Cavalos Selvagens

17 17 "Você ainda não fez nada"


Notas iniciais
Tarde, galera! Demorei, mas cheguei. Como sempre, senti dificuldades em terminar o capítulo, mas vida que segue. Espero muito que vocês gostem. Agradeço a todos que estão lendo, favoritando e comentando: ShalaNala, Sairenjii, LaryChanラリサ, Babissf, JuhLucena, Cintia Yuli, Fujoshi n alma, Emily Riddle, Deby Costa, Nilla, Gabrielly, Angel Leto, Ghost, Snow Charming, Ariane Munhoz, MoonStilinski24, Pale Moon e GabiSan. 'Cêis são demais ♥ Um agradecimento especial a Ariane por ter presenteado a autora e a fic com uma recomendação linda ♥ Já disse o quanto amei? Eu AMEI! Galera, eu espero que gostem do capítulo, tem bastante cenas e personagem nova. E o final... Não me matem XD Boa leitura! Nos vemos nas notas finais!

Capítulo 17 — Você ainda não fez nada”

(…)

Eles pareciam próximos, ainda que somente conversassem e rissem feito bobos. Estavam escorados na cerca, apontando para lá e para cá como se idealizassem alguma coisa. Coisa essa que ele queria muito saber o que seria. Bem, ele imaginava muitas coisas sobre a possível conversa, mas não era como se tivesse certeza sobre a relação daqueles dois.

— Pensa em um casal lindo? Pois é…

A atenção se desviou para o recém-chegado. Mesmo a paisagem sendo um dos toques mais bonitos do interior, o azul e o verde do horizonte não se comparavam àquele sorriso. O sorriso que deixava os olhos puxados menores e as bochechas altas e fofas.

As íris verdes dançaram pelo rosto de traços nativos e voltaram ao alvo inicial. O cenho franzido e os dedos por entre os fios claros e livres do gel.

— Acha que eles…? — Hesitou ao pensar na pergunta e muito mais ao pensar na resposta. Era infantil de sua parte, mas o lado super protetor estaria sempre com ele.

— Eu tenho certeza. — Sebastian se escorou na cocheira e observou o perfil do loiro. Os hematomas evidentes marcados no rosto e a expressão sisuda. — O Jackie é um homem bacana. — E ele conhecia o cowboy com propriedade para enumerar qualidades e defeitos.

— Todos são bacanas até… — A fala morreu e um suspiro deixou os lábios. Quando pensava que qualquer um poderia ser o próximo Jean ou mesmo o infeliz do ex de Victor, era impossível ficar alheio aos pensamentos ruins. E parecia também impossível dar um voto de confiança a qualquer um que se aproximasse do caçula.

— Deixa o Victor e não vai atrapalhar. — Sebastian ditou, trazendo os olhos verdes para seu rosto novamente. — E não esquece que graças ao cowboy, esse teu rostinho de celebridade não ficou deformado e... Que é? — Se fez de desentendido. — O Nestor ia quebrar as suas fuças. Você sempre foi péssimo em brigas.

Simon teria rido, mas um lado do rosto doía para lembrá-lo que havia um fundo de verdade no que o outro dizia. Infelizmente. Não que fosse realmente péssimo com os punhos, Sebastian estava exagerando.

— Você ficou bem preocupado. — Resguardou o orgulho em se defender e resolveu implicar. — Desesperado com a possibilidade de quebrarem o meu rostinho de celebridade. — Enfatizou o sarcasmo.

— Eu só fiquei preocupado com a possibilidade de um velório. — Sebastian alfinetou, não ficaria por baixo.

Simon balançou a cabeça e ficou em silêncio por uns momentos. A noite, ele voltaria para a vida de sempre; empresa, homens engravatados, discussões e a noiva. Precisava resolver uma tonelada de assuntos, mas não estava empolgado com a cidade grande. As empolgações no momento, partiam todas de Santa Luz. Se fosse um pouco mais sincero, diria que sempre partiram.

— Você vai ir?

— No seu velório? — Sebastian pareceu levemente espantado com a pergunta e virou o rosto para encarar o loiro. Que assunto mais fúnebre aquele.

— No jantar. — Simon não segurou o riso ante a distração daquele garoto, mas em seguida fez careta pela dorzinha chata e aguda dos socos que havia levado. O que o consolou, de fato, foi ter a atenção de Sebastian pelo resto da noite.

— É algum tipo de fantasia sua? — A pergunta surgiu com um sorriso sugestivo e foi responsável pelo cenho franzido do loiro. — Me ver de terno e gravata?

E parecia que rir fazia parte daquele encontro. Os dedos retiraram alguns fios loiros da testa, longe do habitual estilo engomado o qual Sebastian tanto fazia questão de ressaltar. Fingiu pensar e até mesmo se esqueceu das duas figuras que ainda conversavam próximas da cerca.

— Terno e gravata. — Repetiu a fala, considerando as palavras. — Parece sexy.

— É, eu ficaria sexy até em um saco de batatas. — Porque modéstia, não existia mesmo em seu vocabulário.

E Simon não duvidava, mas preferia ele sem roupas.

— Ela vai estar lá? — Talvez não fosse o que realmente desejava perguntar, mas não impediu que a pergunta saísse. Mesmo com a conversa da noite anterior, ainda tinha que ver para crer.

— Não vai. — Não houve hesitação, assim como ele estava decidido em finalmente se permitir ao que sentia e havia reprimido por tanto tempo.

— Então talvez eu vá a esse jantar cheio de frescuras. — Sebastian fez um gesto de dispensa com a mão. — Claro, se eu não tiver nada mais interessante pra fazer. — Afinal, sua agenda era lotada.

E afinal, não tinha mais certeza de nada naquele novo início.

(...)

— Problemas do coração, rapaz?

Era um fato que, quando os fones estavam nos ouvidos e com o som alto de uma música qualquer, sempre surgia alguém para conversar.

Sebastian pausou a canção que estava em loop no aparelho desde que se sentou em frente ao estábulo para pensar na vida. Era assim quando gostava de alguma coisa, ouvia até enjoar. Quem sabe não servisse para melhorar seu inglês lastimável…

— Eu sei que a paisagem é bonita, mas faz uma meia hora que você está aí, olhando pro horizonte e pensando na vida. — Ivan se ajeitou na cadeira que havia trazido e suspirou como se pensasse em um assunto complicado. Algo que o estava incomodando.

Eu estou há exatamente meia hora pensando no gostoso do seu filho do meio, patrãozinho.” O pensamento o fez sorrir e os fones foram dispensados. Como Ivan reagiria ao saber que Simon era do lado colorido da força? Estava aí algo que ele se coçava para saber.

— Já teve aquela sensação de que 'tá fazendo a maior merda do mundo? — Parecia a questão filosófica do século. — Mas, ao mesmo tempo, essa sensação só existe por causa de um orgulho filho da puta…?

— Tirando os palavrões — Algo que Ivan abominava, mas sabia que não adiantaria nada se o repreendesse. —, todos cometemos erros...

— Principalmente o senhor. É mestre nisso. — Os olhos se estreitaram e um sorrisinho surgiu ao fim da fala, desconcertando o mais velho. — Deixando um mulherão daqueles passar. Olha, eu não entendo! — E não entendia também o motivo da expressão fechada de Ivan. — Que é, patrãozinho? Só comentei o que todos dizem por aí. — Balançou os ombros.

— Todos falam demais. — Ivan resmungou. Odiava fofocas, mas ninguém estava livre de falatórios ou inverdades. E, bem, estava mesmo deixando uma oportunidade ótima passar.

— Essa é a minha área. — Ergueu a mão, sorrindo de maneira falsamente culpada. — Mas não veio aqui pra falar de coisas do coração. — Assunto mais chato aquele. E de repente, todos achavam que ele era uma pessoa romântica e preocupada com aquele tipo de coisa. Coração uma ova! — O que aconteceu? Conte-me todos os seus problemas.

Ivan o conhecia desde que era apenas um garotinho sem papas na língua – não que ele houvesse mudado muito –, e sabia sobre os problemas com a mãe. Todos tinham problemas familiares por diversos motivos. Uns mais suaves de resolver, outros de mágoas mais profundas. Sebastian estava entre esses dois.

— Se veio reclamar, pode perguntar pros cavalos sobre o meu serviço, eles vão confirmar que—

— Eles já me contaram sobre o seu serviço. Estão… Satisfeitos. — Nunca uma frase havia parecido tão boba em sua voz.

— Falando com cavalos, patrãozinho? — Sebastian não perdia a oportunidade de ser inconveniente. Nunca. — Parece meio sem juízo. Pode ser até algo preocupante. Não dá pra confiar em alguém assim.

Ivan balançou a cabeça e acabou rindo. Não havia tempo ruim com aquele garoto e era impossível não nutrir um afeto que beirava o paternal pelo índio desbocado. Se parasse para pensar, tinha mais filhos do que poderia sustentar, mas pensaria com calma em outro momento.

— Eu acho que você gostaria de saber que tem visita. — Comentou despreocupado, atraindo os olhos curiosos e negros para seu rosto.

— Visita? — Sebastian franziu o cenho e desviou os olhos por um momento, pensando em quem teria a ideia de visitá-lo na casa do patrão. — É o Martin? Aconteceu alguma coisa com a minha avó? — Acabou se sobressaltando com o pensamento e tentou se erguer, mas foi segurado pelos ombros.

— Não. Não aconteceu nada com a dona Ema. — Ivan tranquilizou, mas sabia o que viria a seguir.

— Então…? — Não era fã de mistérios e dramas, já tinha demais aqueles dois elementos na vida. — É o Orlando Bloom? É isso? — Não custava sonhar. Mas podia ser o Antonio Banderas. Ele não iria reclamar. Não mesmo.

Ivan puxou na memória algum rosto para aqueles nomes estranhamente conhecidos, mas acabou desistindo ao ver a expressão debochada do rapaz. As vezes se esquecia que estava lidando com Sebastian.

— Se não for um homem gostoso me esperando lá dentro, eu passo. — Balançou os ombros e se ergueu. Estavam no estábulo. Lugar de trabalho e grandes reflexões.

— É alguém que quer muito falar com você. — Ivan tentou apelar para o lado afetivo de Sebastian. Não, ele sempre tentava apelar para o lado maduro e adulto do garoto. O que era muito difícil.

— Não conheço muitas pessoas, se não tem nada a ver com a dona Ema, eu vou voltar pros meus cavalos. — Ergueu os braços e se espreguiçou. Era um dia tão preguiçoso e propenso para pensamentos bobos e ridiculamente apaixonados. Agradecia de verdade por Ivan estar ali e ter interrompido aquela eterna melancolia. Não tinha idade para ser melancólico!

— É a sua mãe.

O sorriso que se abriu ao olhar para o novo mascote da família que acabava de chegar, morreu gradativamente ao ouvir as palavras de Ivan. Nem mesmo um cãozinho fofo o ajudaria a conviver bem com aquela notícia.

Era um dia mais que preguiçoso, sem dúvidas.

* * *

Pamela encolheu os pés ao ajeitar as pernas sobre o sofá. Estava com o ar e beleza renovados; a pele bronzeada, os cabelos iluminados por luzes caramelo e uma estranha conformidade pairando sobre as íris negras.

Foram alguns dias longe de tudo o que sentia para que colocasse a mente no lugar. Embora a viagem houvesse renovado a forma de pensar, não era como se tivesse se desapegado dos sentimentos.

O noivado não ia bem já há algum tempo, mas por que não tentar salvar o relacionamento? Porque simplesmente, não havia salvação. Essa era a parte difícil de entender e aceitar.

Simon era como sua luz no fim do túnel. Ele havia chegado em um momento complicado de sua vida, e se agarrou a ele com força, esquecendo-se de si mesma e dedicando-se somente a ele. O homem que amava nada mais era que uma idealização criada por sua mente, assim como toda a relação fantasiosa.

No início, houve a paixão. Ela recobrava dos toques, dos beijos, do sexo. Era algo próximo do que ela esperava para compartilhar a vida com alguém, mas Simon ficou distante, indiferente a sua presença, como se camuflasse algum novo sentimento. E mesmo com todas as dicas e evasivas, persistiu, sendo a tola que sempre foi. Era mais fácil fechar os olhos e agir como se tudo fosse perfeito, do que aceitar a realidade.

E ainda não estava pronta para deixá-lo ir, mas precisava.

Era bonita, culta e atraente de várias maneiras, mas Simon parecia não notar.

O orgulho estava ferido e sentia como se o coração se partisse em mínimos pedacinhos. Era contraditório, pois não queria deixá-lo livre e, ao mesmo tempo, não se humilharia por migalhas de afeto.

Não. Pela última vez, não.

Que sofresse o inferno por abrir mão de um casamento idealizado, mas se humilhar, estava fora de questão.

Quando a campainha soou, ela se ajeitou no sofá e respirou fundo.

Por que continuar com alguém que amava outra pessoa?

Talvez fosse essa a questão para a qual fechou os olhos por tempo demais.

* * *

Não eram muito parecidos, mas a quem olhasse com atenção, os lábios e o formato do nariz, tinham alguma proximidade. Eram parentes, mas os papéis pareciam invertidos.

— Ele bateu em você? — O tom sério, livre do divertimento habitual. O rosto também carregava uma expressão não muito vista por todos ao redor. Um Sebastian sério era como um Victor sem vergonha, irreal, mas não a ponto de ser impossível.

Havia café e as guloseimas de Tulipa em uma mesa arrumada para o lanche da tarde, que foi devidamente aceito pela mulher de cabelos longos e humor exagerado. Ela parecia uma caricatura de filmes de comédia, parecia interpretar um personagem. E talvez, fosse isso mesmo.

— Não, ele não bateu na sua mãe. — As sobrancelhas se franziram como se a ideia fosse estúpida ou ridícula demais. Não era.

— Então, por quê? — A fala saiu por entredentes. Também era um fato quase inédito vê-lo com raiva. Havia poucas coisas que o tiravam do sério, e poucas pessoas também, mas naqueles últimos dias, um loiro metido a galã e uma mulher que se vestia de mãe somente quando a interessava, conseguiram tirá-lo de todo o humor que exalava pelos quatro cantos da fazenda. — Eu saí de casa pra que ficasse com aquele homem! Um filho da puta preconceituoso, mas que você parecia amar, e agora, simplesmente o chuta como se fosse algo descartável? — Não fazia sentido.

— Não foi exatamente assim… — Ela murmurou, levando a xícara com café aos lábios. Sebastian tinha tendência a exagerar.

E todos simplesmente resolviam dizer, que as coisas não eram como ele se lembrava ou dizia, e isso o irritava ao passo que também o magoava. Pareciam estar ali simplesmente para pegarem no seu pé.

— E como foi? — Forçou a curiosidade, pois não estava interessado. O homem era um embuste e desejava que ele arranjasse alguém tão cretino e infeliz quanto ele próprio.

— Não interessa. — A fala não veio ríspida, parecia mais a de uma adolescente dispensando uma conversa séria com o pai. — Vai me ajudar? Vai ajudar a sua mãe, não vai?

Mãe...

— E de onde raios eu tiraria esse dinheiro? — Sebastian bem queria enfiar um pouco de juízo na cabeça da mãe, mas parecia impossível. Ele tinha muito mais noção do que a mulher que deveria cuidar dele. Seria engraçado se não fosse trágico. — Por acaso se esqueceu que o seu filho tem que ralar pra ter um salário? — Ele não podia simplesmente comprar uma casa ou mesmo alugar um quarto em algum hotel. Tinha contas e sonhos demais para usar as moedas que havia juntado até ali.

— Oh, sim! Cuidando de cavalos… — Mercedes desdenhou. Era um fato que a língua era muito mais rápida que o cérebro e ela era péssima em impedir que bobagens como aquela acabassem escapando. — Não foi o que eu quis dizer. — Tentou se corrigir, mas acabou rodando os olhos e suspirando. — Oras, não seja dramático! O que ganha mal dá pra se sustentar! — E novamente ela foi incapaz de se controlar. — Eu não quis…

— Você nunca quer. — Foi a vez de Sebastian suspirar. Aquilo era tão complicado. Ser adulto era complicado. Ter uma mãe que se comportava feito uma garota irresponsável, era ainda pior.

Sebastian nunca a viu de verdade como uma mãe. A palavra não se aplicava ao que ela era ou representava. Mercedes era apenas uma mulher que teve um filho ainda muito jovem e sequer deu atenção a ele, preferindo a vida de solteira e descompromissada, do que a vida de mãe dedicada.

Durante algum tempo, ele remoeu a péssima conduta da mulher por não demonstrar ao menos um décimo do carinho que precisava, mas tinha a avó, alguém que era a pessoa mais importante no mundo e o amava sem restrições ou preconceitos. Era somente com ela que tinha deveres e obrigações, mas aquela mulher, havia o dado a vida. Não era um maldito bastardo para dar as costas a ela.

— Ainda tem aquela outra opção e é só por um tempo. — Mercedes se pronunciou. Não era fácil para ela também, e mesmo que não tivesse contado a história por trás do término, sabia que ele a ajudaria, mesmo que… — Eu…

— A vovó não é a sua maior fã. — O tom despreocupado ganhou os olhos da mãe, e o que quer que ela tinha para dizer, foi esquecido. — E a casa é dela e as regras também.

— Eu serei o cão arrependido. — Ela encolheu os ombros. Nunca tivera uma boa relação com a sogra, mas precisaria dela. — Tem algum quarto com chave? — Era sim uma pergunta séria e preocupada. — Só por precaução.

— Tem uma casinha de cachorro nos fundos da casa, sei lá, pode servir. Se colocar um cobertor, não passa frio e nem pega chuva. — E por que mesmo tinham uma casa de cachorro sem um cachorro?

— Você é irritantemente parecido com o seu pai. — Mercedes rolou os olhos, mas a lembrança a fez sorrir. — Agradeça aos céus por ter puxado o meu charme e beleza.

— Você engordou, não somos nada parecidos. — Alfinetou.

— Não sabe mesmo como tratar uma mulher! — Ela se mostrou indignada. — Não se diz algo assim a uma garota. — E pareciam até irmãos, menos mãe e filho.

— Eu nunca gostei mesmo de garotas. Não com esse propósito. — Ali estava o ponto principal, e ele fez questão de elucidar e deixá-la momentaneamente sem graça. A culpa pairando sobre as feições ainda muito jovens.

— Sebastian—

— Se ela tentar te matar com algum objeto de decoração estranho, peça ajuda ao Martin. — Sentimentalismo estava fora de questão por ali. Parecia muito fácil pedir para que esquecesse o que aconteceu, mas não seria fácil esquecer ou perdoar. Havia passado tempo demais para que ela simplesmente acreditasse que tudo poderia ser como nas novelas.

— Então… Eu vou poder ficar? — Arriscou, receosa e constrangida.

— Agora é com a dona Ema. Eu vou voltar pro trabalho, mas segura a língua, não tô a fim de ir no seu funeral. — E era sim um aviso sério.

— Cruzes. — Mercedes fez o sinal da cruz enquanto via o filho sair da cozinha.

Filho.

Ainda faltava coragem para contar a parte mais séria.

* * *

— Você adora esses esteriótipos ridículos, mas eu não tenho medo do escuro ou de filmes de terror.

Victor pareceu levemente chateado há uns momentos, mas agora era sua vez de implicar. Havia chamado o cowboy para ver um filme e relaxar naquela noite, mas Jackie, com o sorriso torto e as piadinhas na ponta da língua, disse que não se interessava por filmes de romance melosos e dramas para chorar, óbvio que o loiro não ficaria por baixo naquela provocação. De luzes apagadas e com os acontecimentos na tela, não foi ele quem ficou se borrando de medo e alegando que era muito melhor assistir algo com conteúdo em vez de fantasmas e demônios. Não foi ouvido...

— Aquilo foi uma sessão de tortura! — O cowboy alegou, seguindo o loiro pelo corredor. Corredor escuro. — E eu resisti bravamente. — Oras, seu orgulho continuava intacto. Ou parte dele.

— Fechou os olhos e só faltou se esconder entre as almofadas. — Victor debochou ao abrir a porta do quarto. — Meus sobrinhos são mais corajosos. — Sorriu cheio de pretensão ao entrar no cômodo escurecido.

— É, eu não sou o maior fã desses tipos de filmes. — Jackie admitiu o óbvio ao também entrar no quarto parcamente iluminado pelas réstias de luz que entravam pela janela. — E sem luz, como é que eu vou saber o que tem lá? — Não era um medo absurdo no fim das contas.

Victor chegou a achá-lo bonitinho naquela versão de moço medroso e arrependido, mas os braços estavam cruzados e uma das sobrancelhas arqueadas. Por que mesmo ele estava em seu quarto? E com a porta fechada? Sorriu quando o cowboy alcançou o panda sobre a cama.

— Quer levar pra dormir com você? — Perguntou ao apoiar um dos joelhos no colchão e jogar o corpo, escorando-se na cabeceira. — Vai ajudar com o seu medo.

— Eu prefiro continuar com a companhia do meu abajur. — Jackie dispensou o urso para o lado e se sentou no colchão também. Ainda não havia estado ali, não na cama do loiro, e isso causava certos pensamentos que talvez fossem bem apropriados para o momento. — Ou a sua.

— A minha? Parece dispensável, já que vive pra me tirar do sério. — Os olhos rolaram nas órbitas ao se fazer de dramático e pegou umas das almofadas, abraçando-a.

— Não consigo evitar. — E não era como se conseguisse evitar muitas coisas quando estavam juntos.

— Parece que adora me ver com raiva. — O tom veio sério, embora não estivesse bravo. Não era uma surpresa dizer que já havia se acostumado com aquele jeito debochado do cowboy. Não sabia ainda se era algo bom ou ruim.

Jackie ergueu os olhos para o rosto de Victor. Gostava de admirá-lo, mesmo que fosse péssimo em fazê-lo secretamente. Pegava-se encarando-o nos momentos mais indevidos, gravando cada detalhe, sorriso ou mania. Gostava de observá-lo e gostava ainda mais de deixá-lo com vergonha ou mesmo irritá-lo. Era natural usar as palavras para fazê-lo corar ou estreitar os olhos, e era natural querer estar com ele, aproveitando a companhia ou o beijando pelo resto da tarde. Seu hobby andava sendo observá-lo após uma cavalgada, com os cabelos rebeldes e dourados emoldurando o rosto e com um sorriso luminoso quando se referia ao amor pela família ou ao amor por Flor de Ouro. Ele era como o pôr do sol, radiante e caloroso.

E desejava, mesmo que de maneira egoísta, ser o motivo daqueles sorrisos.

Victor havia admitido que estavam juntos após compartilhar parte do passado e trauma, mas talvez…

— Jackie? — O toque suave e a voz baixa chamou a atenção do cowboy.

Os olhos verdes, próximos, parecendo preocupados e os dedos mornos percorrendo o maxilar barbado.

— Gosto de te irritar, mesmo sendo infantil. — Sorriu ao admitir, sem arrependimentos. Uma das mãos deslizou pelo braço de Victor de maneira lenta. — Você fica sexy quando 'tá bravo e fica uma graça quando 'tá com vergonha. — Afastou os fios loiros para trás das orelhas e sentiu a bochecha quente sob a palma. — Já disse que tenho vontade de te morder? — A voz soou rouca ao pé do ouvido e os dentes mordiscaram o lóbulo de maneira sensual, arrepiando a pele.

— Lembro de algo assim. — Victor mascarou a timidez com um sorriso, ainda que fosse um discreto curvar de lábios, lábios que roçaram pela bochecha do cowboy em um caminho provocante até juntar as bocas. Foi um roçar suave enquanto os olhos ainda abertos se admiravam. Os dedos se prenderam nos fios castanhos ao passo que Jackie rumou a mão para sua nuca e aprofundou o contato.

Se fosse para beijar uma única pessoa, algo que passou fugaz pela mente, seria clichê se ele tivesse um nome na ponta da língua? Talvez, mas ele sempre foi um fã dos clichês. Desde que o beijou pela primeira vez, sentiu que seria assim nas próximas, as sensações dançando como os fogos que explodiam em cores por trás das pálpebras, o calor, a respiração ruidosa o tocando no rosto, ou a forma que deixava a pele dele vermelha pelo atrito da barba. Também apreciava, e até ria internamente, da maneira despretensiosa que ele abria um dos olhos e logo o fechava, parecendo comprovar que estava tão entregue quanto ele. Talvez estivesse até mais.

E talvez pelo clima, o quarto quase todo escuro, os corpos próximos e a cumplicidade que agora tinham um com o outro, percebiam o beijo mais quente, profundo. O som molhado das línguas ou o encontro entre os dentes, algo que fez ambos sorrirem entre o beijo e o contato se perder.

Jackie sentiu, por um curto momento, o calor se dissipar e arqueou uma das sobrancelhas para o sorrisinho maldoso que recebeu. Os dedos ainda mergulhados nos fios da cor do sol, desceram para o rosto e o polegar contornou o lábio úmido e avermelhado, traçando o desenho atraente quase como se houvesse devoção no toque até voltar para a bochecha corada e colar a boca na dele, dessa vez, com mais paixão.

A outra parte clichê, era o sabor do beijo: morango, mas explicava a sobremesa que tiveram no jantar. As línguas deslizaram sem pressa enquanto as mãos desciam por sobre as roupas do pijama e os corpos tornavam-se mais quentes. Era uma mania que o incomodava agora, usar aquela roupa toda para dormir quando ele, na maioria das vezes, não vestia nada.

— Passe livre pra dizer que… Que odeio essas roupas? — Perguntou em tom divertido, ainda que estivesse com o famoso sorriso travesso e com as mãos bem posicionadas na cintura do loiro, mas que desceram lentas e apertaram as nádegas que vivia secando naquelas calças jeans.

Victor mordeu o lábio inferior de maneira apreensiva ao pensar em roupas sendo tiradas e toques mais íntimos que seriam compartilhados, mas apreensão, não era a única palavra que se aplicaria ao que sentiu. Estava excitado com a maneira a qual ele o encarava e o beijava, e não era nem um terço do que imaginava que fariam. Mas e se…?

— Fiz alguma coisa errada?

Então, a pergunta de Jackie o fez ver que não era o único inseguro por ali. Seu maior receio, era que o cowboy descobrisse que não havia nada de excitante em tocar outro homem e que tudo fora simplesmente por sua aparência feminina. As pessoas tendiam a idealizar algo que ele jamais seria e ainda não havia se recuperado da primeira decepção. Mas apesar de todos os conflitos internos, queria levar as coisas a diante. Avançar alguns passos e confiar mais, sem medo do futuro. Os olhos e gestos, diziam mais do que conseguiria expor em palavras.

Sua resposta, no entanto, causou surpresa no rosto antes preocupado do cowboy.

O corpo se moveu sobre a cama e os pés alcançaram o chão, indo em direção a porta. O som da chave sendo girada se fez presente, e como se precisasse de uma dose de coragem, respirou fundo e caminhou de volta para a cama, espalhando as pernas cada uma de um lado ao subir nas coxas de Jackie. As mãos se repartiram pelo peito do cowboy e desceram para a barra da camiseta branca.

— Você não fez nada de errado. — Arrastou o tecido para cima e dispensou a camiseta para o chão, tocando agora a pele quente e morena, sentindo os músculos se retesarem nas pontas dos dedos.

E antes que Jackie respondesse com alguma provocação, o empurrou para os lençóis e se debruçou sobre ele.

— Na verdade, você ainda não fez nada.

Notas finais
Grupo no facebook: https://www.facebook.com/groups/290101211509775/ - Vamos interagir por lá ♥ NÃO DESISTAM DE MIM! Gostaram do capítulo, sempre rola aquela insegurança, né... Quanto ao final, é claro que será mostrado com detalhes no próximo, não joguem pedras XD Tivemos Simon e Sebby ♥ Ivan e Sebby ♥ Sebby e a "mamãe", deu pra achar alguma coisa dela? Porque tô curiosa pra saber XD E tivemos Jackie e Victor nessa interação marota ♥ Perdoem por ainda não ter respondido os comentários, logo chego pra responder todos vocês ♥ Bjuss e eu espero mesmo que tenham gostado! O/