Cavalos Selvagens

9 9 "A culpa é do Daniel!"


Notas iniciais
Uma atualização relâmpago em comemoração ao aniversário da história ♥ Cavalos Selvagens faz um ano hoje. Mds, como passa rápido. Quero agradecer de coração a todos aqueles que acompanham, leem, favoritam e que gostam dessa história. Prometo me dedicar mais a ela. Então, pelo amor de Deus, se tiver erros horríveis, perdão e não desiste de mim! Nunca faço isso de escrever e postar no mesmo dia, mas é porque me animei com essa coisa de um ano. Garanto que cêis vão gostar desse capítulo amorzinho. Boa leitura!

Capítulo 9 — A culpa é do Daniel!

A noite parecia propícia para que sentisse vergonha das atitudes idiotas que assumia quando estava com o cowboy.

Depois de deixá-lo na caminhonete, Victor entrou feito um furacão e subiu para o quarto, recriminando-se por ser um idiota e agir pior que uma criança.

Era um homem feito, decidido e inteligente, mas sentia boa parte do vocabulário e da maturidade, irem para o Himalaia quando Jackie começava com aquelas gracinhas.

Podia nem ser intencional, afinal, o cowboy parecia ser uma pessoa bem dada, de bem com a vida, dessas pessoas que sorriam até para o vento, mas o irritava em muitos pontos.

Mas não era só isso.

Tinha algo ali que o deixava estranho e confuso. E não tinha nada a ver com sentimentos do coração. Não mesmo!

E pensando nisso, sem conseguir dormir, ele desceu para a sala, jogando-se no sofá de maneira desleixada, enquanto todos aqueles pensamentos o inundavam.

Jackie era só um homem atraente, tá, ATRAENTE, com letras garrafais mesmo. Porque era evidente a beleza daquele homem. A beleza e o charme, somados ao fato de que há tempos não se envolvia com ninguém, contribuíam para que sentisse aquelas coisas estranhas. Como as palavras fugirem ou a vermelhidão forte que se alastrava pelo rosto sempre que dizia algo constrangedor.

O cowboy não era como Ryan, nem em aparência e muito menos em caráter. Jackie era sincero, apesar de viver o chamando de senhorita, não era como se fosse ficar consigo somente por causa de sua aparência andrógina.

E Ryan, ainda gostava do infeliz, afinal, ele havia sido o primeiro amor. O cara mais velho e popular, aquele clichê que todos já estão cansados de saber, mas ainda nutria um sentimento forte por ele. Não era capaz de odiar ou colocar um ponto final naquela relação. Ainda era o mesmo idiota que havia se apaixonado pelo homem que o ajudou com a autoestima e a se revelar homossexual ao pai. Ryan havia sim o ajudado com algumas coisas, mas havia destruído isso tudo com aquela resposta e atitudes estúpidas…

Apertou os olhos ao lembrar-se que havia sido apenas uma distração e se impediu de chorar. Não era um fraco e havia decidido esquecer de vez aquele relacionamento. Por isso estava ali, concentrado no trabalho, no pai, nos irmãos. Mesmo que Cecília ainda fosse a mais difícil e rancorosa, deles ele não desistiria.

A mãe, havia sido a primeira a se afastar. Amava Ivan, disso ninguém nunca duvidou, mas amava a carreira e tudo o que ela trazia, por isso, mudou-se para a Espanha, levando um Victor ainda pequeno, junto.

A segunda a se afastar, foi Cecília, e se afastou, por algo que ele não tinha culpa, alarmando a família e quase acabando com ela.

Simon foi o próximo, compenetrado apenas no trabalho, depois de uma briga com o pai, onde cada um havia dito coisas que magoaram e afastaram pai e filho.

E Victor, tinha como realização pessoal, uni-los.

Que mágico seria ter todos em volta da lareira nas noites de natal. Ou todos sentados à mesa em algum jantar de aniversário ou feriado. Há muito tempo não sabia o que era isso, mas estava determinado a uni-los e ter a família de volta.

As coisas seriam tão mais fáceis se o passado pudesse ser apagado.

Mas estava conseguindo, aos poucos, já notava algumas mudanças. Logo, Simon chegaria ali também. O irmão mais velho tinha pendências importantes com duas pessoas de igual importância. Precisava se desculpar, precisava viver. E Victor estaria lá para apoiá-lo. Como ele o apoiou quando ainda era apenas um adolescente, e levou uma culpa tão grande que o fez se sentir o pior ser humano do mundo.

E sem que ao menos percebesse, uma lágrima solitária escorregou pela face. Era uma daquelas noites. As noites em que passava acordado, remoendo algumas cicatrizes.

— Você é patético, Victor. — Levou a mão ao rosto, enxugando-o e respirando fundo, não percebendo uma aproximação pequena e sorrateira.

— Você 'tá chorando, tio Victor? — Daniel perguntou, coçando os olhinhos e subindo no sofá.

— Danny, devia estar dormindo. 'Tá tarde. — Embora estivesse dando “bronca”, puxou o menino para abraçá-lo. Tinha bastante amor para todos eles. Havia ajudado Cecília a cuidar do trio quando ainda eram bebês.

— Eu não 'tô com sono… — Daniel olhou para os lados, como se temesse que alguém pudesse ouvir a próxima fala. — Eu 'tô com medo.

— Medo? — Victor arqueou as sobrancelhas. — Um rapazinho tão valente como você.

O menino se animou com o elogio. Era sim muito valente, mas não dava para ser corajoso vinte e quatro horas por dia. Era pedir demais.

— Denver disse que tem uma coisa debaixo da minha cama… — Revelou receoso, abraçando-se ao tio.

— Denver… — Victor sorriu e o beijou na cabeça. — Ele só disse isso pra implicar. Seu irmão do meio é um pestinha.

E Daniel era o mais velho, e Dilan, o líder, o mais novo. Mas claro, com poucos minutos de diferença.

— Ele disse que você e o tio Jackie se beijaram. — O menino comentou com uma carinha culpada, afinal, havia confirmado ao avô sobre o tal beijo.

Era tudo o que Victor precisava. Ótimo!

— Não foi um beijo, Daniel, você viu.

— Eu vi. Mas o tio Jackie é menino, pode beijar ele. — Aquela parecia ser a fórmula mágica da vida, pois o sorriso banguelo foi enorme.

Como se tudo fosse fácil. Victor sorriu, tocado pela inocência do pequeno. Ser criança era ter resposta para todos os problemas.

— Se beijar ele, vai sarar. Daí você não chora mais. — Alisou o rosto do tio.

— Sua coisinha fofa e linda. — Victor estreitou o abraço no corpinho do sobrinho. — Eu te escolheria pra ser meu filho. — Que Denver e Dilan não o ouvissem.

— 'Tá me sufocando! — Daniel já estava vermelho pelo abraço de urso.

— Vai matar o garoto assim.

De súbito, Victor o soltou, olhando para o lado para encontrar o dono da voz. Será que não teria sossego? Só queria chorar as pitangas e se recriminar logo em seguida, exatamente por ter chorado as pitangas. Só isso.

— Pronto, é só beijar! — Daniel exclamou ao ver o outro tio. Tinha um tio cowboy e um tio índio, mas o segundo não gostava muito de si e de seus irmãos.

— Eu já fui beijado, pirralho. — Jackie se apoiou no encosto do sofá, encarando os dois. — 'Tava chorando? — Franziu o cenho ao ver os olhos avermelhados do loiro. — Foi alguma coisa que eu disse? — Pareceu desesperado com aquela hipótese. Não era a pessoa mais sensível do mundo e as vezes dizia umas coisas que soavam ríspidas.

— Não. Não tem nada a ver com você. — Victor sentiu o rosto esquentar ao ser alvo de preocupação. Seria tudo melhor se pudesse impedir o rosto de corar por qualquer coisa que aquele homem fizesse ou falasse.

— Vem cá fazer o tio sorrir. — Daniel tentou puxar o cowboy pela mão, mas nem sequer o moveu do lugar.

— O seu tio brigou comigo…

Daniel arregalou os olhos azuis para cima do tio ao ouvir aquilo.

— Não pode brigar. É feio! Pede desculpa. — Mandou. Era isso o que a mãe fazia quando brigava com os irmãos.

Já Victor, fuzilou o cowboy com os olhos. Que ideia era aquela de dizer que tinham brigado? Não tinham coisa nenhuma! E estava mesmo recebendo ordens de um garotinho?

Resignado, acatou a ordem, lançando um seco e ofendido pedido de desculpas ao cowboy.

— Tem que dá a mão. Anda. — Daniel ainda não estava satisfeito.

Victor novamente encarou Jackie, mas ele apenas deu de ombros, como havia feito com aquela coisa de beijo mais cedo. Infeliz!

— Certo, a mão. — Bufou e estendeu a mão ao outro, esperando que ele a segurasse. — Amigos, cowboy? — Forçou um sorriso.

— Eu vou pensar no seu caso. — Jackie segurou a mão magrela do loiro, sentindo a suavidade e a temperatura agradável da pele.

— Pronto! — Victor falou, consternado, puxando a mão. — Somos amigos e estamos bem, satisfeito? — Perguntou ao sobrinho, fingindo não se importar com o toque de mãos.

Daniel analisou os tios. A mãe vivia dizendo que o irmão mais novo precisava de um namorado. Jackie podia ser esse namorado, certo?

— Ainda não.

— O que foi agora? — Victor não o achava mais a coisa linda e fofa de minutos antes.

E Jackie se divertia com aquilo tudo. Tinha descido para pegar água e tentar parar de pensar em certas coisas, mas, no final, o havia encontrado ali, acompanhado.

— Tem abraço também. — O rostinho inocente era digno de um anjo, mas Victor jurou ver chifres e rabo naquele menino. De onde ele tirava aquelas maluquices?

— Eu não posso abraçar o Jackie. O aperto de mãos está de bom tamanho. — Oras, era só o que faltava!

Um beijo na testa já havia lhe dado uns pensamentos estranhos, sentir o corpo dele colado ao seu, estava fora de cogitação!

— Por mim tudo bem. — Jackie chamou sua atenção, erguendo-se e ajeitando a postura.

— Endoidou? — Victor sentou o sobrinho no sofá e se ergueu, puxando a camiseta do pijama para baixo, incomodado pela falta de tecido. — Deixa de ser debochado! Vai dizer que o meu abraço não é mágico também?

— E ele é? — O cowboy sorriu em desafio, passando para o meio da sala.

— É claro que é! — Daniel defendeu. O tio era todo mágico, sim! — Abraça pra ver.

Diabinho! Victor não acreditava que se deixava levar por um menino e um cowboy metido. Beijinho, abraço… Jackie era um aproveitador, isso sim!

Com raiva, mas nervoso a ponto de ter um ataque, o loiro se aproximou, comparando as alturas antes de abraçá-lo na cintura e pousar rapidamente a cabeça no ombro dele.

— Chega! — Não deu nem meio segundo e ele se afastou.

— Isso foi um abraço? — Jackie perguntou. Victor sabia o que era um abraço ou não?

— Foi.

— De onde eu venho, os abraços são mais ou menos assim… — O cowboy não deu chance para que ele se afastasse mais e o puxou pela cintura. — Você coloca esses bracinhos aqui. — Começou a explicar, levando as mãos aos pulsos do loiro para colocá-los sobre os ombros. — E abraça o meu pescoço assim.

Victor teria sim uma síncope. Ainda mais quando sentiu aquelas mãos em sua cintura e a maneira como os corpos se juntaram, esquentando-o de imediato. E ao sentir a respiração quente de Jackie acariciar o pescoço, quase derreteu. Os dedos se apertaram na regata preta e ele controlou a voz para que ela não o denunciasse como o corpo fazia.

— Você está se aproveitando…

— Shhh, é pelo menino. — Jackie murmurou. Ficava difícil pensar quando tinha as mãos naquela cintura e o cheiro dos cabelos loiros bem evidente, misturado ao cheiro da pele dele. Não estava se aproveitando, estava testando.

Era um teste. Um teste para entender uma coisinha que o estava impedindo de dormir. E somente naquele início, ele já entendia que não passaria no teste, pois o corpo reagia muito bem ao corpo do loiro.

— Por isso mesmo. — Victor afastou o rosto para encará-lo nos olhos. — Tem criança aqui e você… Olha só…! Esse abraço é proibido pra menores.

Jackie acabou rindo. Não tinha nada ali proibido para menores, ao menos, não por enquanto.

— 'Cê 'tava chorando, eu, como um bom moço, 'tô te consolando. Retribuindo a sua boa ação.

E Victor estava tão sentimental naquela noite, que se controlou para não voltar a chorar. Era um poço de drama e carência, mas receber aquele abraço conseguiu realmente confortá-lo. Certo, era um abraço de um quase amigo. Mesmo que sentisse uns comichões pelo corpo. Mesmo que sentisse a barba por fazer arranhar a lateral do rosto e que aquelas mãos estivessem perfeitamente encaixadas em sua cintura… Okay, não era como abraçar um amigo, mas era algo diferente. Era bom, quente e aconchegante.

— E você retribui os favores assim? Com todo mundo? — Não quis parecer enciumado, mas falhou.

— As vezes. Você foi premiado, loiro. Aproveita.

Aproveitar? Bem, aquilo estava tão bom...

Tão bom que sequer perceberam a aproximação de alguém muito interessado na cena.

Ivan raspou a garganta para chamar a atenção do casal. Havia ouvido um barulho no corredor e desceu para ver o que estava acontecendo. E qual não foi a surpresa ao ver aqueles dois ali, agarrados, compartilhando de algo que parecia muito íntimo.

Victor se afastou de imediato e encarou o pai. O rosto pegando fogo e o coração acelerado.

— Pai…

— Eu estou surpreso—

— FOI CULPA DO DANIEL!

O loiro e o cowboy falaram juntos, quase rindo ao perceberem o quanto eram infantis por culparem uma criança.

— O meu neto? — Ivan arqueou a sobrancelha, olhando em volta.

— É, ele… — Victor mordeu o lábio inferior ao constatar que o sobrinho não estava por ali. Aquele pestinha! Aprontava e fugia!

— Na verdade, a gente 'tava em um momento meio diferente aqui. — Jackie comentou, atraindo os olhos arregalados de Victor e a curiosidade de Ivan.

— Eu queria perguntar uma coisa. Desculpe entrar assim na sua vida, Jackie, mas eu nunca desconfiei de nada. — Ivan se aproximou dos dois; braços cruzados e a expressão séria. — Vocês estão de rolo? É assim que os jovens falam, não é?

— É assim, mas não estamos de rolo. Não mesmo. — Victor se apressou em dizer, agradecendo a Deus por não gaguejar. — Eu estava chorando e aí o Jackie me animou. — Animar poderia ter outro significado ali. Ainda mais depois daquela pegada...

— E por que estava chorando? — Ivan se preocupou e tocou o rosto do filho, afagando a bochecha corada.

Jackie controlou a língua para não estragar a cena e dizer que Victor estava naqueles dias, por isso, o sentimentalismo.

— Nada. Eu estou bem, sério. Eu lembrei da mamãe e de umas coisas, mas já passou. — Tranquilizou, passando pouca segurança nas palavras. Preocupar o pai era a última coisa que queria.

Ivan analisou o filho loiro e o filho moreno.

— Eu só peço pra não ficarem aos beijos na frente das crianças.

Dessa vez, os dois quase engasgaram com a saliva. Haviam se esquecido daquele detalhe.

— Era segredo? — É claro que Ivan sabia que o beijo havia sido na testa, algo sobre beijo curativo, mas queria apertar um pouquinho aqueles dois. O abraço que havia visto, deixava em dúvida aquela relação de amizade.

— Os três pediram pra eu beijar, foi só um gesto de agrado, só isso. — Victor se sentia um adolescente, tendo que explicar ao pai que o rapaz ao lado não era seu namorado ou algo parecido.

— É, só isso. — Jackie confirmou. Ficar de abracinhos com o filho do patrão, não parecia algo muito sensato.

— E o que aconteceu aí? Ivan se referiu a testa do cowboy.

— Foi uma topada na porta. Daí o beijo pra “sarar”. — Jackie sorriu, sem graça. Parecia a primeira vez em que o pai o havia pego com uma namoradinha, mesmo Victor não sendo sua namoradinha, e Ivan não sendo de verdade seu pai.

— Hum… — Ivan ainda dedicou um olhar avaliativo aos dois, antes de desejar boa noite e dar as costas, voltando para o quarto. Conversaria com Victor depois.

— Já passou por isso? — Victor conseguiu respirar depois de ver o pai subir as escadas — Ser interrogado pelo pai da “moça”? — Perguntou divertido, jogando-se de volta ao sofá.

— Quando era menino, algumas vezes. — Jackie o acompanhou, sentando-se ao lado dele.

— Você devia ser bem namorador… — Não queria se intrometer, mas não conseguiu controlar a língua. Ele não queria muitas coisas naquela noite, mas elas simplesmente aconteciam.

Jackie apoiou o braço no encosto do sofá, como se abraçasse o loiro, não intencionalmente, é claro.

— Um pouco. Jovens, você sabe. — Sorriu cheio de charme. — Mas e você? Deu trabalho pro seu Ivan? — Não que estivesse interessado, nada disso.

— Não. Eu não dei trabalho nessa parte. — Victor arrastou uma mecha do cabelo loiro para trás da orelha. — O Ryan foi meu único namorado e foi aquela coisa ruim no final. Não tenho muita experiência no assunto. Sou um fiasco. — Sorriu amargurado, encolhendo as pernas no sofá com algumas lembranças.

— Não, você não é um fiasco. — O cowboy deitou a cabeça no encosto, virando o rosto para encará-lo parcialmente, sendo impedido de ter uma visão completa por causa dos cabelos loiros e levemente ondulados que desciam até abaixo dos ombros. — Foi esse talzinho aí que pisou na bola. Ele é o fiasco da história. A gente se conhece há pouco tempo, mas eu sei que você é um cara legal, de bons sentimentos, incapaz de fazer mal a alguém. É responsável, preocupado com o bem-estar daqueles que estão ao redor e é muito esforçado. Além de conseguir conquistar a todos com esse seu sorriso cheio de dentes bonitos. — Jackie foi falando sem se dar conta da expressão surpresa do loiro. Sinceridade era seu nome do meio. — Você dá uns chiliques, briga por qualquer coisa e já percebi que gosta de me bater, mas, ainda assim, esse imbecíl deve 'tá bem arrependido de ter feito merda. — Ele ia sorrir ao final da fala, mas encontrou o rosto choroso e vermelho de Victor. — Nossa, você 'tá bem? Nem pra animar eu sirvo… — Se aproximou e tocou o rosto quente do loiro, afastando as lágrimas.

— Você é um idiota. — Victor acusou, apreciando o carinho que recebia. Carente, lembra? Como aquele homem falava todas aquelas coisas assim? Sem nenhum filtro? Como se o conhecesse há tempos… — Você serve sim pra animar alguém. Muito. — Engoliu o choro. — Desculpa de verdade por ter te batido e por sempre dizer coisas idiotas e iniciar umas brigas sem sentido. — Encolheu os ombros, acanhado por ser mesmo uma pessoa infantil quando o assunto era o cowboy. — Podemos começar de novo. Sem brigas e implicâncias. — Mordeu o lábio inferior, percebendo com constrangimento o quanto necessitava de um pouco de carinho.

— É, vamos começar de novo. — Jackie ofereceu o mindinho ao loiro, em um gesto bem infantil, mas que combinava com eles. — Sem brigas?

Victor sorriu, rolando os olhos e concluindo que, embora fossem bem adultos, algumas coisas infantis ainda se encaixavam muito bem com eles.

— Sem brigas. — Concordou, entrelaçando os dedos naquela promessa.

— Certo. Agora para de chorar. — O cowboy deu um tapinha de incentivo nas costas do loiro, sendo delicado feito um coice de mula. — Eu vou reforçar o convite pra ir almoçar na casa da minha mãe. Bom, eu ia fazer isso quando você me deixou largado lá na caminhonete.

— Ah… — Victor se sentiu culpado, mas na hora estava um pouco zangado. Sem motivo. — Eu vou adorar conhecer a sua família. A sua mãe, principalmente. — Tinha sim um fraco por mães e avós, buscando sempre tratá-las com carinho, mesmo que não fizessem parte de sua família. — Ela cozinha bem?

— Que interesseiro. — Jackie riu, mas confirmou, todo orgulhoso. — É melhor que a comida da Lipa, mas ela nem pode sonhar com isso. — Confidenciou com ar sério. Aconteceria a terceira guerra mundial se Tulipa descobrisse aquilo.

— Por mim ela não vai saber. — Garantiu, risonho. A vontade de se acabar em lágrimas havia fugido para bem longe. — E, quanto ao abraço…

— Foi culpa do Daniel. — Jackie completou, vendo Victor rapidamente concordar. — Mas eu quis. Não dá pra culpar um menininho por eu ter te agarrado daquele jeito. — Ah, a sinceridade, as vezes ela era perturbadora e inconveniente.

— Quis? — Victor sentiu o rosto esquentar e o coração voltar a acelerar. — Quer dizer… Eu também quis. Foi bom. Um abraço de amigos…? — Tentou a palavra, mas era só isso mesmo. Amigos.

— É, amigos. Irmãos, talvez. — Jackie tentou também, mas… — Não, não foi isso.

— É, não foi. — Victor se ergueu, quase caindo no processo ao fazê-lo rápido demais. — Olha só como está tarde. — Olhou em um relógio de pulso imaginário, todo atrapalhado. — Eu vou subir. Pro meu quarto. — Apontou em direção as escadas, como se esperasse que o cowboy o seguisse. — Eu não estou te convidando para o meu quarto. Nada disso! — Abanou as mãos em frente ao rosto. — Só… Boa noite! — Praticamente fugiu escada acima. E viva a infantilidade.

Jackie se permitiu ficar ali mais um pouco, esparramado no sofá.

Sono? Ele não tinha. Não havia sido um abraço de amigos, afinal, não abraçava os amigos homens daquela maneira. Não que abraçasse as mulheres daquele jeito, mas com homens era algo mais como um tapa nas costas e um apertar de mãos.

Daniel havia somente contribuído para que tomasse coragem para o tal do teste.

Não estava apaixonado pelo filho do patrão. Não mesmo! Mas era impossível não notar que havia alguma coisa estranha, algo do tipo que evidenciava a beleza da criatura loira. Victor não era bonito, era BONITO, em letras garrafais mesmo. Não havia como não notar.

E para piorar, o loiro ainda parecia uma mulher. Essa parte era confusa. Porque devia ficar sempre lembrando que aquele rosto perfeito, pertencia a um homem e não a uma senhorita como insistia em dizer.

E o que diabos estava dando nele, afinal?

Quando foi que havia começado a reparar em outro homem? Não, isso nunca havia acontecido.

Não havia acontecido até ele atacar de Don Juan e pegar a senhorita loira pela cintura. Nunca havia acontecido até ele encontrar naqueles olhos verdes, a sua cor favorita.

E depois daquele abraço… Ele ia sim se tornar algo proibido para menores, caso Ivan não chegasse.

— Jackie, meu caro, você 'tá meio ferrado.

Aquela foi de longe a melhor conclusão da noite.

Mas e agora? Um banho frio ou tentar dormir para esquecer aquelas sensações confusas?

* * *

Na manhã seguinte, Victor puxou Sebastian para o escritório, alegando que precisava conversar com alguém mais sincero e experiente.

— Ah, isso eu sou mesmo. — Sebastian se gabou, bebendo café e esperando a tal da conversa. — Fala logo o que você e o cowboy fizeram.

— Como sabe que foi com ele? — Victor estreitou os olhos. Não era nada óbvio!

— Se não foi com ele, com quem mais? Você é quase puro, meu amigo, quase.

— Vai debochando, idiota… — Mas Sebastian tinha razão. Fazia tempos que não se dava uma chance com alguém. Não que cogitasse uma relação com Jackie, nada disso. — Nós nos abraçamos ontem à noite. — Revelou como se fosse algo proibido, abaixando o tom.

Sebastian arqueou as sobrancelhas, gargalhando logo em seguida.

— Minha nossa! — Exclamou. — Eu aqui achando que vocês tinham se agarrado loucamente e você me vem com “abraço”? Socorro! Que fofura! Vou te colocar em um pote e chacoalhar.

— Para de rir! — Victor rolou os olhos, sentindo as orelhas corarem. — Foi um abraço sim, um abraço bom.

— E você sentiu? — Sebastian se debruçou sobre a mesa, sorrindo malicioso.

— Senti o quê? — Perguntou desconfiado.

— O importante. Aquilo que vai te fazer ver estrelas, loiro. O—

— Não! — Victor quase engasgou ao se dar conta do quê deveria ter sentido. — Não senti nada. Eu não falava disso. Falava do sentimento, seu tarado. E… Eu já vi.

— Viu? Viu?! — Sebastian se interessou. — E como é?

— Como assim, como é? — O rosto estava mais vermelho que um morango. Jackie não era o único que o deixava envergonhado. — Ficou doido? Aquieta esse fogo! Meu irmão vai chegar logo, logo.

— Não ligo pro seu irmão. — Sebastian deu de ombros, recostando-se na cadeira, perdendo a vontade de interagir. — Ele que vá pro inferno!

— Não fala assim, Sebby. — Victor fez beicinho. — Vocês se amam. Deixa de ser cabeça dura.

— Não deixo! — E Victor não era o único infantil ali. — Ele que case com aquela magricela siliconada. Se merecem. Que se casem e tenham uma penca daqueles pirralhos doidos que me atacaram no celeiro!

— Meus sobrinhos não são doidos. — Defender a família fazia parte do pacote. — São umas gracinhas. Você pode se casar com o meu irmão e adotar muitos filhos.

— Deixa de ser sonhador, loiro. Não tem isso de me casar ou adotar filhos. 'Tá pensando que isso aqui é conto de fadas? — Colocou as mãos na cintura, disposto a recitar uma lista de motivos para não ficar com aquele homem. — Muda o assunto. Vocês se abraçaram e você ficou duro—

— Eu não disse isso! — Victor o interrompeu de novo. Que ideia absurda! — Eu não fiquei assim…

— Loiro, você tem um pênis, isso é normal. — Sebastian deu de ombros. — Ainda mais com um homem daqueles.

— Não, seria constrangedor. Eu só senti…

— Uma vontade louca de se entregar a uma paixão arrebatadora e ardente? Por que faz séculos que você não sabe o que é isso. — Papas na língua? Sebastian não tinha.

— Não, também não foi isso. Foi uma coisa boa, mas não assim. Ah! Não sei explicar. Chega de falar disso. — Acabou se aborrecendo com aquele assunto. Havia sido uma péssima ideia falar com ele.

— 'Tá, senhor chilique. Já entendi. Falar de mim, você quer, mas de você e do cowboy gostoso…

— Para de falar assim. — Victor odiava o fato de ficar corando por qualquer coisa. Aquilo era ridículo. Como ele sabia se Jackie era gostoso?

— Não. Vamos fazer o seguinte. — Sebastian pareceu pensativo, avaliando o que ia dizer. — Você dá uma chance pra conhecer alguém, seja o Jackie ou outro cara, e eu prometo que aceito conversar com o idiota, infeliz e desgraçado do seu irmão. — Ele ia fazer mesmo aquilo? A que ponto havia chegado para desencalhar o melhor amigo… — Combinados, senhorita? — Ironizou a última parte, recebendo uma careta em resposta.

Victor pensou se deveria ou não aceitar a proposta. Queria muito que Simon e Sebastian ficassem bem, resolvidos e felizes, mas daí a dar uma chance a um novo amor? Quer dizer, quando pensava nesse assunto, tinha um cowboy em mente. Mesmo que tivesse uma Eva no caminho...

— Estamos combinados, indiozinho. — Retrucou com um apelido também, apertando a mão de Sebastian.

E dessa vez, ele se meter naquela história, não tinha nada a ver com Daniel ou os outros sobrinhos.

Notas finais
Me digam o que acharam! Muito meloso, rápido, ruim? Aheuheuh sou paranóica! Agora a "relação" começa a andar ♥ Bjuss e até o próximo!