o porquê de não ter saído logo e entrado em casa.
— Então, tudo bem? O nosso relacionamento? — Jackie quebrou o silêncio e pensou se a palavra relacionamento se encaixava com o que eles tinham.
— Tudo bem. — Victor deu de ombros.
— Sabe, se você quiser—
— Pede pra Eva dar beijinho. — Victor forçou um sorriso sem humor e abriu a porta, pulando para fora e a batendo com força. — Tenho certeza de que ela conhece uns beijos mágicos. — Deu as costas e entrou no casarão. O que era ridículo, pois o cowboy morava ali também. Mas aquela noite havia sido toda ridícula.
E Jackie ficou olhando até Victor entrar.
Eles estavam bem, não estavam?
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