Cavalos Selvagens
16 16 "Tempestade de memórias"
Notas iniciais
16 — Tempestade de memórias
Pouco antes da chuva chegar, Tulipa observava o tempo em uma cadeira de balanço, pensando se gostava mais do cinza ou do negro das pesadas nuvens que preenchiam o céu. A água era muito bem-vinda, mas podia causar estragos se caísse com a intensidade com a qual pincelava o horizonte.
Ela tinha ido dar comida ao vira-latas que o trio havia arranjado em uma das “explorações” pela fazenda, mas acabou sentindo-se nostálgica ao relembrar certas partes da vida.
Flor de Ouro ainda era jovem quando ela chegou ali, de malas, tranças e muita vontade de trabalhar. Tinha sido indicada pela governanta da casa. Era uma moça prestativa e com dotes culinários invejáveis, conseguindo a vaga sem muita dificuldade.
A dona da casa estava grávida do segundo filho e o lugar era uma confusão de empregados, indo de um lado para o outro, tentando agradar a patroa.
Camille era uma mulher muito bonita, mas de temperamento difícil de agradar. A comida era bem específica e as sobremesas e o café não podiam ser doces demais, pois os empregados corriam risco de serem demitidos por um deslize considerado pequeno. Ela, na verdade, era uma mulher de negócios. Engravidou cedo e ainda tentava se encaixar na vida de casada e de mãe, mas estressava-se facilmente e preferia meter-se nos assuntos da fazenda do que ordenar algum cardápio ou conferir como ia a limpeza do casarão.
Via-se claramente nos olhos azuis, o quanto ela não se adequava a vida simples de uma mulher do campo.
E via-se com ainda mais clareza, o quanto o patrão sentia com isso.
Ivan sempre idealizou um casamento onde a esposa se dedicaria aos afazeres da casa, embora soasse machista, ele vinha de uma família assim. O fato é que Camille jamais se encaixaria naquela idealização simplória. A espanhola tinha o gênio forte, gostava de mandar, liderar e tinha sido criada para isso, para comandar algum importante negócio. Justamente o trabalho que abandonou para ir se enfiar no interior e ser a esposa perfeita.
Não era como se não amasse o marido, mas Ivan tinha a mente presa àquelas terras, nunca olhando para frente, imergindo cada vez mais em algo que não daria futuro, querendo criar os filhos naquele ambiente cheio de homens rústicos e sem nada para acrescentar. Não era algo que ela queria.
Tulipa lembrava-se das brigas, da maneira como ela o culpava pela vida enfadonha e sem aventuras. E lembrava-se de ver o patrão beber e tornar-se cada vez mais calado.
E mesmo assim, o interesse por ele apenas aumentou.
Quantas vezes culpou-se por adormecer pensando no patrão ou mesmo por sonhar com ele. Achava-se parecida com aquelas mocinhas ingênuas que deixavam-se levar por homens experientes e proibidos, mas era exatamente isso o que era; só uma garota boba apaixonada pelo patrão.
— Você combina com ele. — Camille havia bebido mais vinho que o recomendado naquele dia. Estava falante, leve e solta. — Sabe, dois simplórios, do campo. Pensamentos antigos e sem perspectiva para algo maior. — Os lábios vermelhos estavam manchados pela bebida. — Cuide dele quando eu me for. Ivan é fraco, vai precisar de apoio.
Na época, Tulipa não entendeu, ela estava mais preocupada em preparar a comida das crianças. Três! Uma menina e dois meninos, sendo o último, a criatura mais fofa e próxima de um filho que ela teria.
De qualquer forma, ela cuidaria de toda a família. Amava-os como se sempre os tivesse conhecido e não os deixaria por nada no mundo.
Anos mais tarde, Camille deixou a fazenda e foi para a Europa, levando o filho caçula com ela e abandonando o marido.
E pouco tempo depois, ela deixou a todos devido a uma doença pulmonar.
Ivan ficou arrasado e se afundou no trabalho, optando por sofrer calado. Ainda a amava, e Tulipa sentia que a amaria sempre.
Um suspiro pesado deixou os lábios quando percebeu o tempo perdido em memórias. Não havia se esforçado de fato para conquistar o patrão, mas estava claro que não o interessava como mulher, embora isso não a impedisse de brincar e em vários momentos ser uma oferecida e tentar roubar algum beijo ou apalpar o bonitão.
Mas um dia, ela havia conseguido um beijinho.
Sorriu ao se lembrar da sensação acalorada e das mãos do patrão em sua cintura. O homem era osso duro de roer! Mas era mesmo um pedaço de mau caminho.
— Não vejo graça alguma nesse tempo cinza.
A voz de Ivan a sobressaltou. Céus, estava ali, sentada com tanto a se fazer e sorrindo feito a garota boba de anos atrás. Logo ela se levantou e ajeitou o avental florido e os cabelos trançados, tentando parecer menos pateta na frente do patrão.
— Eu só vim dar comida ao cão. — Ela mostrou o vira-lata deitado no tapete. — Aí comecei a lembrar de quando cheguei aqui. Tudo era tão diferente.
Ivan apertou levemente os olhos, lembrando-se também, mas impedindo os pensamentos de escorrerem feito a água que logo cairia. Tinha problemas demais para rememorar um passado tão cinza quanto aquele céu.
— E eu me lembrei do dia em que o patrãozinho me beijou. — Ela cantarolou a frase, soando despretensiosa, mesmo que fosse tudo, menos livre de segundas intenções. Bem, com Ivan, ela tinha todas as intenções do mundo.
— Se eu bem me lembro, foi a senhorita quem me agarrou. — Ivan pigarreou, mas logo balançou a cabeça e sorriu. Tanta coisa para se lembrar... Aquela mulher era mesmo uma romântica incorrigível.
— Mas o senhor não pareceu se importar. Bem, eu não lembro de ter ao menos tentado me afastar. — Ela deu de ombros, cheia de pretensão no gesto e aproximou-se do murinho, ficando de frente para Ivan.
— É porque eu não tentei. — Ele comentou despreocupado. O vento começava a ter mais força, balançando as copas das árvores e ululando de maneira sombria. É, ia cair uma tempestade. — Vamos tomar um chocolate.
Tulipa viu o patrão seguir para dentro da casa e permaneceu estática por alguns segundos, voltando do transe somente quando um clarão tomou os céus. Ao menos teriam café e poderia colocar o papo em dia. Isso até ela jogar alguma indireta ou simplesmente tentar agarrar o homem.
Ivan + Chocolate. Era de longe uma ótima combinação.
* * *
Quando a chuva chegou, Victor preparava-se para ir embora. As cortinas começaram a invadir a sala e os papéis voaram para o chão, transformando o cômodo na famosa bagunça que ele abominava.
O cheiro forte e nostálgico de terra molhada se fez presente e ele desistiu de tentar organizar os documentos, colocando-os de qualquer jeito sobre a mesa. E o pior é que a chuva não dava indícios que cessaria tão cedo.
Os pingos fortes batiam contra o vidro da janela e logo esfriou, fazendo o loiro amaldiçoar o fato de não ter trazido um casaco. A previsão era de chuva, mas ele tinha coisas mais importantes para fazer do que acreditar na garota do tempo.
— Ótimo… — Suspirou ao espiar o aguaceiro pela janela, mas o que realmente chamou a atenção, foi o vulto que passou veloz e entrou no escritório. Era só o que faltava!
— Caramba! Por essa eu não esperava. — E lá estava outro que não acreditava na garota do tempo. A moça estava sem crédito...
Victor podia claramente sentir o rosto esquentar, mas era pela falta de tato daquele homem completamente molhado, encharcando a sua sala e pisando com os pés cheios de lama! Era uma cena de terror!
— Eu também não, mas o que pensa que—
— Tem uma toalha em algum lugar por aqui. — O cowboy retirou o chapéu e ignorou a expressão raivosa do loiro, metendo-se no armário de utensílios e pegando uma toalha branca de lá de dentro. — Que foi? — Perguntou sem entender o cenho franzido e os olhos estreitos direcionados a sua pessoa. — Quer ajudar a me secar?
Certo. Aquela pose não durava muito, Jackie logo vinha com alguma frase cheia de segundas intenções e o constrangia. Não era de se espantar. Desde o início havia sido assim, embora Victor ainda corasse com aquelas falas descabidas.
— Eu devia era te expulsar daqui. — Os braços se cruzaram e um suspiro deixou os lábios ao concluir que aquele homem tinha zero noção do que fazia.
— Ah! Isso? — Jackie apontou para os sapatos, sem dar real importância. — É que tá um dilúvio lá fora, e não deu tempo de construir uma arca. Foi mal. — Deu de ombros, e se pôs a retirar a camisa.
— Por quê...? — Não que ele fosse entrar em pânico pela falta de noção do cowboy, mas era deveras preocupante aquele gesto. Os dois sozinhos em uma sala. Sozinhos. — O que você está fazendo?
O sorriso implicante se ergueu nos lábios de Jackie e ele fez questão de retirar a camisa de maneira lenta e provocativa. Oras, quem via maldade no gesto era aquele loiro pervertido, ele era apenas um cowboy inocente a secar o corpo.
— Eu acho que eu 'tô me secando… — Respondeu em tom divertido, passando a toalha pelo peito nu. — E você?
— Observando a chuva. — O rosto vermelho se virou para a janela, mesmo que só enxergasse os vidros embaçados e nada mais, perdendo a parte em que o cowboy se aproximava sorrateiro.
— Mas eu acho que você também se molhou… — O tom baixo fez a nuca do loiro se arrepiar e ele aproveitou para beijar o local e envolver os braços na cintura dele, de fato, molhando-o.
— Eu não vou tirar a roupa… — Victor resmungou, suspirando, dessa vez, por um motivo muito melhor.
— É você quem 'tá pensando besteira, loiro. — Jackie sorriu. Adorava aquele jeitinho que era tímido e ao mesmo tempo emburrado. — Mas a ideia é bem agradável.
— O que me agradaria no momento, é ter a sala limpa. — Os dedos correram pelos braços fortes do cowboy e a cabeça se apoiou no ombro largo.
— Eu preferia bagunçar a sala, sabe? — O tom inocente não enganaria nem a mais boba das almas, mas fazia Victor rir de toda aquela ousadia.
Eles se beijavam, geralmente o cowboy o puxava para algum canto e alegava estar com saudades de sua boca. Eles se abraçavam, riam juntos, brigavam e tudo ia normal, mas ainda não haviam chegado naquele ponto. No ponto de ficar sem roupas um na frente do outro. Não que pensassem em discutir esses assuntos, mas…
— Deixa de ser abusado e se veste pra não pegar um resfriado. — Alertou ao se desvencilhar do abraço de Jackie, passando as mãos pelos braços em busca de se aquecer sozinho.
Era perceptível como Victor sempre buscava se afastar quando surgia uma brecha para uma aproximação mais íntima. O cowboy era alguém que amava contato físico e não havia mais volta, gostava mesmo de outro homem, embora ainda não estivesse completamente seguro para avançar o sinal, umas brincadeiras eram mais que bem-vindas.
Enquanto vestia uma blusa pequena, colada e vergonhosa que havia encontrado no armário, decidiu quebrar o silêncio.
— Eu achava que o motivo da superproteção do Simon e do seu Ivan, fosse somente por você ser o caçula e—
— E pela minha aparência. — Victor completou, mas sem o incômodo de antes.
— É… — Jackie estava ridículo naquela blusa que só podia ser de Evangeline, mas o assunto era sério. — Eu preferia acreditar que é só por esse motivo, porque se for o que eu 'tô pensando…
Parecia mesmo um assunto para um dia chuvoso.
— E o que você está pensando? — As mãos se apoiaram na superfície da mesa e os olhos encontraram os castanhos.
— Que aquele infeliz do seu cunhado se engraçou pra cima de você. — E pensava sobre isso desde o dia em que estiveram na casa de Cecília e a loira veio com um papo estranho sobre o marido cumprimentar o irmão com beijinhos. Era para lá de desconfortável, mas ficar imaginando o que havia acontecido, era ainda pior. — Foi isso? Victor se—
— Eu tinha dezesseis anos quando aconteceu. — A interrupção veio baixa e levemente trêmula. Receosa era a palavra. — Mas é passado. Já foi e nós estamos bem. — Amenizou o tom e forçou um sorriso ao final da fala. Nada convincente.
— Não, não estamos bem com isso! — Jackie passou as mãos pelo rosto em sinal claro de nervosismo. Havia dito “se engraçar”, mas claramente não era o que pensava. — O cara te assediou! — Ele aumentou o tom de voz.
— Isso é assunto meu! Não te diz respeito. — Victor não havia se alterado, mas as palavras se mostraram mais duras do que o planejado. — É…
— Claro. Eu me preocupo e você não 'tá nem aí. — Um riso amargo tomou os lábios do cowboy e o cenho antes preocupado, mostrou decepção. — Achei que estivéssemos juntos nessa.
— E o que vai fazer? Resolver com os punhos? — Foi a vez dele de passar as mãos no rosto e cabelos. — Eu cansei de brigas. Eu só quero que todos fiquem em paz e que se entendam. — Era um desejo simples, mas que parecia ainda muito distante.
— Paz com um cara que abusou de você? — Era apenas irreal.
— Ele não…! — As palavras morreram e os olhos se desviaram para o vaso de plantas no canto da sala. Ela precisava ser regada.
— Então o quê? — Jackie segurou o rosto do loiro entre as mãos e o obrigou a encará-lo. Os olhos bonitos estavam úmidos, mas ele não soube se por raiva ou vergonha. Talvez os dois. — Porque é óbvio que não foi como a sua irmã fez parecer. — Os polegares acariciaram as bochechas quentes e coradas, mas as mãos logo se afastaram.
Lá fora, a chuva pareceu aumentar e o barulho foi o que preencheu a sala por longos minutos. Estavam próximos, mas pareciam separados por um abismo de palavras.
E quando Victor começou a falar, foi uma tempestade de memórias.
(…)
Macarrão ao molho branco era o prato favorito da irmã.
Victor não sabia cozinhar, mas buscou a receita na internet e tentaria reproduzi-la, esperando que ficasse ao menos comestível e do agrado de Cecília.
Os ingredientes estavam sobre o balcão e a água fervia em fogo alto. Não era tão complicado assim, mas a cozinha era um dos grandes mistérios da humanidade e ele não possuía talento algum para ser chef ou mesmo um ajudante. Tudo o que sabia fazer era café, e o gosto não era dos melhores.
Enquanto colocava o creme de leite em outra panela, não percebeu a figura que acabava de chegar e se encontrava parada no batente da porta. Victor estava disperso e até mesmo cantarolava uma de suas músicas favoritas, mexendo o corpo vez ou outra e com direito a trágica cena de esbarrar contra a panela e derrubar a mistura para o creme, causando uma verdadeira bagunça no chão de madeira lustrado.
— Que desastre.
A voz masculina o sobressaltou e ele quase caiu ao ser pego em flagrante pelo dono da casa. O coração bateu veloz e as bochechas queimaram.
— Eu... Eu já vou limpar. — Mordeu o lábio inferior e ergueu os olhos para os azuis do homem mais velho. — A Ceci está lá em cima. — Acabou comentando ao se sentir intimidado pelo olhar insistente de Jean. — Ela não estava se sentindo muito bem...
O francês acompanhou os movimentos do adolescente quando o garoto passou a ajeitar a bagunça, sendo ainda mais atrapalhado ao limpar o chão.
Não era a primeira vez que reparava no cunhado e não era a primeira vez que reprimia o desejo que olhar para ele lhe causava. Victor era uma criatura adorável, sempre prestativo e sorridente, mas com um jeito acanhado que o deixava a beira de cometer uma loucura. O loiro tinha traços suaves e um corpo bonito que era mais interessante que o de Cecília naquele momento.
Quando o adolescente se ergueu e se debruçou sobre o balcão, Jean não controlou os próprios passos ou a vontade de colocar as mãos na cintura esguia e prensar o corpo menor contra o mármore da bancada. Estava levemente alto pelos copos de whisky que havia tomado antes de seguir para casa, mas não poderia culpar a bebida. Não culparia ninguém além de si mesmo pelos desejos que sentia pelo irmão da esposa.
— O que vai—
Antes que Victor terminasse de formular a pergunta e mostrasse o espanto que sentia pelo súbito toque e proximidade, o corpo foi virado de frente e os lábios tomados com força em um beijo possessivo.
Os olhos verdes se arregalaram até o limite das órbitas e as mãos se firmaram nos ombros largos do mais velho, tentando afastá-lo como podia. A cabeça pareceu girar quando uma das mãos de Jean o tocou entre as pernas de uma maneira íntima que fez também o estômago se revirar.
O gosto da bebida forte escorreu pelo beijo e Victor conseguiu morder o lábio do francês, sentindo também o gosto férrico de sangue misturar-se ao que associaria com o amargo do féu.
O rosto virou para o lado, fugindo de qualquer toque enquanto procurava por uma maneira de escapar, tentando alcançar algum objeto sobre a bancada, mas conseguindo apenas mais toques de uma maneira bruta e nojenta.
— Você me deixa doido, garoto. — Jean sussurrou contra o pescoço que maculava ao bel prazer. As mãos escorreram pelas coxas sobre as calças do pijama que o adolescente vestia e apertaram a carne. — Esse seu rosto, o seu jeitinho tímido…
Foi um choque quando o ouviu murmurar qualquer coisa sobre seu rosto feminino. Era tudo pela maldita aparência, então? Sempre por culpa dela! Jean parecia ter perdido a razão e mesmo que fosse mais forte que uma garota, a situação o deixava muito próxima a uma. Uma moça que não sabia como se defender.
— Jean…! — Tentou algum lapso de consciência. — Para com isso. Me solta! — Era preferível acreditar que tudo não passava de um pesadelo.
A maneira desrespeitosa e violenta como as coisas aconteciam... Ser forçado era algo que jamais imaginou.
Fora o desgosto pela traição do cunhado, havia também o asco por Jean querer forçá-lo e impor suas vontades repulsivas. Ele murmurava palavras que jamais desejaria escutar, e o tocava como se o punisse por algo do qual ele não era o culpado.
E quando o corpo voltou ao chão, Victor acreditou que a consciência havia atingido o empresário. Conseguiu focar no homem que se distanciava, mas encontrou uma figura loira e de camisola a compartilhar do choque sobre aquela cena.
— Cecília…
— Então, é isso o que você fica fazendo antes de ir dormir? — A irmã tinha os olhos castanhos bem abertos e a expressão tomada por raiva e descrença. — É por isso que fica colado no meu marido?
— Não...! — Victor tentou se pronunciar, mas tão rápido quanto o ataque de Jean, foi a bofetada que levou no lado direito do rosto.
Cecília não deu ouvidos a razão. Não se importou com os lábios manchados de sangue, com as marcas vermelhas no pescoço ou com os olhos úmidos e temerosos em sua direção.
Nada mais importava naquele momento.
(...)
Somente o som da chuva os tirava do completo silêncio.
Victor estava escorado na mesa e Jackie havia se apoiado na janela. A vontade do cowboy era pura e simplesmente de quebrar todos os ossos do engomadinho francês, mas como Victor diria: De que adiantava? E pelo que o loiro havia contado, Simon havia custado a sair de cima do cunhado quando descobriu o que ele tinha feito. Mas ainda era pouco...
— Não quero a sua pena e nem palavras de conforto. — Deixou claro que aquilo seria ainda pior do que o olhar que recebia. — Pronto. Já sabe como aconteceu. — E não entrava em questão o fato de ter se culpado por dias e noites a fio, sentindo-se a pior pessoa por ter sido alvo do desejo do próprio cunhado.
— A sua irmã ficou do lado dele. — Agora o tom era de inconformidade. Nojo. Como ela podia?
— É o marido dela. — Não era óbvio? Ele próprio havia optado por não denunciar Jean e constranger mais a família. Não precisavam de escândalos, somente de reconciliações.
— E você é o irmão! — Onde estava o afeto que o loiro tanto buscava?
— Obrigado por lembrar. — Novamente o suspiro. Era pedir demais para que a chuva logo passasse? Sua maturidade exigia que sempre fugisse das conversas mais sérias. Ou seria sua falta de maturidade?
— Victor… — Jackie se aproximou, querendo tirar o peso na expressão sempre tão suave do loiro, mas ele se afastou do toque.
— Se eu contei isso pra você — Ele pausou a fala e voltou os olhos para os do cowboy. Havia conforto nas orbes quentes e escuras. —, é porque nós estamos juntos.
Juntos. Estavam juntos.
Por que ouvi-lo dizer em voz alta era tão reconfortante? Jackie o abraçou e acariciou os fios loiros e macios. Qualquer provocação ou as costumeiras implicâncias, não tinham espaço no momento.
— Estamos juntos. — Beijou o topo da cabeça loira. — Desculpa te fazer lembrar dessas coisas.
Victor não respondeu, mas começou a rir, levando o cowboy a franzir o cenho.
— Não entendi onde está a graça…
— Você. 'Tá ridículo com essa blusa. — E qualquer pessoa com algum bom senso concordaria.
É, realmente estavam juntos.
Uma parte de Victor estava mais leve por finalmente compartilhar aquela parte da vida, por mais que a odiasse com todas as forças e somente desejasse esquecê-la.
Mas havia outra, tão pesada quanto a primeira.
Tudo bem. Estavam juntos. Tudo bem.
Haveria chuva nos próximos dias também.
E ela ainda caía, mas parecia trazer conforto a cada gota.
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