Cavalos Selvagens
7 7 "Nós temos uma surpresa, e você não faz o meu tipo"
Notas iniciais

Capítulo 7 — Nós temos uma surpresa, e você não faz o meu tipo
O cheiro do café forte de Tulipa pairava pelo ar naquele início de segunda-feira. Ivan sentia-se bem-disposto e até havia descido para desfrutar do desjejum que, ele sabia, era o melhor por aquelas bandas. O filho logo retornaria, mas ele iria ao escritório se inteirar melhor dos negócios da fazenda. Alcançou a cozinha a passos lentos e se escorou no batente da porta, observando a mulher baixinha que cantarolava e mexia no fogão. Fez questão de anunciar sua presença com um raspar de garganta, quando ela começou a dançar com uma frigideira, dando início a uma coreografia estranha e estabanada.
— Ah, bom dia, bonitão! – Tulipa abriu um sorriso enorme ao ver que o patrão estava ali, nem um pouco constrangida ao perceber que era observada naquela dança maluca e fora de hora. Ela usava um vestido verde que descia até os joelhos e os cabelos longos e trançados alcançavam a cintura. Parecia especialmente radiante naquela manhã, e Ivan não pôde deixar de notar o quanto estava bonita. — Se ficar me olhando assim, eu não respondo por mim, patrãozinho. — Piscou os olhos cor de avelã de maneira inocente, acentuando os cílios longos.
Ivan riu e coçou a barba. As vezes se perguntava se Tulipa não era a mãe perdida de Sebastian. Aqueles dois eram tão descarados em certos momentos...
— Bom dia, Lipa. — Sorriu e se sentou no lugar de costume. A mesa estava posta e a mistura de aromas entre o pão caseiro e o bolo de milho, fizeram o estômago verbalizar o quanto estava faminto.
— Olha só como 'tá bonito! 'Tá até corado. — Tulipa comentou, mas não se contentou apenas em comentar, uma das mãos tocou os cabelos grisalhos, misturados a fios que lembravam a prata naquele penteado charmoso. — Estamos sozinhos... — Falou de maneira sugestiva. Também estava especialmente corajosa naquela manhã.
— E o que tem isso? Não é a primeira vez que ficamos sozinhos nessa casa enorme. – Ivan deu de ombros, fingindo não entender o tom sugestivo da mulher.
— Mas dessa vez, pode ser diferente… — Ela dedilhou o braço do patrão lentamente. Achava Ivan realmente um pedaço de mau caminho. — Quando vai se render aos meus encantos, Ivanzito?
Não era a primeira vez que Tulipa tentava agarrar o patrão, mas Ivan acabava sempre encontrando um jeito de fugir.
— Quem sabe. — Ivan deu de ombros. — Pode ser daqui a alguns anos, meses ou, talvez, até mesmo hoje.
Tulipa já estava preparada para se jogar no colo do patrão, mas antes que conseguisse se movimentar, uma figura sorridente apareceu na soleira da porta.
— É, não foi hoje, Lipa! — Sebastian bateu palmas, sendo inconveniente como sempre. — Devia ter colocado uma plaquinha avisando: Proibida a entrada de qualquer um até que eu consiga enfiar a língua na boca do patrão.
Tulipa resmungou e se afastou de Ivan, ameaçando Sebastian com os olhos estreitados. Quando Ivan finalmente permitia uma aproximação, aparecia gente para atrapalhar.
— Desculpa aparecer assim, mas eu 'tô morrendo de fome. — Sebastian justificou, jogando-se na cadeira ao lado do patrão, cheio de dúvidas se começaria pelos pãezinhos açucarados ou por alguma fruta.
— Lipa e eu só estávamos... Hum, só conversando. — Ivan se aprumou na cadeira, tratando de beber da xícara com café em um ato nervoso.
— Conversando é? – Sebastian não se importava nem um pouco de ser inconveniente. — Pareceu mais é que estavam de namorico… Mas tudo bem! Eu super apóio a relação de vocês dois.
— Respeita, menino... — Tulipa o repreendeu enquanto servia o leite. — Não tem relação nenhuma. Eu não sou mulher de ficar de namorico com o patrão. Ainda mais na cozinha.
— Claro, claro, eu jamais pensaria algo assim a seu respeito, Lipa. — Sebastian fez um arzinho horrizado e enfiou um pãozinho na boca, ficando com a aparência engraçada de um esquilo com uma noz na bochecha. — E tem o meu apoio pra pegar esse coroa gostoso. — Falou de boca cheia, mastigando com dificuldade.
Ivan engasgou com o café e arregalou os olhos ao ouvir a frase descarada do rapaz.
Tulipa precisou auxiliar o patrão com tapinhas nas costas para que ele se recuperasse. Sua grande vontade era dar vassouradas naquele desbocado, mas, ela concordava com o “coroa gostoso”, nisso, Sebastian tinha muita razão. Aqueles olhos verdes escuros... Deus! A família toda era muito bonita, o patriarca não ficava atrás.
— Eu estou bem, obrigado. — Ivan ergueu a mão ao parar de tossir. Vários anos convivendo com as gracinhas daquele garoto, mas nunca se acostumaria, isso era um fato.
— Sebastian deveria cuidar da língua antes de sair falando besteira. — Tulipa colocou as mãos na cintura, naquela pose repreensiva.
— Foi só um elogio, calminha, Lipa. — Ele enxugou os lábios com um guardanapo e sorriu de maneira maliciosa. — Sabe, patrãozinho, o Bart convidou a Lipa pra sair...
Ivan arqueou as sobrancelhas e desviou os olhos de Sebastian para Tulipa, observando os olhos castanhos e arregalados da mulher que acabava de se sentar.
— Ops, era segredo? — Sebastian dissimulou, fingindo constrangimento quando, na verdade, queria gargalhar.
— Hm. — Ivan bebeu novamente do café. — E vão sair hoje...? — Perguntou, mas logo pigarreou e coçou a barba. — É porque ainda tem bastante coisa pra fazer por aqui. — Acrescentou de modo mecânico e rápido, mas apertou os lábios ao ouvir um risinho vindo da cadeira ao lado.
— Ainda não dei a resposta—
— Imagina! — Sebastian interrompeu, estabanado como sempre. — Ela disse sim. Formam um casal tão bonito, não acha patrãzinho?
— É? Eu nunca reparei. — Ivan voltou a encarar Tulipa, estreitando levemente os olhos esverdeados ao analisar o rosto redondo e corado da mulher. — Certo. Eu vou pro escritório. — Levantou-se em um rompante, fazendo Tulipa se erguer também.
— Pro escritório? — Perguntou preocupada. — Tem certeza de que 'tá mesmo se sentindo bem?
— Estou ótimo. — Ele ajeitou a camisa azul. — O Bartholomew vai estar lá, quer mandar algum recado?
Sebastian quase derrubou o leite ao ouvir o tom sarcástico de Ivan.
— Não, não precisa. — Tulipa apertou os dedos no vestido. — Vê se toma cuidado. Num vai passar nervoso. — Ela aproveitou para ajeitar a gravata do patrão. Ah, se Ivan lhe desse bola...
— Já disse que estou ótimo. — Ivan se afastou, dando as costas aos dois.
Quando o patrão sumiu porta afora, Tulipa estapeou a cabeça de Sebastian, retomando a pose de repreensão.
— Que ideia é essa de inventar essas coisas?
— Você não percebeu, Lipa? — Ele alisou a nuca. A mulher era nanica, mas pensa numa mão pesada. — O Ivanzito 'tá se roendo de ciúmes, mulher.
— O seu Ivan, com ciúmes de mim? — Era irreal. — Você vê coisa que não existe.
— Lipa, minha querida, de homem, eu entendo e muito. — Falou cheio de orgulho pelo tal conhecimento aprofundado em homens.
— Ô, um moleque que ainda cheira a leite. — Ela desdenhou e começou a retirar a mesa. — Você tem idade pra ser meu filho.
— Não exagera, mulher. — Sebastian rodou os olhos e terminou o café. — Homem é tudo assim mesmo. Não dão valor, mas quando perdem, aí correm atrás ou ficam de ciuminho igual o patrão. — E ele falava por experiência própria.
— Acha mesmo? — Tulipa franziu o cenho e mordeu o lábio. Havia esperado tanto por um sinal do patrão, que já nem acreditava mais. — Ivan, com ciúmes de mim?
— Ou ele pode estar com ciúmes do Bartô... — Cantarolou cheio de malícia. Nem sequer teve tempo de correr quando um guardanapo veio em sua direção. — É brincadeira! Ou talvez não, vai saber.
— Respeita, menino. — Tulipa ameaçou. Realmente, se sentia um pouco mãe daquele garoto. E achava que ele precisava de umas boas palmadas. — E vai logo trabalhar! Deixa de história.
Mas o que recebeu foi a risada escandalosa de Sebastian e um beijo estalado na bochecha. As manhãs eram animadas.
E seria mesmo verdade que, Ivan De Léon, estava com ciúmes dela?
* * *
Os trigêmeos foram uma verdadeira atração na lanchonete. Todos os funcionários, clientes, até mesmo quem passava por perto, parou para apertar as bochechas do trio e perguntar algo que, as vistas de Jackie e Victor, era bem óbvio.
— Eles são gêmeos? — Uma senhora de vestido sem mangas e cabelos curtos perguntou. Ela segurava uma bolsa grande e amarela e exalava um perfume agradável. — Que gracinhas. São uma verdadeira benção. — Mais um aperto em cada bochecha fofa e um sorriso enorme e brilhante. — Vocês são sortudos. O casal é muito lindo, mas os pequenos se parecem com a mãe.
Certo. Um pequeno e costumeiro engano. Victor forçou um sorriso, sem vontade de tentar explicar que, na verdade, era o tio daqueles três e não a mãe, mas, bem, os sobrinhos se pareciam com ele sim, mais até do que com Cecília. Espera... E que história de casal era aquela?
Jackie ocultou um risinho divertido e sorriu para a senhora simpatíca. A mulher desconhecida havia lhe arranjado uma penca de filhos alemães e uma mulher que, não era bem uma senhorita. Que família linda, não é mesmo?
— Parabéns por essa família maravilhosa. — A senhora deu um último olhar para os anjinhos da lanchonete e saiu, sorrindo como se houvesse ganhado um prêmio importante na loteria.
— Minhas bochechas doem... — Denver foi o primeiro a reclamar. Tinha certeza de que haviam hematomas na pele que fora tão apertada por aqueles dedos gorduchos. O que será que aquelas mulheres viam em bochechas de garotinhos bonitos?
— Ela quase arrancou o meu rosto. — Dilan acompanhou a reclamação, esfregando a pele para tirar a marca de batom deixada pela mulher. Ele odiava aquelas demonstrações de carinho.
— Eu gostei dela. — Daniel discordou, sorrindo de um jeitinho fofo que realmente dava vontade de apertar.
— Fizemos filhos lindos, senhorita. — Jackie empurrou a perna de Victor por baixo da mesa, de maneira implicante. — Se eu ganhasse uma moeda por cada “Que gracinha!” ou “Eles são gêmeos?”, eu conseguiria me aposentar antes dos trinta.
Victor rodou os olhos e garfou um pouco da salada na caixinha, comendo como, Jackie sempre implicava, uma senhorita. Odiava admitir, mas já havia se acostumado com aquele tratamento, embora não gostasse nem um pouco de ser confundido com uma mulher, não havia muito o que fazer a não ser aceitar. Suspirou ao engolir e resolveu que também deveria provocar.
— Certo papai, agora cuide dos seus filhos, sim? — Piscou os olhos verdes com jeitinho, evidenciando os cílios longos e claros.
— Nossa, isso deu medo. — Jackie o encarou com desconfiança antes de pegar um guardanapo de papel e limpar os rostos do trio como um verdadeiro pai faria. A mãe ia adorar aquela cena.
— Mas é mesmo uma graça. — Victor levou as mãos ao queixo, apoiando os cotovelos na mesa e implicando com o cowboy. — Eles tentaram colocar fogo em você, mas olha só, se dão tão bem. — Observou com divertimento. — Posso apertar as bochechas dos quatro?
— Nem pensa nisso. — Jackie afastou a cadeira e o trio cobriu o rosto, temerosos de um possível ataque. — Vai comer isso aí? — Apontou para a salada que repousava praticamente intocada na caixa. — Devorou aquele hambúrguer todo e depois pediu salada. Que dieta estranha.
— Eu não devorei, que grosseiro. — Victor enfiou mais da salada na boca, se sujando com o molho. — E eu não preciso de nenhuma dieta!
— Olha só, pior que os filhos. — O cowboy não pensou muito antes de pegar um outro guardanapo e arrastar a cadeira para perto. Os dedos seguraram o queixo do loiro e, com o papel, limpou a boca de Victor. Certo, ele não pensava muito antes de fazer ou dizer alguma coisa.
— Certo... — Victor balbuciou, encarando os olhos castanhos do homem muito solícito que o ajudava naquela simples tarefa. — Eu não sou uma garota, cowboy, cuidado. — Um sorrisinho mínimo se ergueu no canto dos lábios, mas as bochechas se inflamaram com a aproximação e a frase. — E eu posso fazer isso sozinho. — Tomou o guardanapo das mãos de Jackie.
— Claro, eu só—
— Você também beija meninos, tio Jackie? — Daniel interrompeu a resposta atropelada do cowboy em uma curiosidade genuína. Os pés balançavam de maneira descontraída e o rosto estava novamente sujo, dessa vez, por milkshake.
— Danny, isso não é pergunta que se faça, sabia? — Victor tomou a frente, sentindo o rosto entrar em ebulição, murmurando entre dentes.
— A mamãe disse que isso é uma doença. Você é doente, tio Victor? — Dessa vez, foi Denver quem se interessou pela conversa, fazendo Jackie lançar um discreto olhar de preocupação as feições do loiro mais velho.
— Ela disse isso...? — A voz de Victor veio mais baixa e os dentes se pregaram no lábio inferior, remoendo a informação. Não era como se não soubesse a opinião da irmã a seu respeito, mas ouvir de um dos sobrinhos, foi uma sensação ainda mais ruim do que seria ter ouvido da própria Cecília.
— Isso não tem nada a ver com doença, baixinho. — Jackie descontraiu, aliviando um pouco da tensão.
— Mas homem, tem que beijar mulher, não é? — Daniel continuou curioso. A inocência impedia que ele percebesse o desconforto do tio. — É o certo.
— Não, Daniel. As pessoas são diferentes. Não existe essa coisa de certo ou errado. — Jackie bagunçou os cabelos do menino. — O tio de vocês, não é uma boa pessoa?
Os três concordaram com um aceno rápido de cabeça. Não tinham dúvidas quanto a isso. O tio era simplesmente uma das melhores pessoas que conheciam. Mesmo que a mãe dissesse umas coisas ruins sobre ele e também sobre o marido...
— Então! O fato de ele... Hm, beijar garotos, não o torna uma pessoa ruim. — Jackie sorriu ao ter os olhos de Victor sobre si. — A mãe de vocês, estava zangada quando disse isso. Não existe uma doença. O tio Victor é perfeitamente saudável.
— Quer dizer que, beijar garotos não é estranho? — Dilan se pronunciou. Era de longe o mais quieto, mas a mãe vivia dizendo que o tio era doente e, apesar de tudo, não dava simplesmente para não acreditar nela. Adultos sabiam das coisas, afinal.
— Não, não é estranho. Agora, terminem de comer. — Empurrou os hambúrgueres para os três tagarelas curiosos. — Tudo bem? — Perguntou a Victor que o encarava de maneira insistente.
— Tudo. Eu só estava admirando as suas habilidades como pai. — Forçou um sorriso, deixando um agradecimento implícito na fala.
— A sua irmã consegue ser pior do que o mala do seu irmão. — Jackie não controlou a língua. Irmão devia ser sinônimo de união, mas naquela família... — Que sorte você ser diferente. — Deu um tapinha amigável no ombro do loiro. Tão amigável que Victor quase afundou de cara na mesa.
— É, mas eu não fico pensando nisso e, mesmo assim, acabei descobrindo o que ela pensa a meu respeito. — Encolheu os ombros e suspirou, alisando o local atingido. Jackie era delicado feito um coice de mula. — A sua irmã, como ela é? — Assumiu uma postura curiosa. Era tão fã das famílias que conseguiam, apesar de tudo, serem unidas, respeitarem as opiniões, decisões e o espaço de cada um. A família de Jackie devia ser esse modelo do tipo “comercial de margarina”.
— Espera. — Jackie pediu e levou a mão ao bolso traseiro da calça jeans, pegando uma carteira de couro negra. — Eu tenho uma foto dela aqui. — Vasculhou até encontrar uma foto 3x4 de uma menina de cabelos cacheados e castanhos. — Ela se chama Elizabeth ou Lizzie, tem quinze anos, fase difícil.
Victor observou o pequeno retrato de um documento e sorriu. A moça era muito parecida com Jackie.
— Ela é tão bonita. — Devolveu a foto. — Vocês se dão bem?
— Apesar da diferença de idade, é, a gente se dá bem. É só essa coisa de “namoradinhos” que me tira o sono. — Entortou um sorriso e procurou por outra foto na carteira, dessa vez, de uma mulher mais velha. — Essa é a dona Sarah.
— Então toda essa beleza vem da sua mãe? — Victor se deu conta do que havia dito e mordeu o lábio inferior. — Quer dizer, a sua irmã e... E a dona Sarah, elas são mesmo muito bonitas. — Sugou um pouco do suco de laranja pelo canudo e deu o maior sorriso amarelo. Parabéns, Victor, até parece que é você quem tem quinze anos aqui... Que micão!
— Foi um elogio indireto, senhorita, não tem como fugir disso. — Jackie implicou ao empurrá-lo com o ombro. — E você não disse nenhuma mentira, a sua família de branquelos europeus pode até ser bonitinha, mas a minha—
— Branquelos europeus? — Victor arqueou a sobrancelha. — Isso pareceu preconceituoso... — Observou, estreitando os olhos.
— Claro, mas te chamar de senhorita, tudo bem... — Jackie rolou os olhos. — Agora, mamãe, se já terminou, é melhor a gente cair na estrada. A pirralhada já encheu a pança, você também.
— Que sutileza. — O loiro ironizou. — Vamos, meninos, de volta para o carro. — Bateu palmas e se ergueu. — Eu vou lá acertar a conta. — Victor teria saído do lugar, mas Jackie o segurou pelo braço.
— Eu já acertei.
— Então eu te dou o dinheiro. — Buscou pela carteira, mas o cowboy fez um gesto de dispensa com a mão. — O quê? São meus sobrinhos e, aliás, eu comi mais do que você. Não é justo. Isso aqui não é um encontro.
— Eu não pensei nisso como um encontro. — Jackie deu de ombros. Aquilo nem sequer havia passado por sua cabeça, mesmo Victor sendo uma moça loira e... Certo, não havia moça alguma ali. — Você pensou?
— É óbvio que não! Mas você está agindo como se fosse 'o homem' aqui, pois não sei se lembra, mas eu também sou homem. — Victor cruzou os braços, muito propenso a iniciar uma discussão em público.
— Você 'tá parecendo uma esposa de birra com o marido, então, melhor parar. — O cowboy observou, rindo de canto ao ver o rosto do loiro se avermelhar. — Vamos, creche, todos em fila. — Ajeitou os meninos enquanto marchavam para a saída.
E a Victor, só restou suspirar e aceitar a família. Ele merecia aqueles quatro, mas mudou de ideia quando o trio, em uníssono, gritou para a mamãe se apressar.
* * *
— A gente vai gritar: Surpresa, vovô! É isso? — Daniel perguntou pela milésima vez, animado e erguendo os braços para cima. — Eu não lembro do rosto do vovô...
— Ele é um homem de barba e cabelos grisalhos, alto e bonito. — Victor sorriu, compartilhando do ânimo dos sobrinhos. — Vocês podem gritar o que quiser.
— Mas surpresa é pra quem faz aniversário... — Dilan comentou. — A gente só aparece e pronto.
— O vô vai brincar com a gente de espião, de videogame e vai ensinar a andar a cavalo? — Denver também se animou. O pai nunca fazia essas coisas legais com eles.
— 'Tão pensando que o seu Ivan é uma máquina? — Jackie riu. — Vamos com calma, pirralhada. E por falar em ir com calma... Quem é que vai tomar conta desses — Olhou para os rostos idênticos através do espelho. —, anjinhos?
Victor fez o mesmo, mas virou para encontrar os sobrinhos sorridentes como garotos comportados e fofos. Eles atuavam tão bem...
— Eu não pensei nesse detalhe. — Sorriu amarelo, sentindo o rosto esquentar por ser tão distraído. — A Tulipa está fora de questão. — Mordeu o lábio, tentando buscar algum nome na mente.
— Que tal a Eva? — Jackie deu a ideia.
— E por que ela? — Victor estreitou levemente os olhos, observando atentamente as feições do cowboy.
— Ela é de confiança, não trabalha todos os dias, é gentil, alegre, eu posso enumerar várias qualidades até te convencer. — Deu de ombros, prestando atenção na estrada e perdendo a expressão azeda que tomou conta do rosto do loiro.
— Você conhece essa tal de Eva muito bem... — Victor sondou. Talvez, Sebastian estivesse errado, já que Jackie parecia tão entusiasmado ao falar da moça que cuidava da limpeza. Claro, não que ele se importasse.
— Somos amigos, colegas de trabalho. Estudamos alguns anos juntos também. — Comentou sem muito interesse. — Ela cuidaria bem dos pestinhas. Se quiser eu falo com ela.
— Pode ser. — Acabou por concordar, mas não inteiramente. — Se ela é tudo isso aí que você está dizendo, é tipo uma Mulher Maravilha.
— Ela é. — A confirmação veio rápida. — Estamos chegando, pirralhos!
Os três irmãos olharam pela janela. Fazia horas infinitas que estavam rodando naquele carro apertado, passando por lugares de mato, terra e uma estrada longa que alcançava todos os lugares.
Agora a paisagem urbana da pequena Santa Luz, dava lugar a uma estrada de terra, mas ao contrário do que havia sido antes, eles acharam o lugar bonito e cheio de um verde intenso e interessante. Casinhas simples iam surgindo, as luzes dos postes já iluminavam o caminho e árvores altas e frondosas faziam parte da paisagem que combinava com o horizonte dourado e laranja onde o sol já se despedia.
— Nossa, aqui é bonito. — Daniel deu um sorriso cheio de admiração, atento aos detalhes que iam surgindo em cena.
— A gente vai morar onde, tio? — Denver perguntou curioso, imaginando que talvez pudessem fazer uma casinha na árvore.
— Vocês vão morar ali. — Victor apontou para frente, enquanto os contornos de uma casa grande e de ares antigos despontava através da inclinação da estrada.
— É grande igual a nossa casa. — Dilan observou. A casa onde viviam com os pais, era mais bonita, mas aquela que viam ali, não era nada mau.
Alguns trabalhadores cumprimentaram os recém-chegados, tocando a aba do chapéu ou acenando. Quando alcançaram a entrada do casarão, logo uma mulher baixinha surgiu, de avental e toda sorridente.
— Fiquem aí. — Victor pediu aos sobrinhos antes de sair do carro.
— Eu ia abrir a porta pra senhorita. — Jackie implicou, escorando-se na lateral do automóvel.
— Dispenso o seu cavalheirismo, cowboy. — Devolveu ao passar por ele, indo em direção a Tulipa e dando um beijo no rosto da mulher. — Nós trouxemos uma surpresa, Lipa. Onde está o velho, Ivan?
— 'Tá no quarto. Num faz nem dez minutos que ele comentou que os filhos estavam demorando. — Ela riu. Um Ivan preocupado era algo lindo de ver.
— Então, não faz alarde. Eu trouxe três coisinhas fofas e elas vão passar as férias aqui. — Falou em tom divertido, dando sinal para Jackie abrir a porta e deixar a suspresa sair.
Tulipa havia pensado em outro tipo de presente ou surpresa, por isso, quando três figuras idênticas desceram do carro, ela teve certeza de que o conhaque que bebeu uns minutos antes, estava agora fazendo efeito.
— Mas eu 'tô enxergando certo? — Questionou, esfregando os olhos.
— Está sim. — Victor riu. — Essas pestes mais lindas são: Daniel, Dilan e Denver, meus sobrinhos.
— Eu 'tô encantada! — Tulipa exclamou, controlando a vontade de apertar as bochechas fofas daquelas criaturas quando elas soltaram um: Boa noite, moça bonita. — Boa noite, anjinhos.
— Ah, eles são uns anjinhos mesmo, Lipa, você nem imagina. — Jackie ironizou. — A qualquer momento esses anjinhos podem tocar fogo em você, abre o olho. — Recomendou de maneira séria.
— Ignora, Lipa, o Jackie já foi até mesmo adotado e é tio desse trio também. — Victor fez a melhor cara de família feliz e foi guiando os trigêmeos para dentro. — Vamos subir, mas em silêncio. — Sentenciou, subindo na frente.
O quarto de Ivan era o penúltimo cômodo do lado direito, estava com a porta entreaberta e ele se encontrava descansando enquanto via tevê e tentava não pensar o porquê de os filhos estarem demorando.
Victor entrou primeira, atraindo a atenção do pai que sorriu assim que o viu entrar. Jackie veio logo em seguida. Os garotos ficaram no corredor em silêncio.
— Soubemos que tem um pai preocupado por aqui? — O loiro sorriu e beijou a testa de Ivan, sentando-se ao lado na cama.
— Eu? Preocupado com vocês? História! — Desconversou, rindo em seguida, cumprimentando Jackie com um abraço. — E então, e os assuntos sobre a faculdade? Deram certo?
Victor trocou olhares com Jackie e os dois confirmaram com um aceno de cabeça.
— Seus dois filhos mandaram abraços. Eles estão bem. — É claro que não diria nada sobre a pequena discussão que tivera com o irmão e nem a possível recaída da irmã com a bebida. Isso, ele deixaria em off. — E o Jackie adorou a cidade, não é? — Jogou outro assunto, pois o pai não pareceu convencido do tal abraço dos filhos desnaturados.
— Ah, é! — Jackie descruzou os braços, assumindo uma postura mais descontraída. Contar que teve vontade de socar o filho mais velho do patrão, era algo que devia ignorar. — Inclusive, Simon e eu nos demos muito bem, ele não me acha um caipira, nem nada do tipo.
Victor estreitou os olhos e sorriu de maneira forçada. Jackie não estava ajudando muito.
— Ele é um bom rapaz. — Ivan suspirou, saudoso de um contato mais próximo com o filho. — E Cecília e os meninos? Como estão?
— Todos estão ótimos! — Victor abanou a mão. — Agora, nós temos uma surpresa. — Anunciou, fazendo ares misteriosos e se levantando da cama.
Antes que Ivan pudesse expressar qualquer comentário a respeito da possível surpresa, a porta foi empurrada e três figuras animadas irromperam para dentro do quarto, e praticamente se jogaram sobre o colchão, disparando em uníssono vários: Vovô!
— Vocês... — Ivan abriu um sorriso enorme e emocionado, enquanto era “atacado” pelos netos.
— Os assuntos com a faculdade são esses aí. — Victor abriu um sorriso grande enquanto guardava na memória aquela cena tão bonita.
— Vocês me enganaram. — Ivan falou em tom de bronca, mas estava sorrindo. — Deixa eu ver, vocês são idênticos.
— Aposto que não acerta nossos nomes. — Denver se aprumou, olhando de maneira cúmplice para os irmãos. Haviam visto o avô quando ainda eram muito pequenos, porque claro, agora já eram homenzinhos.
— Você é o tagarela... — Ivan começou, analisando os netos. — Você é o Denver.
— Como sabe? — O menino arregalou os olhos e olhou para Jackie e Victor, desconfiado de que haviam dado alguma dica.
— Eu tenho uns truques. — Ivan piscou, olhando para o próximo loirinho sorridente. — Esse sorriso só pode ser... Daniel.
— É, sou eu sim. — Daniel comemorou. Além do sorriso, ele obviamente era o mais bonito dos irmãos.
— Você só pode ser o Dilan, muito sério. — Tocou o nariz do neto, arrancando um risinho do garoto mais mal humorado do trio.
— E o vô vai levar a gente pra montar nos cavalos?
— Vai ensinar a gente a atirar com uma espingarda?
— Acampar ao ar livre? A gente só acampou dentro de casa...
Os três dispararam várias perguntas ao mesmo tempo, confudindo o avô e os “tios.”
— Imagine só, todos esses pirralhos tagarelando nos nossos ouvidos. — Jackie comentou, assustado com o que aconteceria nos próximos dias. — A Eva vai adorar esses meninos.
— Ah, é. — Victor perdeu o sorriso. — Eu posso falar com ela, já que os sobrinhos são meus.
— Não. — Jackie deu um tapinha no ombro do loiro. — Eu tenho ciúmes.
— Certo, então... — Victor desviou o olhar.
— Eu só 'tô brincando. — O cowboy riu. — Faz uma cara melhor. 'Tá todo mundo feliz. Parece fim previsível de novela mexicana.
— Só falta o beijo. — Antes que tivesse consciência das palavras, elas já haviam saído. — Não! Nada a ver o que eu disse! — Abanou as mãos e sentiu as orelhas corarem, principalmente quando um sorrisinho surgiu nos lábios do cowboy. — Quer dizer, não precisa de beijo pra ser um final feliz. E... E eu não sugeri que a gente se beijasse nem nada parecido, foi só... Só... Sem beijo!
— Nossa! — Jackie exclamou. — Eu já entendi. Nada de beijo. — Ele acabou rindo e enfiou as mãos nos bolsos. — Não faço o seu tipo?
— Você... — Victor franziu o cenho e voltou a encarar o rosto sorridente de Jackie. As bochechas estavam pegando fogo. — Ah, claro, outra brincadeira. — Soltou o ar de maneira nervosa e passou a mão pelos cabelos. — Você quase me pegou. Mas, e então? Quer dizer, eu... Obrigado por ter me acompanhado. — Agradeceu ao tocar no braço do cowboy. — Por ser o chofer e também por aquilo que disse lá na lanchonete. — Sorriu tímido e ajeitou o cabelo atrás da orelha. — Foi bem legal. — Legal, que palavrinha mais sem encaixe, vai lá, Victor, estrague mais essa cena fofa.
— Que gracinha! — Jackie apertou as bochechas coradas de Victor. — Tudo bem, eu 'tô à disposição da madame. — Implicou e recebeu um revirar de olhos.
— Você não se cansa de ser chato, não? — Victor falou com uma voz engraçada devido ao aperto nas bochechas. Conseguiu se afastar e caminhou para o quarto. O pai e os sobrinhos haviam entrado em discussão para escolher quem seria o primeiro a atirar com a espingarda. Ivan tinha uma espingarda?!
— Acabou de me agradecer e agora me chama de chato? Você é bipolar. — Jackie seguiu o loiro, mas parou na soleira.
— Sou. Agora sai do meu quarto. — O loiro caminhou até a porta, tendo que olhar para cima para encarar os olhos de Jackie, sentindo-se frustrado por não ser tão alto. — É proibida a entrada de cowboys aqui. — Deu um sorriso grande e cínico, antes de fechar a porta. — Afinal, você não faz o meu tipo.
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