Cavalos Selvagens
12 12 "A noite das segundas opções"
Notas iniciais

Capítulo 12 “A noite das segundas opções”
— Oi.
...
Não era como nos filmes melosos que costumava assistir com a avó. Ele não teve o nome chamado em meio a uma multidão, uma canção dedicada em algum karaokê e nem estava em um aeroporto pronto para embarcar em um voo que mudaria sua vida. Ainda era capaz de perceber a movimentação ao redor; as luzes, os sons dos instrumentos dos mariachis e o caminhar apressado dos que passavam por ali. Poderia até mesmo cogitar que não sentia mais nada pelo homem que continuava no mesmo lugar, encarando-o de volta, mas a forma como os batimentos cardíacos alcançavam até os ouvidos, entorpecendo-os, era mais que suficiente para entender que continuava sim, com os mesmos sentimentos em relação a Simon Green.
Estavam há alguns minutos naquele estranho ato de somente olhar.
Sebastian estava com as mãos nos bolsos e Simon parecia imitá-lo, embora até mesmo naquela pose despreocupada, o homem continuasse lindo. E não era como se não percebesse a atenção que aquele loiro chamava, principalmente das mocinhas desavisadas.
— Oi. — Decidiu por fim responder, encontrando-se incapaz de ignorar a presença do mais velho. Ele devia ter se preparado para aquele encontro, mas como das outras vezes, achou que o filho do patrão daria para trás e inventaria alguma desculpa para não sair da capital, mas lá estava ele, parecendo tão perdido e sem graça quanto ele próprio. Na verdade, Sebastian percebeu que havia algo atormentando o loiro e se martirizou por conhecê-lo tão bem a esse ponto. — Você 'tá péssimo. Fugindo de alguém? — Foi também incapaz de controlar a língua e quis mordê-la. Era só o que faltava, começar com os acessos de ciúmes com um cara que não era nada seu além de um passado que desejava esquecer.
Simon deixou a respiração pesada sair dos pulmões e retirou as mãos dos bolsos da jaqueta de couro para levá-las aos cabelos. Sempre que estava nervoso, mexia nos fios, chegando até a arrancar alguns, dependendo do grau de ansiedade e nervosismo. Ignorou a pergunta de Sebastian, ele sabia bem a resposta e as várias mensagens no celular, deixavam claro que sim, estava fugindo da vida “perfeita” que levava na capital.
Depois da discussão com a noiva, ligou para a empresa e deixou a assistente e o gerente de obras em frente aos negócios, decidido a ir resolver uns assuntos em Flor de Ouro. Não havia chegado até a fazenda, pois a movimentação na cidade interiorana, significava festa, e era justamente ali que encontraria quem buscava. Era uma necessidade dolorida em vê-lo, e apressou-se a procurar por olhos puxados, cabelos negros e pele morena em meio a quantidade exagerada de pessoas que andavam de um lado para o outro. Estava quase desistindo quando uma figura de negro, sentada em um dos bancos, chamou sua atenção.
Foi nostálgico e saudoso vê-lo ali, sob as árvores da pracinha. A diferença era que dessa vez, não estava buscando por informação com um desconhecido. Buscava conforto e um pouco de paz. Respirar ar puro, ver o verde do campo e ouvir a voz daquele que era tão importante quanto respirar, o ajudariam a ordenar os pensamentos e a esfriar a cabeça.
— Você está bem? — Perguntou após uns momentos. Momentos que usou para observar os habitantes de Santa Luz e se perguntar se eles apenas fingiam ou sentiam mesmo a felicidade que demonstravam. Não, ele era o único que se prestava a isso. Gente humilde, via beleza e encontrava alegria nas coisas mais simples; como um sorriso de uma criança, o pôr do sol ou mesmo caminhar de mãos dadas. Coisas simples, que estavam fora de seu alcance.
Sebastian queria levantar e ir atrás do primo e de Nestor, sumir dali e deixá-lo falando sozinho, mas não conseguia ser tão filho da puta com o cara por quem ainda era apaixonado. No final das contas, ele ainda era um adolescente, tão perdido quanto o riquinho loiro que parou o carro de luxo, pedindo orientação para chegar em Flor de Ouro. E se soubesse que toda aquela porcaria de história se desenrolaria por ter entrado no veículo de um desconhecido, ele faria tudo de novo. Como a avó dizia: Gente besta não aprendia nunca!
— Eu 'tô ótimo. — O tom que usou, era algo que beirava o desdém. — Quem não parece bem é você. Brigou com a noiva e veio se refugiar aqui? — E novamente ele tocou na ferida, deixando bem evidente o rancor quase palpável que sentia.
— É. É isso.
— Imaginei que seria como daquela vez. — Um riso sem humor se juntou a expressão de puro desgosto.
Sebastian tinha certeza que ele não teria coragem de pisar naquela cidade. Não eram novidades as mensagens que recebia, dizendo que ele logo estaria ali, mas ele nunca aparecia, muito provavelmente cuidando da vidinha de plástico que tinha na capital. Ele havia parado de se iludir, de imaginar que o loiro chegaria ali e tentaria consertar as coisas. Tinha decidido que era melhor deixar o passado trancado, mas aí, Simon chegava de supetão e não precisava ser adivinho para ter a certeza de que aquele homem reviraria sua vida uma segunda vez.
— É diferente agora. — Simon se aproximou dois passos, parando bem ao lado de Sebastian, podendo encará-lo melhor. Os olhos claros desceram do rosto que o capuz escondia parcialmente, para o início visível do pescoço, buscando por um pingente.
— Pareceu que era diferente da primeira vez. — Sebastian comprimiu os lábios e decidiu se levantar, comparando as alturas por um momento, constatando que havia crescido desde a última vez que estiveram juntos. — Mas eu sou sempre a segunda opção, isso é fato.
O negro e o verde se encontraram, parecendo capazes de lerem a alma um do outro. Tinham brilhos parecidos, mágoas diferentes e o mesmo sentimento maior. Para qualquer um que os olhasse, eram apenas amigos, conhecidos ou desconhecidos prestes a entrar em uma briga, devido à intensidade dos olhares e a maneira como estavam posicionados. Poderiam pensar tudo, menos o que realmente eram; amantes do passado reencontrando-se depois de alguns anos, cheios de expectativas e com muito a resolver.
— Eu vim pra conversar. Pra esclarecer as coisas entre nós. — Simon tencionou levar a mão ao braço de Sebastian, mas o rapaz não deu espaço para contato, deixando claro com o olhar que ele não deveria se atrever a tocá-lo.
— Nós? — O riso amargo surgiu novamente. Era irônico e debochado, mas a situação o deixava naquele estado, à beira de ataques histéricos de riso. — Quando foi que existiu um nós? — Ele realmente queria saber. Havia sido sempre ele, sozinho, idealizando algo que jamais aconteceria. Mas quem poderia culpar um adolescente por sonhar com um futuro ao lado da pessoa que ama?
— Sempre existiu. Você sabe. — Simon ignorou a ordem silenciosa de Sebastian e o tocou na altura do cotovelo, puxando-o um pouco a ponto de desequilibrá-lo. A ponto de sentir o cheiro dos cabelos que brigava com o perfume da pele. Quis subir os dedos, quis beijá-lo, mas a saudade dolorida foi controlada a muito custo.
— Não, eu não sei. — Sebastian puxou o braço, rangendo os dentes e quase aumentando o tom de voz. Aquele não era o lugar ideal para lavar roupa suja. — Eu até pensava que sim, mas eu não faço parte desse seu mundinho encantado. Nunca fiz.
— Sebby—
— Não. — Interrompeu, fazendo sinal com a mão. — Olha, eu não 'tô a fim de conversar agora. Eu só mandei aquela mensagem estúpida porque fiz um acordo com o Victor. Esquece. 'Tá tudo bem assim. Você lá na capital e eu aqui. — Não era de todo uma mentira, mas nem de longe era o que realmente desejava. Não queria mandá-lo de volta para a infeliz com quem ele se enroscava, mas, ao mesmo tempo, não o queria ali. Era confuso. E pensar que ele se achava maduro para a idade...
— Não está nada bem. — Novamente a mão se fechou no braço do mais novo, usando um pouco mais de força no ato para impedi-lo de se afastar. — Deixa o orgulho e o rancor de lado e nós conversamos.
— É fácil pra você falar, né? Foi você o filho da puta da história! — Sebastian bateu o dedo no peito do loiro e o empurrou. Pronto, havia partido para a ofensa e estava chamando a atenção dos curiosos que passavam. Quis mandá-los à merda também, mas o rosto zangado deu lugar a uma expressão preocupada quando viu quem acabava de atravessar a avenida e partia feito um touro para cima do filho do patrão. — Nestor—
Antes que pudesse impedir o cowboy com palavras ou gestos, foi empurrado para o lado e segurado pelo primo. Um escândalo era tudo o que ele não precisava para terminar bem a noite. A noite já estava sendo uma porcaria sentimental sem a ajuda de ninguém.
— Deixa ele, infeliz! — O punho de Nestor foi certeiro para o rosto do engomadinho que importunava Sebastian, atingindo-o com força e o desequilibrando. Conhecia a história e sabia quem era aquele idiota. E ele ser o filho do patrão, não importava nem um pouco, quebraria as fuças dele da mesma maneira que bateria em qualquer outro.
— Primo… — Martin chamou, apreensivo pelo que acontecia logo a frente. — Esse cara—
— Nestor! — Sebastian se soltou do primo e tentou segurar o cowboy, mas foi ignorado. — Deixa ele! — Céus! Estava sim preocupado com Simon. O loiro era um filho de uma cadela – com o perdão da falecida esposa de Ivan –, mas não o queria desfigurado. E novamente foi empurrado, recebendo um alerta para não se intrometer.
Simon levou a mão ao local atingido, franzindo as sobrancelhas claras e fuzilando o homem de cabelos cacheados com os olhos ao sentir o gosto férrico do sangue no paladar. Percebeu de imediato que aquele era um caso de Sebastian, e sua ira duplicou, pois o infeliz não tinha nada a ver com seus assuntos.
Tão logo a consciência o atingiu, fechou as mãos em punhos e partiu para cima do cowboy, puxando-o pela gola da camisa e devolvendo o soco, entrando em um embate acirrado contra o homem que acabava de conhecer.
— Eles vão se matar! — Martin tentou também separar aqueles dois, mas recebeu uma cotovelada na costela e soltou uma meia dúzia de palavrões ao sentir a dor.
— Simon! — Sebastian entrou na frente do loiro, mas foi afastado antes que fosse atingido sem querer, ameaçando que os deixaria ali, feito duas bestas selvagens e iria embora. Não funcionou. — Bando de desgraçados! — Praguejou, levando as mãos aos cabelos.
Os dois só pararam, quando uma terceira pessoa se meteu entre eles e vozes conhecidas se misturaram a confusão daqueles que se juntaram ao redor para conferir o embate e incitar ou filmar. Até mesmo a música havia parado.
— Simon! — Victor conseguiu alcançar o irmão, preocupado com o estado em que ele se encontrava. — Ah, Deus! Você quebrou alguma coisa? — Segurou os lados do rosto avermelhado e sujo de sangue, procurando por algo que estivesse faltando.
Simon pareceu notar a presença do irmão somente segundos depois, encarando os olhos conhecidos e o confortando com um aceno de cabeça. Se perguntou qual era a do tal panda que ele segurava e até teria questionado o porquê de ele estar com Jackie, mas estava dolorido e com muita raiva. Brigar em uma festa pública, era tudo o que faltava em sua vida...
— Quando foi que chegou? — Victor voltou a respirar ao constatar que o mais velho estava inteiro, e estranhou o fato de ele estar ali, assim, sem avisar.
— Há pouco tempo. — Simon respondeu, observando Sebastian fazer o mesmo com o caipira que se encontrava em uma situação semelhante, e o lado ciumento voltou a rugir, mas ao ver que o caso do ciúme vinha a passos rápidos para seu lado, sentiu a ansiedade tomar conta novamente dos sentidos. — Você está bem? — Preocupou-se e a vontade de tocá-lo foi mais forte, pois nem percebeu quando os dedos tocaram o rosto frio e contrariado.
— Quem não está bem é você, estúpido. — Sebastian brigou, fazendo careta ao analisar o rosto marcado do loiro. Que raios aqueles dois tinham na cabeça? — O seu irmão é um idiota! — Olhou para Victor e suspirou.
— É, eu sei. — Victor concordou. Havia levado o maior susto ao perceber uma briga tão próxima. O pior foi ver o irmão e o amigo envolvidos. Ele sabia o motivo do descontrole daqueles dois, mas estava mesmo surpreso por ver Simon ali. Surpreso e orgulhoso por ele enfim ter tomado uma atitude. — É melhor ir ao hospital e ver se está mesmo tudo bem.
— Não precisa. — Simon recusou, mesmo que estivesse doendo como o inferno, não pisaria em hospital algum somente por uns hematomas sem importância.
— Mano—
— Eu cuido dele.
Victor e Simon voltaram os olhos para Sebastian, espantados com a frase do rapaz nervoso e impaciente ao lado.
— Sebby… — Victor estava preocupado, mas o irmão ficaria bem ao lado do amigo. Podia ver a preocupação estampada no rosto de Sebastian e o agradeceu por isso. Eles tinham muito o que conversar e ele manteria os dedos cruzados para que os dois se acertassem. Eles mereciam depois de tudo.
Jackie deu um tapinha amigável nas costas de Nestor depois de breves palavras trocadas e depois de conter a fúria que estava toda voltada para Simon. Conhecia o rapaz há tempos e tinha apreço por ele. Sabia também que ele saía com Sebastian e estranhou que o cowboy, sempre pacífico, brigasse logo com um dos filhos de Ivan. Se bem que, Simon era um pezinho no saco.
— É melhor voltarem pra casa. — Aconselhou, lançando um rápido olhar por sobre os ombros, entendendo muita coisa de uma única vez. Ele jamais imaginaria algo assim entre aqueles dois. — Você precisa esfriar a cabeça.
— Eu o defendi! — Nestor soltou com frustração. — Eu soquei o maldito e ele fica do lado de quem? — Era rir para não chorar. Teria batido muito mais se Jackie não tivesse aparecido para impedir. Havia feito pouco, mas havia feito por Sebastian. Como era iludido… E como doía ser deixado de lado.
— Martin. — Sebastian chamou pelo primo, mas recebeu um aceno de mão como resposta. — A gente se vê em casa, então. — Se despediu e murmurou baixinho para que o adolescente não deixasse aquele cowboy fazer mais alguma estupidez. — Se cuida.
— Vai ficar comigo por pena? — Nestor se voltou a Martin que parecia impressionado com tudo o que havia acontecido. — É melhor ir com o seu primo, não vou aturar piadinha sem graça nos meus ouvidos.
Martin pensou em retrucar e ser mal educado, mas lembrou que a situação não era propícia para respostas mal criadas, e não queria levar um soco também. Contentou-se em bufar e cruzar os braços. Seria babá de um cowboy com o coração destroçado. Ótimo!
— Eu estou a pé. Não vou pagar um táxi se vim com você. — Era verdade em parte, mas o fato, é que bem lá no fundo, estava preocupado com aquele cabeça de vento e queria observá-lo bem de perto e ter a certeza de que ele não faria nenhuma burrice.
Nestor sentiu o coração apertar ao ver Sebastian se afastando com o riquinho metido que parecia o boneco Ken. Sentiu ganas de voar no loiro e apertar o pescoço até que ele ficasse sem ar e… Droga! Não era um assassino e nem se tornaria um. Mas que tinha vontade, tinha.
— Anda, eu não fico aqui mais nem um minuto. — Quase puxou o adolescente pela mão para que sumissem logo dali. Era patético ao ponto de querer beber e afogar as mágoas em garrafas e mais garrafas de cerveja. A que papelzinho ridículo ele havia se prestado… Só podia ser a diversão de uma criança depois daquela cena; defender um garoto que não queria ser defendido, ser trocado por um cara engomadinho e com ares de ator de Hollywood, era para acabar com a noite que ele havia idealizado.
— Você sabia que algo assim aconteceria. — Martin comentou. Estava compadecido do drama do cowboy, mas todos sabiam que aquilo ia rolar e que o primo era gamado no filho do patrão. — Mas pensa pelo lado positivo, o primo foi conversar com aquele loiro, ele—
— Conversar! Claro. — O desgosto soou evidente na voz e os lábios se torceram. Conversar, pois sim. Ele sabia bem como aqueles dois conversariam. Devia era ter arrebentado as fuças daquele desgraçado. Queria ver se Sebastian ia preferir aquele idiota sem os dentes.
— Meu primo precisa mesmo conversar, cara. Ele tem que ajeitar a vida. — Martin prosseguiu. Tinha muita maturidade para os jovens dezesseis anos. — Se não conseguirem se ajeitar, vocês ainda ficam juntos.
— E eu sou o quê? Segunda opção? — Nestor apertou as mãos em punho e controlou a vontade de chutar o carro. O veículo havia sido comprado com muito suor e não tinha nada a ver com a frustração que sentia.
Martin suspirou e se aproximou do cowboy, apoiando-se no capô para encará-lo melhor. Só conseguiu fazer careta ao ver o rosto todo marcado. O mauricinho devia ter a mão pesada.
— Tem que cuidar disso aí. — Apontou para os hematomas. — Lá em casa, minha avó tem umas coisas pra fazer curativo.
— Tá preocupado por quê? — Nestor franziu o cenho, sentindo o rosto doer. — Você nem gosta de mim.
— Não, mas sou uma alma bondosa, incapaz de deixar os necessitados de lado. — Martin ironizou, abrindo um sorrisinho implicante. — Agora dirige. — Deu a ordem ao se jogar no banco do passageiro.
Fazer o quê se ele não podia ver ninguém sofrendo?
* * *
Quando Victor tomou consciência do que acontecia, ele estava dançando. Ou melhor, sendo embalado pelo ritmo com o qual o corpo do cowboy se movia. Não eram o único “casal” animado por ali, mas parecia que todos estavam olhando diretamente para eles. Era vergonhoso se parasse para pensar, mas estava tão bom e tão quentinho, que tudo bem ser o alvo de desconhecidos. Os braços rodeavam o pescoço de Jackie assim como os braços dele estavam bem firmes em sua cintura. Os corpos unidos e tocados por uma música de teor romântico.
Depois da confusão com o irmão e os amigos, Victor agradeceu ao cowboy, por ter conseguido separar aqueles trogloditas, mas era de se esperar que Jackie viesse com aquela história sobre agradecer de um jeitinho melhor, por isso é que estavam tão agarrados em meio a tanta gente. Embora ainda estivessem na pracinha, havia muitas pessoas ao redor; alguns mais animados, outros atrapalhados e até mesmo os mais ousados, que usavam como desculpa a dança, para se beijarem. O que não era o caso deles.
Victor estava até mesmo com as orelhas pinicando por baixo do gorro, sentindo a barba curta do cowboy tocar a bochecha vermelha e a maneira como ele o mantinha tão perto. É claro que não havia aceitado aquela dança em público, mas quando percebeu, Jackie o puxou e quase o fez derreter com o contato inesperado. Era péssimo dançarino e tentava a todo custo não tropeçar e morrer de vergonha.
— Como se sente… Dançando com um homem? — Decidiu perguntar, tentando parecer menos tímido. E porque queria saber o que o outro pensava.
— Eu me sinto bem. — Jackie respondeu sem mesmo precisar pensar. Umas semanas atrás, consideraria aquilo uma piada: Dançar com um homem, mas com Victor, as coisas eram naturais e seguiam um curso diferente. — Há uns minutos, eu ia te beijar. Por que dançar seria algo estranho?
As bochechas do loiro esquentaram com a menção do quase beijo e ele desviou os olhos para a rua, sorrindo em constrangimento. Bem, ao menos não eram o pior casal a mostrar as habilidades com dança. Se fosse um concurso, talvez ficassem entre os cem menos piores.
— É que ainda parece rápido e repentino esse interesse. — Tinha mais dúvidas do que gostaria, mas era melhor tirá-las antes que aquilo pudesse passar de um simples encontro para algo mais sério.
— No caso, o interesse, surgiu quando eu vi uma senhorita loira descer do Fumaça. — Jackie não tinha problema nenhum em assumir o que, em sua opinião, era bem visível. — E o interesse continua, mesmo eu sabendo que a senhorita, é um garoto nervosinho, que tem vergonha até da sombra.
— Eu sou tímido, ao contrário de você! — Victor se fez de ofendido. — E não sou nervoso coisa nenhuma. É você que me tira do sério. — E era uma acusação verídica. Não precisava passar muito tempo com aquele homem para querer socá-lo ou mandá-lo à merda, mas isso, era também o seu lado imaturo falando mais alto, pois no momento queria tudo, menos agredir o cowboy.
— Assume logo que 'tá doidinho por mim. — Jackie era prático, mas apreciava o jeitinho arredio do loiro. Imaginava que tudo o que ele dizia era bem o contrário.
Victor quis rir feito um desenho animado, ou como a hiena com a qual havia sido comparado mais cedo. De onde aquele presunçoso tinha tirado uma sandice daquelas? Contentou-se em rodar os olhos e pensou em uma maneira de acabar com aquele sorrisinho convencido, mas também estava preocupado em manter o ritmo. Ainda seria considerado um pé de valsa no futuro.
Quando se separaram e a música se encerrou, uma explosão de cores invadiu o céu noturno de Santa Luz. Fogos azuis, amarelos, vermelhos e verdes, dançaram no manto negro, encantando os olhos dos habitantes da pequena cidade.
Victor não conteve o sorriso. Era tão nostálgico que foi impossível não sentir o peito aquecer com as lembranças da infância. Costumava ir para as festas, com a mãe e o pai, em uma época onde a família era unida e sua única preocupação era escolher a próxima brincadeira. Andavam de mãos dadas, tiravam fotos e faziam piquenique sob as árvores, eternizando momentos felizes que, não duraram mais que alguns anos. O sorriso deu lugar a uma expressão melancólica e os olhos ficaram úmidos. Droga de sensibilidade!
— É… É melhor a gente ir. — Murmurou, passando as mãos pelo rosto. Chorar era tudo o que não precisava.
Jackie o achou ainda mais fofo que de costume, controlando a vontade de mordê-lo. Havia conseguido uma dança, talvez fosse um grande passo aquele, mas poderiam avançar um pouco mais.
Sem mais nenhuma troca de palavras, caminharam em direção ao estacionamento de uma lanchonete ali perto, seguindo para o carro. Victor parecia distraído, ainda levado pelo sentimento saudoso e sorrindo de maneira contida. A saudade doía, e em momentos assim, ele só queria ficar sozinho e relembrar um pouco mais do passado.
— A gente pode ir. — Jackie contornou o veículo, parando às costas do loiro, apoiando as mãos na porta e impedindo que ele entrasse.
— Então… Vamos. — Victor deu um sorrisinho amarelo, incomodado pela repentina aproximação. Dançar era uma coisa, ficar colado daquela maneira intimidadora, era outra bem diferente. Colado ao peito dele e sentindo a respiração quente tocar a nuca! Alerta de incêndio!
O ar pareceu raso quando tentou puxá-lo para os pulmões. Esperava por tudo, menos que seria agarrado por trás.
— Mas antes, eu vou te dar duas opções. — Jackie apoiou o queixo no ombro do loiro, ainda mantendo as mãos espalmadas sobre a porta.
— Duas? — Os olhos verdes se estreitaram. Talvez se arrependesse de perguntar, mas decidiu entrar no jogo. — E quais são essas opções?
— A primeira é: Você me beija. — O cowboy respondeu despreocupadamente, como se fosse algo muito banal. Beijar um homem, talvez pudesse se tornar comum em sua vida.
— Nã-Não é uma boa opção. — Era ótima, na verdade, mas antes de assumir, ele preferia fugir para as montanhas. Ele derreteria antes de beijar aquele homem. — E qual é a outra?
— A segunda é ainda melhor: eu te beijo. — Os braços envolveram novamente a cintura de Victor e o nariz passeou pelo pescoço, aspirando o cheiro dos cabelos e da pele dele, que lembravam chá-verde e baunilha.
Victor quase ronronou quando sentiu um beijo no pescoço. Estavam em um estacionamento, um lugar público, mas o cowboy não parecia nem um pouquinho preocupado. Havia ainda muitos conflitos internos e muito o que resolver com a falta colossal de segurança, mas ao menos uma vez, ele poderia deixar aquilo tudo de lado e se entregar ao momento. A vida era curta demais para que, em seus vinte e dois anos, não houvesse beijado alguém que não carregava o título de namorado. Começaria dando um passo um pouco ousado, mas não achava que iria se arrepender depois.
— É tão difícil assim escolher? — Jackie sorriu contra a pele arrepiada, arranhando-a com a barba curta. — Mas sabe, ainda quero sentir a magia.
Jackie era tão bobo quanto ele próprio. No final, não eram assim tão adultos e aquele detalhe até o agradava. Respirou fundo e tomou uma dose intergalática de coragem antes de se virar e abraçar o pescoço do cowboy.
— A-A segunda opção é muito boa. — Confessou, quase tendo um colapso. — Espero não acabar com as suas expectativas, então. — Não era um Copperfield ou um Houdini para fazer mágica, mas poderia tentar. E a última coisa que fez antes de juntar os lábios aos de Jackie, foi sorrir. Ainda que fosse um sorriso de constrangimento, não daria para trás. Estava na chuva mesmo, que custava se molhar?
E era só um beijo, certo?
Errado.
Pareceu tão explosiva aos dois aquela junção, quanto os fogos coloridos que ainda se expandiam nos céus, dançando sob as pálpebras cerradas. Era como se cavalos selvagens corressem por seus estômagos! As respirações acariciaram os rostos, quentes e pesadas, soando como um alívio na partilha do toque esperado por toda a noite. Os corpos pareceram moldar-se de maneira perfeita um ao outro, em um abraço apertado, enquanto as línguas se descobriam, inicialmente de maneira contida, degustando do sabor da boca alheia e passando a moverem-se sem restrições, embaladas pela euforia do primeiro contato.
As mãos tocaram de maneira urgente por sobre as roupas, apertando as cinturas, deslizando os dedos pelas costas e subindo para os cabelos, enlaçando mechas macias e impedindo um possível afastamento. O rosto já avermelhado, recebia o atrito da barba que arranhava a pele e as unhas curtas marcavam a nuca, descendo para os ombros largos, apertando-se na jaqueta, na ânsia de juntar mais os peitos, buscando prolongar o fôlego e o contato úmido entre os lábios.
Victor estava na ponta dos pés e com os braços frouxos em volta do pescoço de Jackie, percebendo o estado em que se encontrava, somente ao se afastar. O coração dançava a Macarena, retumbando veloz e entorpecendo os ouvidos, ao passo que os lábios latejavam e o gosto do beijo passeava pelo paladar. Estava quente e ofegante, morrendo de vergonha, mas não era como se não quisesse repetir. Mesmo que estivessem sob a vista de olhos curiosos admitia que:
Aquilo não havia sido menos que mágico.
E Jackie não estava diferente. Tudo o que Victor sentia, era compartilhado, inclusive a vontade de não se desgrudarem pelo resto da noite. Uma das mãos ainda estava presa aos fios claros enquanto a outra pressionava a cintura esguia do loiro e o mantinha perto. O coração batia acelerado e a pele também estava quente, mas era impossível se sentir diferente. Victor devia ser todo mágico e ele estava meio louco para descobrir mais daquela magia.
— A-Agora a gente pode ir? — A voz baixa soou e o rosto já vermelho, esquentou mais ao sentir um par de mãos bem abusadas sobre suas coxas, apertando a carne e o fazendo ofegar pela pegada forte.
— Agora, loiro, a gente se beija de novo.
E o que Victor recebeu antes de conseguir argumentar uma possível fuga, foi a pressão dos lábios do cowboy contra os seus, e o som da música harmonizada por vozes alegres que cantavam sobre um possível amor.
Bem, de olhos fechados, era mais fácil lidar com o constrangimento.
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